terça-feira, 22 de abril de 2008

As últimas crónicas do Expresso Online

d
EPISÓDIOS E METEOROS
- 80 –
e
Está na moda atacar e diabolizar os cães. Tudo começa sempre por qualquer coisa que bate certo: raças agressivas que os donos não enquadram devidamente. Mas depois, a cruzada generaliza-se e amplia-se como um grito que adoraria mortificar as consciências menos pesadas. O meu cão já é velhote e mal se levanta. Olha para mim com uma ternura paradisíaca que está nos antípodas de qualquer encruzilhada de guerra. Provavelmente já não viverá o suficiente para ver as Noites de Cristal que meio mundo educado e culto gostaria de levar a cabo hoje mesmo. A sorte que o meu Ulisses tem!
d
Está também na moda atacar os fumadores. Já é um clássico. Tudo começa por uma lei que ameaça separar a normal proximidade entre o fumo do tabaco e a aspiração de um ar ilimitadamente puro e urbano. Mas depois, a cruzada faz fé e torna-se em vingança carnavalesca. E os desgraçados que, nas procissões medievais, eram pedintes ou leprosos à porta dos castelos tornam-se hoje em fumadores à porta das repartições públicas. Já há até designers a conceberem cinzeiros de rua: objectos de ferro retorcido que lembram relíquias presas a armaduras de exércitos derrotados. O meu cão gosta da ideia e se fosse mais novo, alçaria a perna e celebrava o acontecimento.
d
Não vá o diabo tecê-las, a verdade é que hoje existe igualmente um certo espaço para a salvação das almas. Uma das novas deusas chama-se “Património”. O conceito é imberbe, tem poucas décadas, mas, ao lado do consumo de imagens e do corpo eternamente jovem dos ginásios, acaba por encarnar uma bela adormecida do nosso tempo. Experimentem fazer uma obra num desses locais emblemáticos que disputam o epíteto de “património mundial” e logo verão surgir a terreiro os novos iluminados, cujo sentido de vida é ordenar que o azul apareça uns cinco centímetros mais acima, que a madeira envolva a janela em vez do vento, ou que o telhado voe à altura das telhas. E se a nova religião já existisse no início do século XVI, teriam os Jerónimos sido levados a bom termo? Duvido. Muito Sinceramente. E o meu cão também.
d
Há uma febre proibitiva que anda no ar. E uma outra levemente salvífica que com esta dança o tango. Verso e reverso do mesmo apego por versículos e fatwas imaginárias. Como se o mainstream do Ocidente desejasse ter a sua própria sharia. À nossa volta está, de facto, a crescer um império invisível que persegue as causas menos suspeitas e os hábitos mais elementares. E em Portugal os cidadãos, subitamente, passaram a gostar de ser mais papistas do que o papa. Mais alemães e finlandeses do que os próprios alemães e os finlandeses.
d
Vivemos uma época de redenção sem doutrina. Respiramos uma vaga que se espalha como uma boa nova apostólica e tecnológica a que não faltam milagres. Qual esquerda, qual direita! As pessoas querem é que as deixem em paz: televisão, olhinho online e nada mais. E regras e mais regras para amputar o mais espontâneo e ingénuo sangue na guelra em nome de um condomínio privado chamado correcção. O meu cão fecha entretanto os olhos. Nada melhor do que a melancolia de um pouco de estrume para poder sonhar. À vontade. Sobretudo com coisas proibidas.
d
EPISÓDIOS E METEOROS
- 79 –
d
O campeonato do papa angélico
d
Quando o meu clube não ganha o campeonato, não levo a sério nada do que se possa relacionar com futebol. Luxos menores. Mais: passo a rever na alegria alheia o sintoma da maior das idiotices da espécie humana. E descubro, menos – muitíssimo menos – nos adeptos, mas sobretudo nos seus mentores, aquele rosto visivelmente aparolado que é próprio dos alcapones de alterne. São dias em que rio à gargalhada para dentro. Como um Aladino a quem retiraram, de vez, a lâmpada mágica.
s
Nestas alturas, entro suavemente naquele estado de crisálida que o futebol tão bem definiu como “defeso”, uma nova dimensão teológica do limbo que permite às almas descansar e, ao mesmo tempo, aguardar pela possibilidade de melhores dias. Nem sempre a ponte que sobrevoa o inferno – a Sirât – é assim tão desinspiradora. Disso sabe, não quem perde, mas quem por momentos deixou de ganhar. É esse o meu caso.
s
Na praça da política, curiosamente, passa-se algo bastante parecido. Quase tirado a papel químico. Sabem porquê? Precisamente, porque a larga maioria das pessoas não leva os políticos muito a sério. Disso sabe toda a gente menos os visados. Os políticos, tal como os físicos no aquário das equações que só eles entendem, vivem, na maior parte do tempo, entre a lufa-lufa de um carrossel agitado que circula à volta de si mesmo. Daí a redundância e o ruído das habilidosas verves, cuja auto-imagem é prosaica e serena, mas que, vista de fora, ou seja, da feira, é essencialmente paródica e hilariante.
s
O que significa que o público em geral vive como se o seu clube raramente, ou mesmo nunca, ganhasse. Ao invés, para os políticos, o clube do coração é sempre um arco-íris imbatível. Esta simetria, própria de teatros que encenam peças que nada têm em comum, só episodicamente é desfeita. Porque são poucos os momentos em que se forma um lastro de seriedade entre os políticos e o mais comum dos indígenas. E quando tal sucede, o que está em causa são sobretudo motivos simbólicos, passando, nessas alturas, os políticos a envergar as vestes sacerdotais de supremos mediadores (como aconteceu em alturas como a entrada para a CEE em 1986, a Expo98 ou o caso de Timor em 1999).
s
No futebol, não há sacerdotes, nem mediadores. Apenas papas e mandamentos enviesados. Mas o lastro de seriedade, esse, bem pode morrer na praia. Recuo, por isso mesmo, ao meu limbo e tudo faço para que venham dias melhores. E aos políticos não faria mal nenhum que sobrevoassem, também, de vez em quando, a tal ponte que sobrevoa o inferno: a inspiradora Sirât.

