segunda-feira, 7 de abril de 2008

Episódios e Meteoros - 78

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Crónica dos professores degolados
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As palavras de ordem são assim: vêm, multiplicam-se e impõem-se a quem as reproduz como sintoma de uma infinita liberdade tão ilusória quanto alarve. Uma espécie de invenção da força da gravidade a sós que leva meio mundo a soletrar “É assim…”, “nesta matéria…”, “alegadamente…”, etc. Nos últimos meses, sempre que a ideia é confirmar qualquer coisa, a frase passou a terminar com “Certo?”.
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Um “Certo?” que corta e remata a sequência anterior.
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No fundo, trata-se de uma interrogação breve que não espera qualquer resposta. Do mesmo modo que um slogan também não espera resposta. Como um dia o meu colega António Fidalgo escreveu, a um slogan responde-se apenas com um outro slogan. Do mesmo modo que a um “Certo?” apenas se responde como um outro “Certo?”.
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Certo?
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É por isso que o “Certo?” se reproduz à moda dos coelhinhos na pradaria da solidão expressiva. E não pára de se fazer ouvir como se o orgulho próprio se resumisse à capacidade de repetir “Certo?”. Mas um “Certo?” dito e reiterado de modo apropriado, sociável e particularmente correcto. Às vezes, chego a perguntar: por que não alterna o indígena o “Certo?” com o “Acerto?”? A alternância sempre dava mais ritmo e samba à doce melopeia.
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Mas a voragem não passa apenas pelo paso doble das palavras. Longe disso. O país assistiu recentemente, sem qualquer admiração, ao frenético ‘vídeo do telemóvel’ do Liceu Carolina Michaelis. Uma repetição que culminou com a fotografia da professora (agredida) na primeira página do Público. Qualquer coisa a meio caminho entre a revolução cultural chinesa de Mao, a especiaria exótica das Índias, ou a exposição (religiosa) da vítima sem possibilidade de redenção.
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Depois do sucesso de audiências do vídeo, a palavra de ordem fez história. E continua a fazer. Tal como acontece com os blogues há já dois anos, o YouTube inundou, subitamente e em jeito de avalanche, o caudal dos media com imagens e mais imagens de “porrada” nas salas de aulas. Como se Portugal se tivesse transformado numa cascata de múltiplos ecrãs, desenterrados do fundo dos mares, onde os peixes se comem uns aos outros com dentes aguçados e finos. Espadas, escamas e sangue. Algas, professores degolados e um som arrastado à moda dos escafandros que não mais voltarão à superfície.
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“É assim:” (…) “Nesta matéria”, nunca digas “desta fonte não beberei!” “Jamais” (aliás, “jamés”). “Certo?”
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(publicado desde quinta-feira no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O tempo...

O tempo a domesticar a liberdade com que normalmente aqui venho. Há alturas assim: uma enchente de afazeres e um céu tão azul quanto quase mitológico. Até logo.

segunda-feira, 31 de março de 2008

Wanted

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Depois do sucesso de audiências do vídeo, a palavra de ordem fez história. E continua a fazer. Tal como acontece com os blogues há já dois anos, o YouTube inundou, subitamente e em jeito de avalanche, o caudal dos media com imagens e mais imagens de “porrada” nas salas de aulas. Como se Portugal se tivesse transformado numa cascata de múltiplos ecrãs, desenterrados do fundo dos mares, onde os peixes se comem uns aos outros com dentes aguçados e finos. Espadas, escamas e sangue. Algas, professores degolados e um som arrastado à moda dos escafandros que não mais voltarão à superfície.
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(ver versão completa a partir da próxima quinta-feira no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)

