segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Parabéns!

Atrasado como sempre, mas não esqueço os parabéns ao Mar Salgado, à deliciosa Rititi e a todo o 31 da Armada.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Episódios e Meteoros - 59

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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O sagrado: uma máscara de nós próprios
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Foi Ducrot quem escreveu que o fenómeno religioso não se poderia explicar, caso “a própria língua não tornasse possível a fala de alguém ser simplesmente a fala de outrem”1.
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Este ponto de vista simplista, mas interessante, põe em paralelo a voz do profeta que transmitia a voz de deus e o encantamento digital das mil mediações que nos repõem, hoje, o mundo na nossa sala de estar. Há em ambos os casos uma distância entre a voz que se ouve e uma outra voz que se oculta.
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Mas eu não creio, sinceramente, que o fascínio do sagrado esteja nesse jogo – por mais sofisticado que seja – entre bastidores e boca de cena. O sagrado não é, pois, apenas uma forma dramatúrgica de conforto.
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O que nos atrai ao sagrado é o mesmo que faz o homem pensar. Nós pensamos com imagens que se reproduzem como cerejas (Damásio, em O Sentimento de Si, prefere falar de um fluxo de imagens que se move “para a frente no tempo, depressa ou devagar, de forma ordeira ou sobressaltada e, algumas vezes, avança não apenas numa sequência mas em várias”2). Apesar de não nos podermos comparar a um catavento, andamos, por vezes, lá perto: passeamo-nos na rua, entramos num café, guiamos um carro e, ao lado da concentração, a nossa cabeça é um moinho sempre a rodar, sempre em movimento.
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O que é que esta turbulência da nossa mente tem a ver com o sagrado? É simples. O sagrado baseia-se no mistério. E há uma vantagem no mistério que é, ao mesmo tempo, também, a sua essência. É que o mistério é como uma sombra em torno da qual é possível construir ilimitados percursos. Não se trata de explicar por que razão essa sombra existe, mas de a contornar, de a percorrer, de a envolver, porventura de a amar. Grande parte da existência e do discurso dos homens faz-se a partir dessa circum-navegação que nunca mais acaba. Um ritual de imagens, ritos, palavras e gestos que se reproduz, ao longo do tempo, apenas para sublinhar a importância da sombra.
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No fundo, o labirinto do culto é muito semelhante ao labirinto com que as imagens encenam a consciência. O cinema, quando foi inventado, também trouxe para o lado de fora da nossa cabeça esta luta livre entre a montagem e o modo desabrido com que as imagens se podem conotar ou reproduzir, na nossa frente, sem cessar. O cinema é, sob o ponto de vista físico, como substância, uma verdadeira sombra. Melhor: sombra e luz que se alternam. E que, com o seu movimento, nos mobilizam a pulsação mais vital.
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O sagrado é, ao fim e ao cabo, um modo confortável de imitar e plagiar a nossa mente, mas é também a radiografia permanente do seu funcionamento. É por isso que o sagrado e o homem se confundem. O cinema foi, ao longo do seu período pioneiro, tal como o sagrado o foi no tempo das “Escrituras”, uma ilustração fantástica e fantasmática deste desejo profundo de brindarmos ao universo com uma máscara de nós próprios.
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1-Enunciação em Enciclopédia Einaudi, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1984/II, pp. 387.
2-O Sentimento de Si - O corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Publicações Europa-América, Lisboa, 2000, p.362.

sábado, 1 de dezembro de 2007

Voava sobre as palavras - II

Bert Verhoeff
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No post de baixo sucedem-se os depoimentos sobre a morte de August Willemsen: José M. Rodrigues, Rui Mota, Carmo da Rosa e Fernando Venâncio.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Voava sobre as palavras (act.)

