quarta-feira, 30 de abril de 2008

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A Moeda Viva

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Luís Lima traduziu recentemente A Moeda Viva de Pierre Klossowsky. A propósito deste facto relevante, manifestei, desde finais de Fevereiro, todo o meu interesse em publicar o texto de Luís Lima sobre a própria experiência da tradução, dado o interesse da obra e desse ofício secreto que é a própria rescrita. No entanto, diversas vicissitudes - que têm contribuído para um certo adormecimento (passageiro) deste blogue - atrasaram este meu desejo. Cumpro-o hoje, penitenciando-me publicamente pelo atraso, embora com a certeza de que a obra recobre, no seu ardil reflexivo, uma dose de intemporalidade que acaba por atenuar este meu pequeno pecado.
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"TRADUZIR: A MOEDA VIVA"
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"Se tivesse de eleger um único fragmento d’A Moeda Viva[1], como se diz, para a posteridade, seria este: «só existe uma comunicação universal autêntica: a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais». Primeiro, porque esta passagem aponta para a impossibilidade de expressar numa outra língua a singularidade do ser textual a traduzir, a não ser por via de uma escrita intuitiva, guiada por sinais vindos do corpo e transmitidos pela pele. Depois, porque o excerto revela a principal linha de força do ensaio de Pierre Klossowski: a expressividade.
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Não me propondo aqui fazer uma leitura d’ A Moeda Viva (mas tão-só um breve apontamento sobre a experiência de traduzir o autor), obrigatória é, no entanto, a alusão à diversidade de termos e conceitos que povoam e assombram, quais fantasmas, para melhor o constituir, o território do discurso. Essa multiplicidade gera assim um estilo único, uma voz inconfundível, uma univocidade do ser; ou seja, uma única expressão para os seus múltiplos termos, fantasmas, simulacros. Eis a expressão do pensamento de um monómano – alguém que se fixa, repetidamente, numa única cena diversificada ora pelo acto, ora pelo objecto do acto, ora pelo actor: um corpo que se dá a ver a outro, nem que seja de si para si. Ora, esta encenação serviu, precisamente, o trabalho do tradutor.
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A primeira versão portuguesa do texto foi redigida em 2001, foram, assim, necessários sete anos, número mágico (na ocorrência), para encontrar o lugar e o momento exacto para a sua publicação. Depois do encontro inicial, o da ligação, com José Bragança de Miranda, veio o encontro final, o da construção, com a Antígona. Um encontro para um acontecimento, uma vez por todas. O texto foi retomado, revisto, reescrito – numa palavra, reencontrado –, para pactuar com um processo que veio aumentar a sua respectiva imanência, tornando-o diverso, repleto de dobras e linhas de fuga. A tradução ganhava assim, por sua conta, a diversidade que lhe era indispensável para poder alinhar-se, ainda que paralelamente, com o texto que clamava ser traduzido.
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Os termos, os conceitos, o frasear, foram sempre constrangidos e como que forçados pelo carrasco da sintaxe de maneira a manter perceptível, numa nova língua, a vítima suprema: o texto ainda não traduzido, virgem. Mas esse clamor klossowskiano exigia já e ainda um retorno do seu movimento interno: o da supremacia da musicalidade da expressão sobre a sintaxe. E é isto que sucede no frasear d’A Moeda Viva. O meu papel consistiu aqui em versar um ensaio filosófico, mas também em manobrar uma obra poética e literária, forjada num gesto de repetição, mas repetição da diferença, a diferença de um estilo. Este trabalho da segunda mão, da tradução, veio assim fechar um círculo que estava viciado pelo desejo de tradução, com recurso à libertação de um simulacro de texto: uma declinação diferencial na séria das línguas estrangeiras e estranhas à vítima virginal. O movimento simultâneo de encenação exibicionista e voyeurista – interno ao texto – assentou que nem uma luva ao meu papel de tradutor e permitiu a criação de uma nova epiderme, uma nova matéria textual capaz de realizar, afinal, um devir: «a troca dos corpos pela linguagem secreta dos signos corporais». Se tiver sido bem sucedida, esta nova camada aposta ao texto virgem será a sua moeda viva, ao mesmo tempo o corpo textual que clamava ser traduzido e a sua tradução."
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*/[1] Klossowski, Pierre (2008): A Moeda Viva, ed. Antígona, trad. Luís Lima, (ed. original 1970, Éd. Terrain Vague, Eric Losfeld), Lisboa.

