domingo, 23 de dezembro de 2007

Natal - 3

Hoje é o meu primeiro dia livre desde Setembro. Há muito tempo que o ócio não me emoldurava um post. Sim, o ócio. Não ter mais nada a fazer do que auscultar a perdição. Ou olhar apenas a curva da serra.

Natal - 2

Duas nuvens recortaram o cume da serra. À mostra ficou apenas o lume que ludibria os cascos do grande cavalo que me olhou nos olhos. Um olhar terno e poderosamente enigmático.

Natal - 1

Olho para a silhueta da Serra de Monchique: um dorso de animal que desceu do primeiro sol da manhã e ali se instalou para esgotar os mais antigos fios da memória.

sábado, 22 de dezembro de 2007

Há oitenta anos

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Magazine Bertrand - Leitura para todos, Livrarias Aillaud e Bertrand.
I Semestre de 1928. Segunda Série, Ano II. Nº 13, Esc, 5$00.
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(carregar para aumentar: vale mesmo a pena!)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Renas e musgos

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O Natal é uma era que passei a não gostar. Para mim, era ideal saltar de 20 para 27 de Dezembro num balão e, talvez, na companhia de René Clair. No meio do encanto hipnótico das crianças (único Natal que tem sentido), as famílias entram em estado de choque e as estatísticas dizem que os divórcios, as zangas intestinas e as desavenças (expostas ou guardadas a sete chaves) se tornam, de um momento para o outro, em vendaval. Este aspecto carnavalesco, que tanto toca a ilusão das cores como a sangria doméstica, é disfarçado pela música de cravo que ornamenta praças e alamedas (cada vez mais com a repetida e apertada concorrência dos anúncios da TMN). Enfim, eu posso refugiar-me e sorrir. Há quem prefira entrar no baile com a devida venda nos olhos. A cada um a sua liberdade. Seja como for, a ironia diz-nos que o Natal sabe bem à lareira, que chegam mensagens cordatas pelo mail, que há doces, que há redescobertas do passado (ir de bicicleta ao musgo), que há presentes. Que há surpresas. Tudo isso é verdade, mas tenho a sensação de que seria ainda melhor se nos deixassem realmente em paz. Eu disse "paz"?

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Cerveja e literatura - 61

Acabei de escrever o que viria a ser o meu primeiro romance no mês de Dezembro de 1982 (há um quarto de século precisamente). Lembro-me que num desses dias frios, quando passeava junto à margem de um canal (vivia então em Amesterdão), dei comigo a descobrir vários objectos no fundo das águas. Eram bicicletas, bacias, mangueiras e até um manequim. Esta visão translúcida valeu-me a escrita dos inícios desse meu (ilegível) primeiro romance. Ainda não existiam computadores e, por isso mesmo, eu punha-me a cortar com a tesoura o texto entretanto escrito em folhas improvisadas, para depois colar as tiras com fita-cola. Um verdadeiro Dziga Vertov, embora livre, à procura da secreta lucubração e montagem do seu discurso. E pelo meio havia muita cerveja. E da boa. Sobretudo belga. Vem esta rememoração a propósito da citação de hoje que é de Bukowsky e que me foi sugerida pelo António Manuel Venda:
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«Debatia-me com o meu primeiro romance. Todas as noites, enquanto escrevia, esvaziava meia garrafa de whisky e duas embalagens de cervejas.»
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(Charles Bukowsky, Mulheres; original: Women, 1978; tradução: Fernando Luís, Dom Quixote/FNAC, Lisboa, 2001, pp. 10/11)

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Cerveja e literatura - 60

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No Capítulo IV de O Retrato de Dorian Gray de Oscar Wilde, o diálogo entre Dorian Gray e Lord Harry desagua, a certa altura, num Romeu e Julieta que este último descreve com desdém. Não é, pois, por acaso que o actor que desempenha o papel de Romeu surge caracterizado como "uma voz rouca de tragédia e uma figura como um barril de cerveja". Aliás, em pleno teatro, comparado a uma festa de casamento de "terceira classe", comiam-se nozes e "as mulheres circulavam com laranjas e cerveja gengibrada" ("Women went about with oranges and ginger-beer").
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(Oscar Wilde, O Retrato de Dorian Gray - original, 1890; tradução: João do Rio - Hedra, S. Paulo, 2006, pp. 93/94)