domingo, 20 de abril de 2008

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Episódios e Meteoros - 78

e
Crónica dos professores degolados
e
As palavras de ordem são assim: vêm, multiplicam-se e impõem-se a quem as reproduz como sintoma de uma infinita liberdade tão ilusória quanto alarve. Uma espécie de invenção da força da gravidade a sós que leva meio mundo a soletrar “É assim…”, “nesta matéria…”, “alegadamente…”, etc. Nos últimos meses, sempre que a ideia é confirmar qualquer coisa, a frase passou a terminar com “Certo?”.
ee
Um “Certo?” que corta e remata a sequência anterior.
e
No fundo, trata-se de uma interrogação breve que não espera qualquer resposta. Do mesmo modo que um slogan também não espera resposta. Como um dia o meu colega António Fidalgo escreveu, a um slogan responde-se apenas com um outro slogan. Do mesmo modo que a um “Certo?” apenas se responde como um outro “Certo?”.
e
Certo?
e
É por isso que o “Certo?” se reproduz à moda dos coelhinhos na pradaria da solidão expressiva. E não pára de se fazer ouvir como se o orgulho próprio se resumisse à capacidade de repetir “Certo?”. Mas um “Certo?” dito e reiterado de modo apropriado, sociável e particularmente correcto. Às vezes, chego a perguntar: por que não alterna o indígena o “Certo?” com o “Acerto?”? A alternância sempre dava mais ritmo e samba à doce melopeia.
e
Mas a voragem não passa apenas pelo paso doble das palavras. Longe disso. O país assistiu recentemente, sem qualquer admiração, ao frenético ‘vídeo do telemóvel’ do Liceu Carolina Michaelis. Uma repetição que culminou com a fotografia da professora (agredida) na primeira página do Público. Qualquer coisa a meio caminho entre a revolução cultural chinesa de Mao, a especiaria exótica das Índias, ou a exposição (religiosa) da vítima sem possibilidade de redenção.
e
Depois do sucesso de audiências do vídeo, a palavra de ordem fez história. E continua a fazer. Tal como acontece com os blogues há já dois anos, o YouTube inundou, subitamente e em jeito de avalanche, o caudal dos media com imagens e mais imagens de “porrada” nas salas de aulas. Como se Portugal se tivesse transformado numa cascata de múltiplos ecrãs, desenterrados do fundo dos mares, onde os peixes se comem uns aos outros com dentes aguçados e finos. Espadas, escamas e sangue. Algas, professores degolados e um som arrastado à moda dos escafandros que não mais voltarão à superfície.
e
“É assim:” (…) “Nesta matéria”, nunca digas “desta fonte não beberei!” “Jamais” (aliás, “jamés”). “Certo?”
e
(publicado desde quinta-feira no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O tempo...

