quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Remodelação?

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A política quer-se esquemática e pragmática. A vitrine das ilusões serve-se fria. A remodelação da saúde é o fim de uma reforma possível e necessária. A fileira de Manuel Alegre (vestida com cores dramatúrgicas de outras eras, daí que o nome da peça seja ala "esquerda") e de outros flamingos de asas não menos populistas (que ecoam a voz do protesto fácil) ficaram agora a rir-se. E é certo que o imobilismo está garantido até às eleições. Para a pasta da cultura, por sua vez, vem um jovem lavagante, bem falante, cavaleiro de muitas liberdades e amante de caviar e do historiador Rosas. Os subsídios passarão a ter outro brilho e encanto. Sobrará o Samba, o Carnaval e o estendal já menos húmido a pensar sobretudo em eleições. De facto, o ano de 2009 está próximo e já se sabia - todos os altivos comentadores o segredavam - que a política socrática era de "direita" (a malta adora estes esquematismos, o que é que se há-de fazer?); agora juntou-se-lhe o caril que lhe empresta o tom da "esquerda". O homem não é nada inocente. Vai ser o último a rir e mais, muito mais do que todos os outros. E fica, desde já, à espera do banquete. Também vamos lá: com Menezes, Jerónimo, Louçã e Portas... Sócrates bem pode dar-se ao luxo destes joggings. E de muito mais.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Sustentabilidade e natureza humana

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Luís Reis Ribeiro refere hoje no Diário Económico que os economistas declaram o estado de recessão mundial, quando a economia do planeta não cresce para além dos 3% (em 2008, pensa-se que o crescimento andará pelo 4,8%). É interessante reflectir sobre este abismo invertido. Faz lembrar que a noção de “progresso”, desenvolvida pelos iluministas e só estabilizada, como noção chave, a meados de oitocentos no Ocidente, afinal continua desperta e viva como um farol. Foi, aliás, a ilimitada crença no progresso que alimentou o pior (o mais terrível) e o melhor (o mais inesperado) na transição do século XX para o nosso. De facto – e não se pense que este post é apenas reflexo de algum cepticismo lunático (como Unamuno imputaria à alma lusa) –, a natureza humana precisa realmente de metáforas e conceitos fortes para sobreviver: cavernas (Platão sorrindo), ilhas inexistentes (o ‘alhures’ significado pela ‘utopia’), as redes (malha de armadura, prisão e forma de comunicação), as profundezas sem fim (do centro do mundo de Verne aos deuses pré-romanos do Tártaro) e, já agora, o próprio progresso: essa linha sem fim que projecta um ininterrupto e contínuo crescimento. Leibniz e a música barroca de Bach representaram o fôlego divino de um modo mais encorpado, denso e envolvente. Menos linear, digamos. Mas igualmente dominante, galopante e crescente. Até quando esta necessidade de sermos o que somos e, ao mesmo tempo, a sombra de um frágil gigante? (“Até sempre”… era o belo título de um romance de Vergílio Ferreira).

terça-feira, 29 de janeiro de 2008

A solitária cor da tragédia

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A tragédia, quando chega, é secreta, pessoal e intransmissível. No dia seguinte, descortina-se, aqui e ali, em apagado recanto noticioso, uma nota sobre um acidente, sobre um problema de trânsito resolvido a horas ou sobre uma "alegada" colisão ao quilómetro número qualquer coisa. E volta a falar-se, de novo, de Suharto, de Gaza e do Subprime. Mas a tragédia mora noutro lado. Alguém há-de desligar a máquina no hospital. Os últimos vestígios de uma vida são, pois, mera resposta mecânica, simples névoa sem sentido, meros alardes sob a forma de linhas binárias, tecnologicamente impressas em tempo real. É o crash sem redenção na sua mais inexplicável pessoalidade. É verdade: quando chega, a tragédia não é já parte da história (ou da "História" para os engenheiros sociais e salvadores). Porque a tragédia, quando chega, é pessoal, secreta e sempre intransmissível.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Futebol

