segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

Viva a reacção!

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E o facto é que as pessoas adoram proclamações que as acordem da letargia, que as animem ou que as transformem em reguladoras de todos os males do planeta. As pessoas gostam de receitas fáceis, de milagres, de discursos em que tudo bata certo. As pessoas gostam de ter inimigos, fantasmas terríveis e bodes expiatórios que saciem as fragilidades, perdas e inconsistências. É da natureza humana. Muitas vezes não é “a causa” o que ‘está em causa’, mas sim o incontrolado ímpeto que leva as pessoas a ajuizar e a condenar objectos e práticas deste mundo com a mesmíssima lógica que terá inspirado as “Noites de Cristal”.
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Eu deixei de fumar em Março de 1997 e, portanto, não sou parte interessada na grande revolução de 1 Janeiro de 2008. Nem nunca o seria. Porque o mais grave é perceber que, à medida que a liberdade parece consolidar-se na
nossa vida pública e, fundamentalmente, na iniciativa de cada um de nós, mais estes fascismos invisíves parecem despertar e imolar a nossa tentação democrática. E o pior é verificar que, neste sistema (determinista) de vasos comunicantes, o vaso fascista se vai impondo à singularidade expressiva. Tenha que natureza tiver.
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Na próxima quinta-feira, aprofundarei o tema na minha crónica habitual do Expresso Online. BOM ANO!

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Godard e o baú do natal

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Um dos meus presentes de natal veio do senhor Godard. Salvo seja. Mas não deixa de ser verdade que as História(s) do cinema, agora editadas por cá, são intensas e sobrepõem fragmentos de uma arte maior. Desde que emergiu do pasmo fotográfico até se tornar na reinvenção da mente, invadida por sonhos de carne e por vozes de sombra. Uma fantasmagoria apetecível, de massas. Como diz Godard, a certa altura, nada no cinema se funda numa realidade histórica. Tal como o cristianismo, o cinema cria uma narrativa, concede-a ao público e diz: acredita. Crê! E assim que os deuses se colocaram em fuga, entre as proezas variadas de Muybridge, Nietzsche, Freud ou Proust, eis que um novo deus singrou na alma das multidões, das revoluções e sobretudo das solidões. Uma arte maior que terá perdido a inocência por causa de duas guerras brutais e que não sucumbiu diante da roda viva das variedades de estúdio. Uma arte maior e, porventura, nem sequer uma arte. Um lapso. E, porventura, nem mesmo uma técnica, como sublinha o espesso Godard, omnipresente narrador desta sua longa saga que se vai deixando ver entre uma nuvem doméstica e permanente de tabaco. Augúrios muito actuais. Não sei se vos aconselho o DVD, sinceramente. Não é coisa que faça moda, hoje em dia, e muito menos aqui na turbulência feérica e amiúde vazia da blogosfera. Nestes dias de natal em que o mundo se imobiliza, vi, por acaso, o Tolentino poeta no ecrã da televisão. Dizia, com razão, que deixámos todos de perceber como se habita este ser que é o homem. Preenchimentos ininterruptos: é disso que é, realmente, feita a hemorragia televisiva. E era a isso que Tolentino se referia. Ao invés, o cinema, aquele cinema que Godard persiste em ver como sobrevivente a todas as mortes, como ressurreição quase pura, terá - ou teria - sido, possivelmente, a última arte a dar ao homem a sugestão do seu verdadeiro habitat, das suas sombras, dos seus pasmos e das suas figuras mais virtuosas. Em suma: um grande presente de natal retirado do minúsculo baú da imprevisibilidade (embora a minha capacidade de exaltação, nestes casos ligados ao sublime, já não seja o que foi há uns vinte anos).

