quarta-feira, 28 de maio de 2008

A angústia silenciosa

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Um Maio que devia ter vergonha de ter existido: cinzento, frio e chuvoso, limitou-se a relembrar outros Maios e a fazer subir, sem fim, o preço dos combustíveis. Quando a Primavera chegar, talvez escreva um post sobre a imprevisibilidade da angústia: é disso que trata o que tratamos por tu, quando dizemos a palavra "crise". É que a palavra, agora, entrou realmente em cena e deixou no estado do tempo o bode expiatório.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Volta ao Mundo - 21

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Há cerca de nove meses, a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo que o Miniscente tem acompanhado... passo a passo. Hoje, a crónica chegou do Laos:
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"Laos"
sse
Há.
Tanto.
Para.
Contar.
Escolho pequenos pedaços. Histórias que já existem e só esperam transcrição. Em cima da mesa estão elefantes e um rio; a selva e uma aldeia castanha; monges descalços e uma terra sem luz. Mas está também outro pedacinho. Muito pequeno. Quase um segredo. É esse que escolho.
Agarra o filho pela mão e corre. Ignora o som que cai do céu. Concentra-se no caminho. A floresta, as árvores, as folhas abrem-se. Desviam-se num sacrifício quase humano. Para o deixar passar. A correr. Com o filho pela mão. Sabe que está perto. Cheira a segurança. Acelera o passo para avançar o tempo… e chega. A escuridão cega-o. São as mãos que o orientam. Um frio rochoso atravessa-lhe os dedos, os braços, congela o medo durante segundos. Pressente que não estão sós. Senta-se. Espera. É no instante que alguém acende um fogo que desaba. A gruta é gigantesca, gelada, feita de sombras, de silêncios… e de olhos. Centenas. Assustados, velhos, cansados. Reconhece cada um. São os olhos da sua aldeia.
Pousa o cigarro na mesa e olha para o final da rua de terra. Vê o seu filho a agarrar a mão do filho. Caminham devagar, sem pressa, sem fuga. Não consegue evitar a recordação. Do dia. Daquele dia. Porque foi o primeiro. Nas vezes seguintes, quando fugiam do céu que caía, já sabia para onde ir, já conhecia o sabor dos insectos, das aranhas, da fome. Já sabia que seriam menos os olhos que veria. Sabia. Hoje o perigo vem do chão. Gostava de saber voar.
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(o Laos foi o País mais bombardeado do mundo. Prevêem-se cem anos para que se torne seguro. Foi o lugar mais puro onde já estive)"
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segunda-feira, 26 de maio de 2008

Episódios e Meteoros - 85

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Mann, Viconti e o caso Casa Pia
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(crónica publicada desde quinta-feira no Expresso Online
ver também no meu Blogue de crónicas)
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Há uma dúzia de anos, Eduardo Prado Coelho foi convidado a escrever um dos textos mais marcantes do projecto de Leonel Moura, “Portugal Século XX - 50 rostos para uma identidade” (patrocinado pelo Público). A personalidade acolhida pelo ensaísta foi Herman José a quem então foi atribuída a rara capacidade de “teatralizar o quotidiano”, o “estupendo sentido de metamorfose” e a “desenvoltura irreverente” sempre “capaz do golpe de génio e da invenção mais improvável”. Prado Coelho concluía referindo que Herman José se tinha tornado “numa personalidade central da vida portuguesa, talvez a mais famosa” (entre as que tinham uma dimensão nacional).
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O mais curioso é que entre os dois grandes actos falhados do milénio português, ou seja, a saída de Guterres (por causa de um pântano sem fim) e a saída de Durão Barroso (por causa de uma luz sem fim que ardia na Grand Place) tudo mudou. Não foi apenas Herman ou Carlos Cruz que, de modos diversos, viriam a cair em desgraça, mas toda uma engrenagem até hoje pouco desvelada. E quando escrevo a palavra “engrenagem” não me refiro apenas a fait divers sujeitos à exaustão mais pérfida.
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Não me estou, por exemplo, a referir à fusão a frio entre Ferro Rodrigues, a “teoria da cabala” e a suma recompensa no altar da Unesco. Não me estou, por exemplo, a referir à saída de Paulo Pedroso da prisão e ao êxtase vivido no Parlamento, naquilo que terá sido o momento mais abjecto da Casa da Democracia, após o cerco de finais de 1975. Nem me estou seguramente a referir aos momentos mais negros da blogosfera (o blogue “Muito Mentiroso”), ou às tricas (por vezes paródicas) entre Santana e Sampaio que acabariam em clímax cinco dias após o início do julgamento do caso Casa Pia, no Tribunal da Boa-Hora (25/11/04).
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Quando soletro muito devagar a palavra “engrenagem”, estou sobretudo a tomar consciência de que muito mais mudou. E de modo particularmente vincado. Tive a plena consciência desse facto, quando, no sábado passado, revi o clássico Morte em Veneza de Visconti (1971), baseado na obra homónima de Thomas Mann (1912). Devo dizer que este filme se cruzou intensamente com a minha vida, nas décadas de setenta e oitenta, e que um dos meus primeiros romances (o terceiro: No Príncípio era Veneza – 1990), escrito em boa parte no local da cena, imaginava, entre outras coisas, uma segunda rodagem do filme. E declaro, desde já, para os devidos efeitos, que a intensidade da obra de Visconti tinha, à época, a sua origens em vínculos estéticos puros e em nada mais.
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Com efeito, o sublime e o arrojo estético de Visconti bastavam para absorver e emocionar quem, há uns anos, mergulhasse nesse filme. E jamais as atracções platónicas entre um homem mais velho e um menino pré-adolescente se traduziram no modo permissivo (ou ‘não permissivo’) de encarar o que passou a topoi no pós-caso Casa Pia: a pedofilia. Quer isto dizer que a engrenagem cultural mais profunda trouxe para o mainstream o que antes se ofuscava radicalmente, dando novo significado ao que até aí era arte pura. É por isso que o Morte em Veneza de sábado passado deixou de ser o que era. Confesso que não fui capaz – pela primeira vez – de ver o filme como antes o via. Ninguém, de facto, resiste aos julgamentos do seu tempo. Nem Herman, nem Prado Coelho, nem eu, nem ninguém.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um tumulto sereno

