segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Risos - 8

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E há um diálogo agudo, breve e especioso, escrito naturalmente por Hemingway, que coloca em cena o coronel Cantwell e Renata. No fundo, trata-se de definir a excitação como uma cascata que, de repente, se transforma em erupção:
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“Quando se quer a lua e muitas estrelas e viver com um homem e ter cinco filhos, olhar-se ao espelho e fingir de mulher não é coisa muito excitante.
-Então vamos casar imediatamente.”
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(Na Outra margem, entre as árvores, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p.111).

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Pré-publicações - 77

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Mircea Eliade, Diário Português, Guerra e Paz, Lisboa, 2008
(tradução do romeno e notas de Corneliu Popa e estudo introdutório de Sorin Alexandrescu)
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Pré-publicação:
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"21 de Abril"
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"Estou em Lisboa desde 10 de Fevereiro. E há meses que não escrevi nada, nem sequer cartas inteligentes. Interrompi o meu diário íntimo à saída da Roménia a 19 de Abril de 1940. Teria sido inútil escrever as minhas impressões. Sabia que não poderia sair da Inglaterra nem com uma página manuscrita que fosse. E depois, tinha medo que me fizessem uma busca. Se tivesse escrito regular e honestamente o diário, teria sido obrigado a recordar tantas conversas importantes com políticos ingleses, tantas confidências de cuja divulgação dependeria a liberdade e até a cabeca de uma pessoa. Tento sempre refrescar os dados, para poder redigir, algum dia, as minhas memórias de Inglaterra.
Mas hoje começo este diário completamente por outras razões. Nina* foi a Bucareste, há uns dias. Estou sozinho por quatro ou cinco semanas. A suspensão de qualquer trabalho responsável, há tantos meses, a pressão política – com a qual vivo –, a preguiça mental, o abandono dos meus manuscritos em Oxford, a pobreza intelectual de Lisboa – tudo isto me ameaça com uma lenta degradação. Sinto a necessidade de me reencontrar, de me concentrar."
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* Nina Mareş, mulher de Mircea Eliade. (N. do T.)
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"28 de Abril"
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"Grande manifestação popular em homenagem a Salazar. Com alguma dificuldade encontro um lugar na Praça do Comércio, uma hora e meia antes da hora marcada. Tenho um lugar na varanda do Ministério das Finanças, no segundo andar. Um mar de cabeças na praça. Imensas crianças e jovens. Há algumas horas que se disparam salvas com vários tipos de canhões, da terra e do rio. Aqui, na praça, os estrondos são tremendos. Estremeco; faz-me lembrar Londres.
Às seis aparece Salazar na varanda. Ruge toda a massa viva a seus pés. Com alguma dificuldade, debruçando-me bastante sobre a balaustrada, consigo ver-lhe o perfil. Veste roupa simples, cinzenta, de passeio – e sorri saudando com a mão, comedidamente, sem gestos. Quando ele apareceu, do alto começaram a despejar cestos com pétalas de rosas, cor-de-rosa e amarelas. Observei, mais tarde, enquanto um jovem falava num palco no meio da praça, como Salazar brincava pensativo com algumas pétalas que tinham ficado na balaustrada. Depois vi-o falar. Lia com bastante calor, mas sem qualquer ênfase, levantando de quando em quando os olhos do papel e olhando a multidão. Levantava a mão esquerda, mole, pensativa. Uma voz nunca estridente. E, no fim da leitura, quando a praça o ovacionava, inclinava sorridente a cabeça. Parece que nem sentia a força colectiva esmagadora a seus pés. De qualquer modo não era prisioneiro dela, nem sequer se deixava sugestionar por ela."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Episódios e Meteoros - 72

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E não é que… Zapatero ganhou as eleições!
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(crónica publicada, desde quinta-feira, no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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eZapatero disse que ia “começar a dramatizar”. Disse-o sem saber que estava a ser ouvido. E toda a gente ficou muito consternada. Como se isso não fosse a coisa mais normal do mundo. De facto, entre aquilo que um político normalmente diz e aquilo que poderia dizer vai uma certa distância, mas essa distância tem um nome: a realidade.
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Se virarmos o holofote para a nossa própria vida, verificamos que assim é. Repare-se: entre o que vivemos no dia-a-dia e aquilo que conjecturamos ou pressupomos vai a tal distância que nos dá a medida da realidade. O horizonte que nos faz imaginar e prever possibilidades é tão importante como aquilo que nos vai acontecendo momento a momento. A noção de realidade vive deste vaivém ininterrupto, espécie de boomerang que ninguém consegue alterar.
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Só que, quando Zapatero disse o que disse, ficámos subitamente desprovidos do nosso habitual poder de conjecturar ou de pressupor. De repente, vimo-lo a dizer o que teríamos imaginado que ele podia ter dito. Por um momento, o que estava a acontecer e aquilo que podíamos ter pressuposto fundiram-se num único evento. E foi isso que gerou o sobressalto. Ou a consternação. Foi como se a realidade se tivesse tornado numa bofetada.
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Imagine-se que ouvíamos, todos os dias, em “off”, o que Pinto da Costa diz aos seus mais próximos sobre o Apito Dourado, o que Santana diz aos santanistas sobre Menezes, o que Sócrates diz a Silva Pereira sobre Alegre, o que Obama diz à mulher sobre Hillary, o que Blair diz ao Papa sobre Sarkozy ou o que Lula diria a Soares sobre os pastorinhos de Fátima. Não é preciso ter grande veia de dramaturgo para começar a escrever estas vozes, deixas e ‘boquinhas’. Fechamos os olhos e começamos, de imediato, a ouvir a voz de todos estes personagens com cristalina clareza. Mas se os ouvíssemos, tal como ouvimos Zapatero, lá se ia o prazer e lá se ia o nosso poder de celebrar a própria realidade.
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Visto de outro modo: quando se diz, em alto e bom som, o que apenas se imaginaria em privado (um “off” que se torna desconcertantemente “on”), as pessoas riem. É o que as faz ver ao espelho. E é o que as faz desmonstar este jogo sem fim entre o dito e o não dito. O rei de Espanha provou-o frente a Chávez, do mesmo modo que Chávez sempre o provou frente a Bush; João Jardim provou-o frente a Sócrates, do mesmo modo que Berardo sempre o provou a quem quer que fosse. Temperamentos.
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Provavelmente, Zapatero encontraria a vocação de bobo se assim se comportasse; ao invés, apanhado e desprevenido, Zapatero ganhou em revelação e em imaginação. Só que no-las roubou. Restituí-las vai ser obra de dias. Hoje, véspera da campanha eleitoral espanhola, já o teatro das luzes ilumina outras cenas. O povo sempre gostou de lanterna mágica, de truques ópticos, de circo e de cinema com efeitos especiais: ver e deixar de ver ao mesmo tempo. Ser e deixar de ser ao mesmo tempo. Estar “on” e “off”, alternadamente e como modo de vida. Já se ganhou uma eleição por menos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Risos - 7