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Episódios e Meteoros - 62

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(crónica publicada há uma semana no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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A nova Expo
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Quando o Outono entra em cena, há um período de limbo que costumo definir como nostálgico. E nunca soube porquê. Nunca descobri se é por causa da definição da luz, se é por causa das memórias balneares da infância, se é por causa do avizinhar do início das aulas, se é por causa da bonança que sucede aos excessos do sol, se é por causa do reaparecer normal das rotinas, se é por causa das folhas caídas dos plátanos, ou se é por causa de alguma antiga e perdida paixão outonal.
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Não sei, não faço ideia, mas sinto-o até ao mais recôndito mapa da minha pele. Como se entrasse em metamorfose e ameaçasse rever-me num ser que nunca fui e num tempo que, antes, afinal, nunca terá chegado sequer a existir. Deve ser isto mesmo a nostalgia: um desafio improvável que tenta acasalar uma sensação extraviada de belo com os passos inseguros e tímidos que acabam sempre por recortar o presente. Deve ser isso que tenho sentido, ano após ano, quando o oceano de Agosto dobra o cabo de Setembro e depois a boa esperança nublada de Outubro.
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Escrevo este texto em Dezembro, quase em cima do Natal, e, portanto, já imune a todos estes enredados estados de alma. Mas o mais curioso é que o país parece ter andado a mimar esta minha estranha metamorfose da nostalgia. Tem sido assim ao longo de todo o Outono, confesso.
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É o documentário sobre a Guerra de África do Joaquim Furtado que disputou audiências a concursos e novelas. É a série Conta-me como foi de Fernando Ávila e Pedro Miguel que passa aos domingos à noite. São os programas de António Barreto (o último versa o contraste entre a televisão que existe e a que existiu). É a história do livro sobre a afilhada de Salazar. Aliás, são todos os livros sobre Salazar e o seu tempo que nunca foi, frise-se bem, apenas o tempo de Salazar. E são lançamentos editoriais. Um deles um romance de guerra (António Brito, Olhos de caçador da Sextante) que o editor, João Rodrigues, referiu como parte desta «onda»: “Testemunho lúcido, preciso e realista, associado a uma estrutura ficcional com ritmo, que prende o leitor. O êxito da série documental de Joaquim Furtado levou-nos a considerar a sua publicação imediata”.
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Enfim, o Outono cobriu Portugal de uma nostalgia ávida e espessa. Forma interessante de glosar o presente. Tudo isto quase dez anos após a Expo. Lembram-se?
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Confesso que sempre tive a sensação de que faltava algo na Expo98.
Deve ter sido, de facto, este pavilhão tardio: o Pavilhão da Nostalgia.
E com esta nota amena vos acompanho até à fogueira do Natal.
Um bom lume, muita saúde e muitos presentes são os meus sinceros votos.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Natal - 10

Em Portimão, consegue ver-se o futuro no seu pior. Um mundo em que a maior parte do que se construiu, na segunda metade do século XX, não passa (não passará) de um monte de ruínas. Torres desconexas, péssimos acabamentos, marquises decrépitas, ferros a esventrar o cimento recente; azulejos esverdeados, cúpulas toscas, fontes de betão e sinaléticas sem uso. Perquenas casas e mansões belle époque resistem, isoladas e discretas, a esta polifonia sem acerto. Mas já lhe colocaram alumínio da cor do latão para precaver tal timidez.

Natal - 9

Portimão é hoje uma cidade vazia. Óptima para passar o natal. Da entrada da ponte velha, agora fechada ao trânsito, não se vê uma única pessoa. Sobra o rio, umas palmeiras recentes para impressionar turistas e uma atmosfera arquitectónica de ruína. O sol é o único e verdadeiro esplendor. O povão - que as revoluções sempre acreditaram ser a salvação do mundo - está nos hipermercados: esse verdadeiro "amanhã radioso" que canta para todos nós numa linguagem "made in China".

domingo, 23 de dezembro de 2007

Natal - 8

Há momentos em que prefiro um guindaste a um bom livro. Questão de ócio, de vertigens, de imperfeição habitual. Nos posts de baixo explica-se porquê.

Natal - 7

Entre livros imagina-se o pior. Nunca mais virá o próximo. É a mina que secou. É o fim. O apocalipse é a visão de deus com babete e tudo: um deus infantil que nunca brincou aos livros; escreveram-lhos todos. O que falta à sofreguidão do escritor actual é um bom profeta que lhe pudesse revelar os seus livros. Iria já ao Continente comprar o meu babete, se assim fosse. Há sempre uma alternativa: comprar o Sétimo Selo para oferecer amanhã à Tia Amélia.

Natal - 6

Há um encanto neste enlameado cor de salmão. Faz-me lembrar Jerusalém. Nas poças de água, vêem-se reflectidas as varandas vazias da época. Luzes vermelhas, intermitentes. Um casal de pombos hesitante. Guindastes e carros estacionados como forma de desenhar o espaço. Fecho a cortina e regresso ao milagre do Spyke.

Natal - 5

Quando a literatura era uma obra sacralizada, os escritores escreviam em nome de uma espécie de deus (espiritual ou ideológico). Hoje, esse vazio - ou essa saliência maior - passou a ser resolvido com a vertigem tecnológica. E quando se colocam palavras dentro dessa vertigem, o tal deus ri-se às gargalhadas. Como nunca antes tinha acontecido.

Natal - 4

O politicamente correcto (que tenta não sê-lo) exprime-se como a panela de pressão: expande-se por dentro, enquanto o mundo continua a respirar com as suas imperfeições habituais no lado de fora.