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O futebol reflecte o melhor e o pior. No futebol despertam episódios insondáveis: sentidos de pertença, fantasmas, heranças, afectos sem forma e muita irracionalidade. Eu gosto do futebol que se joga entre as quatro linhas, do movimento, da paisagem transfigurada. Uma sugestão de batalha encapelada, embora sem pontes levadiças a sério. Mas, de qualquer modo, um confronto, uma sequência múltipla de lances, uma aventura que mexe no magma do ser. Gosto de futebol, mas detesto bairrismos e regionalismos. Sei que as coisas são incompatíveis, na medida em que o bairro e a região encaixam que nem uma luva nos fantasmas, nas pertenças e nos afectos mais esquecidos. Mas apesar da incompatibilidade, sabe-me bem ver ganhar quem não representa, de modo unívoco, os bairrismos, a regiãozinha ou a cor dos melhores enchidos e vinhedos. E foi por isso que gostei dos resultados desta última jornada do campeonato lusitano.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Episódios e Meteoros - 67

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(ver também no meu blogue de crónicas)
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"Uma c... grande como a misericórdia de Alá"
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Sabe bem escrever sobre autores, cuja moda começa a finar-se. A obsolescência nem sempre é um tema da publicidade; é-o também, claro está, no caso dos escritores e dos pensadores. Umberto Eco merece lugar à parte pela sua vastíssima obra e, entre outras coisas, pela capacidade de reinventar os modos com que hoje podemos olhar, perceber e interrogar os discursos do nosso quotidiano. Mas há partes de Eco menos conhecidas. Sempre desvendei por trás das suas palavras - não me refiro aos romances - uma gargalhada intermitente e sem fim. Sempre que nos seus ensaios um novo conceito é apresentado, Eco parece traduzi-lo com dotes assumidos de goliardo fanfarrão. Podia dar imensos exemplos dessa 'comédia epistemológica' e, quem sabe, se um dia não o farei até com algum fôlego, coisa que numa coluna destas não tem qualquer cabimento.
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Seja como for, e talvez porque o Lector in Fabula faz para o ano três décadas de vida, lembrei-me, no fim-de-semana passado, de uma das minhas maiores gargalhadas de sempre... ao ler Eco. Porventura, se fosse hoje - em tempo de elevada 'correcção' -, o livro teria sido proibido, a passagem não teria passado despercebida e a querela das caricaturas dinamarquesas não lhe teria feito a mínima sombra. Preparados, caros leitores?
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Ora, no final desse distinto ensaio (sobre métodos de análise textuais), aparece o excerto de um livro de Cyrus L. Sulzberger (The Tooth Merchant, 1973) que reza assim:
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"Os bordéis mais sujos da Europa (e conheço-os todos) encontram-se na rua Albanoz, no bairro de Pérah, em Istambul, e eu estava a dormir num deles numa manhã de fins do Verão de 1952 junto de uma puta chamada Iffet com uma cona grande como a misericórdia de Alá..."
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Na página 207 da edição portuguesa do Lector in Fabula (1983), Umberto Eco comenta, depois, esta incorrectíssima citação com a seguinte passagem (tão barroca à Versage quanto magnífica):
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"Fragmento que não submeteremos a análise, não por pudor, mas porque põe em jogo mecanismos de hipercodificação retórica e quadros intertextuais demasiado complexos. Há nele uma comparação, uma hipérbole, a referência a quadros comuns relativos às condições ginecológicas das prostitutas dos portos, e a quadros intertextuais relativos ao estilo imaginativo dos muçulmanos... Em suma, demasiado material. Digamos que o Leitor-Modelo deveria compreender que a prostituta é velha e desagradável, mas nem por isso menos generosa das suas graças."
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Como o ilegível para muitos pode, de facto, ser champagne para todos!
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Ora bem, num tempo em que a autocensura vai delimitando cada vez mais o que se pode e o que não se pode dizer ou escrever (daí a "c..." alegorizada no título), esta memória surgiu-me, há dias, como uma lufada de ar fresco. Não do ar fresco que agora é doado aos fumadores que se prostram às portas das pastelarias e das repartições de finanças, mas do ar bem mais fino de quem via o mundo com uma grande e flexível balança entre a seriedade dos profetas com barbas e a grande e frágil gargalhada dos mortais. E já agora: sem que ninguém se sentisse ofendido com a dose.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Para quem adora abismos e rumores - V

