sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Crónica em directo da cimeira

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Não sabe se há-de dizer "preto", se há-de dizer "negro". Fica mal, fica bem. Fica bem, fica mal. Se diz "negro", faz figura de alarve, se diz "preto" é como se evitasse dizer "heterossexual" ou "masculinidade", uma e outra noções que o "putativamente correcto" vê como machismo puro. E nada mais. Sem qualquer margem de manobra. O máximo, diz ele (ou é uma ela?) era servirem uma ou duas Tagus, hoje à noite, no Parque das Nações. Ao jantar. A nova polícia dos costumes vinha logo a correr a dizer que era racismo. E homofobia. E a ASAE vinha logo a correr a dizer que aquilo fazia mal aos rins. Dos ditadores, dos tiranos, ou dos outros. Tanto faz. Quem me dera ter uma tenda! Mas a frase não é do Manuel Rui, aquele rapaz que surfava ondas no MPLA? Não. Porquê? Por uma única razão; porque descobriram petróleo no Beato. Sócrates sorri. E o Tejo. E tudo. Ali mesmo à mão.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Volta ao Mundo - 10

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Na sua volta ao mundo, a Clara e o Miguel já estão na Nova Zelândia. Tudo começou há cerca de três meses e... para trás já ficou Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires, Ushuaia, a Polinésia e a Ilha da Páscoa. Depois da última crónica enviada (relativa aos fiordes da Patagónia chilena), é hoje a vez de:
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Rapa Nui (Ilha da Páscoa)
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"Corta o peixe em fatias bem finas, afoga-o em limão e alho, acrescenta gengibre, ervas aromáticas e não espera. Pega num pedaço e leva-o à boca. Eleva-se para essa mesma manhã. Revive aquele ínfimo instante em que pressente que o peixe vai morder o anzol. Cada músculo do seu corpo a preparar-se para a luta do animal. O mar. O tempo. O som. Antecedem o momento.
Mastiga o pedaço cru e olha para além da janela suja. O mar ao longe transforma-o no próprio peixe. Sente a dor, a força, o fundo. Mergulha para o fundo. Para o fundo de si próprio, para o outro lado da sobrevivência. Chegou ao mercado de Hanga Roa orgulhoso, com o peso do peixe nas duas mãos. Ambos sorriam. No outro prato da balança vinte bananas, um saco grande de legumes e uma grade de cervejas equilibram a semana.
Sai de casa. O prato abandonado em cima da mesa desconhece a história que serviu. Vazio. Como as ruas àquela hora da tarde. O cavalo espera-o com a mesma serenidade dos que sabem o caminho. Correm juntos, sem adereços ou separação, numa liberdade castanha que os leva até ao cimo do vulcão. Protege o seu Moai num abraço de pedra sólida. Não sente que adormece. Não sabe que sonha.
- Até amanhã - ouve.
E tem a certeza que haverá um dia seguinte."
(um exclusivo para o Miniscente)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

That´s a kind of teaser

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Amanhã, na minha habitual crónica do Expresso Online, o tema vai ser "Miguel Sousa Tavares e Vasco Pulido Valente: uma querela antiga". Ou seja: "entre um Portugal de amena e conciliada redenção e um Portugal “vencido” ou exausto de si mesmo. Uma querela antiga, pois então".

Cerveja e literatura - 54

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Quando Ralph descobre, preto no branco, a infidelidade de Marian, "agarra-a pelo ombro e empurra-a da sua frente", escreve Raymond Carver. Não escutando os perdões, sai depois de casa e o destino torna-se previsível. A umas dez páginas do final do romance, dir-se-á que, para tanto melodrama real, nada melhor do que uma cerveja no Blacke´s:
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"Ele teve que parar e encostar-se a um carro antes de caminhar. Dois casais em trajo de cerimónia vinham no passeio, em direcção a ele, e um dos homens vinha a contar uma história em voz alta. Os outros já estavam a rir. Ralph afastou-se do carro e atravessou a rua. Em poucos minutos chegou ao Blacke´s onde, nalgumas tardes, parava para beber uma cerveja com Dick Koening, antes de ir buscar os filhos ao infantário."
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(Raymond Carver, Queres fazer o favor de te calares, tradução: Carlos Santos; Teorema, Lisboa, 2004, pp. 266/267)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Pré-publicações - 74