Episódios e Meteoros - 81

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O paradoxo de Abril
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(publicado desde quinta-feira no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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Uma das características do antigo regime traduzia-se pelo facto de este se ver a si próprio como algo imutável. Essa característica era de tal modo forte que aparecia, de um modo ou de outro, impregnada em toda a população portuguesa até Abril de 1974. Apesar dos últimos anos de guerra em África e dos sintomas de desagregação (hoje historicamente perceptíveis), a verdade é que assim era. Esta ideia de um edifício que jamais cairia estava realmente interiorizada quer por quem defendia o regime, quer por quem a ele se opunha em nome da liberdade.
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A prova deste facto, raramente aprofundado, é que o 25 de Abril de 1974 se revelou, de início, através de uma admiração generalizada: de um momento para o outro, quase por magia, tudo se passou como se o universo inteiro, embora com o inadvertido peso de uma pena, tivesse caído por terra sem vacilar minimamente. Este paradoxo que opõe a ideia de algo que não pode mudar à súbita ilusão de uma mudança sem fim ainda hoje continua a ser o pano de fundo da liturgia comemorativa.
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O mais interessante é que o aparente domínio deste paradoxo se transformou na matéria de que foi feita a própria revolução, entre Abril 1974 e o fim de 1975. Nesses dois anos, a sociedade portuguesa voou entre o vórtice, o clímax e a voragem como se fosse possível, para sempre, alterar as ordens de um universo que teria – pensou-se – o singular peso de uma pena. Só que a sociedade convulsiva que lia esse ‘livro do tempo’ se baseava ainda em receituários muito fixos e ideológicos e sobretudo num tipo de comunicação vertical que ligava vastos (e motivados) auditórios a um número muitíssimo restrito de emissores. Mais: essa sociedade ainda não havia entendido a natureza da democracia.
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Hoje tudo mudou radicalmente. Aliás, é difícil a quem tem menos de trinta e cinco anos perceber a lógica de um paradoxo que colocava num dos lados da balança uma sociedade que dizia a si mesma que jamais mudaria. O nosso tempo é, com efeito, uma aventura sem precedentes, na medida em que alia a comunicação em rede (cada um de nós pode ser emissor) à disputa de princípios e valores plurais no quadro democrático. Com um grande senão: é que a democracia não decorre apenas da silhueta mais ou menos imóvel – ou imutável – das suas instituições. O que a realiza e o que a torna em garante da liberdade é a ilimitada polémica e o permanente contraditório do espaço público.
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Neste último ponto (e em certas áreas que não augurarão nunca perfeição: saúde, educação, contribuições sociais, peso do estado, etc.), a democracia em que navegamos apenas tem pela frente a ininterrupta necessidade de aprofundamento. Como se o futuro fosse, afinal, uma pena na mão de cada um de nós e não uma pena desflorada por alguém que, um dia, a todos surpreendeu. É nessa celebração diária, comprometida e activa – e não na elementarmente reivindicativa – que a metáfora de Abril poderá, ainda hoje em dia, encaixar-se. De resto, acredito fielmente que o nosso tempo é mais sadiamente revolucionário de que os anos de 74 e 75.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Descontinuidades

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Está online, desde hoje de manhã, a última crónica do Expresso: O Paradoxo de Abril. Até mais logo!