domingo, 30 de março de 2008

Episódios e Meteoros - 77

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O testemunho único de dois portugueses no Tibete
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(crónica publicada, desde quinta-feira passada, no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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Desde Setembro passado que o meu blogue publica as crónicas da volta ao mundo de dois amigos aventurosos: a Clara Piçarra, tecedeira de escritas e neta do saudoso Luís Piçarra, e Miguel Sacramento, fotógrafo. Os quase vinte testemunhos editados, nos últimos sete meses, abrangem latitudes muito variadas: Havana, Galápagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, Polinésia, Ilha da Páscoa, Nova Zelândia, Austrália, sem esquecer Tahiti, Moorea, Huaihine ou Raiatea. A penúltima crónica que recebi veio da China e ligava, com sabedoria, a intimidade do fascínio com a visão abismada daquilo que, à partida, se revela como estranho:
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“Atravessar uma estrada, entrar num autocarro, perguntar onde estamos, saber o que comemos. Gestos simples são elevados à incompreensão. E nós, caídos num mundo novo e sem preparação, descobrimos vozes que estão para além da palavra. Aprendemos uma nova linguagem. A da existência”. Esta crónica – que pode ser lida na íntegra
aqui – foi publicada no dia 10 de Março, mas tinha sido recebida seis dias antes. Na carta que a acompanhava, a Clara escrevia: “Chegámos ontem ao Tibete, após uma viagem de 48h de comboio. Como tenho que reaprender a respirar neste ‘Topo do Mundo’, aproveito para enviar o texto da China. Para mim, a China ficou do outro lado dos Himalaias”.
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Devo dizer que o tom algo insondável que percorria a crónica me fez desejar a sua rápida continuação, porventura a partir da Índia. Mas não. Dez dias depois, precisamente a 20 de Março, soou o alarme. Num
brevíssimo mail, já no Nepal, a Clara e o Miguel revelavam ter presenciado o início da barbárie: “Fomos os dois (eu e o Miguel) as únicas testemunhas do princípio de tudo (no mosteiro de Drepung, onde estávamos no dia 10 de Março, por acaso)”. Na crónica enviada no dia seguinte, tudo se deslindava: “Ninguém olhava para trás. O medo envolvia os corpos. O que se passa? Responderam-nos: um fogo; exercícios… duas vozes fardadas. Queríamos voltar para trás. Já não conseguíamos ver as caras, apenas roupas vermelhas abafadas por uma força violenta. Armada. Foi o início. Sabemos que muitos desses monges morreram no final desse dia.”
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A publicação no Miniscente das variadas missivas, mensagens e crónicas, quase em tempo real, desencadeou um interessante diálogo com jornalistas, mas também o registo abjecto de comentários nos vários posts. Nestas alturas, quando a liberdade se impõe como tema primeiro, há sempre quem prefira instrumentalizar. E, neste caso, a abjecção chegou mesmo a legitimar a violência chinesa em nome – imagine-se – de interesses ditos nebulosos.
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As últimas palavras que recebi da Clara Piçarra – no momento em que escrevo esta crónica – tornaram-se, de qualquer modo, reveladoras: “As imagens violentíssimas e não oficiais (vídeos e fotografias) que vimos já em Kathmandu presumo que nunca irão ser passadas para os olhos do mundo... Fica apenas o nosso depoimento. Tenho uma pena desmedida do povo tibetano e chinês, mas fico feliz que em Portugal, pelo menos, se possa expressar a opinião. Quer sejam as do Luís que comenta no Miniscente ou totalmente contrárias. Acho que só isso mostra tudo”.
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A esta elementar e fundada resposta à abjecção, apenas acrescentaria uma derradeira nota: A liberdade é um bem tão precioso quanto, por vezes, demasiado invisível para quem nela respira e habita. Como se fosse um dado adquirido. É esse o problema de quem persiste em não querer ver a realidade em nome de receituários e dogmas, cujo simplismo tem, no mínimo, a marca do ignóbil.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Cerveja e literatura - 69

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“(…) O Leste? Ainda lá estou de certo modo, sentado ao lado do condutor numa das camionetas da coluna, a pular pelas picadas de areia a caminho de Malanje. Ninda, Luate, Lusse, Nengo, rios que a chuva engrossara sob as pontes de pau, aldeias de leprosos, a terra vermelha de Gago Coutinho que se prende à pele e aos cabelos, o tenente-coronel eternamente aflito a encolher os ombros diante do licor de cacau, os agentes da PIDE no café do Mete-Lenha, lançando soslaios foscos de ódio para os negros que bebiam nas mesas próximas as cervejas tímidas do medo.”
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(António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Publicações Dom Quixote, Lisboa, (1979) 2001, p. 143; Participação: Maria João Eloy
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terça-feira, 25 de março de 2008

Para além de qualquer lamento

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O texto na página 4 do P2 (da edição impressa de hoje) do Público começa assim:
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"Miguel Sacramento está a dar uma volta ao mundo com a namorada, Clara Piçarra. Foram ao Tibete para ver a "cultura única" e a "beleza natural" do Tecto do Mundo. Mas viram outras coisas. Viram polícias e militares por toda a parte."
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Tenho pena que a Francisca Gorjão Henriques não tenha revelado, pelo menos, o ponto de partida para este seu trabalho. Não seria obrigatório, mas eu confesso que, se tivesse escrito um post no Miniscente baseado numa informação original ligada ao Público, decerto que a teria revelado (ainda que em minúsculas - como faço com as imagens). Custa-me muito escrever isto em público, sublinho, porque gosto especialmente da Francisca. Mas não posso deixar de o fazer.