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Aldous Huxley colocou, um dia, na boca de Spiller uma tal organização mental que acabou por não resistir ao precipício de veludo, ou seja, à flor do riso. Ela mesma. Ouçamo-lo com candura:
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“Por exemplo – disse Spiller – eu, indubitavelmente, sei que todos os homens são mortais. Mas esse conhecimento é organizado, recebe uma forma definida, e até verdadeiramente enriquecido e aprofundado quando Shakespeare se refere a todos os nossos ontens que alumiaram para uns tolos o penumbroso caminho da morte.”
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(O Monóculo em Duas ou Três Graças, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 183)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Risos - 6

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O cómico e o trágico nem sempre se opõem. Bem pelo contrário. O início de Caramanchão, um dos contos de Raymond Carver que integra o seu livro De que falamos quando falamos de amor, é uma espécie de vaivém entre o devaneio sexual e um inexplicável aceno noir que ilustra bem essa curiosa confluência:
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“Nessa manhã, ela despeja uísque Teacher sobre a minha barriga e lambe-o todo. À tarde, tenta atirar-se pela janela”.
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O segundo período aparece realmente de modo inesperado. De tal modo que a regra nem se chega a expor ou a ocultar, tal como acontecia na antiga tradição délfica. À pergunta “por que se atira Holly pela janela?”, corresponderão sempre mil possibilidades em aberto. Ao fim e ao cabo, após a leitura do conto, constatamos que o caso está longe de qualquer cenário mais verosímil.
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(Raymond Carver, De que falamos quando falamos de amor, Teorema, Lisboa, 1974/1987, p. 23).

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Risos - 5

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Neste excerto de Filhos e amantes, D. H. Lawrence joga com as proporções. Não as divinas, claro. E tudo por causa da medida temporal sugerida pela Srª. Radford:
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“Abriu os olhos e viu a Srª. Radford, grande e majestosa, a contemplá-lo. Trazia na mão uma xícara de chá.
- Tencionava dormir até ao Dia do Juízo? – perguntou.
Ele começou a rir e disse:
- Não deve ser mais que cinco horas.”
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(D. H. Lawrence, Filhos e amantes, Portugália, 1970, p. 434)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Risos - 4

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O jogo de sensações que se estabelece entre o escrivão e o protagonista de O Estrangeiro de Camus é, a certa altura, coroado pela generosa e quase misericordiosa intervenção do juiz:
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“A cada frase, ele dizia: «Bem Bem». Quando cheguei ao corpo estendido na areia, aprovou-me, dizendo: «Bom». Quanto a mim, estava cansado de repetir a mesma história e tinha a impressão de nunca ter falado tanto. Depois de um silêncio, o juiz levantou-se e disse que me queria ajudar, que o meu caso o interessava e, com a ajuda de Deus, faria qualquer coisa por mim”.
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(A. Camus, O Estrangeiro, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp.142/3)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Risos - 3

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Tinha razão. O riso faz de fio de prumo entre a candura da manhã chuvosa ou solar e o refinado espectáculo da morte. Cocteau sabia-o bem:
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“A srª. de Bornes levou-a (a Henriqueta) para um sanatório de Auteuil. Morreu, dois meses depois, de uma doença que não era mortal. Por outras palavras, apesar das precauções tomadas, suicidou-se tomando veneno”.
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(Jean Cocteau, Thomaz, O Impostor, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p.187)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Risos - 2

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Ao referir-se ao ornato de bronze das cadeiras, de onde sobressaem algumas folhas de parra nos “frisozinhos das bordas”, a senhora Verdurin afirmou: o “meu marido acha que não gosto de frutas porque as como menos do que ele. Mas não, eu sou mais gulosa do que vocês todos, só que não tenho necessidade de as pôr na boca, porque as saboreio com os olhos. De que é que estão rindo? Perguntem ao doutor, e ele lhes dirá se essas uvas me purgam ou não”.
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(Em Busca do Tempo Perdido - 1, No caminho de Swann, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp. 208/209)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Risos - 1

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O que expulsa o riso da atmosfera do milagre é afinal a sua frequência.