terça-feira, 22 de abril de 2008

Volta ao Mundo - 19

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Entretanto, chegou-me a última crónica da volta ao mundo da Clara Faria Piçarra e do Miguel Sacramento. Após sete meses de viagem, a origem do texto, desta vez, é o Cambodja.
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"Cambodja"
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"Hoje caem-me as palavras das mãos. Sem que repare, espalham-se no meu colo. Quase com som. Quase com peso. Palavras.
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(e eu sem bolsos)
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Verde? Guerra? Ferida? O que querem dizer? Vou escrevendo com atenção para não as perder. Lembro-me de uma memória: "Quando chegar ao Cambodja quero saber o que pensa quem vive ao lado de uma Maravilha do Mundo". Maravilha. Do. Mundo. Três palavras que caem para o chão.
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(e eu sem bolsos)
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Concentro-me. No dia que cheguei ao Cambodja perdi o medo de aqui chegar. Era assim que queria começar. (Fantasmas. Campos. Puro.). Mesmo guardadas entre parênteses interrompem o rumo da história. Porquê? Talvez por não ser uma história simples.
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Era de manhã cedo e o ar já não se respirava. Tínhamos acabado de chegar ao museu: a antiga prisão do regime Pol Pot. Estávamos numa terra ferida de morte. Sentia-se o mundo a mudar de cor, a desfazer-se em contornos. Não há livro que nos prepare para pisar a História. Mas há pessoas. Na noite anterior, sentados à porta da rua, a conversa tinha-se prolongado sem esforço. Receberam-nos com o calor dos gestos simples. Os únicos capazes de diluir os medos. Era nisso que pensava. As ossadas que via espalhadas no chão combatiam-se com a recordação da gargalhada fácil da vendedora de livros; o terror das torturas com o olhar castanho do remador do lago; a humilhação, a violação, o silêncio de milhões com o sorriso dos velhos que passavam. É muito difícil matar um povo.
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Foi assim que perdi o medo de cá chegar. E pude continuar. Pelos campos inundados de verde, pelas casas sobre estacas de madeira, pela facilidade do improviso, pelos rostos profundos de segredos íntimos. Até chegar à memória inicial. O que sente alguém por viver ao lado de uma Maravilha do Mundo? Sinto a sombra única de Angkor recortada no Lago. Sonhos? Conhecer outro lugar. Outro. Lugar. Vejo as palavras a caírem-me do colo. Quase com som. Quase com peso. Não conhece outro lugar. Apenas aqueles que não se conhecem a viajar. Silêncios que não têm geografias."
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As últimas crónicas do Expresso Online