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Morreu August Willemsen. O tradutor holandês de Pessoa e sobretudo um amigo.
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Depoimentos:
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"E fiquei só de mim, ausente."
"En ik bleef mijzelf alleen, afwezig van mijzelf."
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Carlos Drummond de Andrade
Traduzido por August Willemsen
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"August Willemsen foi o holandês mais lusófono que eu conheci. Era tímido e nós ficávamos tímidos ao pé dele. Com um grande sentido de humor e com um cabelo grisalho dum outro continente, vivia nos Países-Baixos. Traduziu Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa para holandês (entre outros). Com a tradução do Pessoa ganhou a distinção mais alta da cultura holandesa. Além do futebol, Portugal começou a ter outra importância na cultura flamenga. Começámos a ser mais respeitados. E nisto, encontrou-se aquilo. Outras das nossas artes foram introduzidas na sua cultura. Abriu a curiosidade.
Enfim, apesar de quase não ter falado com ele, criei um enorme respeito e admiração pela sua obra. Coisa esquisita: Escritor e tradutor são ambos importantes nas suas traduções.
Quando leio a sua tradução de Fernando Pessoa, ainda me pergunto admirado: Como é que conseguiu? Mas tudo está lá. Para tirar as teimas, uma página em português, outra em holandês…
Duas culturas tão diferentes encontram-se."
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Rui Mota
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Nessa Noite, prometeu voltar...
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"Não foi hoje, foi ontem. Mas, para o caso, tanto faz. Guus era, sem dúvida, o melhor tradutor literário holandês da língua portuguesa. Históricas são as suas traduções de Fernando Pessoa que, continuava a traduzir regularmente. Mas também de Drummond, Euclides e Machado de Assis. Lembro aqui um académico e um inspirador, com quem tive o prazer de conviver ao longo das últimas três décadas. A última, em Fevereiro de 2006, numa Associação Portuguesa de Amsterdão, onde participou numa noite literária, com um texto de Ubaldo Ribeiro. Nessa noite, prometeu voltar, assim o convidassem... A literatura portuguesa perdeu um dos seus melhores embaixadores. Eu perdi um amigo."
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Carmo da Rosa
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"O meu primeiro encontro com August Willemsen.
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No dia 10 de Maio de 2005 vou assistir a uma conferência de August Willemsen sobre Dificuldades a Traduzir Poesia na universidade de Utreque.
Era a primeira vez que via o personagem em carne e osso, antes desta data só o conhecia através dos livros que li dele. No fim da conferência, não sei o que me deu, mas dirigi-me decididamente a ele e, mesmo antes de esboçar algum elogio formal sobre a palestra, disse-lhe: Gostaria muito de traduzir para português o seu livro De Goddelijke Kanarie (O Divino Canarinho, ou O Divinal Canarinho! Ou ainda O Canarinho Divinal)… Ele, todavia sentado, interrompeu momentaneamente a recolha da papelada que metia na sua pasta, desviou o olhar para cima, na minha direcção e disse: ‘Ik ben zeer vereerd (sinto-me muito elogiado)’.
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Não creio que o tenha dito por ironia! Talvez se deva à situação confusa, várias pessoas à volta dele com perguntas. O normal no fim destas palestras. Respondi-lhe: Nee nee, ik ben zeer vereerd, niet u! (Não, a honra é toda minha).
Por fim diz-me ele ‘vamos aí fora beber qualquer coisa e já falamos’.
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À mesa do café - entre admiradoras incondicionais (dele), organizadores da conferência (senhoras doutoras brasileiras e portuguesas), espontâneos (eu) - bebemos mais do que qualquer coisa, falamos bastante, mas nem uma palavra sobre o essencial - a hipotética tradução do Goddelijke Kanarie. A certa altura, não sei por que razão - o álcool talvez!? -, a conversa degenerou em poesia satírica e erótica, e eu, já completamente à vontade junto do Sr. August Willemsen, perguntei-lhe se ele conhecia A Porra do Soriano de Guerra Junqueiro. ‘Conheço pois!’ Responde ele com entusiasmo. Sendo assim, passei rapidamente à recitação: ‘Eu canto do Soriano o singular mangalho / Empresa colossal! Ciclópico trabalho!
E ele, pelo seu lado, e (como eu) sem qualquer respeito pelo decorum, declama às gargalhadas A Manteigui de Du Bocage (que eu não conhecia!). ‘Da grande Manteigui, puta rafada / Se descreve a brutal incontinência / Do cafre infame a porra desmarcada / Do cornígero esposo a paciência.
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Na hora de apanhar o último comboio para Amesterdão, despedimo-nos, e finalmente lá trocamos de endereços electrónicos. Passado duas semanas enviei-lhe o meu primeiro e-mail:
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Caro Augusto,
Cá estou eu outra vez! Sou o português que durante a tua palestra em Utreque, do dia 10, mostrou interesse em traduzir o De Goddelijke Kanarie. E como tu não reagiste mal à ideia, aqui vão 18 parágrafos à laia de teste. (…)

