sábado, 31 de maio de 2008

Pergunta de fim de Maio

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Tarde despovoada. A luz baça e imprópria para as vésperas de Junho. A rosa contra a alvenaria ruída: como se fosse um poema visual a rebentar entre a rudeza da pedra, a memória da cal e o submerso mastro da cor. Olho e escrevo. Sumariamente. E que diferença se entreabrirá nesta espessura que liga a tona da água à margem que a contém?

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O grande alívio (act.)

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Às vezes, quando relembro uma sessão pública onde estive e falei, sou levado a utilizar (para mim ou para quem me ouve) a expressão: "Vi-me a dizer...". Ou seja, é como se, espontaneamente, desenterrasse, não a verdade, mas um fio indescortinável que me conduziria a revelar qualquer coisa. Assim mesmo, à moda da espeleologia.
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Ontem, num debate sobre escrita e literatura (foi esse o tema que acabou por desenvolver-se a partir de uma abordagem inicial sobre escrita criativa), "vi-me a dizer" que o mundo moderno ocidental foi atravessado por três vagas espessas de escrita literária: a romântica (uma interrogação livre, generalizada e por vezes mística sobre o homem), a realista (uma focagem da vida protagonizada pelo homem à luz das suas novas codificações com destaque para a, às vezes ilusória, noção do "progresso") e a monumental (a reacção em cascata à linearidade do moderno, concebida no pós-Primeira Grande Guerra Mundial, ainda, portanto, no universo e no tempo do livro: Joyce, Proust, Woolf, James, Kafka, Mann, etc.).
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Após estas três vagas, ter-se-iam seguido as desmontagens e as especificidades no próprio terreno da literatura (o feérico on the road ou o estigma do nouveau roman, por exemplo). Depois, a imagem - a mitologia televisiva, sobretudo - viria a ocupar, a pouco e pouco, a referencialidade do que antes havia sido a centralidade da expressão literária. Mais tarde, as imagens (já no plural e à moda de pixels), fundidas com a hipertecnologia e com o desmembramento das regras e ideários fixos - e dicotómicos -, acabaram por estruturar a nossa vida... relegando a literatura para um local de nicho (foi uma travessia rápida, esta última, entre o fim dos anos oitenta e o início do nosso século).
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Passaram, pois, milénios em décadas apenas. Ou seja: se para o homem medieval não havia sequer a distinção entre o 'literário' e o 'não literário' (tudo era afinal "Escritura"), para o homem actual deixou de haver um problema em torno da literatura. Que grande alívio, dir-se-á. Por outras palavras ainda: sempre que hoje leio uma ficção em livro, nunca sei se a literatura está a passar por ali, ou se aquilo é já um exemplo - mais um - de um território de onde se apearam, para sempre, fronteiras, géneros e expressões definidas (estou a lembrar-me da curiosíssima apresentação da obra de Gonçalo M. Tavares, tal como surge nos seus próprios livros).
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Eu gosto de um mundo assim, rasgado na tentação da permanente descoberta; e não baseado no assentimento prévio e dado. Atrai-me mais a multiplicidade e a interrogação e menos as sacralizações e todas as sublimações (ideológicas, literárias ou outras) que as sucederam. O mundo, tal como o entendemos hoje, já não é o mundo em que Aquilino, Torga ou Vergílio Ferreira eram ouvidos como dignos senadores do nosso imaginário. Um alívio para eles. E também para nós.
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p.s. - Em tempo de crise, há reflexões que servem para nos confirmar que (mesmo em campos exteriores à procura global do crude ou aos impactos do subprime) passámos realmente a viver num universo sem quaisquer receitas paternalistas. O alívio que tal pressupõe é, também, por outro lado, uma imensa importunidade. Nesta novíssima corrente de ar, joga-se essencialmente a liberdade. A capacidade de inventar. Um desafio que os românticos já haviam colocado na ordem do dia, por vezes com sadia ingenuidade.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

A angústia silenciosa

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Um Maio que devia ter vergonha de ter existido: cinzento, frio e chuvoso, limitou-se a relembrar outros Maios e a fazer subir, sem fim, o preço dos combustíveis. Quando a Primavera chegar, talvez escreva um post sobre a imprevisibilidade da angústia: é disso que trata o que tratamos por tu, quando dizemos a palavra "crise". É que a palavra, agora, entrou realmente em cena e deixou no estado do tempo o bode expiatório.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Volta ao Mundo - 21

