domingo, 25 de novembro de 2007

Episódios e Meteoros - 58

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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Quando Shakespeare destronou a Bíblia
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Harold Bloom revelou, no último número do The New York Review of Books*, que decidiu voltar a ler Shakespeare em vez da Bíblia, depois de ter regressado à vida, em Agosto, na sequência de alguns dias de internamento a recuperar de uma síncope. E a conclusão tornou-se óbvia: “Não há separação entre vida e literatura em Shakespeare”.
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Este “back to life” não podia ser mais auspicioso e actual.
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Se a Bíblia é uma imensa alegoria que desliza entre o exemplo e o vivido, o grande dramaturgo inglês foi sobretudo o organizador genial de mil tradições orais que dominavam o seu tempo. É precisamente a mesma diferença que hoje existe entre os acontecimentos que nos media se reproduzem como cerejas, criando cadeias ficcionais, apaixonadas e delirantes estilo McCann, e os acontecimentos que se constituem, no nosso dia a dia, como aparições ou vaivéns de conjuntura.
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De facto, o público actual procura as grandes metáforas da vida nas narrativas que os media vão desdobrando no quotidiano. E acontece muitas vezes que, a partir de eventos eleitos como notícia, se forma, sem grande controlo por parte dos mecanismos editoriais, uma sequência de alegações, conjecturas, rumores, contribuições, juízos e outros dados adicionais que acabam por transformar a notícia original numa verdadeira cadeia ficcional. Este processo acelerou-se e tornou-se quase normal no mundo massificado e globalizado, onde prolifera uma certa ambiguidade entre público e privado e onde os factores afectivos e passionais passaram a dominar boa parte da produção e do consumo mediáticos. Existe realmente uma óbvia correspondência entre estas novas cadeias ficcionais (por exemplo: o caso Sócrates/Universidade Independente, o caso Casa Pia, o caso gripe das aves, o caso McCann, etc.) e o mundo dos mitos da Antiguidade ou o mundo das parábolas que o sucedeu.
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Do outro lado deste panorama, somos diariamente envolvidos por aparições dir-se-ia de conjuntura. Ao fim e ao cabo, o público adora um mundo fantasmático onde os dados se repetem e reaparecem. O prazer é hoje o mesmo que se agitava nas prestidigitações do início do cinematógrafo: são factos ou pessoas que ressurgem (Santana Lopes, Almerindo Marques e Ota/Alcochete), são as comemorações ritualizadas (o “Dia da Memória”, este ano instrumentalizado pelo estado), são os chamados dossiês correntes (petróleo, Chávez, Irão, etc.) e são ainda as aparições que visam testemunhar a simples existência (Portas numa interessante petição contra o estado “mau pagador”, ou Jerónimo a referir-se à “brutalidade” da GNR).
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Enfim: Bloom tinha razão. Existe uma clara distinção entre o patamar da parábola que reinventa a realidade e o patamar da conta-corrente que a amplia e transfigura (através de personagens e factos que vão e vêm, sucumbem e reaparecem).
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Para quem recupera de uma doença grave, é normal que este segundo patamar se torne mais aliciante. Mas para quem anda na adrenalina e no stress, nada melhor do que umas prestidigitações mágicas aliadas às cerejas. Como se umas e outras fossem verdade.
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*Vol. LIV, Nº 18, 22/11/07, p.40

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 51

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À parte a ingenuidade da prosa, vale a pena ler este texto que faz química a papel químico com o vivido: braços que se tocam, canecas vulcânicas, lavabos de ouro e espuma sem fim. Para mais, tudo se passa numa noite única, no Colorado, e, no outro dia, já ela - a Sherry -, terá regressado cheia de saudades a Filadélfia. E claro, um bar como o “Abelha”, cheio de “abelhões” que se agarram à roupa - e sabe-se lá onde mais -, é coisa que se recomenda. Grande ventura, realmente, a da cerveja! Ora leia-se:
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“O Abelha, como era conhecido, estava muito concorrido e barulhento por volta da meia-noite. Beberam cervejas de caneca de litro e meio e a empregada atirou-lhe os abelhões da praxe, que se lhes agarraram à roupa. A uma da madrugada veio e foi, já tinham começado a afagar os braços um do outro enquanto conversavam, a falar e a rir em voz alta, e, idas aos lavabos à parte, Sherry estava convencida de que nunca se tinha divertido tanto na vida.”
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(George D. Shuman, 18 Segundos, tradução: Alice Rocha; Editorial Presença, Lisboa, 2006, p. 62)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Pré-publicações - 71