A.W. responde-me no dia 4 de Junho de 2005:
‘Caro José,
É muito engraçado ver o meu texto em português. A tua tradução parece-me fantástica, por vezes também humorística (‘o Altíssimo fazia ouvidos de mercador' é mais bonito que o original).’
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Claro que isto não é verdade, mas o Guus era um gajo porreiro.
No mesmo mail abordou ainda a diferença entre o futebol Carioca e Paulista, Mané Garrincha, como traduzir ‘tratar a bola por tu’, a rivalidade Porto-Benfica versus Barcelona-Madrid, Nelson Rodrigues e mais uma série de coisas. No fim, foi obrigado a enfiar à pressa este post-scriptum que de certa forma o define:
‘Lembrei-me agora de uma coisa, pela qual deveria ter começado: Waarom DIVINAL i.pv. DIVINO? (Porquê Divinal em vez de Divino ?)
O Guus Willemsen não era um gajo divinal, era um gajo bestial…"
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Fernando Venâncio
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August Willemsen (1936-2007)
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Todas as mortes próximas são irreais. A de August Willemsen não menos que as outras. Ainda há dias me telefonara pedindo-me boleia para um encontro de tradutores no próximo dia 4 em Utreque. Pois irei de comboio de Amsterdão, e irei sozinho. Ele, o Príncipe dos tradutores holandeses – como ele se riria dum título assim –, não estará. Isso é lógico. O que não é lógico, e de todo irreal, é aquela voz, dum entusiasmo sempre resguardado, mas firme e decidida, com que de novo, e pela última vez, me falou.
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August Willemsen tornou conhecidos, e mesmo populares (entre a elite, mas mais não é sonhável), o Fernando Pessoa, o Drummond de Andrade, o Machado de Assis, o Camões, que a sua pena mágica recriava em neerlandês. Todo o grande tradutor é um grande escritor, e decerto um grande estilista, e tem de sabê-lo. Mas foi só com um algum pudor que o autor Willemsen publicou obra própria. As suas Braziliaanse brieven (Cartas brasileiras), de 1985, são hoje um clássico da literatura de viagem, tal como o seu recentemente reeditado De Goddelijke Kanarie (O divino canário), sobre o futebol brasileiro, será um clássico da literatura de desporto.
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O pudor não chegava, contudo, para travar-lhe a pouca, mas pungente, autobiografia. Em De val (A queda) narrou, com desarmante franqueza, a tentação alcoólica. Em Een liefde in het Zuiden (Um amor no Sul), confessou uma aventura juvenil na Costa del Sol e o difícil relacionamento com um pai pró-hitleriano.
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Tradutor, escritor, Willemsen foi também um ensaísta de eleição. Sobre a nossa literatura e a nossa história escreveu páginas argutas e, como tudo o que produziu, duma legibilidade a toda a prova.
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Mas será o ‘seu’ Pessoa – que, desde 1978, andou motivando poetas holandeses e flamengos – para sempre a jóia da sua coroa. Mais um símile de que ele se teria rido. Só a perfeição lhe bastava. E isso era, para ele, a mais natural das coisas.

Um ano de pré-publicações!

