sábado, 15 de dezembro de 2007

Episódios e Meteoros - 61

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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I Love Tagus
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Vivemos tempos de correcção. São tempos que ilustram essencialmente a lei do menor esforço. Não se trata de ler uma receita e aplicá-la, como acontecia com o homem medieval diante dos Evangelhos ou com o homem ideológico diante das barbas de Marx.
Não, não se trata já propriamente de causas. A coisa dava reumático.
Trata-se antes de reproduzir ideias, factos e lógicas do mesmo modo com que se compram Ipods ou pastilhas elásticas: ao sabor do momento, do piscar de olhos e do gosto que todos, ou quase todos partilham. Ou partilharão.
O bom praticante do potencialmente correcto não precisa de passar muito tempo a pensar: basta-lhe assobiar ou aplaudir como qualquer outro adepto que se senta num estádio de futebol. Basta-lhe a estrela da sintonia, o estar em comum, o espírito de rima falsa ou certa, mas, de qualquer modo: a rima.
O bom praticante do potencialmente correcto não persuade, nem seduz, porque, à partida, aceita de bom grado ser um ser seduzido. Ainda que nem dê por isso. O que geralmente acontece. Basta-lhe estar na onda e por isso acaba por interiorizar e imitar o que está a dar, o que o envolve, o que o delicia. Porque a delícia é feita, não de ideias, mas das mãos que fantasmaticamente se tocam e geram afectos.
Sim, os afectos: é nesse palavrão que reside o combustível do bom praticante do potencialmente correcto. Uma natureza em forma de eflúvio que, à moda das musas inspiradoras, faz sobrepor os sentidos a qualquer abismo próprio e sem rede por baixo.
O bom praticante do potencialmente correcto não precisa de pensar. Torna-se em matéria apensa ao original: um attachment que reenvia os louros e que se recomenda, como se fosse um anjo do bem. Mas de um bem exclusivo.
O bom praticante do potencialmente correcto sorri à moda dos pixels: ora acende ora apaga, ora acende ora apaga, mas não diz quase nada. E acredita em territórios sacralizados, em fronteiras fixas e em coisas que não se podem dizer: uma crença totalitária disfarçada por uma rave de pinguins. Uma cena muito à frente. E pretensamente livre.
O bom praticante do potencialmente correcto não é um seguidista e muito menos um plagiador. Poderá até irritar-se, mas adora ser parte de um eco maior. Adora entoar tons entre tons de um acorde concertado. Adoraria tornar-se numa luzinha suave da linha de montagem de uma fábrica de cerveja.
Mas da Tagus, não. Dessa jamais.
Até porque, como dizia um famoso cronista (era mesmo cronista?): Ceci n´est pas une pipe.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Pré-publicações - 76

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Francisco José Viegas, Se me Comovesse o Amor, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2007.
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"SÃO AS MAIS ESTRANHAS ÁRVORES"
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Para o Manuel Hermínio Monteiro.
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"São as mais estranhas árvores, as que descem até às raízes;
pela última vez se visitam, antes que venha uma nuvem
ou que os animais te despertem a meio da noite. Estremeces
de tão pouco cuidado teres com essa maneira de os pássaros
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se transformarem em fantasmas. A sombra poisa devagar
no teu ombro, como uma suspeita. Sofre-se muito: dois dias
depois lembra-se a passagem do tempo, a doçura das coisas,
como a da chuva a cair sobre os montes, a geometria
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do mundo, as clareiras dos bosques, os muros das aldeias,
músicas que ouvimos antes. Teríamos sabido da morte de outra
maneira? A luz é muito diferente, nessa paisagem; escreveste-a
em silêncio, em cadernos que te chamam como uma despedida
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até ao próximo Verão. Um relâmpago no céu, um rio ao fundo
da montanha: lugar tão perfeito como se de um geógrafo
se aproximassem os campos, os canais junto dos vales, as palavras
amadas. Teríamos sabido da morte de outra maneira?"
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Pré-publicações - 75

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Tom Head (Org.), Conversas com Carl Sagan, Quasi, Vila Nova de Famalicão, 2007.
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Pré-publicação:
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"Num tempo em que tanto abunda o “nonsense” provocador, é bom encontrar um pouco de bom senso provocador. A reputação de Carl Sagan enquanto astrónomo brilhante com o dom da conversa informal data de 1965, quando apareceu A Vida Inteligente no Universo, livro escrito em co-autoria com o soviético Iosef Shklovskii. Sem nunca ter sido um “best-seller”, A Vida Inteligente rapidamente ficou conhecido como um dos mais excitantes livros de ciência não técnicos alguma vez escritos.
Num ímpeto de vitalidade que se seguiu ao seu trabalho no projecto Mariner (que colocou um satélite apetrechado de câmaras em órbita à volta de Saturno), Sagan escreveu ou colaborou noutros cinco livros, todos com lançamento agendado para este ano. A maioria versa a sua especialidade, a exobiologia, ciência emergente que se ocupa da vida para além da terra.
Com formação em astronomia, física, biologia e genética, Sagan vive com a mulher e três filhos em Ithaca, Nova Iorque, onde é director do Laboratório de Estudos Planetários da Universidade de Cornell. Foi nesse laboratório que, numa manhã de Janeiro polvilhada de neve, nos sentámos para conversar."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Cerveja e literatura - 58