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Há cerca de nove meses, a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo que o Miniscente tem acompanhado... passo a passo. Hoje, a crónica chegou do Laos:
se
"Laos"
sse
Há.
Tanto.
Para.
Contar.
Escolho pequenos pedaços. Histórias que já existem e só esperam transcrição. Em cima da mesa estão elefantes e um rio; a selva e uma aldeia castanha; monges descalços e uma terra sem luz. Mas está também outro pedacinho. Muito pequeno. Quase um segredo. É esse que escolho.
Agarra o filho pela mão e corre. Ignora o som que cai do céu. Concentra-se no caminho. A floresta, as árvores, as folhas abrem-se. Desviam-se num sacrifício quase humano. Para o deixar passar. A correr. Com o filho pela mão. Sabe que está perto. Cheira a segurança. Acelera o passo para avançar o tempo… e chega. A escuridão cega-o. São as mãos que o orientam. Um frio rochoso atravessa-lhe os dedos, os braços, congela o medo durante segundos. Pressente que não estão sós. Senta-se. Espera. É no instante que alguém acende um fogo que desaba. A gruta é gigantesca, gelada, feita de sombras, de silêncios… e de olhos. Centenas. Assustados, velhos, cansados. Reconhece cada um. São os olhos da sua aldeia.
Pousa o cigarro na mesa e olha para o final da rua de terra. Vê o seu filho a agarrar a mão do filho. Caminham devagar, sem pressa, sem fuga. Não consegue evitar a recordação. Do dia. Daquele dia. Porque foi o primeiro. Nas vezes seguintes, quando fugiam do céu que caía, já sabia para onde ir, já conhecia o sabor dos insectos, das aranhas, da fome. Já sabia que seriam menos os olhos que veria. Sabia. Hoje o perigo vem do chão. Gostava de saber voar.
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(o Laos foi o País mais bombardeado do mundo. Prevêem-se cem anos para que se torne seguro. Foi o lugar mais puro onde já estive)"
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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Episódios e Meteoros - 85

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Mann, Viconti e o caso Casa Pia
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(crónica publicada desde quinta-feira no Expresso Online
ver também no meu Blogue de crónicas)
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Há uma dúzia de anos, Eduardo Prado Coelho foi convidado a escrever um dos textos mais marcantes do projecto de Leonel Moura, “Portugal Século XX - 50 rostos para uma identidade” (patrocinado pelo Público). A personalidade acolhida pelo ensaísta foi Herman José a quem então foi atribuída a rara capacidade de “teatralizar o quotidiano”, o “estupendo sentido de metamorfose” e a “desenvoltura irreverente” sempre “capaz do golpe de génio e da invenção mais improvável”. Prado Coelho concluía referindo que Herman José se tinha tornado “numa personalidade central da vida portuguesa, talvez a mais famosa” (entre as que tinham uma dimensão nacional).
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O mais curioso é que entre os dois grandes actos falhados do milénio português, ou seja, a saída de Guterres (por causa de um pântano sem fim) e a saída de Durão Barroso (por causa de uma luz sem fim que ardia na Grand Place) tudo mudou. Não foi apenas Herman ou Carlos Cruz que, de modos diversos, viriam a cair em desgraça, mas toda uma engrenagem até hoje pouco desvelada. E quando escrevo a palavra “engrenagem” não me refiro apenas a fait divers sujeitos à exaustão mais pérfida.
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Não me estou, por exemplo, a referir à fusão a frio entre Ferro Rodrigues, a “teoria da cabala” e a suma recompensa no altar da Unesco. Não me estou, por exemplo, a referir à saída de Paulo Pedroso da prisão e ao êxtase vivido no Parlamento, naquilo que terá sido o momento mais abjecto da Casa da Democracia, após o cerco de finais de 1975. Nem me estou seguramente a referir aos momentos mais negros da blogosfera (o blogue “Muito Mentiroso”), ou às tricas (por vezes paródicas) entre Santana e Sampaio que acabariam em clímax cinco dias após o início do julgamento do caso Casa Pia, no Tribunal da Boa-Hora (25/11/04).
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Quando soletro muito devagar a palavra “engrenagem”, estou sobretudo a tomar consciência de que muito mais mudou. E de modo particularmente vincado. Tive a plena consciência desse facto, quando, no sábado passado, revi o clássico Morte em Veneza de Visconti (1971), baseado na obra homónima de Thomas Mann (1912). Devo dizer que este filme se cruzou intensamente com a minha vida, nas décadas de setenta e oitenta, e que um dos meus primeiros romances (o terceiro: No Príncípio era Veneza – 1990), escrito em boa parte no local da cena, imaginava, entre outras coisas, uma segunda rodagem do filme. E declaro, desde já, para os devidos efeitos, que a intensidade da obra de Visconti tinha, à época, a sua origens em vínculos estéticos puros e em nada mais.
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Com efeito, o sublime e o arrojo estético de Visconti bastavam para absorver e emocionar quem, há uns anos, mergulhasse nesse filme. E jamais as atracções platónicas entre um homem mais velho e um menino pré-adolescente se traduziram no modo permissivo (ou ‘não permissivo’) de encarar o que passou a topoi no pós-caso Casa Pia: a pedofilia. Quer isto dizer que a engrenagem cultural mais profunda trouxe para o mainstream o que antes se ofuscava radicalmente, dando novo significado ao que até aí era arte pura. É por isso que o Morte em Veneza de sábado passado deixou de ser o que era. Confesso que não fui capaz – pela primeira vez – de ver o filme como antes o via. Ninguém, de facto, resiste aos julgamentos do seu tempo. Nem Herman, nem Prado Coelho, nem eu, nem ninguém.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um tumulto sereno