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Álvaro Santos Pereira, Os mitos da economia portuguesa, Guerra e Paz, Lisboa, 2007.
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Pré-publicação (do "Prefácio"):
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"Gosto de iconoclastas. Estou farto do politicamente correcto. Se a humanidade sempre tivesse feito tudo como o fazia a partir do momento
em que houve vida no planeta, ainda hoje estávamos na Idade da Pedra. Por isso, é preciso que haja pessoas a desafiar o que está estabelecido, a provocar novas dinâmicas, a agitar ideias que vão contra o main stream. É assim, foi sempre assim, que o mundo pula e avança.
Nem que seja para chegarmos à conclusão que estamos errados, há que desafiar com novas ideias, novas teorias, novos caminhos, o pensamento dominante, o modo de fazer igual, a réplica da réplica de um original já muito distante.
Na economia portuguesa, tem havido um pensamento claramente dominante. Temos de ter um défice orçamental próximo de zero porque só assim será possível termos taxas de crescimento signifi cativas. Bom, mas no tempo em que Miguel Cadilhe foi ministro das Finanças, entre 1985 e 1990, o défice era elevado e tivemos um excelente desempenho económico, de tal modo que chegámos a ser conhecidos como o tigre celta, lembram-se? Ah, claro, houve a espectacular melhoria das razões de troca devido à queda do preço do petróleo e das matérias-primas e ao enfraquecimento do dólar. E estávamos a sair de uma recessão e o país encontrava-se financeiramente saneado. Pois, resumindo e concatenando, isso quer dizer que em situações específicas as políticas que resultam podem não ser iguais àquelas que estão em todos os livros.
Aliás, se pensarmos no que se passa nos Estados Unidos, onde apesar do espectacular défice orçamental acumulado por George W. Bush, a economia mantém um forte crescimento, tal como tinha acontecido quando o défice passou a superavit no tempo de Bill Clinton, chegamos à conclusão que há ligações que, no mínimo, devem ser discutidas e postas em causa.
Nos últimos anos, verificou-se uma clivagem no pensamento único dominante. Há os que defendem um alívio fiscal como forma de apoiar o crescimento económico. E há os que insistem em manter a pressão fiscal, porque só com as contas públicas saneadas haverá crescimento. Há os que sustentam que para captarmos investimento, temos de ser radicais e reduzir as taxas de IRC para 10% ou mesmo zero, como forma de nos distinguirmos na União Europeia. E há os que dizem que não há margem de manobra e que isso conduziria a um desastre orçamental. Há os que clamam que só com menos dinheiro o Estado será forçado a emagrecer. E há os que dizem que sim, mas só depois de equilibrar as contas."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Pré-publicações - 69/70


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Chegamos ao septuagésimo post desta rubrica, que faz um ano dentro de dez dias, com dois livros infantis que sairão a público muito em breve:
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- Emília Nóvoa Faria, História de Alberto - Personagens com História, Campo das Letras, Porto, 2007.
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- Benoît Delalandre, O Meu Grande Larousse de Monstros e Dragões, tradução: Margarida Vasconcelos;Campo das Letras, Porto, 2007
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Pré-publicações:
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"A cozinha da Margarida" (de Histórias de Alberto)
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"Setembro era o mês dos cheiros! Cheiros da terra molhada, das uvas pisadas na adega, das espigas desfolhadas na eira, da marmelada que a Margarida fazia com os marmelos do quintal de baixo... Depois caíam as primeiras chuvas, quando o Verão acabava em Boamense, a casa de campo dos meus avós paternos.
Quando eu via os cestos cheios de marmelos, junto à porta da cozinha velha, era certo e sabido... começava logo a cirandar por ali como faz a abelhinha em volta de uma flor. Foi num desses dias que, depois de sentir o cheirinho doce da marmelada, espreitei pela porta entreaberta da cozinha. Lá dentro, junto à lareira, a Margarida mexia e remexia num grande tacho de cobre com uma colher de pau quase do meu tamanho. Em biquinhos dos pés, para não fazer barulho, escondi-me por trás da sua saia rodada."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 50

