terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Risos - 4

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O jogo de sensações que se estabelece entre o escrivão e o protagonista de O Estrangeiro de Camus é, a certa altura, coroado pela generosa e quase misericordiosa intervenção do juiz:
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“A cada frase, ele dizia: «Bem Bem». Quando cheguei ao corpo estendido na areia, aprovou-me, dizendo: «Bom». Quanto a mim, estava cansado de repetir a mesma história e tinha a impressão de nunca ter falado tanto. Depois de um silêncio, o juiz levantou-se e disse que me queria ajudar, que o meu caso o interessava e, com a ajuda de Deus, faria qualquer coisa por mim”.
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(A. Camus, O Estrangeiro, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp.142/3)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Risos - 3

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Tinha razão. O riso faz de fio de prumo entre a candura da manhã chuvosa ou solar e o refinado espectáculo da morte. Cocteau sabia-o bem:
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“A srª. de Bornes levou-a (a Henriqueta) para um sanatório de Auteuil. Morreu, dois meses depois, de uma doença que não era mortal. Por outras palavras, apesar das precauções tomadas, suicidou-se tomando veneno”.
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(Jean Cocteau, Thomaz, O Impostor, Edição Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p.187)

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Risos - 2

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Ao referir-se ao ornato de bronze das cadeiras, de onde sobressaem algumas folhas de parra nos “frisozinhos das bordas”, a senhora Verdurin afirmou: o “meu marido acha que não gosto de frutas porque as como menos do que ele. Mas não, eu sou mais gulosa do que vocês todos, só que não tenho necessidade de as pôr na boca, porque as saboreio com os olhos. De que é que estão rindo? Perguntem ao doutor, e ele lhes dirá se essas uvas me purgam ou não”.
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(Em Busca do Tempo Perdido - 1, No caminho de Swann, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, pp. 208/209)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Risos - 1

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O que expulsa o riso da atmosfera do milagre é afinal a sua frequência.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Volta ao Mundo - 15

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Partiram em Setembro e ainda não chegaram sequer ao meio da volta ao mundo. Estando já em Pequim, a Clara e o Miguel enviam-nos hoje uma mensagem sobre a grande barreira de corais (para trás, relembro, já ficaram muitas outras terras e crónicas: Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, Polinésia, Ilha da Páscoa, Nova Zelândia; com passagens por Tahiti, Moorea, Huaihine e Raiatea). Enfim, envio daqui mais um grande e saudoso abraço e passo a publicar a 15ª epístola aos lusitanos:
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"Grande Barreira de Coral e Pequim"
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"Concentro-me no espaço ínfimo entre mundos e vivo esse momento. Viajar tem destas alturas. Em que estamos apenas no meio.
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Abro os olhos sem sono e mergulho no mar de coral. Ouço as cores, os peixes, a transparência. Não sei o que dizem. Entrei num mundo de outras histórias. A razão, as palavras, o poder do argumento ficaram no barco. Aqui entramos despidos de nós. Ouve-se com a pele, trocam-se os sentidos. É um peixe papagaio que me mostra o caminho. Espirais amarelas, azuis, negras, atravessam-me o horizonte. São ritmos. E hábitos. E texturas. Enormes e invisíveis, que participam ou se disfarçam, que aparecem do fundo ou do improvável. Vidas que me espantam a cada gesto de diferença. E eu, sem peso, sem respiração, sou mais do que um silêncio apesar de sem voz.
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Abro os olhos sem sono e dou um passo para a rua. Oiço o vermelho, as vozes, o fumo. Não sei o que dizem. Entro num mundo de outras histórias. A opinião, as palavras, o poder do meu querer ficaram no quarto. Aqui entramos despidos de argumentos. Um casal oferece ao filho um papagaio de papel, uma explosão de cores presas à mão por um fio. Sigo-o por um instinto. E estou na multidão. De hábitos. E ritmos. E texturas. Tudo está a acontecer. Vende-se o puro e o improvável, com gritos ou no disfarce. Jogos, comida e meias juntam-se aos cantos de um qualquer fundo. A cada passo uma tradição, uma vida que se junta a outro alguém. Do nada, um fogo-de-artifício espanta os gestos de tanta diferença. E eu, com o peso dos cheiros e sem respiração, sou mais um silêncio que não precisa de voz.
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Viajar tem destas alturas. Em que não há mundos que nos separem."

