terça-feira, 27 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 53

e
“QUE VERGONHA, RAPAZES!
e
Que vergonha, rapazes! Nós práqui,
caídos na cerveja ou no uísque,
a enrolar a conversa no “diz que”
e a desnalgar a fêmea (“Vist’? Viii!”)

e
Que miséria, meus filhos! Tão sem jeito
é esta videirunha à portuguesa,
que às vezes me sorgo no meu leito
e vejo entrar quarta invasão francesa.

e
Desejo recalcado, com certeza...
Mas logo desço à rua, encontro o Roque
(“O Roque abre-lhe a porta, nunca toque!”)
e desabafo: - Ó Roque, com franqueza:

e
Você nunca quis ver outros países?
- Bem queria, Snr. O’Neill! E... as varizes?”

e
(Alexandre O’Neill, De Ombro na Ombreira, Lisboa, Dom Quixote, 1969)

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

O vestígio da noite

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Uma pasta cheia de folhas de brilho sépio e um amor-perfeito como o crepúsculo - violeta tricolor - literalmente espalmado. O lago no jardim para onde atirei um sapato, tinha três anos e ainda não sentia medo dos cisnes. Um filme quase no fim, a lua branquíssima e o terraço ao meu alcance. Uma buzina no meio da noite. Fecho os olhos e volta a ser o dia em que tudo se dissolveu entre folhas espessas: pétalas, atacadores de seda, flamingos revoltos, aparelhos ópticos, um volante de boca de sapo, lágrimas nos assentos de pele à beira do desfiladeiro e os olhos preenchidos pela comoção. Ou talvez por nada. Tantas abelhas ainda à volta da trepadeira, as telhas despidas e a pasta. Sim: a pasta catalã. Tanto vestígio. Ou talvez apenas o eco. Um eco espalmado, perfeito, dissolvido. Branco. Como a lua.

Cerveja e literatura - 52

eee
É possível que nunca tenha lido (parte de) um romance onde os camionistas fossem tão mal tratados. O extracto que antecede esta minha citação é de (demoníaca) antologia a esse respeito. Fica a cerveja, como desejo nobre, a iluminar a nobreza dos condutores dos TIRs:

"Os ignorantes dos camionistas vivem agarrados ao volante e param aqui para gastarem dinheiro na loja da comida, onde há gasóleo com fartura, cerveja, cachorros quentes e charutos e um sortido de navalhas de ponta e mola dentro da vitrina."
e
(Paticia Cornwell, Predador, Tradução: Lucinda Santos Silva; Editorial Presença, Lisboa, 2006, p.92)

domingo, 25 de novembro de 2007

Episódios e Meteoros - 58

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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Quando Shakespeare destronou a Bíblia
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Harold Bloom revelou, no último número do The New York Review of Books*, que decidiu voltar a ler Shakespeare em vez da Bíblia, depois de ter regressado à vida, em Agosto, na sequência de alguns dias de internamento a recuperar de uma síncope. E a conclusão tornou-se óbvia: “Não há separação entre vida e literatura em Shakespeare”.
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Este “back to life” não podia ser mais auspicioso e actual.
~e
Se a Bíblia é uma imensa alegoria que desliza entre o exemplo e o vivido, o grande dramaturgo inglês foi sobretudo o organizador genial de mil tradições orais que dominavam o seu tempo. É precisamente a mesma diferença que hoje existe entre os acontecimentos que nos media se reproduzem como cerejas, criando cadeias ficcionais, apaixonadas e delirantes estilo McCann, e os acontecimentos que se constituem, no nosso dia a dia, como aparições ou vaivéns de conjuntura.
~e
De facto, o público actual procura as grandes metáforas da vida nas narrativas que os media vão desdobrando no quotidiano. E acontece muitas vezes que, a partir de eventos eleitos como notícia, se forma, sem grande controlo por parte dos mecanismos editoriais, uma sequência de alegações, conjecturas, rumores, contribuições, juízos e outros dados adicionais que acabam por transformar a notícia original numa verdadeira cadeia ficcional. Este processo acelerou-se e tornou-se quase normal no mundo massificado e globalizado, onde prolifera uma certa ambiguidade entre público e privado e onde os factores afectivos e passionais passaram a dominar boa parte da produção e do consumo mediáticos. Existe realmente uma óbvia correspondência entre estas novas cadeias ficcionais (por exemplo: o caso Sócrates/Universidade Independente, o caso Casa Pia, o caso gripe das aves, o caso McCann, etc.) e o mundo dos mitos da Antiguidade ou o mundo das parábolas que o sucedeu.
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Do outro lado deste panorama, somos diariamente envolvidos por aparições dir-se-ia de conjuntura. Ao fim e ao cabo, o público adora um mundo fantasmático onde os dados se repetem e reaparecem. O prazer é hoje o mesmo que se agitava nas prestidigitações do início do cinematógrafo: são factos ou pessoas que ressurgem (Santana Lopes, Almerindo Marques e Ota/Alcochete), são as comemorações ritualizadas (o “Dia da Memória”, este ano instrumentalizado pelo estado), são os chamados dossiês correntes (petróleo, Chávez, Irão, etc.) e são ainda as aparições que visam testemunhar a simples existência (Portas numa interessante petição contra o estado “mau pagador”, ou Jerónimo a referir-se à “brutalidade” da GNR).
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Enfim: Bloom tinha razão. Existe uma clara distinção entre o patamar da parábola que reinventa a realidade e o patamar da conta-corrente que a amplia e transfigura (através de personagens e factos que vão e vêm, sucumbem e reaparecem).
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Para quem recupera de uma doença grave, é normal que este segundo patamar se torne mais aliciante. Mas para quem anda na adrenalina e no stress, nada melhor do que umas prestidigitações mágicas aliadas às cerejas. Como se umas e outras fossem verdade.
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*Vol. LIV, Nº 18, 22/11/07, p.40

