terça-feira, 25 de março de 2008

Para além de qualquer lamento

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O texto na página 4 do P2 (da edição impressa de hoje) do Público começa assim:
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"Miguel Sacramento está a dar uma volta ao mundo com a namorada, Clara Piçarra. Foram ao Tibete para ver a "cultura única" e a "beleza natural" do Tecto do Mundo. Mas viram outras coisas. Viram polícias e militares por toda a parte."
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Tenho pena que a Francisca Gorjão Henriques não tenha revelado, pelo menos, o ponto de partida para este seu trabalho. Não seria obrigatório, mas eu confesso que, se tivesse escrito um post no Miniscente baseado numa informação original ligada ao Público, decerto que a teria revelado (ainda que em minúsculas - como faço com as imagens). Custa-me muito escrever isto em público, sublinho, porque gosto especialmente da Francisca. Mas não posso deixar de o fazer.

Episódios e Meteoros - 76

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(crónica publicada, desde quinta-feira passada, no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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Uma apologia de Miguel Esteves Cardoso
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Houve um tempo português em que a crónica quis libertar a sina do sinal. Por outras palavras: retirar o telhado pesadão a uma escrita que exagerava em verosimilhança e em pessoana seriedade. Foi nos anos oitenta, vivia eu na Holanda e era assinante do Expresso.
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Miguel Esteves Cardoso foi o papa angélico da feliz cenografia que acabou por ter imensa influência na geração que se seguiu ao demiúrgico Turn. Década e meia depois, a blogosfera lusitana herdaria parte da emboscada expressiva em muitos dos seus melhores cultores. Este é um campo ainda virgem, por estudar, por auscultar. Por desbravar.
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Nessa lenta peregrinação, que ajudou a desmontar o binário a diesel da ideologia (isto é: da escrita baseada na prova, na farpa previsível ou no bate-bate pimba dos receituários), a crónica ganhou novos sabores e saberes. Ao fim e ao cabo, entre a imagem escrita e o que ela sugeriria, deixou de haver um casamento perfeito e monolítico. As palavras passaram subitamente a reinventar-se ao jeito de um jogo de damas sem fim. Um cachalote a escalar a montanha ou Luís Filipe Menezes a falar sobre Sísifo seriam assim – e não serão? – coisas parecidas. E não tanto pelo facto de os habitantes de Creta serem cretinos ou os de Malta serem apenas malteses.
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Diga o que disser Kundera, a leveza sempre foi matéria cinematográfica. Imagens fortes, pois então. E já o era séculos antes de haver cinema, sob a forma de sombra e luz projectadas num quarto escuro em tudo parecido às circunvalações neurais. No fundo, é este tipo de leveza que permite a uma boa escrita não depender apenas do que diz (ou do que refere). A crónica é sempre uma síntese, um simples electrão, ou melhor: a própria electricidade mais estética do que estática. E é por isso mesmo uma bênção e um hiato que se recolhe na boca que a lê e digere – à moda das pastilhas elásticas – com humor e leveza (se possível).
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Nunca conheci pessoalmente Miguel Esteves Cardoso, embora na minha pré-história universitária ele tenha frequentado a mesma escola de jesuítas que eu frequentei. E na mesma época, segredam-me os botões de punho. Na altura em que o MEC passa uma fase difícil, queria aqui relembrar a Causa destas Coisas todas. Ainda que por vezes o personagem me tenha entaliscasdo o juízo (e me cheirasse a redundância), nada ofusca os deleites que vivi na Palmstraat Nº 90, quando, pelo correio, me chegava o Expresso fresquinho entre discursos do Gorbatchov, romances de Sollers e o saudoso cata-vento televisivo chamado VPRO. Foi aí que percebi que algo estava a mudar na arte lusa da crónica. E percebi bem.

segunda-feira, 24 de março de 2008

O Tibete e a liberdade (continuação)

NCN
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O ruído quase abjecto que atravessa os comentários ao post anterior leva-me a tornar público mais algumas palavras da Clara Piçarra e do Miguel Sacramento, ainda no Nepal, mas com a memória cheia do que viram (com os seus próprios olhos) no Tibete:
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"Já fomos entrevistados pela TSF, Expresso e Público (pela Rádio Renascenca provavelmente hoje à noite). Amanhã partimos para a montanha para umas caminhadas incontactáveis. Depois continuaremos a Volta ao Mundo para o Sudeste Asiático. Tudo o que se passou no Tibete ficar-nos-á na memória. As imagens violentíssimas e não oficiais (vídeos e fotografias) que vimos já em Kathmandu presumo que nunca irão ser passadas para os olhos do mundo... Fica apenas o nosso depoimento."
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"Tenho uma pena desmedida do povo tibetano e chinês, mas fico feliz que em Portugal, pelo menos, se possa expressar a opinião. Quer sejam as do Luís que comenta no Miniscente ou totalmente contrárias. Acho que só isso mostra tudo."
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Continuarei à espera - serenamente - das próximas crónicas dessa longa volta ao mundo que se iniciou em Setembro passado e que já dobrou a América do sul, o Pacífico, a Austrália, a Nova Zelândia, a China e... como se sabe... o Tibete na chamada 'hora H' da barbárie. A liberdade é um bem tão precioso quanto, por vezes, demasiado invisível para quem nela respira. É esse o problema de quem não quer ver a realidade em nome de gramáticas, receituários e dogmas subterrâneos.