O tempo a domesticar a liberdade com que normalmente aqui venho. Há alturas assim: uma enchente de afazeres e um céu tão azul quanto quase mitológico. Até logo.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Wanted

e
Depois do sucesso de audiências do vídeo, a palavra de ordem fez história. E continua a fazer. Tal como acontece com os blogues há já dois anos, o YouTube inundou, subitamente e em jeito de avalanche, o caudal dos media com imagens e mais imagens de “porrada” nas salas de aulas. Como se Portugal se tivesse transformado numa cascata de múltiplos ecrãs, desenterrados do fundo dos mares, onde os peixes se comem uns aos outros com dentes aguçados e finos. Espadas, escamas e sangue. Algas, professores degolados e um som arrastado à moda dos escafandros que não mais voltarão à superfície.
e
(ver versão completa a partir da próxima quinta-feira no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)

domingo, 30 de março de 2008

Episódios e Meteoros - 77

we
O testemunho único de dois portugueses no Tibete
e
(crónica publicada, desde quinta-feira passada, no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
es
Desde Setembro passado que o meu blogue publica as crónicas da volta ao mundo de dois amigos aventurosos: a Clara Piçarra, tecedeira de escritas e neta do saudoso Luís Piçarra, e Miguel Sacramento, fotógrafo. Os quase vinte testemunhos editados, nos últimos sete meses, abrangem latitudes muito variadas: Havana, Galápagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, Polinésia, Ilha da Páscoa, Nova Zelândia, Austrália, sem esquecer Tahiti, Moorea, Huaihine ou Raiatea. A penúltima crónica que recebi veio da China e ligava, com sabedoria, a intimidade do fascínio com a visão abismada daquilo que, à partida, se revela como estranho:
s
“Atravessar uma estrada, entrar num autocarro, perguntar onde estamos, saber o que comemos. Gestos simples são elevados à incompreensão. E nós, caídos num mundo novo e sem preparação, descobrimos vozes que estão para além da palavra. Aprendemos uma nova linguagem. A da existência”. Esta crónica – que pode ser lida na íntegra
aqui – foi publicada no dia 10 de Março, mas tinha sido recebida seis dias antes. Na carta que a acompanhava, a Clara escrevia: “Chegámos ontem ao Tibete, após uma viagem de 48h de comboio. Como tenho que reaprender a respirar neste ‘Topo do Mundo’, aproveito para enviar o texto da China. Para mim, a China ficou do outro lado dos Himalaias”.
s
Devo dizer que o tom algo insondável que percorria a crónica me fez desejar a sua rápida continuação, porventura a partir da Índia. Mas não. Dez dias depois, precisamente a 20 de Março, soou o alarme. Num
brevíssimo mail, já no Nepal, a Clara e o Miguel revelavam ter presenciado o início da barbárie: “Fomos os dois (eu e o Miguel) as únicas testemunhas do princípio de tudo (no mosteiro de Drepung, onde estávamos no dia 10 de Março, por acaso)”. Na crónica enviada no dia seguinte, tudo se deslindava: “Ninguém olhava para trás. O medo envolvia os corpos. O que se passa? Responderam-nos: um fogo; exercícios… duas vozes fardadas. Queríamos voltar para trás. Já não conseguíamos ver as caras, apenas roupas vermelhas abafadas por uma força violenta. Armada. Foi o início. Sabemos que muitos desses monges morreram no final desse dia.”
s
A publicação no Miniscente das variadas missivas, mensagens e crónicas, quase em tempo real, desencadeou um interessante diálogo com jornalistas, mas também o registo abjecto de comentários nos vários posts. Nestas alturas, quando a liberdade se impõe como tema primeiro, há sempre quem prefira instrumentalizar. E, neste caso, a abjecção chegou mesmo a legitimar a violência chinesa em nome – imagine-se – de interesses ditos nebulosos.
s
As últimas palavras que recebi da Clara Piçarra – no momento em que escrevo esta crónica – tornaram-se, de qualquer modo, reveladoras: “As imagens violentíssimas e não oficiais (vídeos e fotografias) que vimos já em Kathmandu presumo que nunca irão ser passadas para os olhos do mundo... Fica apenas o nosso depoimento. Tenho uma pena desmedida do povo tibetano e chinês, mas fico feliz que em Portugal, pelo menos, se possa expressar a opinião. Quer sejam as do Luís que comenta no Miniscente ou totalmente contrárias. Acho que só isso mostra tudo”.
s
A esta elementar e fundada resposta à abjecção, apenas acrescentaria uma derradeira nota: A liberdade é um bem tão precioso quanto, por vezes, demasiado invisível para quem nela respira e habita. Como se fosse um dado adquirido. É esse o problema de quem persiste em não querer ver a realidade em nome de receituários e dogmas, cujo simplismo tem, no mínimo, a marca do ignóbil.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Cerveja e literatura - 69

e
“(…) O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das camionetas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo, rios que a chuva engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos, o tenente-coronel eternamente aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para os negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo.”
d
(António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, (1979) 2001, p. 143; Participação: Maria João Eloy
)