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Mais um dia chuvoso quase no final de Maio. Presságio inquieto. Lembro-me, no entanto, que o dia de abertura da Expo 98 foi tempestuoso. Muito vento e chuva, tal como aconteceu ao longo desta noite. Nem sempre a memória guarda o que menos interessa, mas, à mínima necessidade de socorro, eis que logo aparece, cintilante, à moda de uma borboleta oriental. E operática. Nestes dias em que a existência parece estar de viés - um niilismo embaciado e sem rosto - adoro descer a Calçada da Estrela. É o que vou fazer já a seguir. Presságio perfeito: irrequieto, sem resposta. E tão pessoano.

Design

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Já se pode ler a minha entrevista ao Reactor onde digo tudo aquilo que penso acerca do design. Enfim, "tudo" significa o que está aquém do imponderável. Já não é mau.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Estranho Maio

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Feriado. Sento-me no pátio e leio o jornal como não fazia há muito tempo. Ritual na primeira pessoa dito em segredo neste espaço. Como era diferente o Miniscente há cerca de cinco anos, quando começou! Olho para as rosas e conto-as. São muitas dezenas, talvez mesmo centenas. Suspendem-se do passadiço, prendem-se nos arames entre varandas, escalam pelos ramos das heras, circundam o poço, abraçam o corrimão da escada em caracol, atam-se às folhas largas dos jarros, ruminam entre azulejos magrebinos e silenciam sem piedade a cor onde respiram: muito vermelhas, quase luminosas, ou, tão-só, de modo ameno, fundindo-se na cor que lhes dá o nome. Rosa, rosa puro. É assim o meu pátio: uma assunção fecunda e excessiva de roseiras amalgamadas entre a já conhecida ameixoeira e a novíssima nespereira que, em apenas um ano, nos deu uma óptima criação: sumarenta, doce e farta. A relva revolta e sem estar cortada, como deve acontecer nos recantos mais hilariantes do paraíso; a pequena laranjeira siderada, entre ramos de alecrim, como deve acontecer nas margens mais desejadas do Mediterrâneo; e o cão Ulisses, gordo e da cor do caril mais escuro, deixando voar o olhar entre esta teia prolixa de verdura e cor. Como se a Primavera, neste ano tímido, já tivesse chegado, solar, contagiosa e excessiva. Agora, bem agora... vou trabalhar.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O ciberpatriotismo nas directas lusitanas

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Leio a última crónica do Paulo Querido no Expresso Online e não consigo deixar de sorrir com as revelações sobre o domínio “pt”. Repare-se: “…o domínio pedrosantanalopes.pt está virgem e disponível pela módica quantia de 26 euro”. Segundo registo: “…O domínio manuelaferreiraleite.pt foi registado no dia 22 de Abril de 2008 em nome de Manuela Ferreira Leite por uma empresa de advogados. Óptimo. Está inactivo, o que não é problema”. Terceiro registo: “O mais curioso é que os domínios pedropassoscoelho.pt, passoscoelho.pt e passoscoelho.com continuam livres à hora de edição deste artigo”. Dados que falam por si.

domingo, 18 de maio de 2008

Kant, Benfica e a interacção

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Hoje... vi-me a escrever um comentário, em processo de @Learning, que rezava o seguinte: "Referir ou citar blogues com os quais se traçam laços afectivos tem sempre todo o sentido. Sobretudo porque a individuação se releva logo de outro modo. As empatias são formas de contágio muito activas na rede, local de respirações onde, como se sabe, se vive de interacção e não da contemplação passiva e desinteressada (tal como Kant defendia na Crítica da Faculdade do Juízo)". Fiquei a pensar nesta longa viagem de 218 anos entre o desinteresse e o interesse, entre a dicção sublime e os frutos mais banais da interacção, ou entre a vontade de certeza e a sadia dessarumação da casa. Coisas de domingo à tarde, já se vê. Para mais num dia em que nem sequer há futebol. Para mim... só há bola, quando há águias em jogo. O que é que querem? É o resto da minha alma iluminista.