domingo, 8 de junho de 2008

Curiosidades do Europeu - 1

BKC
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Até agora, as selecções mais toscas foram, curiosamente, as dos países mais organizados. Onde tudo já está feito: do canteiro à música no coração. Áustria e Suíça espelham esse desprazer de conviver com uma bola e de a ver brilhar. Já o caso alemão é bem diferente. Note-se que a Alemanha nunca espanta. O que fica é a imagem dum exército quase monótomo, duma abertura operática ou dum aforismo de Nietzsche onde o que bate certo é o alinhamento poderoso e a eficácia do ritmo. É o quanto basta. Talvez por isso, a Polónia - que nunca venceu o marciano vizinho e ocidental - tenha hoje preferido hibernar a jogar. Neste concerto dos deuses chamados nações, a Croácia apareceu em cena como a silhueta de um litoral cansado, exausto e saciado de tanto peso recente: a história de um país não é, de facto, a história de uma intermitência. E isso acaba por notar-se, mais cedo ou mais tarde. Cristalinamente. Por fim, a questão nacional. Seja como for, só se pode falar de Pessoa, Crsistiano, António Nobre, Nuno Gomes ou Garrett, se nos referirmos ao colapso Otomano. Já lá vai o tempo em que o lago mediterrânico, de Argel a Istambul, era o lago do grande Levante imperial. Em Genebra, os turcos não atacaram, nem fizeram eco da sua épica. Pareciam segredar que os deixassem em paz. O excelente labirinto do passe lusitano ajudou, e de que forma, a uma Lepanto serena, suave e sem sangue. Como se fosse pura predestinação. A diáspora portuguesa ajudou (Pepe, Deco, etc.) e soube encontrar no canto coral da crise a receita certa para um Verão tranquilo. Um samba de santos populares com campinos bamboleando entre silvas, canaviais e casas suíças com leões e aguiazinhas de latão. Um brinde tauromático e tão repentinamente descontraído que fez lembrar Vilarett à solta no encanto da sua Procissão.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Pobre humor

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Grassa hoje em Portugal um humor que diz a si próprio que tem que ser humor. 'Ter que': eis o leitmotiv de uma arbitrariedade cega que leva a palavra a forçar, a impingir e a bater na parede como um autocarro sem travões. O que sobra da fuga para a frente é sobretudo piedade pelo esforço destes novos nómadas da expressão. Um vazio feito de imperativo é bem pior do que um vazio feito de inocência.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Uma partilha de quatro décadas

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(clicar em cima da imagem para aumentar)

Florbela Espanca e Amy Winehouse

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Upload, download, carregar imagem ou texto: eis uma linguagem tão ou mais corrente do que a água do dia-a-dia. Há uns tempos - tempos que cabem na minha memória -, a equivalência a estes termos encontrar-se-ia em palavras como albarda, carruagem ou telefonia.
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A diferença estabelece-se em dois aspectos: o primeiro evidencia o rústico (modo menos tosco de dizer "local") e faz-se contrastar com a repetição global; o segundo evidencia a ideia de processo (algo em curso num trajecto que se apresenta quase como instantâneo) e faz-se contrastar com a ideia de dispositivo fixo e adaptado a uma função determinada.
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Em termos expressivos, estas lógicas afastam-se de tal modo que as podíamos comparar à diferença entre o queixume adjectivado da Florbela Espanca e o fluxo suicidário de Amy Winehouse. Entre o beco sem saída do soneto e o encanto abismado e errante em 3D da televolúpia. Entre um torreão de Vila-Viçosa e uma mão cheia de bits que ilustram aquela carinha fantasmática (ali mais em cima).

sábado, 31 de maio de 2008

Pergunta de fim de Maio

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Tarde despovoada. A luz baça e imprópria para as vésperas de Junho. A rosa contra a alvenaria ruída: como se fosse um poema visual a rebentar entre a rudeza da pedra, a memória da cal e o submerso mastro da cor. Olho e escrevo. Sumariamente. E que diferença se entreabrirá nesta espessura que liga a tona da água à margem que a contém?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O grande alívio (act.)

