sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

To be or...

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Henrique Neto descobriu ontem, num debate na SIC-Notícias, que Mário Lino era afinal um ferveroso defensor da OTA. A sua "inabilidade" em defender a Ota, sobretudo na Primavera de 2007 (quando criou a famosa metáfora do "deserto"), seria a prova disso mesmo. O caso não é único. De certo modo, a transferência de Santos Ferreira da CGD para o BCP é - ou seria - um pouco como a candidatura de Pinto da Costa à presidência do meu SLB. Salvo seja. Tudo coisas normalíssimas: o que sempre foi pode sempre ser, também, o seu contrário. Tal como os monstros medievais que tanto inspiravam terror e temor a Deus, como docemente apontavam o caminho da salvação das almas.

Volta ao Mundo - 13

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Há quatro meses que iniciaram a volta ao mundo. Hoje, a Clara e o Miguel enviam-nos a sua mensagem da Austrália. Para trás já ficaram muitas outras terras e crónicas: Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, Polinésia, Ilha da Páscoa, Nova Zelândia (com passagens por Tahiti, Moorea, Huaihine e Raiatea). Enfim, envio daqui um grande abraço e passo a publicar a 13ª epístola aos lusitanos:
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"Austrália e um lugar qualquer"
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"Olho pelo vidro do carro e a paisagem continua a passar. Não percebo como. Eu continuo parada. Passamos por um grupo de pessoas a rir, com cervejas numa mão e gestos soltos na outra. Não percebo como. Eu continuo parada. Hoje soube que morreu um amigo.
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Foi há muitos anos. E a minha alma tinha morrido. Era um nada. E dor. Tinha deixado de ser. Foi quando percebi que me pegavam ao colo, que me levavam ao ombro, que me alternavam o peso numa caminhada impossível até um estádio que, para mim, tinha deixado de ser olímpico. Desconheciam que não me levavam inteira, cada um carregava apenas um estilhaço.
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Saio do carro. Descalça. Piso a areia com força. Com força. Como se quisesse atravessar o mundo. Ouço os gritos de um grupo de adolescentes. Não percebo como. Eu continuo calada. Hoje soube que morreu um amigo. Ando até molhar os pés. Por momentos esqueço-me que estou na Austrália. Não penso em tubarões nem em experiências de vida. Não me lembro. Não ouço. Não acredito. O mar parece-me muito maior. Quase impossível.
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Foi há muitos anos. E a minha alma tinha morrido. Carregavam-me quando era apenas estilhaços. E riram-se. Não sabiam que nesse momento davam sentido ao meu reinício.
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Mergulho até não aguentar não respirar. Estou viva. E sei que a partir de hoje sou eu que carrego um estilhaço. De um amigo."
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(um exclusivo para o Miniscente)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Chapeau

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E eis como a comédia de Janeiro se transformou, de um momento para o outro, na mobilização infinita (como diria Sloterdijk). Chapeau.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A comédia de Janeiro

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Referendar a lista telefónica de Lisboa com a agravante de, a cada página, remeter para a lista telefónica de Madrid, de Atenas, de Berlim, de Bruxelas e de Varsóvia, é obra. Obra das grandes. Dizer "sim" ou "não" a uma molhada de papel desta dimensão é, de facto, mais divertido do que ser palhaço ou acrobata no Cirque du Soleil. É claro que a liturgia política tem apetites que não são menos cómicos: de um lado, o coração das promessas (como se a acção e o verbo, em política, tivessem inevitável concordância); do outro lado, as virgens da imaculada correcção que agora acham que tudo deve bater certo-certinho (ou seja: se o senhor prior prometeu que ia comer a ermida, agora vai ter mesmo que o fazer… sem poupar os alicerces). A liturgia e a demagogia, como boas irmãs siamesas, vão-nos divertir imenso nos próximos dias.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A limpeza em curso

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Tal como os talibãs destruíram os Budas no Afeganistão, também hoje se retiram de filmes conhecidos os cigarros e as manchas de fumo. Em 2001, pouco antes do 09/11, o filme Backdraft de Ron Howard (de 1991!) foi amplamente condenado por activistas antitabagismo por mostrar bombeiros a fumar. A ironia tornou a militância ridícula, na medida em que a luta contra a catástrofe natural, de que o filme dava conta, era desvalorizada a favor do impacto tabágico. O mais importante, apesar da ironia, era, pois, a cega mensagem de interdição. E nada mais.
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(ler versão integral desta crónica no Expresso Online e também no meu blogue de crónicas)

domingo, 6 de janeiro de 2008

A sobremesa de Luís Pacheco

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Conheci-o mal, mas lembro-me bem dele. Para as pessoas com a minha idade, o Luís Pacheco foi sempre parte da ementa. Nem que fosse de um detalhe da sobremesa tão lascivo e selvagem quanto iluminado. Era preciso ter conhecido a gastronomia da época de Luís Pacheco para o entender em pleno. Mas isso pouco interessa, até porque essa época correspondia, em alguns aspectos, a um mundo radicalmente às avessas da liofilização fascistóide de hoje. A “História” como narração linear é sempre uma aberração. Não apenas a “História”, mas todos os caracóis que se arrastam nos muros, todos os arcanjos da higiene literária e todos as flanelas onde escorre um fiozinho de leite com "Z". Para além do desejo à solta, o mais intemporal em Luís Pacheco terá sido o uso da língua. No fundo, é esse tipo de solaridade que fará dele um mestre para todas as conveniências do nosso tempo. Mas isso é conversa para editores de páginas culturais. Salvo seja. De qualquer modo, o Miniscente não gosta de cultura (cultura?). Pelo menos, hoje. Dia em que Luís Pacheco nos fez a todos o maior dos manguitos. Vaya Con Dios, como dizem os belgas.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Cerveja e literatura - 62