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Mais uma contribuição para a impressiva e abismada leitura da "crise":
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"Se olharmos para a crise espoletada pelo “subprime”, descortinaremos que a felicidade da gordura americana (…) se baseava em axiomas deslocados da realidade. George Soros foi cruel, ao dizer que os EUA viviam do que o resto do mundo poupava e consumiam acima do que produziam. Como se fossem uma espécie de aristocratas com problemas de crédito. Mas isso era derivado da sua moeda, o dólar, ser a moeda de reserva internacional. Quando essa expansão de crédito causava tempestades, as autoridades centrais injectavam liquidez e estimulavam a economia por outros meios. O próprio coração do sistema financeiro – baseado na circulação interbancária, a começar pelo empréstimo – entrou em colapso." (Fernando Sobral)
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"Samuelson atribui em boa medida a turbulência actual ao relaxamento dos guardiães do sistema financeiro que se deixaram embalar na doce cantiga da sofisticação de produtos que muitos clientes não percebem e cujas consequências as próprias empresas têm dificuldade em avaliar." (
Francisco Ferreira da Silva)
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"Está assim estabelecido o cenário para os próximos anos. O petróleo passou a ser caro e as empresas não possuem margem de manobra para fazer repercutir os seus custos nos clientes finais, pois competem agora com produtos produzidos na China e na Índia a custos extremamente mais reduzidos.
Os próximos anos serão delicados. Com a redução das margens não existe "latitude" para investimentos. Assim, a criação de novos empregos na Europa é uma miragem." (
Pedro Sousa)

Volta ao Mundo - 14

Em Setembro do ano passado, a Clara e o Miguel iniciaram a sua volta ao mundo. A última crónica teve como origem a Austrália. Para trás já tinham ficado muitos outros locais e cidades: Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, Polinésia, Ilha da Páscoa, Nova Zelândia (com passagens por Tahiti, Moorea, Huaihine e Raiatea). Hoje, a crónica reata a passagem pela Nova Zelândia:
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"Nova Zelândia"
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"Corre. Corre. Corre. Quer ter a certeza que o ar não é feito de papel. Acelera. Vê que as árvores quase terminam. Continua. Continua. Ignora a respiração a saltar-lhe do peito. Quer ter a certeza. Sabe que se aproxima, começa a apagar-se o caminho. Se for cenário. Se for cenário. Imagina o corpo contra a parede de cartão. De um azul a imitar o céu, um lago demasiado pintado, demasiado perfeito. Mais cinco passos. Guarda o fôlego. Dois, um. Fecha as mãos num resumo… E, de olhos abertos, cai no vazio.



Esvazia-se de si próprio. O sorriso sai-lhe pelos bolsos. A imaginação, o calor, o tempo. Tudo fora de si. Sente o espaço que se cria. O momento único do seu silêncio.
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Vejo um ser enorme a andar na minha direcção. De pele a sobrar-lhe. Rugas encharcadas, como rios indecisos sobre a idade que têm.
- Estás surpreendida?
(Acho que sim)
- Por ver um velho correr para o precipício?
(Por estar do outro lado do mundo e tudo se passar ao contrário)
E por saber que um homem, para ter a certeza que não vive num lugar de brincar, corre até ao salto para não se sentir imortal.
Espero que a sua sombra se dilua nas montanhas.
… E começo a correr."
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Foto: Miguel Sacramento (a tentar introduzir)
(um exclusivo para o Miniscente)