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Às vezes, quando relembro uma sessão pública onde estive e falei, sou levado a utilizar (para mim ou para quem me ouve) a expressão: "Vi-me a dizer...". Ou seja, é como se, espontaneamente, desenterrasse, não a verdade, mas um fio indescortinável que me conduziria a revelar qualquer coisa. Assim mesmo, à moda da espeleologia.
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Ontem, num debate sobre escrita e literatura (foi esse o tema que acabou por desenvolver-se a partir de uma abordagem inicial sobre escrita criativa), "vi-me a dizer" que o mundo moderno ocidental foi atravessado por três vagas espessas de escrita literária: a romântica (uma interrogação livre, generalizada e por vezes mística sobre o homem), a realista (uma focagem da vida protagonizada pelo homem à luz das suas novas codificações com destaque para a, às vezes ilusória, noção do "progresso") e a monumental (a reacção em cascata à linearidade do moderno, concebida no pós-Primeira Grande Guerra Mundial, ainda, portanto, no universo e no tempo do livro: Joyce, Proust, Woolf, James, Kafka, Mann, etc.).
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Após estas três vagas, ter-se-iam seguido as desmontagens e as especificidades no próprio terreno da literatura (o feérico on the road ou o estigma do nouveau roman, por exemplo). Depois, a imagem - a mitologia televisiva, sobretudo - viria a ocupar, a pouco e pouco, a referencialidade do que antes havia sido a centralidade da expressão literária. Mais tarde, as imagens (já no plural e à moda de pixels), fundidas com a hipertecnologia e com o desmembramento das regras e ideários fixos - e dicotómicos -, acabaram por estruturar a nossa vida... relegando a literatura para um local de nicho (foi uma travessia rápida, esta última, entre o fim dos anos oitenta e o início do nosso século).
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Passaram, pois, milénios em décadas apenas. Ou seja: se para o homem medieval não havia sequer a distinção entre o 'literário' e o 'não literário' (tudo era afinal "Escritura"), para o homem actual deixou de haver um problema em torno da literatura. Que grande alívio, dir-se-á. Por outras palavras ainda: sempre que hoje leio uma ficção em livro, nunca sei se a literatura está a passar por ali, ou se aquilo é já um exemplo - mais um - de um território de onde se apearam, para sempre, fronteiras, géneros e expressões definidas (estou a lembrar-me da curiosíssima apresentação da obra de Gonçalo M. Tavares, tal como surge nos seus próprios livros).
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Eu gosto de um mundo assim, rasgado na tentação da permanente descoberta; e não baseado no assentimento prévio e dado. Atrai-me mais a multiplicidade e a interrogação e menos as sacralizações e todas as sublimações (ideológicas, literárias ou outras) que as sucederam. O mundo, tal como o entendemos hoje, já não é o mundo em que Aquilino, Torga ou Vergílio Ferreira eram ouvidos como dignos senadores do nosso imaginário. Um alívio para eles. E também para nós.
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p.s. - Em tempo de crise, há reflexões que servem para nos confirmar que (mesmo em campos exteriores à procura global do crude ou aos impactos do subprime) passámos realmente a viver num universo sem quaisquer receitas paternalistas. O alívio que tal pressupõe é, também, por outro lado, uma imensa importunidade. Nesta novíssima corrente de ar, joga-se essencialmente a liberdade. A capacidade de inventar. Um desafio que os românticos já haviam colocado na ordem do dia, por vezes com sadia ingenuidade.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A angústia silenciosa

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Um Maio que devia ter vergonha de ter existido: cinzento, frio e chuvoso, limitou-se a relembrar outros Maios e a fazer subir, sem fim, o preço dos combustíveis. Quando a Primavera chegar, talvez escreva um post sobre a imprevisibilidade da angústia: é disso que trata o que tratamos por tu, quando dizemos a palavra "crise". É que a palavra, agora, entrou realmente em cena e deixou no estado do tempo o bode expiatório.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Volta ao Mundo - 21

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Há cerca de nove meses, a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo que o Miniscente tem acompanhado... passo a passo. Hoje, a crónica chegou do Laos:
se
"Laos"
sse
Há.
Tanto.
Para.
Contar.
Escolho pequenos pedaços. Histórias que já existem e só esperam transcrição. Em cima da mesa estão elefantes e um rio; a selva e uma aldeia castanha; monges descalços e uma terra sem luz. Mas está também outro pedacinho. Muito pequeno. Quase um segredo. É esse que escolho.
Agarra o filho pela mão e corre. Ignora o som que cai do céu. Concentra-se no caminho. A floresta, as árvores, as folhas abrem-se. Desviam-se num sacrifício quase humano. Para o deixar passar. A correr. Com o filho pela mão. Sabe que está perto. Cheira a segurança. Acelera o passo para avançar o tempo… e chega. A escuridão cega-o. São as mãos que o orientam. Um frio rochoso atravessa-lhe os dedos, os braços, congela o medo durante segundos. Pressente que não estão sós. Senta-se. Espera. É no instante que alguém acende um fogo que desaba. A gruta é gigantesca, gelada, feita de sombras, de silêncios… e de olhos. Centenas. Assustados, velhos, cansados. Reconhece cada um. São os olhos da sua aldeia.
Pousa o cigarro na mesa e olha para o final da rua de terra. Vê o seu filho a agarrar a mão do filho. Caminham devagar, sem pressa, sem fuga. Não consegue evitar a recordação. Do dia. Daquele dia. Porque foi o primeiro. Nas vezes seguintes, quando fugiam do céu que caía, já sabia para onde ir, já conhecia o sabor dos insectos, das aranhas, da fome. Já sabia que seriam menos os olhos que veria. Sabia. Hoje o perigo vem do chão. Gostava de saber voar.
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(o Laos foi o País mais bombardeado do mundo. Prevêem-se cem anos para que se torne seguro. Foi o lugar mais puro onde já estive)"
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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Episódios e Meteoros - 85