sábado, 22 de março de 2008

Tibete: ainda a denúncia em directo

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O jornal Phayul mostra, pela primeira vez, os portugueses que viram tudo começar no Tibete. À direita, ao lado de Steven Dubois e de Ulkike Lakiere, pode ver-se a Clara Piçarra e o Miguel Sacramento (ver crónica de ambos em baixo e demais notícias).

sexta-feira, 21 de março de 2008

Volta ao Mundo - 17

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A Clara acaba, neste momento, de me enviar um texto do Nepal. Sei que vai falar aos jornais em breve, mas deixo - agora aqui - a sua crónica (e a foto do Miguel):
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"Tibete"
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"Não sou jornalista.
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Acrescento sempre palavras ao que vejo. E guardo outras, num recanto do meu egoísmo. Não acreditem no que escrevo, pensem apenas. Porque pode ser verdade.
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Quem é que nunca sentiu a surpresa de uma notícia? Ou o susto de uma bomba de Carnaval? Ou encontrou um conhecido num lugar improvável? Ou se queimou, se arrependeu, pisou um buraco? Momentos… momentos… momentos… em que não temos tempo para controlar a parte de dentro do corpo. Era dia 10 de Março. E o maior desses momentos aconteceu. Descíamos a rua do Mosteiro de Drepung, com dezenas de monges, em debates e amizades criadas pelo puro acaso durante todo esse dia. Um falava sobre a importância da data, outro de liberdade, da vida, de estarem a um passo de ter voz. Apenas voz. Nem cabíamos dentro da pele. Os únicos diferentes do meio, mas no meio. Entre sorrisos vermelhos e vestidos de confiança, faláv… Sinto um braço a puxar-me, a rua bloqueada, e tanta gente. Polícias de choque, militares, camiões, um barulho confuso a impedir o caminho para Lassa. E um braço. A insistir, a puxar-me. Num segundo levou-nos para o outro lado da rua. Vi que era um polícia. Não podem estar aqui. Continuem a andar. Do outro lado os monges, num silêncio cada vez mais afastado. Mais carros, e homens, e carros, e homens. Sem farda. Fecharam as lojas, fecharam as casas. Voltaram. Tiraram as pessoas das casas. Continuem a andar. Ninguém olhava para trás. O medo envolvia os corpos. O que se passa? Responderam-nos: um fogo; exercícios… duas vozes fardadas. Queríamos voltar para trás. Já não conseguíamos ver as caras, apenas roupas vermelhas abafadas por uma força violenta. Armada.
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Foi o início. Sabemos que muitos desses monges morreram no final desse dia.
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Após quilómetros a andar por estradas de terra não batida, a tentar inventar ruelas que nos levassem a testemunhar a prepotência militar e policial sobre pessoas desarmadas, descobrimos o pior. A nossa impotência. O bloqueio estendia-se ao inimaginável, até nenhum som vindo do Mosteiro se conseguir ouvir. Máquinas fotográficas inspeccionadas ao milímetro, questionados ao milímetro, desde esse instante, controlados ao milímetro. Telefones, internet, conversas, gestos e decisões. Tínhamos sido as únicas testemunhas do início, da violência utilizada sem justificações de defesa, da experiência que demonstraram, da rapidez com que limparam o local de olhos e provas, da postura silenciosa daqueles monges. Os sete dias até à chegada ao Nepal, por terra, a dormir em pequenas aldeias no meio dos Himalaias, ficaram marcados pela tentativa de criar medo. Presos nos quartos, revistados, identificação constantemente exigida na estrada e após a única consulta do e-mail, horas passadas na fronteira… Mas não foi o que mais me assustou. Foi a certeza do que vi: o controlo do povo chinês e tibetano levado ao extremo por violência e impunidade; a quantidade sem fim de agentes à paisana ou pessoas que a troco de uns sapatos novos falam do que se passa na casa ao lado; o medo; a propaganda; a confissão assustada de que a falta de direitos humanos ultrapassa o não ter pão. Aqui morre-se por ter opinião.
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Tudo o resto que vivi no Tibete ultrapassa um texto legível… por enquanto. Mas tenho voz. E não me esqueço."

