quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Para quem adora abismos e rumores - I

A melhor opinião sobre a ameaça de recessão global ainda é a periférica (li-a, há minutos, no Diário Económico e é da autoria de X. Denecker): Portugal anda em contraciclo, não sofre de bolha imobiliária e até vai, por isso mesmo, fazer muito bem ao nosso rectangulozinho libertar-se da hipersensibilidade congénita que o leva a ser sempre demasiado afectado pela conjuntura. Gostei. E se fosse mesmo verdade?

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Ilusão

Regressa o brilho intenso do sol, o antigo eco dos nautas apolíneos. E a verdade é que a grande laranjeira do quintal parece agora elevar-se bem acima no recorte do horizonte. Fico a vê-la pairar sobre os plátanos despidos, sobre as máscaras dos deuses.

domingo, 20 de janeiro de 2008

Episódios e Meteoros - 66

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O encapuzado Mário Lino
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Portugal é um país extraordinário. Pleno de prodígios e de uma solaridade rara. Sinceramente, nem chego a perceber a razão que terá levado o governo a pagar campanhas publicitárias tão caras, quando a nossa matéria-prima fala por si e é única no seu pedigree histórico e presente. Qual Ronaldo, Mourinho ou Marisa! Repare-se na genialidade com que uma simples jogada de damas, entre o referendo europeu que nunca foi e um aeroporto ainda por vir, tornou os espectros mais negros do ano novo num auspicioso milagre.
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Todos sabemos que seria obra referendar a lista telefónica de Lisboa com a agravante de, a cada página, ela remeter para a lista telefónica de Madrid, de Atenas, de Berlim, de Bruxelas ou de Varsóvia. Dizer "sim" ou "não" a uma cidade de papel de tal dimensão seria, de facto, tão divertido como ser palhaço ou acrobata no Cirque du Soleil. É claro que a liturgia política tem apetites que não são menos cómicos: de um lado, o eterno core das promessas (como se a acção e o verbo, em política, tivessem inevitável concordância); do outro lado, as virgens da imaculada correcção que acham que tudo deve sempre bater certo-certinho (ou seja: se o senhor prior prometeu, na campanha eleitoral, que ia comer a ermida, agora vai ter mesmo que o fazer… sem poupar os alicerces).
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A liturgia e a demagogia, como boas irmãs siamesas, prometiam-nos, deste modo, diversão sem fim. O Janeiro português prometia e muito. Mas eis senão quando… O gongue bate e soa, de repente, em todo o hemisfério lusitano, a palavra “Alcochete”. Lá se foi, de uma só penada, o referendo, o Cirque du Soleil, o Bel Canto do Bloco e a retórica das promessas jamais cumpridas.
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Na mais reveladora conferência de imprensa do século XXI, Mário Lino apareceu ao lado de Sócrates com a cauda enroladinha aos quatro cantos da mesa. Parecia um marciano convertido aos dotes terrenos. Melhor ainda: Henrique Neto descobriria, nesse mesmo dia, em debate na SIC-Notícias, que o ministro era afinal um destemido oponente da Ota. A sua trágica "inabilidade" em defender a Ota, sobretudo na Primavera de 2007 (quando criou a famosa metáfora do "deserto"), seria a irrefutável prova disso mesmo.
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Que mais se poderá dizer deste inspiradíssimo mês de Janeiro?
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Bem podiam, de facto, retirar Ronaldo, Mourinho e Marisa dos cartazes que publicitam Portugal e substituí-los por um único prodígio: Mário Lino. Henrique Neto tinha e tem, pois, toda a razão: Mário Lino é afinal o mitológico rei encoberto e encapuzado que, ao lado dos flamingos cor-de-rosa, acaba de regressar à pátria de Alcochete numa manhã de nevoeiro. Tal como os monstros medievais que, depois de inspirarem o terror e o temor divinos, sempre acabavam por nos iluminar com o doce caminho da salvação.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Ainda a surpresa

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A supresa a que me referia ontem no post "Lembram-se de Rute Monteiro?" pode ser revelada aqui no (imponderável) Hiperscente. Já agora, era interessante que uma biblioteca se lembrasse, um dia, de levar a cabo um conjunto de sessões subordinadas ao tema "O que anda o escritor a escrever" (com redundância e tudo, as sessões serviriam para desvelar oficinas pessoais, processos de escrita em curso e implicariam, claro, leituras de excertos de futuros romances ainda em ponderada gestação). Foi, afinal, o que ontem aconteceu comigo. Pela primeira vez na vida, creio, e... já escrevo livros há mais de um quarto de século.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Lembram-se de Rute Monteiro?