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Mann, Viconti e o caso Casa Pia
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(crónica publicada desde quinta-feira no Expresso Online
ver também no meu Blogue de crónicas)
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Há uma dúzia de anos, Eduardo Prado Coelho foi convidado a escrever um dos textos mais marcantes do projecto de Leonel Moura, “Portugal Século XX - 50 rostos para uma identidade” (patrocinado pelo Público). A personalidade acolhida pelo ensaísta foi Herman José a quem então foi atribuída a rara capacidade de “teatralizar o quotidiano”, o “estupendo sentido de metamorfose” e a “desenvoltura irreverente” sempre “capaz do golpe de génio e da invenção mais improvável”. Prado Coelho concluía referindo que Herman José se tinha tornado “numa personalidade central da vida portuguesa, talvez a mais famosa” (entre as que tinham uma dimensão nacional).
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O mais curioso é que entre os dois grandes actos falhados do milénio português, ou seja, a saída de Guterres (por causa de um pântano sem fim) e a saída de Durão Barroso (por causa de uma luz sem fim que ardia na Grand Place) tudo mudou. Não foi apenas Herman ou Carlos Cruz que, de modos diversos, viriam a cair em desgraça, mas toda uma engrenagem até hoje pouco desvelada. E quando escrevo a palavra “engrenagem” não me refiro apenas a fait divers sujeitos à exaustão mais pérfida.
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Não me estou, por exemplo, a referir à fusão a frio entre Ferro Rodrigues, a “teoria da cabala” e a suma recompensa no altar da Unesco. Não me estou, por exemplo, a referir à saída de Paulo Pedroso da prisão e ao êxtase vivido no Parlamento, naquilo que terá sido o momento mais abjecto da Casa da Democracia, após o cerco de finais de 1975. Nem me estou seguramente a referir aos momentos mais negros da blogosfera (o blogue “Muito Mentiroso”), ou às tricas (por vezes paródicas) entre Santana e Sampaio que acabariam em clímax cinco dias após o início do julgamento do caso Casa Pia, no Tribunal da Boa-Hora (25/11/04).
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Quando soletro muito devagar a palavra “engrenagem”, estou sobretudo a tomar consciência de que muito mais mudou. E de modo particularmente vincado. Tive a plena consciência desse facto, quando, no sábado passado, revi o clássico Morte em Veneza de Visconti (1971), baseado na obra homónima de Thomas Mann (1912). Devo dizer que este filme se cruzou intensamente com a minha vida, nas décadas de setenta e oitenta, e que um dos meus primeiros romances (o terceiro: No Príncípio era Veneza – 1990), escrito em boa parte no local da cena, imaginava, entre outras coisas, uma segunda rodagem do filme. E declaro, desde já, para os devidos efeitos, que a intensidade da obra de Visconti tinha, à época, a sua origens em vínculos estéticos puros e em nada mais.
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Com efeito, o sublime e o arrojo estético de Visconti bastavam para absorver e emocionar quem, há uns anos, mergulhasse nesse filme. E jamais as atracções platónicas entre um homem mais velho e um menino pré-adolescente se traduziram no modo permissivo (ou ‘não permissivo’) de encarar o que passou a topoi no pós-caso Casa Pia: a pedofilia. Quer isto dizer que a engrenagem cultural mais profunda trouxe para o mainstream o que antes se ofuscava radicalmente, dando novo significado ao que até aí era arte pura. É por isso que o Morte em Veneza de sábado passado deixou de ser o que era. Confesso que não fui capaz – pela primeira vez – de ver o filme como antes o via. Ninguém, de facto, resiste aos julgamentos do seu tempo. Nem Herman, nem Prado Coelho, nem eu, nem ninguém.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um tumulto sereno

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Mais um dia chuvoso quase no final de Maio. Presságio inquieto. Lembro-me, no entanto, que o dia de abertura da Expo 98 foi tempestuoso. Muito vento e chuva, tal como aconteceu ao longo desta noite. Nem sempre a memória guarda o que menos interessa, mas, à mínima necessidade de socorro, eis que logo aparece, cintilante, à moda de uma borboleta oriental. E operática. Nestes dias em que a existência parece estar de viés - um niilismo embaciado e sem rosto - adoro descer a Calçada da Estrela. É o que vou fazer já a seguir. Presságio perfeito: irrequieto, sem resposta. E tão pessoano.