Episódios e Meteoros - 76

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(crónica publicada, desde quinta-feira passada, no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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Uma apologia de Miguel Esteves Cardoso
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Houve um tempo português em que a crónica quis libertar a sina do sinal. Por outras palavras: retirar o telhado pesadão a uma escrita que exagerava em verosimilhança e em pessoana seriedade. Foi nos anos oitenta, vivia eu na Holanda e era assinante do Expresso.
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Miguel Esteves Cardoso foi o papa angélico da feliz cenografia que acabou por ter imensa influência na geração que se seguiu ao demiúrgico Turn. Década e meia depois, a blogosfera lusitana herdaria parte da emboscada expressiva em muitos dos seus melhores cultores. Este é um campo ainda virgem, por estudar, por auscultar. Por desbravar.
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Nessa lenta peregrinação, que ajudou a desmontar o binário a diesel da ideologia (isto é: da escrita baseada na prova, na farpa previsível ou no bate-bate pimba dos receituários), a crónica ganhou novos sabores e saberes. Ao fim e ao cabo, entre a imagem escrita e o que ela sugeriria, deixou de haver um casamento perfeito e monolítico. As palavras passaram subitamente a reinventar-se ao jeito de um jogo de damas sem fim. Um cachalote a escalar a montanha ou Luís Filipe Menezes a falar sobre Sísifo seriam assim – e não serão? – coisas parecidas. E não tanto pelo facto de os habitantes de Creta serem cretinos ou os de Malta serem apenas malteses.
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Diga o que disser Kundera, a leveza sempre foi matéria cinematográfica. Imagens fortes, pois então. E já o era séculos antes de haver cinema, sob a forma de sombra e luz projectadas num quarto escuro em tudo parecido às circunvalações neurais. No fundo, é este tipo de leveza que permite a uma boa escrita não depender apenas do que diz (ou do que refere). A crónica é sempre uma síntese, um simples electrão, ou melhor: a própria electricidade mais estética do que estática. E é por isso mesmo uma bênção e um hiato que se recolhe na boca que a lê e digere – à moda das pastilhas elásticas – com humor e leveza (se possível).
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Nunca conheci pessoalmente Miguel Esteves Cardoso, embora na minha pré-história universitária ele tenha frequentado a mesma escola de jesuítas que eu frequentei. E na mesma época, segredam-me os botões de punho. Na altura em que o MEC passa uma fase difícil, queria aqui relembrar a Causa destas Coisas todas. Ainda que por vezes o personagem me tenha entaliscasdo o juízo (e me cheirasse a redundância), nada ofusca os deleites que vivi na Palmstraat Nº 90, quando, pelo correio, me chegava o Expresso fresquinho entre discursos do Gorbatchov, romances de Sollers e o saudoso cata-vento televisivo chamado VPRO. Foi aí que percebi que algo estava a mudar na arte lusa da crónica. E percebi bem.

segunda-feira, 24 de março de 2008

O Tibete e a liberdade (continuação)

NCN
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O ruído quase abjecto que atravessa os comentários ao post anterior leva-me a tornar público mais algumas palavras da Clara Piçarra e do Miguel Sacramento, ainda no Nepal, mas com a memória cheia do que viram (com os seus próprios olhos) no Tibete:
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"Já fomos entrevistados pela TSF, Expresso e Público (pela Rádio Renascenca provavelmente hoje à noite). Amanhã partimos para a montanha para umas caminhadas incontactáveis. Depois continuaremos a Volta ao Mundo para o Sudeste Asiático. Tudo o que se passou no Tibete ficar-nos-á na memória. As imagens violentíssimas e não oficiais (vídeos e fotografias) que vimos já em Kathmandu presumo que nunca irão ser passadas para os olhos do mundo... Fica apenas o nosso depoimento."
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"Tenho uma pena desmedida do povo tibetano e chinês, mas fico feliz que em Portugal, pelo menos, se possa expressar a opinião. Quer sejam as do Luís que comenta no Miniscente ou totalmente contrárias. Acho que só isso mostra tudo."
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Continuarei à espera - serenamente - das próximas crónicas dessa longa volta ao mundo que se iniciou em Setembro passado e que já dobrou a América do sul, o Pacífico, a Austrália, a Nova Zelândia, a China e... como se sabe... o Tibete na chamada 'hora H' da barbárie. A liberdade é um bem tão precioso quanto, por vezes, demasiado invisível para quem nela respira. É esse o problema de quem não quer ver a realidade em nome de gramáticas, receituários e dogmas subterrâneos.