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"As lojas de bebidas de Harvard Square vendiam um uísque muito barato da Wilson, That's All, mas o meu pai não gostava de beber. O Oxford Grill, em Cambridge, costumava servir cerveja nuns copázios de vidro com a forma de baldes de conhaque, mas levando um galão cada um. Quem conseguisse beber esta quantidade num período de tempo reduzido, tinha direito a outra dose grátis. Mas o pai só lá ia beber uma cerveja normal depois das aulas, e ia logo a correr apanhar o comboio para Dairy, na North Station."
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(John Irving, O Hotel New Hampshire, Distri Editora, Porto, 1984, p. 42; participação: Alberto Magalhães)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Cerveja e literatura - 57

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"Quando o cônsul Buddenbrook e Siegismund Gosch voltaram à assembleia, a sala oferecia um aspecto mais confortável do que um quarto de hora antes. Estava iluminada por dois grandes candeeiros de parafina, colocados na mesa do presidente, e os deputados estavam juntos, sentados, de pé, enchendo de cerveja os grandes copos bebendo, e conversando barulhentamente, num ambiente de franca alegria. A sr.ª Suerkringel, viúva dedicada, viera em socorro dos seus hóspedes prisioneiros, oferecendo-lhes, com palavras eloquentes, uma refeiçãozinha, pois que o sítio podia durar muito tempo. Assim, aproveitara-se do distúrbio para vender grande quantidade da sua cerveja clara e bastante alcoólica. No momento da volta dos emissários, o criado, em mangas de camisa e com um sorriso benevolente, trazia nova carga de garrafas. Não obstante a hora avançada e apesar de ser tarde demais para se ocuparem da modificação da Constituição, nenhum dos deputados parecia disposto a interromper a reunião alegre, para voltar para casa. De qualquer forma, a hora do chá já passara…"
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(Thomas Mann, Os Buddenbrook, Livros do Brasil, Lisboa, s/d, p. 139; Participação: Alberto Magalhães)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Cerveja e literatura - 56

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“Mal entrei em casa, ao fim do dia, pressenti o desastre: andava no ar um cheiro enjoativo a refogado, à mistura com uma nuvem de cerveja. Corri para a cozinha, mas o mal já estava feito, o meu peito de borrego resfolegava ao lume, agitando-se num mar de cervejum e cebolório, arfando naquele caudal de água a ferver, perdendo-se, dessorando-se, minguando.”
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(António Mega Ferreira, O Pretexto em A Expressão dos afectos, Assírio e Alvim, Lisboa, 2001, p.73)

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Volta ao Mundo - 11

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No passado sábado, o jornalista Fernando Madaíl (do DN) fez chegar aos media a volta ao mundo que está a ser protagonizada pela Clara Piçarra - neta do grande Piçarra do hino do SLB - e pelo Miguel Sacramento (e de que o Miniscente tem estado, em exclusivo, a editar as crónicas de viagem). Como se vê, nem sempre a blogosfera é senhora, a sós, de dotes aventurosos. E ainda bem que assim é. Há mais de três meses que se iniciou esta saga e para trás já ficou Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, a Polinésia e a Ilha da Páscoa. Neste momento, a Clara e o Miguel andam a contar carneiros na Nova Zelândia. Soube por eles, imagine-se, do texto da autoria de Fernando Madaíl. As voltas que o mundo dá!

Cerveja e literatura - 55

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E eis como, na segunda página do romance de Ron McLarty, A Recordação da corrida (que acaba bem, juro!), o protagonista se apresenta:
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"Só que em 1990, com quarenta e três anos e cento e vinte e seis quilos, eu era supervisor na Goddard Toys, e passava os dias a verificar se os braços do boneco articulado SEAL Sam estavam montados com as palmas das mãos viradas para dentro, e as noites no Tick-Lap Lounge a beber cerveja e a ver programas desportivos na televisão. Não tinha namoradas. Nem, creio eu, amigos propriamente ditos. Tinha companheiros de copos. Bebíamos bem, como bons compinchas."
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(Ron McLarty, A Recordação da corrida, tradução: Ana Falcão Bastos; Bizâncio, Lisboa, 2005, p.10)