Para quem adora abismos e rumores - IV

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Mais deixas para a apaixonada dramaturgia da crise:
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"A derrocada nas bolsas mundiais não foi um súbito ataque de histeria provocado pelos especuladores gananciosos. Foi o sinal de que a recessão mordeu os Estados Unidos e provocará vítimas. Isso mesmo: as notícias da independência da economia mundial face ao motor americano eram, afinal, exageradas. Uma constipação nos EUA ainda tem força para provocar uma pneumonia global. O famoso ‘decoupling’ não existe. A UE e a América vivem de braço dado: contabilizando serviços e bens, este bloco é responsável pela maior fatia das trocas comerciais planetárias. China e Índia juntaram-se aos tenores, mas o ritmo continua a ser marcado pelo eixo Atlântico." (André Macedo)
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"(...)o consumo privado não deverá ter a força suficiente para ser o motor de que a economia precisa. O que aliás era previsível porque é o mais afectado pelas duas crises internacionais. A financeira tornou o crédito mais caro com a subida dos ‘spreads’. A do petróleo puxa pela inflação – já está em 3,1%, muito acima da referência dos 2% –, o que deverá obrigar o Banco Central Europeu a subir os juros. Numa economia altamente endividada como a portuguesa, isto são motivos suficientes para dar vontade de cortar os pulsos. Mesmo as empresas que querem investir vão pensar duas vezes. Restam as exportações que estão dependentes da economia internacional, que está no meio de um tornado." (Bruno Proença)
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"Mesmo que os Estados Unidos escapem à recessão a percepção do eleitorado é depressiva e se em campanha presidencial vingam as promessas de política anticíclica, os défices orçamental e da balança de transacções correntes vão cortar as veleidades do sucessor ou sucessora de Bush que prestar juramento em Janeiro." (João Carlos Barradas)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

Para quem adora abismos e rumores - III

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Adoro vaticínios escritos sobre o calor dos factos:
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"Poderá, aliás, ocorrer eventual queda de preços por revisão em baixa de resultados. A incerteza económica tenderá a beneficiar títulos mais líquidos e menos cíclicos." (Cristina Casalinho, DIE)
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"Afinal, estava tudo preso por arames, arames farpados de excesso de dívida varrida para debaixo dos tapetes dos derivados financeiros. Agora, não deixa de ser extraordinário que o mercado esteja fechado, que os bancos não consigam emprestar dinheiro entre si. É a ironia suprema: os bancos desconfiam mais dos bancos do que das empresas. Não emprestam dinheiro uns aos outros." (Pedro Santos Guerreiros, JDN)
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"Hoje é um dia de quase pânico, eu diria, porque as bolsas caíram muito no mundo todo e isso traz um contágio, mas isso não quer dizer que amanhã ou depois seja assim." (Guido Mantega, DDI)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Para quem adora abismos e rumores - II

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Ainda a propósito da atracção que a larga maioria dos comentadores e intérpretes da actualidade tem pelas visões apocalípticas e abismadas, valeria a pena fazer uma recolha de crónicas e textos que, desde ontem, se publicam por esse mundo fora. Eu guardo em minha casa, em arquivo, uma série homóloga que se reporta a publicações dos últimos meses de 1999 (e aqui o leitmotiv da crise era apenas numérico). Antes, em 1998 e em 1993, os cenários também foram férteis. Vou, pois, passar a dar uso à tesoura. Há muito por onde escolher e esse materil sempre pode, mais tarde, vir a ser utilizado (não apenas parodicamente). A crise, dizia Kermode (por outras palavras), é um modo de atribuirmos coerência interpretativa à turbulência do nosso próprio tempo: um jogo de expectativas, uma anamorfose que se tenta aproximar da realidade, sempre bem mais complexa do que a nossa capacidade em elaborar diagramas e/ou descortinar receituários. Pobre Sócrates, quando é utilizado, qual gota de orvalho, nesta discussão!