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Miguel Real, A Morte de Portugal, Campo das Letras, Porto, 2007 (Dezembro).
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Pré-publicação:
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"(...) 1. ORIGEM EXEMPLAR: a figuração da origem exemplar de Portugal emerge na segunda metade do século XVI através da imagem de Viriato, herói impoluto, puro, virtuoso, soldado modelo, chefe guerreiro íntegro, homem simples, pastor humilde que se revolta contra a prepotência do ocupante estrangeiro, conduzindo os lusitanos a vitórias sucessivas – povo singelo e singular que, não obstante a sua fragilidade militar, é vencedor das legiões do império romano. Tão excelsa é a auréola de Viriato e tão recta e luminosa a sua conduta que só pela traição é derrotado. Concebida por Sá de Miranda e Camões, prolongada heroicamente por frei Bernardo de Brito e Brás Garcia Mascarenhas, a figura de Viriato sobressai no justo momento histórico do fim de 400 anos de ascensão vitoriosa de Portugal como povo exemplarmente católico, desde o conde D. Henrique a D. Manuel I, vencedor e expulsador de infiéis do território de Santa Maria, descobridor de mundos e reconvertor de pagãos. Deste modelo viriatino guarda cada português a imagem imaculada do português de antanho, patriarca da nação e exemplo ético de conduta, enraizado no terrunho natal, afeito à tradição, perfeito na humildade e na modéstia, tão sóbrio e decente quanto decoroso conveniente – é o complexo viriatino, que nos guiou em Ourique e em Aljubarrota, que orientou a conduta histórica de Egas Moniz, Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque e D. João de Castro e moveu fundo a política nacional de Oliveira Salazar; e quando, dúplice, a pátria abandonou à sua sorte os mazombos pernambucanos do século XVII, João Fernandes Vieira, madeirense desventurado, filho abandonado de um fidalgo e de uma rameira preta do cais do Funchal, fez despertar o seu complexo de Viriato e, com catanas, zagaias e arcos, iniciou a guerra de guerrilha que, anos mais tarde, haveria de expulsar os holandeses do Brasil;
2. NAÇÃO SUPERIOR: da decadência do Império a partir de D. João III, do fracasso de Alcácer Quibir e da perda da independência nasce o assombro de nos sentirmos insignificantes depois de nos termos sabidos gigantes na descoberta da totalidade do mundo. Padre António Vieira, resgatando o providencialismo de Ourique e o milenarismo judaico de Bandarra, deu voz majestática a este cruzado sentimento de grandeza e pequenez, recusando testemunhar a nossa real insignificância europeia, dourando-nos o futuro com o regresso anunciado às glórias do passado, agora sob o divino nome de Quinto Império. Pela arte da palavra de padre António Vieira, Portugal, país de valor exíguo no século XVII, valendo apenas pelo legado dos territórios do Império, permanece desde então sebastianisticamente em permanente estado inquieto de vigília, aguardando o “despertar”, a “Hora!” pessoana, porque de novo cruzará os mares – agora do espírito e da cultura, falhados que foram os reais, tornando-se de novo grande – é o complexo vieirino, que nos determina a desejarmos mais do que nos pedem as forças e nos exigem as circunstâncias, pulsão social que orientou as caravelas portuguesas;
3. NAÇÃO INFERIOR: no final do século XVIII, após 250 anos de domínio exclusivo da Igreja Católica na formação da mentalidade colectiva portuguesa, arrefecido o afluxo de ouro e pedras preciosas do Brasil ao erário régio, Portugal reconheceu a sua pobreza intrínseca – o comércio urbano e as exportações nas mãos dos ingleses, o pão confeccionado com farinha branca inglesa, o carvão importado da Inglaterra, os trajes tecidos de seda de Lyon e de fazenda dos teares de Manchester, a louça provinda de Itália, as berlindas armadas em Paris, escolas públicas inexistentes, estradas reais inexistentes, hospitais públicos reduzidos ao de Hospital de Todos-os-Santos de Lisboa, que se incendiara em 1750. Magro, macérrimo era Portugal; gordo,gordérrimo o Estado de D. João V; magro, macérrimo era Portugal; gorda, gordérrima a Igreja de Portugal. Pela Europa culta ostentavam-se os espectáculos públicos nacionais como exemplo de barbárie e superstição: autos-de-fé, procissões penitenciais e touradas. O Marquês de Pombal reagiu a esta situação catastrófica, revolucionando o todo de Portugal – tesouro régio, educação, economia, urbanismo, política regalista –, assente na profunda convicção de que a Portugal, país em permanente estado de inferioridade civilizacional, nada lhe faltava para ser igual aos restantes caso se alterasse drasticamente o perfil das elites, insuflando-lhes um banho de Europa. Desde a revolução liberal de 1820, todos os ímpetos modernistas portugueses têm nascido deste complexo cultural que eleva a Europa a destino e sentido de Portugal – o complexo pombalino, hoje acefalamente política dominante do Estado português, que, como “bom aluno”, se põe na fila das estatísticas, subordinando a sua imensa valia cultural à mera e exclusiva valia dos indicadores económicos, gerando um notório sentimento de mal-estar e de inferioridade entre as actuais elites portuguesas, envergonhadas do povo rústico, bruto e arcaico que comandam, esquecendo-se de que o mesmo povo, em outros países da Europa central, governado por outras elites, atinge indicadores económicos valorosos e comportamentos educacionais distintos; (...)"
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