domingo, 9 de dezembro de 2007

Justa indignação de Carmo da Rosa

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"Indiferença ou desleixo?"
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"O recentemente falecido Augusto Willemsen foi, em 2006, convidado a participar numa tertúlia literária organizada pela Associação Portuguesa de Amesterdão. Durante o jantar, que sempre precede a palestra literária, a direcção da APA teve o cuidado de colocar August Willemsen estrategicamente em frente dos Srs. cônsul e vice-cônsul. Este cuidado de juntar as altas individualidades presentes revelou-se inútil: os representantes das autoridades portuguesas jamais tinham ouvido falar de August Willemsen.
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Hoje, sexta-feira 7 de Dezembro, durante o funeral, muita gente esteve presente. A família, os amigos, pessoas de letras, portugueses e brasileiros residentes na Holanda, e mesmo o embaixador do Brasil.
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As autoridades portuguesas, continuam a ignorar o homem que deu Pessoa, Camões, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Drummond de Andrade, Dalton Trevisan a conhecer à língua neerlandesa.
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Lista de portugueses envergonhados:
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Carmo da Rosa"

sábado, 8 de dezembro de 2007

Episódios e Meteoros - 60

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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M. S. Tavares e V. P. Valente: uma querela antiga
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A querela MST vs. VPV tem alimentado conversas entre calistas, professores, funcionários públicos, comerciantes e taxistas. A coisa significa bem mais do que um livro, umas crónicas ou rixas à frente da ginjinha do Rossio. Há nesta contenda dois Portugais, duas realezas e duas falas de personagem que se passeiam num palco bem mais apelativo do que o encenado no circo das letras. Entre quintas do Douro e o Gambrinus, entre o Alentejo e a St. Julian’s School, entre o altar do sucesso e a névoa de Oxford, entre a nostalgia e a excitação se passa todo este enredo. A percepção mais imediata do duelo revelar-se-á no tom com que MST e VPV idealizam o país.
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MST tem desmontado com algum rigor a camada que se foi instalando sobre o Portugal rural que existiu até ao final dos anos cinquenta. A crítica ecológica, num sentido alargado, comanda esta desmontagem que incide nos costumes, na apressada massificação e no labirinto da burocracia. Trata-se de uma crítica feita a partir de dentro, sem acidez forçada de voyeur. Há sardinhas assadas e algum sorriso no olhar crítico (por vezes tão contundente quanto folgazão) de MST. Este ponto de vista não é alheio à postura romântica do amante das coisas do campo, da caça, das virtudes do lúdico e sobretudo das viagens (de que herda o prazer de viandante iluminista).
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VPV não desmonta, mas escarnece. Um pouco à moda dos expressionistas que não viam, mas tinham visões. Por vezes luminosas. Trata-se de um escárnio que é vizinho do desacato mais lúcido, ou tão-só arrasador. A crítica mordaz de VPV tem recorte frio (de quem sobrepõe a angústia à emoção) e coloca-se claramente de fora do objecto que visa: Portugal. Os adjectivos são exemplo dessa atitude: caracterizar como “péssimo” ou como “pavorosa mediocridade” é coisa normal e quase sempre em contraste com a imagem de estrangeirado (a “genuína universidade”) que tenta legitimar o verbo. Portugal é, para VPV, uma massa ignorante que carece por vezes de polícia e que – aqui estaríamos todos de acordo – não sabe tratar por tu a liberdade.
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Os mundos de MST e de VPV são, de facto, diversos. A noblesse e o desinibido legado do “gozo” e de sucesso de MST pouco têm que ver com a ideia de um menino a sós que fez nome rebelde a partir de um avô singular. Tutelas e cosmopolitismos distintos: a marca do desejado contra a augurada imagem de escritor maldito. Um e outro denotando problemas com os vestígios da velha ideia sacralizada de “Escritor” (“Como todos os historiadores sou um pouco escritor…”, diz VPV; os escritores acham-me um “intruso” e sou “alérgico ao espírito gregário da classe”, diz MST*).
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É verdade que o politicamente correcto se pode tornar subitamente numa forma de correcção. Sempre que o mundo é pequeno e toda a gente se conhece, o rabo do gato disfarça bem o arranhão. Talvez tenha sido por causa disso que VPV pediu a MST para escrever um livro sobre a sua passagem pela governação da cultura. Talvez tenha sido por causa disso que MST afirmou que apenas a agricultura e o próprio VPV deviam ser subsidiados em Portugal. Tal é a mútua admiração.
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Tal é, também, a disputa cega, secreta e já antiga entre um Portugal de amena e conciliada redenção e um Portugal “vencido” ou exausto de si mesmo. Uma querela antiga, pois então.
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*Cândida Pinto e Micael Pereira, Miguel Sousa Tavares “Agora gozo muito mais…”, Expresso, Única, nº 1825, 20/10/07, pp. 74-87; Ana Soromenho e Rui Gustavo, Vasco Pulido Valente “Pedi a Cavaco…”, Expresso, Única, nº 1829, 17/11/2007, pp. 108-122.