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Mais um dia chuvoso quase no final de Maio. Presságio inquieto. Lembro-me, no entanto, que o dia de abertura da Expo 98 foi tempestuoso. Muito vento e chuva, tal como aconteceu ao longo desta noite. Nem sempre a memória guarda o que menos interessa, mas, à mínima necessidade de socorro, eis que logo aparece, cintilante, à moda de uma borboleta oriental. E operática. Nestes dias em que a existência parece estar de viés - um niilismo embaciado e sem rosto - adoro descer a Calçada da Estrela. É o que vou fazer já a seguir. Presságio perfeito: irrequieto, sem resposta. E tão pessoano.

Design

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Já se pode ler a minha entrevista ao Reactor onde digo tudo aquilo que penso acerca do design. Enfim, "tudo" significa o que está aquém do imponderável. Já não é mau.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Estranho Maio

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Feriado. Sento-me no pátio e leio o jornal como não fazia há muito tempo. Ritual na primeira pessoa dito em segredo neste espaço. Como era diferente o Miniscente há cerca de cinco anos, quando começou! Olho para as rosas e conto-as. São muitas dezenas, talvez mesmo centenas. Suspendem-se do passadiço, prendem-se nos arames entre varandas, escalam pelos ramos das heras, circundam o poço, abraçam o corrimão da escada em caracol, atam-se às folhas largas dos jarros, ruminam entre azulejos magrebinos e silenciam sem piedade a cor onde respiram: muito vermelhas, quase luminosas, ou, tão-só, de modo ameno, fundindo-se na cor que lhes dá o nome. Rosa, rosa puro. É assim o meu pátio: uma assunção fecunda e excessiva de roseiras amalgamadas entre a já conhecida ameixoeira e a novíssima nespereira que, em apenas um ano, nos deu uma óptima criação: sumarenta, doce e farta. A relva revolta e sem estar cortada, como deve acontecer nos recantos mais hilariantes do paraíso; a pequena laranjeira siderada, entre ramos de alecrim, como deve acontecer nas margens mais desejadas do Mediterrâneo; e o cão Ulisses, gordo e da cor do caril mais escuro, deixando voar o olhar entre esta teia prolixa de verdura e cor. Como se a Primavera, neste ano tímido, já tivesse chegado, solar, contagiosa e excessiva. Agora, bem agora... vou trabalhar.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

O ciberpatriotismo nas directas lusitanas

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Leio a última crónica do Paulo Querido no Expresso Online e não consigo deixar de sorrir com as revelações sobre o domínio “pt”. Repare-se: “…o domínio pedrosantanalopes.pt está virgem e disponível pela módica quantia de 26 euro”. Segundo registo: “…O domínio manuelaferreiraleite.pt foi registado no dia 22 de Abril de 2008 em nome de Manuela Ferreira Leite por uma empresa de advogados. Óptimo. Está inactivo, o que não é problema”. Terceiro registo: “O mais curioso é que os domínios pedropassoscoelho.pt, passoscoelho.pt e passoscoelho.com continuam livres à hora de edição deste artigo”. Dados que falam por si.