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Faz hoje um ano a rubrica "Pré-publicações" do Miniscente. O primeiro livro pré-publicado foi o Cemitério de pianos do José Luís Peixoto. Depois, formou-se um clube a que, a pouco e pouco, as editoras foram aderindo. Hoje, a rubrica conta com a inscrição de duas dezenas de editoras portuguesas.
Regularmente, recebo dessas editoras - e de todas as outras que quiserem aderir - um painel de obras a editar. Dessas obras, escolho livremente as que se adequam ao perfil do Miniscente. E, depois, em timings a definir pelas partes, os textos e as capas são pré-publicados.
No primeiro ano, foram pré-publicadas 73 obras. Deixo em baixo, para além da lista das editoras que são membro do clube, dois depoimentos que me chegaram neste dia de aniversário.
O meu agradecimento!
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de Manuel Fonseca (Editora Guerra e Paz)
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“Tomo a liberdade de achar que temos em comum, o Luís e eu, um franco optimismo em relação à literatura que, em boa verdade, é a morena e inpiradora musa deste objecto a que chamamos Livro.
Num qualquer Paraíso, mais ou menos artificial, num qualquer Inferno, dantesco, é provável, Luís, que o Livro, realizada a Utopia ou consagrado o Caos, não tenha lugar.
Hoje, neste mundo que eu vejo como uma prodigiosa ars combinatoria de real e virtual, tu e o teu Miniscente ajudaram a provar que o Livro e a Rede não só não são incompatíveis, como o que seria um aparente destino de conflito e exclusão, fica desmentido pela forma como, Livro e Rede, se cruzam a cada minuto, com a mesma lógica e necessidade que faz da Poesia e da Música uma cantabile fraternidade.
Muitos terão pensado e acreditado, tu fizeste. As “Pré-Publicações” do Miniscente, com o seu desinteressado voluntarismo, têm, neste tempo de mercado tempestuoso, às vezes ciclónico, as cores do arco-íris. É quase de uma swifitiana ironia que assim seja, por tudo se passar nessa dimensão do nosso mundo onde não chove, nem faz sol.”
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de Cláudia Abreu (Editora Campo das Letras)
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“Parabéns pelo 1.º aniversário da rubrica de "Pré-publicações" do blogue Miniscente.
Apreciamos o seu empenho na promoção da leitura e na formação do gosto literário e estamos muito gratos por toda a atenção dispensada às edições da Campo das Letras e seus respectivos autores.
A Internet é hoje um poderoso canal de comunicação que nos possibilita chegar a um maior número de pessoas, mais rápido e mais longe, e a baixo custo!
A par dos meios de difusão tradicional, o uso da rede, tornou-se para a Campo das Letras indispensável na divulgação da sua actividade editorial.
Através do nosso site, em
www.campo-letras.pt (que em 2008 terá uma nova versão – a 3.ª desde fundação da editora em 1994 – com novas funcionalidades e grafismo), do envio por mail da newsletter e da colaboração com inúmeros sites e blogues, que dedicam particular atenção à literatura, estreitamos o relacionamento entre com os vários agentes intervenientes na área editorial – leitores, autores, jornalistas, críticos, agentes literários, livreiros, etc., em Portugal e no estrangeiro – com resultados francamente positivos.”
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

O spleen da razão

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Curiosamente, não partilho qualquer sentimento de greve. Trabalho como em qualquer outro dia, seja dia do "Senhor" ou não. Acordei com a excitação da TSF, cuja objectividade era enunciada alternadamente por jornalistas e sindicalistas com um tom próximo do relato de futebol (jogada perigosa de ataque). Uns e outros, na grelha do noticiário, repetiam nomes de escolas e outras instituições do nosso estimado estado. Insaciada ponte, esta. Com toda a razão, acrescentarei eu. Não vá um meteorito cair-me na cabeça.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Retrovisor - 11

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espreitar outros blogues, pois então
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"Parece-me evidente que nada disto é remotamente assim, que estamos perante uma auto-complacência no limite do ingénuo. Por um sem número de razões, inclusive eu agora não me apetecer que assim seja."
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"Resumindo e descodificando: em 2008 vamos assistir à perseguição implacavelmente pidesca do pequeno contribuinte, às escapadelas, nas barbas do fisco, dos grandes contribuintes e, last but not least, à “tolerância infinita” imposta pelo Estado aos seus credores."
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"Durante esta semana postarei o único conto que escrevi em toda a minha vida, conto dedicado a Raduan Nassar, uma fição acerca de como ele começou a escrever..."
Paulo José Miranda
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"Há quatro anos o Pedro Mexia, o Pedro Lomba e o João Pereira Coutinho não tinham, de certeza, a noção que se preparavam para mudar vidas (perdoem-me o jargão evangélico)."
Tiago Cavaco
3
"O perigo de estar muito tempo longe dos blogues é que se descobre que é possível estar muito tempo longe dos blogues."
Miguel Silva
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«Uma parte da credibilidade do bloguer passa pela divulgação pública da sua identidade. Quando a identidade real se esconde ou se omite, o leitor não tem forma de saber que interesses movem o bloguer»
José Luís Orihuela citado por Miguel M. Ferreira
5
"Os blogues portugueses foram a mais importante alteração positiva do sistema comunicacional nacional."
José Pacheco Pereira
6
"Guardar como Borrador"/É o mesmo que "Save as Draft" - eis o Blogger, em espanhol, e mais uma razão para o meu mais que confesso anglicismo."
Helena Botto
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"Porque é que não posso escrever coisas imbecis aqui no blog. Fica logo tudo ai, ai és animal e devias aprender isto e aquilo. Eu gosto de escrever coisas imbecis, pouco fundamentadas e quiçá gratuitas."
Pastel de Tentúgal
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"A ACP, em lugar de preocupar-se com Pedras Rubras, mete o bedelho onde não é chamada."

