sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Os vilipêndios e o poder temporal

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Almeida Pereira voltou atrás e, de um momento para o outro, recusou o convite do ministro da justiça (que antes aceitara...) para dirigir a Polícia Judiciária do Porto. Num comunicado interessante e curto, o magistrado explicou a súbita recusa, alegando ter sido «objecto de calúnias, infâmias e vilipêndios de proveniência nunca assumida», desde o momento em que se tornou pública a possibilidade de se (re)posicionar em terras invictas. Um dia, far-se-á a história da real influência papal (em vários sentidos) nestas e em muitas outras ocorrências. Ou pensam que o relvado é um reino que cabe apenas dentro das quatro linhas? Não haja ingenuidade: há reinos de impunidade de que nem Garibaldi gostaria de se aproximar. Os próximos episódios prometem: as nomeações que se seguirem terão sempre em conta, não tanto o que é uma polícia, mas sim o cheiro de um balneário. Enganar-me-ei?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Risos - 10

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Hoje... começo o dia com um tom bastante incorrecto. É daqueles posts que 'parecem mesmo mal' (acho o máximo esta dupla 'parecer bem' e 'parecer mal' em Português maiúsculo: um refinamento). Pois, o texto é do Pasolini, personagem não muito aconselhável politicamente, mas genial noutros universos. A propósito, lembro-me de ter visto, em 1981, na 'Casa da Comédia', A Paixão segundo P. P. Pasolini (por La Feria, imagine-se) e o cenário, caótico e desnudado, extravasava fantasmas e encarava o cânone com grande inteligência. Mas deixemo-nos de preparativos e avancemos para a carne do post. Tudo se passa no meio de uma cena erótica. A certa altura, Pasolini deixa o leitor respirar um bocadinho e escreve o seguinte (não liguem ao nome, certo?):
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“Era isso, Carmelo acariciava a cabeça de Carlo como se acaricia a cabeça de um cão; ou melhor, de uma cadela. Por instantes Carlo contemplou, por assim dizer, esta situação: Carmelo acariciava-o como se acaricia uma cadela”
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(Petróleo, Editorial Notícias, Lisboa, 1992/1996, p.289)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Público e ocioso

Que fazer quando um desses advogdos que a Vodafone contrata para cobrar dívidas contacta um cidadão desprevenido que não tem, ao seu alcance, a possibilidade de provar que nada deve?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Risos - 9

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E depois não se diga que o bigode não é a ausência de um legado forte e impiedoso. Para alguns, não passa de um seguro pessoal muito fora de moda. A palavra a Boris Vian:
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“Não esquecendo o horrível bigodinho que cultivava perversamente por cima do lábio, impedindo os insectos de o atacar e cobrindo-o com uma rede. Durante o dia, para que os pássaros nem sequer o tocassem.”
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(Boris Vian, A festa-surpresa de Léobille em Ficções, Revista de contos - de humor, Visão, Lisboa, 2003, p.149)

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Risos - 8

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E há um diálogo agudo, breve e especioso, escrito naturalmente por Hemingway, que coloca em cena o coronel Cantwell e Renata. No fundo, trata-se de definir a excitação como uma cascata que, de repente, se transforma em erupção:
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“Quando se quer a lua e muitas estrelas e viver com um homem e ter cinco filhos, olhar-se ao espelho e fingir de mulher não é coisa muito excitante.
-Então vamos casar imediatamente.”
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(Na Outra margem, entre as árvores, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p.111).