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Hoje à noite, estarei na Biblioteca Pública de Évora para dialogar com o respectivo grupo de leitura (que andou - imagine-se! - a ler o meu último romance). Antes... há jantar literário no Jardim do Paço. O sentido desta minha divulgação é apenas um: é que logo levarei comigo, também, uma surpresa.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Cerveja e literatura - 65

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"E quando vieram as oito horas, Franz estava abancado à mesa no canto duma tasca com Meck e mais um que era mudo e só fazia sinais. As coisas passaram-se em grande estilo. Meck e o mudo pasmavam ao ver Franz desinibir-se, comer e beber regaladamente, dois 'eisbein', depois guisado de feijões e uma imperial Engelhardt atrás da outra, e ele a desembolsar por todos. Os três fincaram os braços uns nos outros para que não se chegasse mais ninguém a incomodá-los na mesa já de si pequena; só a magricela da patroa se podia aproximar para levantar os pratos, limpar e voltar a encher."
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(Alfred Doblin, Berlim Alexanderplatz, Editores Reunidos Lda., Lisboa, 1994, p. 178; participação: Alberto Magalhães)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Cerveja e literatura - 64

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"Em 0 Cálice havia um único cliente. Era Bretschneider, um polícia da secreta. O proprietário, o Sr. Palivec, enxaguava os pires, e Bretschneider tentava inutilmente encetar conversação.[….]
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- Arranjaram-na bonita. nesse maldito Serajevo! aventurou-se Bretschneider com fraca esperança.
- Em qual Serajevo? -- perguntou Palivec. O estanco de Nusle? Isso não me espantaria mesmo nada, porque todos os dias há lá pancadaria. Toda a gente sabe o que é Nusle.
- Mas eu estou a falar de Serajevo, na Bósnia, meu caro. Acabam de assassinar ali o arquiduque Fernando. Que é que você diz a isto?
- Nesses assuntos não me meto eu. Quem vier chatear-me com tais extravagâncias mando-o à fava – respondeu cortesmente Palivec, acendendo o cachimbo. - Ocupar-se hoje uma pessoa de negócios dessa natureza é o mesmo que quebrar a espinha. Eu sou comerciante, não é verdade? - e, quando alguém me encomenda uma cerveja, eu estou pronto a servi-la. Quanto aos Sarajevos, a politica ou ao nosso defunto arquiduque, nada disso me diz respeito. Só me pode trazer uma estadia em Pankrac.
Iludido na sua expectativa, Bretschneider calou-se e olhou à volta da sala vazia. [….]
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O agente mergulhou definitivamente no silêncio. Tornou-se-lhe sombrio o olhar e só se iluminou na altura da entrada do Sr. Chveik que, ao abrir a porta, encomendou logo uma «preta».
- Em Viena também hoje se está de luto -- acrescentou ele.
Os olhos de Bretschneider acenderam-se de esperança.
- Em Konopista há uma dezena de bandeiras pretas - disse secamente.
- Deveria haver doze - retorquiu Chveik depois de ter bebido a cerveja.
- Porquê justamente doze? -- interrogou Bretschneider.
- Para fazer uma conta redonda: uma dúzia conta-se melhor. E, depois, é sempre mais barato quando se compra à dúzia - replicou Chveik.[….]
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- […]. Mas nessa conjuntura poderemos unir-nos à França, que, desde 1870, está farta dos Alemães. De qualquer dos modos a guerra é certa e segura. Só lhes digo isto!
Bretschneider levantou-se e proferiu num tom solene:
- 0 senhor falou bastante, chegue comigo aqui ao corredor que eu tenho uma coisa para lhe dizer.
Chveik seguiu docilmente o detective até ao corredor, onde o esperava uma pequena surpresa. O companheiro de pinga mostrou-lhe uma aguiazinha no reverso da banda do casaco, anunciando-lhe que estava preso e o ia levar à Directoria da Policia. Chveik tentou explicar que havia certamente um equívoco da parte do cavalheiro, que ele estava inocente, que não pronunciara uma única injúria contra fosse quem fosse.
Mas Bretschneider explicou-lhe que a sua situação era clara, cometera vários delitos qualificados, entre os quais o de alta traição.
Voltaram a sala e Chveik declarou ao Sr. Palivec:
- Devo cinco imperiais e uma salsicha com pão. Serve-me mais uma schnaps, antes de me pisgar. Estou preso."
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(Jaroslav Hasek, O Valente Soldado Chveik, Publicações Europa-América, Mem Martins, 1971, p. 11; participação: Alberto Magalhães)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Cerveja e literatura - 63