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 51

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À parte a ingenuidade da prosa, vale a pena ler este texto que faz química a papel químico com o vivido: braços que se tocam, canecas vulcânicas, lavabos de ouro e espuma sem fim. Para mais, tudo se passa numa noite única, no Colorado, e, no outro dia, já ela - a Sherry -, terá regressado cheia de saudades a Filadélfia. E claro, um bar como o “Abelha”, cheio de “abelhões” que se agarram à roupa - e sabe-se lá onde mais -, é coisa que se recomenda. Grande ventura, realmente, a da cerveja! Ora leia-se:
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“O Abelha, como era conhecido, estava muito concorrido e barulhento por volta da meia-noite. Beberam cervejas de caneca de litro e meio e a empregada atirou-lhe os abelhões da praxe, que se lhes agarraram à roupa. A uma da madrugada veio e foi, já tinham começado a afagar os braços um do outro enquanto conversavam, a falar e a rir em voz alta, e, idas aos lavabos à parte, Sherry estava convencida de que nunca se tinha divertido tanto na vida.”
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(George D. Shuman, 18 Segundos, tradução: Alice Rocha; Editorial Presença, Lisboa, 2006, p. 62)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Pré-publicações - 71

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Álvaro Santos Pereira, Os mitos da economia portuguesa, Guerra e Paz, Lisboa, 2007.
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Pré-publicação (do "Prefácio"):
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"Gosto de iconoclastas. Estou farto do politicamente correcto. Se a humanidade sempre tivesse feito tudo como o fazia a partir do momento
em que houve vida no planeta, ainda hoje estávamos na Idade da Pedra. Por isso, é preciso que haja pessoas a desafiar o que está estabelecido, a provocar novas dinâmicas, a agitar ideias que vão contra o main stream. É assim, foi sempre assim, que o mundo pula e avança.
Nem que seja para chegarmos à conclusão que estamos errados, há que desafiar com novas ideias, novas teorias, novos caminhos, o pensamento dominante, o modo de fazer igual, a réplica da réplica de um original já muito distante.
Na economia portuguesa, tem havido um pensamento claramente dominante. Temos de ter um défice orçamental próximo de zero porque só assim será possível termos taxas de crescimento signifi cativas. Bom, mas no tempo em que Miguel Cadilhe foi ministro das Finanças, entre 1985 e 1990, o défice era elevado e tivemos um excelente desempenho económico, de tal modo que chegámos a ser conhecidos como o tigre celta, lembram-se? Ah, claro, houve a espectacular melhoria das razões de troca devido à queda do preço do petróleo e das matérias-primas e ao enfraquecimento do dólar. E estávamos a sair de uma recessão e o país encontrava-se financeiramente saneado. Pois, resumindo e concatenando, isso quer dizer que em situações específicas as políticas que resultam podem não ser iguais àquelas que estão em todos os livros.
Aliás, se pensarmos no que se passa nos Estados Unidos, onde apesar do espectacular défice orçamental acumulado por George W. Bush, a economia mantém um forte crescimento, tal como tinha acontecido quando o défice passou a superavit no tempo de Bill Clinton, chegamos à conclusão que há ligações que, no mínimo, devem ser discutidas e postas em causa.
Nos últimos anos, verificou-se uma clivagem no pensamento único dominante. Há os que defendem um alívio fiscal como forma de apoiar o crescimento económico. E há os que insistem em manter a pressão fiscal, porque só com as contas públicas saneadas haverá crescimento. Há os que sustentam que para captarmos investimento, temos de ser radicais e reduzir as taxas de IRC para 10% ou mesmo zero, como forma de nos distinguirmos na União Europeia. E há os que dizem que não há margem de manobra e que isso conduziria a um desastre orçamental. Há os que clamam que só com menos dinheiro o Estado será forçado a emagrecer. E há os que dizem que sim, mas só depois de equilibrar as contas."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Pré-publicações - 69/70