Cidades de sonho

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Vista parcial da belíssima cidade de Liverpool.

Pré-publicações - 73

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António Brito, Olhos de caçador, Sextante Editora, Lisboa, 2007.
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Pré-publicação:
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"Aquele que um dia foi soldado"
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"Passou muito tempo desde que matei um homem pela primeira vez. Na minha cabeça embotada pelo vinho e pelo peso dos anos, recordo com uma ponta de vaidade o destemor do meu golpe, o ar de espanto, a incredulidade do filho da puta em que enterrei a navalha varando-lhe as tripas. Com o impulso dessa naifada o corpo resvalou para o chão, dele brotando soluços de sangue como numa torneira avariada.
Nessa época tinha a cabeça cheia de certezas e matar alguém era um acto viril, um gesto de atrevimento que nenhuma lei me impedia de executar. Tão diferente dos dias de hoje, em que qualquer sopro de vento ou bandalho de quinze anos é suficiente para me derrubar e atirar aos cães.
[…]
Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que as mazelas da idade só as conhecia por ouvir os outros queixarem-se delas. Ignorava-as por não me dizerem respeito. Desprezava-as por indiciarem fraqueza.
Sou uma sombra daquele gajo descarado e atrevido, rufião e fura-vidas que aos vinte e tal anos foi atirado para dentro dum navio e despejado no sertão africano. Naquele tempo de ousadia e violência, fui soldado, contrariado desde o dia em que me gritaram as primeiras ordens.
[…]
Recordo os dias em que fazia contrabando para Espanha como forma de vida, uma iniciação para nós, os rapazes mais velhos. Recordo a guerra em África, uma saída para o mundo que nos havia de devorar, como aos velhos soldados já esquecidos, só recordados nas lápides frias dos cemitérios.
Mas hoje, antes que a senhora da gadanha afiada decida vir buscar-me, recordarei pela última vez como tudo começou, quando me atiraram para dentro do navio e a África me tragou com o seu apetite voraz.
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Do contrabando à mobilização
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Com a aproximação do equador na segunda semana de viagem, o anoitecer encontrou-me de novo lá em baixo no calor abafado do porão, com os soldados a viajar amontoados naquele ambiente fechado, fedendo a óleo de motor, comida azeda, peidos e fumo dos cigarros. Os porões de carga nas catacumbas do Niassa tinham sido transformados em camaratas para alojar todo o contingente. Viajávamos deitados em centenas de tarimbas estreitas, suados, vomitando com o enjoo, sem podermos dormir ou descansar tranquilos.
Atordoado e em desequilíbrio pelas sacudidelas do mar, arrastei-me do beliche para o chão, e caminhei para a porta através de uma névoa de fumo que empastava a respiração.
– Zé Fraga, aonde vais? – perguntou lá do fundo Cu de Chumbo, o padeiro da Companhia.
– Apanhar ar, antes que desmaie no meio desta merda – respondi-lhe, agoniado.
Subi as escadas aos tropeções e saí para o fresco da noite. Encostei-me ao varandim exterior do navio e urinei para o mar toda a cerveja e uísque das últimas horas. Foi um esguicho curvo, empurrado pelo vento, que borrifou as janelas dos níveis inferiores.
A deslocação das ondas acentuava o desassossego que me ia no estômago. Vomitei de novo, num jorro longo, libertando das entranhas o álcool que fermentava e me mantinha num permanente estado de embriaguez. Com a cabeça à roda, sentei-me numa cadeira e acendi um cigarro. Em baixo as ondas batiam no casco à medida que o Niassa avançava descendo o Atlântico para o Sul da África. A minha bebedeira avançava com o barco. Desde a partida de Lisboa que vinha esvaziando garrafa após garrafa compradas no bar com o dinheiro ganho à lerpa e ao abafa, no casino do porão. A noite estava amena. O firmamento palpitava com o cintilar das estrelas. Mas eu seguia num desassossego.
[…]"
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Pré-publicações - 72