domingo, 18 de maio de 2008

Kant, Benfica e a interacção

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Hoje... vi-me a escrever um comentário, em processo de @Learning, que rezava o seguinte: "Referir ou citar blogues com os quais se traçam laços afectivos tem sempre todo o sentido. Sobretudo porque a individuação se releva logo de outro modo. As empatias são formas de contágio muito activas na rede, local de respirações onde, como se sabe, se vive de interacção e não da contemplação passiva e desinteressada (tal como Kant defendia na Crítica da Faculdade do Juízo)". Fiquei a pensar nesta longa viagem de 218 anos entre o desinteresse e o interesse, entre a dicção sublime e os frutos mais banais da interacção, ou entre a vontade de certeza e a sadia dessarumação da casa. Coisas de domingo à tarde, já se vê. Para mais num dia em que nem sequer há futebol. Para mim... só há bola, quando há águias em jogo. O que é que querem? É o resto da minha alma iluminista.

sábado, 17 de maio de 2008

Episódios e Meteoros - 84

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Saramago e Pinto da Costa: o mesmo mito
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(crónica publicada no Expresso Online desde quinta-feira;
ver também no meu Blogue de Crónicas)
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Os mitos não são coisas do passado. Tal como as nuvens, os mitos estão sempre a reaparecer e a transformar-se. E nem sempre são encarnados por personalidades previsíveis. Por outras palavras: a mitologia passeia-se melhor em protagonistas vincados, polémicos e que dividem rebanhos como quem pega fogo a metade do mundo. O mito nada tem que ver com a razão, nem tem um rosto fixo que possa ser descrito de alto a baixo. No entanto, as pessoas precisam de mitos como o mar precisa das suas espécies. E eis como o que aparenta ser distante e mesmo irreconciliável se torna, na arena dos mitos, como algo que se aproxima quase intimamente. É por isso que Saramago e Pinto da Costa são, de algum modo, pilotos da mesma nave. Vejamos porquê:
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Fantasias históricas
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Toda a performance de Pinto da Costa é atravessada por uma pretensa questão fundacional: como se a “História” fosse uma régua rigorosamente linear, o Norte impor-se-ia ao Sul mouro e as virtudes originais de um contrastariam com as corruptelas da arraia menor (conquistada) do outro. Uma rivalidade fantasiosa que só é vista e entendida no lado de quem a imagina. No caso Saramago, a questão postulada é a ibérica. Não a Norte-Sul e fundacional, mas a que perpassa a sobrevivência do país ao longo de séculos. Para os patrioteiros e para os continuadores doentios do tempo dos “Vencidos da Vida”, a fractura voltou a expor-se. Quer Saramago, quer Pinto da Costa adoram expor as fracturas. Com grande ostensão. Diria mesmo: com algum exibicionismo.
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Apego tribal
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À ideia seminal de região, no caso de Pinto da Costa, corresponde, em Saramago, um outro tipo de região: a ideológica. Uma e outra são esquemáticas, razoavelmente a ‘preto e branco’ e tendencialmente viradas para a criação de exclusões naturais. Há sempre os “de fora” e os “de dentro” do campo que é apregoado. Um tal maniqueísmo entre os que estão “contra” e os que estão “a favor” é o alicerce, para não dizer a essência, de ambas as mitologias.
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Ressentimentos vários
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No caso Saramago, foi a idiotice de um governo de Cavaco que lhe deu o pretexto para a queixa sem fim. Precisa dela como água no deserto. Questão de marketing, como se diz em certos meios. No caso Pinto da Costa, a questão é mais endémica: o modo de afirmação do dirigente portista tem como base a necessidade de demonstrar que consegue superar uma perseguição também sem fim. E o objecto perseguidor pode variar, embora tenha que ser omnipresente e todo-poderoso: os media, Lisboa, a justiça, etc.
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Domínio dos meios
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‘Não olhar a meios’: eis um lema muito repetido. No caso do mundo futebolístico, a procissão está sempre no adro e a disputa passa por todo o lado e não apenas pelo relvado. Tudo e todos, incluindo a inércia dos tribunais, legitimam este perene estado de coisas. Em Saramago o lóbi é mais sereno… até porque a literatura se vê a si própria – agora já vai acontecendo menos, felizmente – como algo quase sagrado. Um nobel só é nobel por denotar inevitáveis qualidades e, também, por se inserir num imenso mar de influências. Nem sempre essa influência coincide com a arbitragem certa, mas avizinhar-se-á dela. Resumindo: quer Pinto da Costa, quer Saramago são hábeis nos tabuleiros dos respectivos jogos. Habilidades que transcendem (e de que modo) a natureza dos próprios jogos jogados.
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Mitos do amor
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O clímax destes vários paralelismos, caro leitor, está, de facto, na tradição mais fecunda da espécie. Repare-se: se Saramago herda o mito do amor eterno, cortês e nobre (o tabu de Inês de Castro vs. Pilar – ambas ‘não portuguesas’ – é evidente), já os folhetins de Pinto da Costa, que incendeiam o país com um fogo mais visceral e menos subtil, reflectem a tradição medieval de uma cidade onde a nobreza não podia entrar (salvo com autorização especial): o Porto. De um lado, o amor proibido e imposto como destino; do outro lado, o amor errante e popular… imposto como forma de inconformismo e de irascibilidade.
EDR
Enfim: dois Portugais, mas os mesmíssimos mitos. A mesma respiração transfigurada.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Volta ao Mundo - 20