O paradoxo Chávez

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Perde as eleições, continua a governar e ainda consegue ser visto como democrata. Coisa única. Chapeau.
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P.S. - Entretanto, o Público, embora salvaguardando as conjecturas nas letras pequeninas (à moda dos seguros de vida), lá noticiou o "Sim" com todo o brado.

Astor

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Carla: fizeste-me lembrar uma noite, em Utreque, na Holanda. O Astor Piazzolla entrou no grande palco do Vredenburg e disse (mais ou menos isto): "Quando comecei a tocar ninguém percebeu o que eu fazia". Após uma pausa, continuou com o mesmo tom, impávido: "E hoje... toda a gente continua ainda por perceber". Num rompante, a música calou o riso e o forte oceano de palmas. Foi em 1985, creio. Tinha acabado de chegar de Veneza e era tio há menos de um mês. É verdade, tudo isto bate certo. E eu volto ao teu belo Bomba para ouvir o Astor mais uma vez. Emocionado.

Parabéns!

Atrasado como sempre, mas não esqueço os parabéns ao Mar Salgado, à deliciosa Rititi e a todo o 31 da Armada.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Episódios e Meteoros - 59

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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O sagrado: uma máscara de nós próprios
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Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem”1.
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Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de deus e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta.
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Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio do sagrado esteja nesse jogo – por mais sofisticado que seja – entre bastidores e boca de cena. O sagrado não é, pois, apenas uma forma dramatúrgica de conforto.
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O que nos atrai ao sagrado é o mesmo que faz o homem pensar. Nós pensamos com imagens que se reproduzem como cerejas (Damásio, em O Sentimento de Si, prefere falar de um fluxo de imagens que se move “para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada e, algumas vezes, avança não apenas numa sequência mas em várias”2). Apesar de não nos podermos comparar a um catavento, andamos, por vezes, lá perto: passeamo-nos na rua, entramos num café, guiamos um carro e, ao lado da concentração, a nossa cabeça é um moinho sempre a rodar, sempre em movimento.
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O que é que esta turbulência da nossa mente tem a ver com o sagrado? É simples. O sagrado baseia-se no mistério. E há uma vantagem no mistério que é, ao mesmo tempo, também, a sua essência. É que o mistério é como uma sombra em torno da qual é possível construir ilimitados percursos. Não se trata de explicar por que razão essa sombra existe, mas de a contornar, de a percorrer, de a envolver, porventura de a amar. Grande parte da existência e do discurso dos homens faz-se a partir dessa circum-navegação que nunca mais acaba. Um ritual de imagens, ritos, palavras e gestos que se reproduz, ao longo do tempo, apenas para sublinhar a importância da sombra.
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No fundo, o labirinto do culto é muito semelhante ao labirinto com que as imagens encenam a consciência. O cinema, quando foi inventado, também trouxe para o lado de fora da nossa cabeça esta luta livre entre a montagem e o modo desabrido com que as imagens se podem conotar ou reproduzir, na nossa frente, sem cessar. O cinema é, sob o ponto de vista físico, como substância, uma verdadeira sombra. Melhor: sombra e luz que se alternam. E que, com o seu movimento, nos mobilizam a pulsação mais vital.
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O sagrado é, ao fim e ao cabo, um modo confortável de imitar e plagiar a nossa mente, mas é também a radiografia permanente do seu funcionamento. É por isso que o sagrado e o homem se confundem. O cinema foi, ao longo do seu período pioneiro, tal como o sagrado o foi no tempo das “Escrituras”, uma ilustração fantástica e fantasmática deste desejo profundo de brindarmos ao universo com uma máscara de nós próprios.
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1-Enunciação em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984/II, pp. 387.
2-O Sentimento de Si - O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000, p.362.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Voava sobre as palavras - II

Bert Verhoeff
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No post de baixo sucedem-se os depoimentos sobre a morte de August Willemsen: José M. Rodrigues, Rui Mota, Carmo da Rosa e Fernando Venâncio.