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“Diante de um pequeno restaurante, “Zur Stadt Paris”, há mesas no passeio de uma rua transversal. Vêem-se aí copos brilhantes de cerveja. Do restaurante vem um cheiro um pouco fresco, de cave, talvez a tonéis, tonéis de vinho, tonéis de cerveja. Só então se repara que a Lua apareceu por cima da rua. A noite permanece muito quente.
Para os donos dos restaurantes das ruas calmosas, o Verão não é em Viena o melhor período, embora o calor faça correr mais a cerveja, quando há seis canecas à sombra, como por vezes aqui se diz: é que, terminado o trabalho e mais ainda no fim-de-semana, toda a gente vai para fora…”
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(Heimito von Doderer, A Flagelação Bolsinhas de Camurça seguido de Um Outro Kratki-Baschik, Trad. de José A. Palma Caetano; Lisboa, Assírio e Alvim, 2004, p. 40; participação: Clara Alvarez)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Episódios e Meteoros - 63

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(crónica publicada, desde quinta-feira passada, no Expresso Online; ver também no meu blogue de crónicas)
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Ferro Rodrigues, Camarate e o nevoeiro português
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A justiça terrena, pelos vistos, também é democrática: há muitas, variadas e de todos os preços. É por isso que, uns dias antes do Natal, Ferro Rodrigues desceu do seu posto diplomático à simplicidade campestre de Monsanto para depor em tribunal. Ao tentar explicar a razão do seu envolvimento no Processo Casa Pia, Ferro Rodrigues disse que tudo se ficou a dever ao facto de ter sido líder de uma oposição considerada "demasiado à esquerda". Por outro lado, para o ex-secretário-geral do PS, a "cabala" podia também ser explicada com base numa pura manobra de diversão (tendo com base a "instrumentalização" de alguém "preso" ou que "pudesse vir a ser preso").
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Ambas as conjecturas parecem algo viciadas. Vício de interpretação, é claro. A primeira explicação, mais defensiva, refugia-se nas referências direita-esquerda, quando todos sabemos que a complexidade do mundo actual requer bem mais do que o simplismo esquemático e binário dessas referências. A segunda explicação imagina o combate político à imagem das grandes ficções de espionagem, recheadas de álibis tenebrosos e amputações políticas perpetradas em laboratório (uma espécie de super-Watergate português com Nixons imaculados).
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Perguntar-se-á: quem ousaria tramar uma conjura monumental a Ferro Rodrigues e a Paulo Pedroso por encarnarem, um e outro, um perigosíssimo desvio de esquerda nos idos de 2002/3? A ser verdade tal paradoxo, o que teria acontecido a Sampaio, Soares, Alegre e Roseta, de então para cá? Por outro lado, quem teria capacidade, no Portugal de hoje, para "instrumentalizar" tudo e todos – com excepção para o agora intérprete dos factos – nas barbas de uma presumível e delicada operação judicial?
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O facto é que, após cinco anos de enigma, Ferro Rodrigues desceu do seu posto diplomático a Monsanto para adensar ainda mais o enigma. E não é menos verdade que uma aura de desconfiança domina a espessa névoa portuguesa, de que o caso Casa Pia é um dos mais recentes sinais. A névoa de Ferro Rodrigues, como a do acidente de Camarate, é uma névoa de natureza completamente diferente da que muitos desenharam à volta do D. Sebastião regressado, invicto e salvador. É uma névoa que apenas encobre e não promete, que apenas cobre e não dá qualquer esperança.
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Passa o tempo e a desconfiança permanece. Não tenhamos dúvidas disso. A voz corrente decidiu há muito dar vida ao triste rei do final de quinhentos. A voz corrente decidiu há muito reconhecer dedo de assassino na queda de avião que vitimou Sá Carneiro e Amaro da Costa. Fica por saber o que a voz corrente irá ditar no caso Casa Pia. O mito acabará sempre por falar mais alto. Sabe-se que assim é, quando o tempo passa e a desconfiança permanece. Independentemente da inocência e do que venham a decidir os tribunais, Ferro Rodrigues terá que arranjar melhores conjecturas. A "esquerda-direita" e as chamadas "manobras de diversão" não são particularmente felizes. Convenhamos.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Bom Ano!

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“Sagres”
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por Jorge de Sousa Braga
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“Só tenho uma ponta de
cigarro para fumar
e para apagá-la
todo o mar”
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(De Boca do Inferno em Desfocados pelo Vento, A Poesia dos Anos 80, Agora, Antologia, Quasi, Vila Nova de Famalicão)