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Pré-publicações - 77

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Mircea Eliade, Diário Português, Guerra e Paz, Lisboa, 2008
(tradução do romeno e notas de Corneliu Popa e estudo introdutório de Sorin Alexandrescu)
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Pré-publicação:
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"21 de Abril"
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"Estou em Lisboa desde 10 de Fevereiro. E há meses que não escrevi nada, nem sequer cartas inteligentes. Interrompi o meu diário íntimo à saída da Roménia a 19 de Abril de 1940. Teria sido inútil escrever as minhas impressões. Sabia que não poderia sair da Inglaterra nem com uma página manuscrita que fosse. E depois, tinha medo que me fizessem uma busca. Se tivesse escrito regular e honestamente o diário, teria sido obrigado a recordar tantas conversas importantes com políticos ingleses, tantas confidências de cuja divulgação dependeria a liberdade e até a cabeca de uma pessoa. Tento sempre refrescar os dados, para poder redigir, algum dia, as minhas memórias de Inglaterra.
Mas hoje começo este diário completamente por outras razões. Nina* foi a Bucareste, há uns dias. Estou sozinho por quatro ou cinco semanas. A suspensão de qualquer trabalho responsável, há tantos meses, a pressão política – com a qual vivo –, a preguiça mental, o abandono dos meus manuscritos em Oxford, a pobreza intelectual de Lisboa – tudo isto me ameaça com uma lenta degradação. Sinto a necessidade de me reencontrar, de me concentrar."
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* Nina Mareş, mulher de Mircea Eliade. (N. do T.)
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"28 de Abril"
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"Grande manifestação popular em homenagem a Salazar. Com alguma dificuldade encontro um lugar na Praça do Comércio, uma hora e meia antes da hora marcada. Tenho um lugar na varanda do Ministério das Finanças, no segundo andar. Um mar de cabeças na praça. Imensas crianças e jovens. Há algumas horas que se disparam salvas com vários tipos de canhões, da terra e do rio. Aqui, na praça, os estrondos são tremendos. Estremeco; faz-me lembrar Londres.
Às seis aparece Salazar na varanda. Ruge toda a massa viva a seus pés. Com alguma dificuldade, debruçando-me bastante sobre a balaustrada, consigo ver-lhe o perfil. Veste roupa simples, cinzenta, de passeio – e sorri saudando com a mão, comedidamente, sem gestos. Quando ele apareceu, do alto começaram a despejar cestos com pétalas de rosas, cor-de-rosa e amarelas. Observei, mais tarde, enquanto um jovem falava num palco no meio da praça, como Salazar brincava pensativo com algumas pétalas que tinham ficado na balaustrada. Depois vi-o falar. Lia com bastante calor, mas sem qualquer ênfase, levantando de quando em quando os olhos do papel e olhando a multidão. Levantava a mão esquerda, mole, pensativa. Uma voz nunca estridente. E, no fim da leitura, quando a praça o ovacionava, inclinava sorridente a cabeça. Parece que nem sentia a força colectiva esmagadora a seus pés. De qualquer modo não era prisioneiro dela, nem sequer se deixava sugestionar por ela."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Episódios e Meteoros - 72