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Chegamos ao septuagésimo post desta rubrica, que faz um ano dentro de dez dias, com dois livros infantis que sairão a público muito em breve:
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- Emília Nóvoa Faria, História de Alberto - Personagens com História, Campo das Letras, Porto, 2007.
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- Benoît Delalandre, O Meu Grande Larousse de Monstros e Dragões, tradução: Margarida Vasconcelos;Campo das Letras, Porto, 2007
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Pré-publicações:
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"A cozinha da Margarida" (de Histórias de Alberto)
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"Setembro era o mês dos cheiros! Cheiros da terra molhada, das uvas pisadas na adega, das espigas desfolhadas na eira, da marmelada que a Margarida fazia com os marmelos do quintal de baixo... Depois caíam as primeiras chuvas, quando o Verão acabava em Boamense, a casa de campo dos meus avós paternos.
Quando eu via os cestos cheios de marmelos, junto à porta da cozinha velha, era certo e sabido... começava logo a cirandar por ali como faz a abelhinha em volta de uma flor. Foi num desses dias que, depois de sentir o cheirinho doce da marmelada, espreitei pela porta entreaberta da cozinha. Lá dentro, junto à lareira, a Margarida mexia e remexia num grande tacho de cobre com uma colher de pau quase do meu tamanho. Em biquinhos dos pés, para não fazer barulho, escondi-me por trás da sua saia rodada."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 50

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Um crime na Escócia, numa pequena terra chamada South Queensferry. Um pub e um encontro entre o inspector John Rebus e Shiobhan. Tudo ainda muito no início. Em estado de mistério. Rod, o barman, adensa o ambiente de mistério, fala em Walter Scott e Robert Louis Stevenson e conclui: “Não está a beber num pub qualquer!”. Antes e depois de Rod aconselhar “haggis, neeps and tatties” (bucho recheado, puré de batata e nabo), é a cerveja que fará o tempo dilatar as expectativas e as provas. Para além de contagiar, a bem de todos, o prazer do próprio presente:
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“- Ela pegou nos copos. - À nossa, Rod.
- À nossa.
De volta à mesa, colocou a caneca de cerveja de Rebus ao lado do bloco de notas aberto.
– Aqui tens. Desculpa a demora, mas acabei de descobrir que o barman conhecia o Herdman. Até pode ser que... – Ela acabara de se sentar. Rebus não lhe prestava atenção nenhuma, não a ouvia sequer. Fitava apenas a folha de papel à sua frente.
- O que foi? – Lançou um olhar de soslaio para o papel e reparou que fora um dos que ela já lera. Detalhes familiares de uma das vítimas. – John? – interpelou-o novamente.”
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(Ian Rankin, Uma Questão de Sangue, tradução: Marlene Morais; Edições ASA, Porto, 2006, pp. 48/49)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Ideias luminosas

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Há blogues que, de facto, manifestam grande singularidade. O "Es Lebe Unser Geheimes Deutschland" de Carlos Vieira Reis é um deles. A sua razão de ser é clara: "Este blog nasce com um "simples" propósito. Prestar homenagem a Claus Schenk Graf von Stauffenberg" (à direita na foto). Ou seja, nem mais nem menos do que "o noble prince que, no dia 20 de Julho de 1944, pretendeu pôr um fim na vida de Adolf Hitler".