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Meio século de vida

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A BIC faz meio século de vida. Pode dizer-se que temos uma pequena diferença de idade. E o que já fizemos juntos! Até 1991 - data em que tive o meu primeiro PC - praticamente tudo. Depois, quando passei outra vez a escrever os livros à mão, mais uma vez tudo. Os vídeos da longa vida da BIC estão aqui. Vale a pena voltar a vê-los.

Falar em seco

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Ontem voltou a não haver debate no Prós e Contras da RTP-1. O tema era a justiça. Mas toda a gente sabia que o tema era outro. Só que, em Portugal, ninguém trata as coisas pelos nomes. É algo que gira entre a hipocrisia e, neste caso, talvez, o medo.
O tema real era Pinto da Costa, era um qualquer mandante de uma agressão ou tentativa de assassinato e era o peixe graúdo do "Apito Dourado", agora substituído pelos pobre diabos lançados subitamente à arena: o perfume da Avenida da Boavista e o pobre do Futebol Clube de... Gondomar.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Cerveja e literatura - 67

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“Apercebi-me de que uma garrafa de cerveja castanha vazia rolava atrás de nós como uma ratazana barulhena. Seguiu-nos até Jane Street e West Side Highway. Vivian deu um pontapé e subimos as escadas do hotel feito de tijolo vermelho com aquela torre de forma estranha no topo.”
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Assim fecha o capítulo III deste romance de Jennifer Belle. E fique a saber-se que Vivian é uma personagem que já sobreviveu a várias mortes: “o primeiro marido tinha-a atirado de um oitavo andar” e o segundo tentou “incendiá-la”. Enfim, a aparição da cerveja equivale a um monstro que quer parecer simbolizar este destino mais-do-que-trágico. Mas, de qualquer modo, vivo. E sobrevivente.
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(Jennifer Belle, Por aí abaixo, tradução: Rita Graña; Teorema, Lisboa, 2005, p. 20)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Um novo modo de convicção

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Na crónica da próxima quinta-feira (do Expresso Online), traçarei uma analogia entre duas tentativas obsessivas de demonstração: a primeira, até 2003, baseada na necessidade de provar ao mundo a existência de armas de destruição em massa no Iraque; a outra, desde há dois anos a esta parte, baseada na urgência em encontrar provas irrefutáveis para a existência de voos ilegais da CIA com destino a Guantanamo. Em ambas, imagina-se que uma aguerrida determinação (ou crença) pode transformar um desejo - ou uma ilusão - em realidade. Seja como for, este processo alquímico mais ou menos bizarro traduz um modo de pensar do início deste século: aliar a instantaneidade do convencimento à simulação da prova. Um novo modo de convicção. Pós-ideológico, claro. Mas com ressonâncias que vêm doutros tempos.

O cogumelo falador

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A descoberta de um novíssimo meio convidou a blogar. Tal como acontece, quando se chega a uma terra nova: fascinamo-nos com o novo ar, com as novas companhias, com as novas anunciações e rotinamos. Até que a planura do tempo se iguala à redenção do balanço. Um dia, fazem-se três trabalhos de fôlego; noutro dia, um elementar breviário; e, noutro dia ainda, um explicativo maior. Comparamo-lo com o das freguesias de tendência e verificamos que é amplo, de céu largo e recomendado como o seria uma boa nascente de água fresca. E depois o niilismo aparece de onde e por onde menos se espera. Sempre foi assim: um cansaço com a amplitude de um caule que depois toma conta do céu: cogumelo especioso e raro. Porém, resoluto. É assim que me encontro. Sentado na poeira entre a rede e os troncos, abaulada a visão e o cenário. O cão ao lado e um blogue por preencher, por linkar, por decidir. Até amanhã.