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EPISÓDIOS E METEOROS
- 80 –
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Está na moda atacar e diabolizar os cães. Tudo começa sempre por qualquer coisa que bate certo: raças agressivas que os donos não enquadram devidamente. Mas depois, a cruzada generaliza-se e amplia-se como um grito que adoraria mortificar as consciências menos pesadas. O meu cão já é velhote e mal se levanta. Olha para mim com uma ternura paradisíaca que está nos antípodas de qualquer encruzilhada de guerra. Provavelmente já não viverá o suficiente para ver as Noites de Cristal que meio mundo educado e culto gostaria de levar a cabo hoje mesmo. A sorte que o meu Ulisses tem!
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Está também na moda atacar os fumadores. Já é um clássico. Tudo começa por uma lei que ameaça separar a normal proximidade entre o fumo do tabaco e a aspiração de um ar ilimitadamente puro e urbano. Mas depois, a cruzada faz fé e torna-se em vingança carnavalesca. E os desgraçados que, nas procissões medievais, eram pedintes ou leprosos à porta dos castelos tornam-se hoje em fumadores à porta das repartições públicas. Já há até designers a conceberem cinzeiros de rua: objectos de ferro retorcido que lembram relíquias presas a armaduras de exércitos derrotados. O meu cão gosta da ideia e se fosse mais novo, alçaria a perna e celebrava o acontecimento.
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Não vá o diabo tecê-las, a verdade é que hoje existe igualmente um certo espaço para a salvação das almas. Uma das novas deusas chama-se “Património”. O conceito é imberbe, tem poucas décadas, mas, ao lado do consumo de imagens e do corpo eternamente jovem dos ginásios, acaba por encarnar uma bela adormecida do nosso tempo. Experimentem fazer uma obra num desses locais emblemáticos que disputam o epíteto de “património mundial” e logo verão surgir a terreiro os novos iluminados, cujo sentido de vida é ordenar que o azul apareça uns cinco centímetros mais acima, que a madeira envolva a janela em vez do vento, ou que o telhado voe à altura das telhas. E se a nova religião já existisse no início do século XVI, teriam os Jerónimos sido levados a bom termo? Duvido. Muito Sinceramente. E o meu cão também.
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Há uma febre proibitiva que anda no ar. E uma outra levemente salvífica que com esta dança o tango. Verso e reverso do mesmo apego por versículos e fatwas imaginárias. Como se o mainstream do Ocidente desejasse ter a sua própria sharia. À nossa volta está, de facto, a crescer um império invisível que persegue as causas menos suspeitas e os hábitos mais elementares. E em Portugal os cidadãos, subitamente, passaram a gostar de ser mais papistas do que o papa. Mais alemães e finlandeses do que os próprios alemães e os finlandeses.
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Vivemos uma época de redenção sem doutrina. Respiramos uma vaga que se espalha como uma boa nova apostólica e tecnológica a que não faltam milagres. Qual esquerda, qual direita! As pessoas querem é que as deixem em paz: televisão, olhinho online e nada mais. E regras e mais regras para amputar o mais espontâneo e ingénuo sangue na guelra em nome de um condomínio privado chamado correcção. O meu cão fecha entretanto os olhos. Nada melhor do que a melancolia de um pouco de estrume para poder sonhar. À vontade. Sobretudo com coisas proibidas.
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EPISÓDIOS E METEOROS
- 79 –
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O campeonato do papa angélico
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Quando o meu clube não ganha o campeonato, não levo a sério nada do que se possa relacionar com futebol. Luxos menores. Mais: passo a rever na alegria alheia o sintoma da maior das idiotices da espécie humana. E descubro, menos – muitíssimo menos – nos adeptos, mas sobretudo nos seus mentores, aquele rosto visivelmente aparolado que é próprio dos alcapones de alterne. São dias em que rio à gargalhada para dentro. Como um Aladino a quem retiraram, de vez, a lâmpada mágica.
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Nestas alturas, entro suavemente naquele estado de crisálida que o futebol tão bem definiu como “defeso”, uma nova dimensão teológica do limbo que permite às almas descansar e, ao mesmo tempo, aguardar pela possibilidade de melhores dias. Nem sempre a ponte que sobrevoa o inferno – a Sirât – é assim tão desinspiradora. Disso sabe, não quem perde, mas quem por momentos deixou de ganhar. É esse o meu caso.
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Na praça da política, curiosamente, passa-se algo bastante parecido. Quase tirado a papel químico. Sabem porquê? Precisamente, porque a larga maioria das pessoas não leva os políticos muito a sério. Disso sabe toda a gente menos os visados. Os políticos, tal como os físicos no aquário das equações que só eles entendem, vivem, na maior parte do tempo, entre a lufa-lufa de um carrossel agitado que circula à volta de si mesmo. Daí a redundância e o ruído das habilidosas verves, cuja auto-imagem é prosaica e serena, mas que, vista de fora, ou seja, da feira, é essencialmente paródica e hilariante.
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O que significa que o público em geral vive como se o seu clube raramente, ou mesmo nunca, ganhasse. Ao invés, para os políticos, o clube do coração é sempre um arco-íris imbatível. Esta simetria, própria de teatros que encenam peças que nada têm em comum, só episodicamente é desfeita. Porque são poucos os momentos em que se forma um lastro de seriedade entre os políticos e o mais comum dos indígenas. E quando tal sucede, o que está em causa são sobretudo motivos simbólicos, passando, nessas alturas, os políticos a envergar as vestes sacerdotais de supremos mediadores (como aconteceu em alturas como a entrada para a CEE em 1986, a Expo98 ou o caso de Timor em 1999).
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No futebol, não há sacerdotes, nem mediadores. Apenas papas e mandamentos enviesados. Mas o lastro de seriedade, esse, bem pode morrer na praia. Recuo, por isso mesmo, ao meu limbo e tudo faço para que venham dias melhores. E aos políticos não faria mal nenhum que sobrevoassem, também, de vez em quando, a tal ponte que sobrevoa o inferno: a inspiradora Sirât.

domingo, 20 de abril de 2008