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E não é que… Zapatero ganhou as eleições!
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(crónica publicada, desde quinta-feira, no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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eZapatero disse que ia “começar a dramatizar”. Disse-o sem saber que estava a ser ouvido. E toda a gente ficou muito consternada. Como se isso não fosse a coisa mais normal do mundo. De facto, entre aquilo que um político normalmente diz e aquilo que poderia dizer vai uma certa distância, mas essa distância tem um nome: a realidade.
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Se virarmos o holofote para a nossa própria vida, verificamos que assim é. Repare-se: entre o que vivemos no dia-a-dia e aquilo que conjecturamos ou pressupomos vai a tal distância que nos dá a medida da realidade. O horizonte que nos faz imaginar e prever possibilidades é tão importante como aquilo que nos vai acontecendo momento a momento. A noção de realidade vive deste vaivém ininterrupto, espécie de boomerang que ninguém consegue alterar.
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Só que, quando Zapatero disse o que disse, ficámos subitamente desprovidos do nosso habitual poder de conjecturar ou de pressupor. De repente, vimo-lo a dizer o que teríamos imaginado que ele podia ter dito. Por um momento, o que estava a acontecer e aquilo que podíamos ter pressuposto fundiram-se num único evento. E foi isso que gerou o sobressalto. Ou a consternação. Foi como se a realidade se tivesse tornado numa bofetada.
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Imagine-se que ouvíamos, todos os dias, em “off”, o que Pinto da Costa diz aos seus mais próximos sobre o Apito Dourado, o que Santana diz aos santanistas sobre Menezes, o que Sócrates diz a Silva Pereira sobre Alegre, o que Obama diz à mulher sobre Hillary, o que Blair diz ao Papa sobre Sarkozy ou o que Lula diria a Soares sobre os pastorinhos de Fátima. Não é preciso ter grande veia de dramaturgo para começar a escrever estas vozes, deixas e ‘boquinhas’. Fechamos os olhos e começamos, de imediato, a ouvir a voz de todos estes personagens com cristalina clareza. Mas se os ouvíssemos, tal como ouvimos Zapatero, lá se ia o prazer e lá se ia o nosso poder de celebrar a própria realidade.
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Visto de outro modo: quando se diz, em alto e bom som, o que apenas se imaginaria em privado (um “off” que se torna desconcertantemente “on”), as pessoas riem. É o que as faz ver ao espelho. E é o que as faz desmonstar este jogo sem fim entre o dito e o não dito. O rei de Espanha provou-o frente a Chávez, do mesmo modo que Chávez sempre o provou frente a Bush; João Jardim provou-o frente a Sócrates, do mesmo modo que Berardo sempre o provou a quem quer que fosse. Temperamentos.
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Provavelmente, Zapatero encontraria a vocação de bobo se assim se comportasse; ao invés, apanhado e desprevenido, Zapatero ganhou em revelação e em imaginação. Só que no-las roubou. Restituí-las vai ser obra de dias. Hoje, véspera da campanha eleitoral espanhola, já o teatro das luzes ilumina outras cenas. O povo sempre gostou de lanterna mágica, de truques ópticos, de circo e de cinema com efeitos especiais: ver e deixar de ver ao mesmo tempo. Ser e deixar de ser ao mesmo tempo. Estar “on” e “off”, alternadamente e como modo de vida. Já se ganhou uma eleição por menos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Risos - 7

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Aldous Huxley colocou, um dia, na boca de Spiller uma tal organização mental que acabou por não resistir ao precipício de veludo, ou seja, à flor do riso. Ela mesma. Ouçamo-lo com candura:
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“Por exemplo – disse Spiller – eu, indubitavelmente, sei que todos os homens são mortais. Mas esse conhecimento é organizado, recebe uma forma definida, e até verdadeiramente enriquecido e aprofundado quando Shakespeare se refere a todos os nossos ontens que alumiaram para uns tolos o penumbroso caminho da morte.”
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(O Monóculo em Duas ou Três Graças, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 183)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Risos - 6

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O cómico e o trágico nem sempre se opõem. Bem pelo contrário. O início de Caramanchão, um dos contos de Raymond Carver que integra o seu livro De que falamos quando falamos de amor, é uma espécie de vaivém entre o devaneio sexual e um inexplicável aceno noir que ilustra bem essa curiosa confluência:
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“Nessa manhã, ela despeja uísque Teacher sobre a minha barriga e lambe-o todo. À tarde, tenta atirar-se pela janela”.
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O segundo período aparece realmente de modo inesperado. De tal modo que a regra nem se chega a expor ou a ocultar, tal como acontecia na antiga tradição délfica. À pergunta “por que se atira Holly pela janela?”, corresponderão sempre mil possibilidades em aberto. Ao fim e ao cabo, após a leitura do conto, constatamos que o caso está longe de qualquer cenário mais verosímil.
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(Raymond Carver, De que falamos quando falamos de amor, Teorema, Lisboa, 1974/1987, p. 23).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Risos - 5

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Neste excerto de Filhos e amantes, D. H. Lawrence joga com as proporções. Não as divinas, claro. E tudo por causa da medida temporal sugerida pela Srª. Radford:
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“Abriu os olhos e viu a Srª. Radford, grande e majestosa, a contemplá-lo. Trazia na mão uma xícara de chá.
- Tencionava dormir até ao Dia do Juízo? – perguntou.
Ele começou a rir e disse:
- Não deve ser mais que cinco horas.”
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(D. H. Lawrence, Filhos e amantes, Portugália, 1970, p. 434)