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Simplex


Cartaz de promoção de Portugal
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Não, não se pode estar sempre a dizer mal. Depois de o Certificado de Admissibilidade ter demorado uns dias a mais, a verdade é que hoje constituí uma empresa em apenas 44 minutos (sim: quarenta e quatro minutos). Registe-se o facto e abençoe-se o futuro da neófita.

Volta ao Mundo - 12

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No início de Setembro, a Clara e o Miguel partiram de Portugal e, entretanto, já passaram por Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, Polinésia e Ilha da Páscoa. Neste momento, estão na Nova Zelândia. Hoje recebi a crónica referente à Polinésia Francesa (Tahiti, Moorea, Huaihine e Raiatea):
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"Era uma vez. Uma imagem.
De uma família a receber-nos no Tahiti com colares de silêncio e flores brancas. Tínhamos acabado de chegar a um lugar onde tudo é diferente. Onde se apaga o resto do mundo e a terra nos foge dos pés. Onde tudo se passa dentro do peito.
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Era uma vez. Um sopro.
De verde. De azul. De acaso. A cada passo quase um abismo.
Numa primeira volta à ilha uma tontura de imensidão impede-nos de acreditar. Depois, de mansinho, conseguimos levantar os olhos. São as árvores que começam. Pesadas, debruçam-se para nos oferecerem fruta. Quase sentimos o alívio. Num instante seguinte, imperceptível, o mar inunda-nos com corais e transparência. E não deixamos de ser nós. Só passamos a ser mais terra.
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Era uma vez. Um espanto.
Numa ilha tão longe que pensamos que não existe. Em Huahine. Descobrimos que se pode respirar enquanto se vive a novidade. Um casal com cinco filhos mostrou-nos isso quando nos recebeu dentro da sua humanidade. Não sei o que aprendemos. Que os mortos se enterram na areia do jardim? Que se pode viver ao ritmo do sol? Que há árvores que nos abraçam? Não sei. Talvez não seja preciso aprender nada.
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Era uma vez. Uma dança. Uma montanha. Uma ilha sem ninguém.
Em que os braços falam da chuva e da memória com uma harmonia que não cabe nas mãos. Em que os pés sobem com surpresa. Onde a recordação é demasiado grande para se guardar.
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Era uma vez. Um início.
Quando nos despedimos e recebemos de cada pessoa um colar de búzios.
Não significam o nosso regresso. Emprestam a voz ao desejo que regressemos. Acrescentam-nos.
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Era uma vez uma crónica diferente. Sem linhas de invenção. Porque sim. E porque há momentos que nos transformam a vida. Simples instantes ou dias inteiros. Como estes."
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Foto: Miguel Sacramento
(um exclusivo para o Miniscente)

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Cerveja e literatura - 59

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“No reduzido número das coisas que me agradaram, e que soube bem, aquilo que por certo fiz melhor foi beber. Embora tenha lido muito, bebi mais. Escrevi muito menos do que a maior parte das pessoas que escrevem; mas bebi muito mais que a maioria das pessoas que bebem.” (…) “Vagueei bastante por várias cidades da Europa, nelas apreciando tudo quanto merecia sê-lo. O catálogo, em tal matéria, poderá ser vasto. Havia as cervejas de Inglaterra, onde se misturavam as fortes e as brandas na caneca; havia as enormes canecas de Munique; e as irlandesas; e a mais clássica, a cerveja checa de Pilzen; e o admirável barroquismo da Gueuze, nos arrabaldes de Bruxelas, quando ainda possuía sabor distinto em cada cervejaria artesanal e não suportava ver-se transportada para longe.”
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(Guy Debord, Panegírico, tradução: Júlio Henriques; Edições Antígona, Lisboa, 1995, pp. 37/38; Participação: Carlos Vaz)