quinta-feira, 20 de março de 2008

Em directo do Tibete: a denúncia

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Não sou capaz de não tornar público o mail que acabo de receber de uma amiga que saiu ontem do Tibete e que testemunhou o início de tudo (deixo o mail como me chegou, acentos incluídos). A Clara e o Miguel - é deles que se trata - têm enviado aqui para o Minscente as crónicas da sua volta ao mundo - que me desculpem! Sei bem que me irão desculpar:
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"Meus queridos amigos,
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Cheguei ontem ao Nepal, apos dias muito violentos passados no Tibete.Estou muito muito cansada. Um cansaco diferente... estou sem energia. Tenho que comer e descansar, para conseguir por as ideias mais claras e escrever sobre tudo o que aconteceu. Espero que para o Miniscente, Luis, se conseguir.
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Mas, agora que posso, tenho que comecar a falar. Devem saber o que se passa no Tibete... O que vos posso dizer eh que tudo eh muito mais violento do que mostram na televisao. Foi muito muito violento. Para os tibetanos vai ser um massacre. Nunca vamos saber quantos morreram ou morrerao. Para nos, alem de violento psicologicamente, foi mais perigoso porque acabou por se saber que fomos os dois (eu e o Miguel) as unicas testemunhas do principio de tudo (no mosteiro de Drepung, onde estavamos no dia 10 de Marco, por acaso).
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Ficamos imediatamente controlados pela policia ao ponto de, a caminho para o Nepal, nos dizerem que estavamos presos no hotel. Nunca tinha sentido o que era estar "presa" nao porque tivesse feito alguma coisa mas porque nao queriam que falassemos. O nosso mail e telefone ficaram, tambem, imediatamente controlados e as nossas maquinas fotograficas bem inspeccionadas.
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Vimos a maior violencia policial que podem maginar, sobre pessoas desarmadas. Nao vimos ninguem morrer, mas sabemos que muitos dos monges com quem estivemos durante todo o dia 10, morreram depois, nesse mesmo dia. Vai ser um massacre em Lassa. Tudo o que disserem nas noticias de contrario podem acreditar que eh mentira. Ha lugares no mundo onde pessoas morrem por terem opiniao. Nao se passa apenas na distancia da televisao, ou em filmes com actores conhecidos, passa-se na realidade e muito perto de nos.
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Desculpem a violencia do mail. Nao vos contei nem metade do que vi e vivi nestes dias. Mas nao posso ficar mais dias em silencio.
Espero que compreendam...
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Muitos beijos. Adoro-vos.Clara
(Espero que o que se esta a passar no Tibete nao seja esquecido mal comece o Europeu de Futebol...)"

Boa Páscoa!

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BOA PÁSCOA!

A atenção de Paulo Querido

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Óptimo texto do Paulo Querido sobre o lançamento e discussão do meu livro A Expressão na Rede - O Caso dos Blogues. Esta questão da verdade vs. sentido (os grandes Turns da segunda metade do século XX) assim como a questão da verdade vs. ficção (cuja superação remete para o hiper-real) constituem, afinal, temas actualíssimos e que, na minha modesta opinião, se reflectem, com rara nitidez, no universo dos blogues. Só que meio mundo... não gosta de discussões e reflexão acerca destes reflexos (passe a redundância activa). Paulo Querido é excepção. Um abraço.

terça-feira, 18 de março de 2008

Episódios e Meteoros - 75

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Esquerda? direita? Tetraodon Nigroviridis sorriu e exclamou: “Angústias”. E continuou, lucubrando sobre a espécie humana: as pessoas precisam de um horizonte, de uma congruência forçada. As pessoas precisam de atribuir uma lógica contínua ao que fazem e ao que dizem. As pessoas precisam de herdar o que lhes dá mais jeito. Uma questão de economia. Mas também de liberdade. Por vezes untada e em série, outras vezes “desmassificada” (para utilizar o termo do casal Toffler). Outras vezes ainda… nem isso.
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(ver crónica completa no Expresso Online ou no meu blogue de crónicas)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Risos - 11

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Na Retória, Aristóteles evoca um livro que viria a perder-se:
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“Semelhantemente, como são agradáveis o jogo, toda a espécie de folga e o riso, também o que é risível deve ser agradável, tanto pessoas, como palavras e obras. [1372a] As coisas risíveis foram definidas separadamente nos livros sobre a Poética. Eis o que tínhamos para dizer sobre as coisas agradáveis; as dolorosas são manifestas pelos seus contrários.”
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(Tradução e notas de Manuel Alexandre Júnior, Paulo Farmhouse Alberto e Abel do Nascimento Pera, INCM, Lisboa, 1988, p.88)