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Há mais de oito meses que a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento partiram para uma volta ao mundo que o Miniscente tem acompanhado... passo a passo. Pelo menos na medida do possível, já que o ritmo do envio de crónicas em viagem é complicado e, por aqui, nem sempre a edição tem sido tão rápida quanto desejável. O mundo não é perfeito, já se sabe, mas o contentamento por estar - de algum modo - sempre em viagem supera essa natureza inevitável. Para trás, ficou a América do Sul, o grande Pacífico, a Nova Zelândia, a Austrália, a China e, depois, aquele epicentro chamado Tibete que fez notícia. Seguiu-se o Nepal e, agora - há oito dias... -, recebo o texto e a foto oriundos do Vietname. O interessante é que a Clara parece continuar a escrever com a mesma admiração a que deu corpo nos campos de Cuba ou na Patagónia, há mais de meio ano. Mais interessante ainda é que o propósito da Clara se tem mantido incólume: cronicar à medida das sensações e das pequenas histórias que vai recolhendo. Como há dias escrevi, não há nada melhor do que a fiabilidade do efémero. E em viagem esta presunção meio poética adquire quase um tom de verdade.
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"Sa Pa, Vietname"
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"Ando devagar. Tão devagar. Como se fosse uma forma de pensar. Vou ao passo do amanhecer, encostada ao nevoeiro. Não sei se piso terra ou pedaços de memória, se invento ou faço parte da história. Estou a viajar há oito meses.
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Podia escrever o que sente a menina de uma tribo da montanha, ao carregar o filho às costas, enquanto trabalha nos arrozais e come e se desloca. Porque estamos as duas de mão dada. A andar. Tão devagar. Como se fôssemos uma forma de pensar. Mas. Caladas, não somos apenas aquele momento. Os verdes da montanha não são apenas árvores. Têm todo o mundo dentro. A sombra do Equador, o cheiro de um riso íntimo cubano, os abraços de despedida. Têm o fundo do mar e o silêncio de pedra de uma ilha remota. Não são apenas árvores. São um dia de trabalho duro e o desejo de construir uma casa. São os passos de todos os dias para vender panos e imaginação. São sonhos. Andamos. Devagar. Encostadas ao nevoeiro.
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Podia escrever o que sente uma mulher que, por ser tão velha, se esqueceu da ordem dos gestos. Porque está a passar por mim. De mão fechada e a debruçar-se para uma árvore. Vejo uma lagarta a sair devagar para a liberdade de uma folha. Tão devagar. Como se fosse uma forma de pensar. Espera, de cócoras, de queixo a descansar nos joelhos. Torna a pegar na lagarta e a passar por mim. De sorriso aberto e movimento curvo. Mas. Não somos apenas aquele momento. Os socalcos da montanha não são apenas de arroz. Têm todo o mundo dentro. O céu da Patagónia, uma aldeia entre fiordes, a gargalhada franca de uma vendedora de livros. Não são apenas arroz. São uma vida inteira de trabalho na terra e desejo de conhecer o mar. São os passos de todos os dias para inverter a natureza. São sonhos.
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Estou a viajar há oito meses. Podia escrever o que sinto por acordar todos os dias num lugar diferente, sem saber o que me espera ou o que encontro. Mas. Não sou apenas este momento. Os meus dias não são apenas deslocação. Tenho todo o mundo dentro."
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