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Augusto Gemelli, A Cozinha de Augusto Gemelli, A Esfera dos Livros, Lisboa (Novembro, 2007).
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Pré-publicação:
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"A minha paixão pela cozinha não cresceu comigo desde a infância. Seria incorrecto dizer que sempre tive o sonho de ser um chef de cozinha. A minha primeira verdadeira paixão profissional foi outra: ser bombeiro.
Aos dezoito anos já formado na escola hoteleira de Milão e com uma boa experiência de trabalho, fui chamado para o serviço militar.
Com alguma sorte, acabei por ingressar na escola de bombeiros de Roma, e de facto o tempo passado neste incrível mundo feito de assistência e vidas salvas, fez-me crer que não havia nada mais importante na vida. O destino pregou-me uma partida, não consegui ficar como efectivo e reencontrei-me rapidamente numa cozinha e no meio das panelas e dos pratos.
Para ganhar uns trocos, aceitei um trabalho extra num restaurante/clube privado, que organizava jantares só por convites, onde trabalhando com chefes de renome, consegui o meu primeiro contacto com a «alta cozinha».
A procura do perfeito equilíbrio de sabores, o sentido cromático dos ingredientes e a pesquisa exaustiva do lado artístico da apresentação de um prato. Tudo isso proporcionou-me uma visão nova, atractiva e diferente do acto de comer e de dar de comer.
Nos anos seguintes, procurei grandes profissionais que me poderiam ajudar a obter uma formação de alto nível para chegar a ser chef de cozinha.
Às vezes é perigoso «queimar» as etapas da vida, e aos vinte e dois anos, quando pensava saber já quase tudo, decidi lançar-me na carreira de chef/empresário.
Os resultados do meu trabalho em Milão não foram muito interessantes e, encorajado pela situação geral do meu país, que naquela altura não oferecia grandes perspectivas de futuro, fiz as malas.
Viajar foi desde criança o meu primeiro instinto e o meu único desejo. Conhecer sítios novos, gente diferente e falar línguas que não o meu «italiano», intrigava-me. Finalmente um dia, depois de breves saídas para países mais próximos, tive a oportunidade de sair à descoberta do mundo. O meu primeiro destino foi: Argentina.
Quando cheguei a Buenos Aires numa tarde chuvosa, senti o coração a bater forte no peito. As luzes da capital sul-americana que passavam à minha frente e o jetlag a deixar-me atordoado fizeram-me pensar:
– Meu Deus! Estou do outro lado do planeta!
O trânsito frenético da majestosa Avenida 9 de Julho mostrou-me pela primeira vez o que significa estar numa metrópole. O ritmo incessante da cidade que vive 24 sobre 24 horas é inebriante e atractivo, mas também enervante e cansativo. Depois de poucos meses já lidava perfeitamente com uma nova língua: o Espanhol.
No país mais europeu da América Latina, senti-me pela primeira vez longe de Itália, embora a convivência com o povo argentino, tão parecido com o meu, tenha atenuado as saudades de casa.
As relações humanas, quer sejam positivas ou negativas, são sempre baseadas em sentimentos fortes. O «castellano» desta latitude é a língua latina mais fácil para nós italianos, devido às semelhanças fonéticas. As nuances linguísticas e os sentidos implícitos acabam por melhorar a minha comunicação com os argentinos.
Se pudesse limitar a minha recordação da terra de Astor Piazzolla a uma só palavra penso que seria «amizade». Descobri com a ajuda de amigos argentinos e uruguaios, como pode ser forte este sentimento.
Os «assados» de excelente qualidade com carnes cortadas de uma maneira completamente diferente da nossa, e o convívio em casa das pessoas à volta de uma refeição são o cartão postal que trouxe comigo.
Um dia, ao preparar as encomendas da minha cozinha, recebi um telefonema que requisitava a minha saída de «B’aires» para um novo destino. Embora tivesse vivido intensamente a minha experiência na Argentina, quando o meu superior anunciou o meu novo destino, senti uma grande euforia.
Ao desligar a chamada, não consegui controlar a minha felicidade ao pensar numa terra onde Sol, cores e boa disposição são a filosofia de
vida; é como imaginar a Lua.
Porto Rico estava à minha espera. Finalmente, depois de muitos anos a imaginar as terras dos piratas, consegui concretizar o sonho de uma vida. Esta paixão antiga pelas Caraíbas não é só por causa das praias brancas e do mar azul, mas sobretudo para conhecer de perto a filosofia de vida destas povoações que segundo a minha perspectiva ainda conservam um modo de vida que afasta o stresse e promove uma saudável relação entre as pessoas."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.