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“Subi ao último andar de um dos hotéis mais altos, entrei no espaçoso bar e pedi uma cerveja Heineken. Passaram bem uns dez minutos até vir a cerveja. Enquanto esperava, apoiei o cotovelo sobre o braço da cadeira e deixei-me ficar assim, de olhos fechados, com a cabeça apoiada na palma da mão. Não conseguia concentrar-me nem pensar em nada. Com os olhos fechados, a única coisa que ouvia era um ruído que me fazia lembrar uma centena de duendes a varrerem o interior da minha mente com as suas vassourinhas. Varriam e tornavam a varrer, e o trabalho deles nunca acabava. A nenhum deles passara pela cabeça usar uma pá do lixo.
Quando me trouxeram finalmente a cerveja, emborquei-a em duas únicas goladas. Acto contínuo, engoli vorazmente os amendoins, servidos num pratinho como acompanhamento. Só então deixou de se ouvir o ruído produzido pelos anõezinhos e as suas vassouras.”
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(Haruki Murakami, Em busca do carneiro selvagem, Casa das Letras, Casa das Letras, Cruz Quebrada, 1982/2007, p. 161: participação: Bruno Cunha)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2008

Episódios e Meteoros - 65

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(crónica publicada, desde quinta-feira passada, no Expresso Online;
(ver também no meu blogue de crónicas)
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O ponto mais fraco de José Sócrates
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Quando um ano acaba e outro começa, as televisões gostam de ilustrar o ano findo com imagens. Curiosamente, essas imagens são salteadas e realçam, ou instantes de humor, falhas, gafes e desatenções inusitadas, ou dão a ver momentos de violência gratuita, olhares em estado de choque, pancadaria, numa palavra: fogosidades.
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Sempre adorei voltar a ver este tipo de imagens isoladas do seu contexto. O exercício permite, entre outras coisas, prever o futuro. Quando se revê o nosso PM no parlamento europeu a ser interrompido por vigorosos protestos, o que se revê, em primeiro lugar, é o seu olhar profundamente incomodado. Um olhar que não consegue esconder um mal-estar tão profundo, tão incontido e tão avesso à máscara (ou à elegância) que acaba por pôr a nu o seu ponto mais fraco. Um dia, Sócrates cairá em desgraça por causa deste seu abismo muito particular.
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Falei em abismo? Sim. Vertigens, não do poder, mas da falésia do convencimento. Sócrates adora as sessões em que a encenação e o protocolo impedem a dissenção natural. É uma questão de temperamento e não tanto de agenda política, creio. O que só agrava o diagnóstico. Nada melhor do que um Les Uns et les Autres onde tudo acaba bem, com música morna e anúncios heróicos. Sem falhas, sem gafes e, também, sem fracturas ou olhares desencontrados. Sócrates veio da serra para a capital e gosta de manter a sua democracia metódica. Sem exageros e com um único alarde: o da pose.
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Disdéri foi o fotógrafo francês que, por volta de 1850, inventou a pose. Uma efígie que disfarça os remoques e que recria o sol na gruta mais sombria do olhar. A simulação do tigre na audácia do gato. A pose é um óptimo ponto de partida para levar o mais incauto à falésia do convencimento. Sem pose não há defesa possível, a não ser que a densidade do personagem se imponha à fatalidade. É uma escola como muitas outras. E Sócrates nela estudou e a ela se entregou. Só que um parlamento europeu aos gritos parece muito pouco para destronar e desfazer tanta vertigem.
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Sócrates está de pé, tenso, crispado, carregado e olha para o inferno dos deputados que gritam em uníssono “Referendo, Referendo!”. É um olhar que reflecte o fogo da maçada e o gelo do estorvo. Um aperto que o PM não consegue, de modo nenhum, dissimular. Se há momento em que a acrobacia e a verdade mais concordam uma com a outra é este mesmo. Sem falhas.
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É claro que Sócrates é incapaz de perceber que os sucessos da presidência portuguesa deveriam falar por si próprios. É claro que Sócrates cairá sempre na tentação do auto-elogio desnecessário. Questão de pose. É claro que Sócrates até tem razão em recusar o referendo europeu. Mas, de um momento para o outro, perde toda a razão, perde tudo. Está de pé, a sós, como a areia molhada sob o ímpeto das ondas. Não perdoará nunca que lhe tenham minado a sua falésia do convencimento. Questão de pose. E, um dia, de desgraça.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

To be or...

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Henrique Neto descobriu ontem, num debate na SIC-Notícias, que Mário Lino era afinal um ferveroso defensor da OTA. A sua "inabilidade" em defender a Ota, sobretudo na Primavera de 2007 (quando criou a famosa metáfora do "deserto"), seria a prova disso mesmo. O caso não é único. De certo modo, a transferência de Santos Ferreira da CGD para o BCP é - ou seria - um pouco como a candidatura de Pinto da Costa à presidência do meu SLB. Salvo seja. Tudo coisas normalíssimas: o que sempre foi pode sempre ser, também, o seu contrário. Tal como os monstros medievais que tanto inspiravam terror e temor a Deus, como docemente apontavam o caminho da salvação das almas.