sábado, 22 de março de 2008

Tibete: ainda a denúncia em directo

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O jornal Phayul mostra, pela primeira vez, os portugueses que viram tudo começar no Tibete. À direita, ao lado de Steven Dubois e de Ulkike Lakiere, pode ver-se a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento (ver crónica de ambos em baixo e demais notícias).

sexta-feira, 21 de março de 2008

Volta ao Mundo - 17

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A Clara acaba, neste momento, de me enviar um texto do Nepal. Sei que vai falar aos jornais em breve, mas deixo - agora aqui - a sua crónica (e a foto do Miguel):
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"Tibete"
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"Não sou jornalista.
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Acrescento sempre palavras ao que vejo. E guardo outras, num recanto do meu egoísmo. Não acreditem no que escrevo, pensem apenas. Porque pode ser verdade.
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Quem é que nunca sentiu a surpresa de uma notícia? Ou o susto de uma bomba de Carnaval? Ou encontrou um conhecido num lugar improvável? Ou se queimou, se arrependeu, pisou um buraco? Momentos… momentos… momentos… em que não temos tempo para controlar a parte de dentro do corpo. Era dia 10 de Março. E o maior desses momentos aconteceu. Descíamos a rua do Mosteiro de Drepung, com dezenas de monges, em debates e amizades criadas pelo puro acaso durante todo esse dia. Um falava sobre a importância da data, outro de liberdade, da vida, de estarem a um passo de ter voz. Apenas voz. Nem cabíamos dentro da pele. Os únicos diferentes do meio, mas no meio. Entre sorrisos vermelhos e vestidos de confiança, faláv… Sinto um braço a puxar-me, a rua bloqueada, e tanta gente. Polícias de choque, militares, camiões, um barulho confuso a impedir o caminho para Lassa. E um braço. A insistir, a puxar-me. Num segundo levou-nos para o outro lado da rua. Vi que era um polícia. Não podem estar aqui. Continuem a andar. Do outro lado os monges, num silêncio cada vez mais afastado. Mais carros, e homens, e carros, e homens. Sem farda. Fecharam as lojas, fecharam as casas. Voltaram. Tiraram as pessoas das casas. Continuem a andar. Ninguém olhava para trás. O medo envolvia os corpos. O que se passa? Responderam-nos: um fogo; exercícios… duas vozes fardadas. Queríamos voltar para trás. Já não conseguíamos ver as caras, apenas roupas vermelhas abafadas por uma força violenta. Armada.
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Foi o início. Sabemos que muitos desses monges morreram no final desse dia.
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Após quilómetros a andar por estradas de terra não batida, a tentar inventar ruelas que nos levassem a testemunhar a prepotência militar e policial sobre pessoas desarmadas, descobrimos o pior. A nossa impotência. O bloqueio estendia-se ao inimaginável, até nenhum som vindo do Mosteiro se conseguir ouvir. Máquinas fotográficas inspeccionadas ao milímetro, questionados ao milímetro, desde esse instante, controlados ao milímetro. Telefones, internet, conversas, gestos e decisões. Tínhamos sido as únicas testemunhas do início, da violência utilizada sem justificações de defesa, da experiência que demonstraram, da rapidez com que limparam o local de olhos e provas, da postura silenciosa daqueles monges. Os sete dias até à chegada ao Nepal, por terra, a dormir em pequenas aldeias no meio dos Himalaias, ficaram marcados pela tentativa de criar medo. Presos nos quartos, revistados, identificação constantemente exigida na estrada e após a única consulta do e-mail, horas passadas na fronteira… Mas não foi o que mais me assustou. Foi a certeza do que vi: o controlo do povo chinês e tibetano levado ao extremo por violência e impunidade; a quantidade sem fim de agentes à paisana ou pessoas que a troco de uns sapatos novos falam do que se passa na casa ao lado; o medo; a propaganda; a confissão assustada de que a falta de direitos humanos ultrapassa o não ter pão. Aqui morre-se por ter opinião.
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Tudo o resto que vivi no Tibete ultrapassa um texto legível… por enquanto. Mas tenho voz. E não me esqueço."