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Um crime na Escócia, numa pequena terra chamada South Queensferry. Um pub e um encontro entre o inspector John Rebus e Shiobhan. Tudo ainda muito no início. Em estado de mistério. Rod, o barman, adensa o ambiente de mistério, fala em Walter Scott e Robert Louis Stevenson e conclui: “Não está a beber num pub qualquer!”. Antes e depois de Rod aconselhar “haggis, neeps and tatties” (bucho recheado, puré de batata e nabo), é a cerveja que fará o tempo dilatar as expectativas e as provas. Para além de contagiar, a bem de todos, o prazer do próprio presente:
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“- Ela pegou nos copos. - À nossa, Rod.
- À nossa.
De volta à mesa, colocou a caneca de cerveja de Rebus ao lado do bloco de notas aberto.
– Aqui tens. Desculpa a demora, mas acabei de descobrir que o barman conhecia o Herdman. Até pode ser que... – Ela acabara de se sentar. Rebus não lhe prestava atenção nenhuma, não a ouvia sequer. Fitava apenas a folha de papel à sua frente.
- O que foi? – Lançou um olhar de soslaio para o papel e reparou que fora um dos que ela já lera. Detalhes familiares de uma das vítimas. – John? – interpelou-o novamente.”
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(Ian Rankin, Uma Questão de Sangue, tradução: Marlene Morais; Edições ASA, Porto, 2006, pp. 48/49)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Ideias luminosas

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Há blogues que, de facto, manifestam grande singularidade. O "Es Lebe Unser Geheimes Deutschland" de Carlos Vieira Reis é um deles. A sua razão de ser é clara: "Este blog nasce com um "simples" propósito. Prestar homenagem a Claus Schenk Graf von Stauffenberg" (à direita na foto). Ou seja, nem mais nem menos do que "o noble prince que, no dia 20 de Julho de 1944, pretendeu pôr um fim na vida de Adolf Hitler".

Cerveja e literatura - 49

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“Se bem que Copenaghem fosse um excelente jogador, Popinga fingia estar seguro de si, indo ao ponto, o que enchia o outro de raiva, de dar um giro entre as jogadas. Numa mesinha, ao lado dele, havia uma caneca de cerveja de Munique da qual chegara há pouco um barril.
Ao cabo de um hora, durante a qual Popinga não cessou de ser de uma ironia agressiva, o outro, de súbito, com um leve sorriso nos lábios, pô-lo de xeque-mate.”
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(Georges Simenon, O Homem que Via Passar os Comboios, tradução: Gemeniano Cascais Franco, Colecção Mil Folhas, Público, Porto, 2002, p.36)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A série sobre a cerveja e a literatura

"Workers mashing malt to make beer, engraving by Gustave Doré, from London: A Pilgrimage, 1872" (NYRB, 11/22, Vol. LIV, Number18, 2007, p.40)
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Impressionante: É como se a água extinguisse o véu que a percorre. Vico remeteria a cena para a "Idade Divina", eu para a heróica, outros lembrar-se-iam sobretudo dos rituais do Douro. Analogias. Mas trata-se aqui do malte; sim, do precioso malte.
Robert M. Solow utiliza a imagem para ilustrar a revolução industrial inglesa, numa crítica a um livro recente que refere o tema (Gregory Clarck, A Farewell to Alms: A Brief Economic History of the World, Princeton University Press).
A série sobre a cerveja e a literatura, que o Miniscente está a publicar, vai continuar a todo o vapor. E é por isso mesmo que a imagem não podia passar despercebida!

Pré-publicações - 68

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Ana Isabel Buescu, Catarina de Áustria (1507-1578) - Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2007
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Pré-publicação:
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"Sexta-feira, 15 de Janeiro de 1507. Em Valhadolide, no coração de Castela, frei Henrique de Coimbra, bispo de Ceuta e embaixador do rei D. Manuel de Portugal, preparava-se para seguir viagem em direcção a Torquemada, onde o monarca o enviava com uma missão específica.
Para além da visitação formal de pêsames, que o rei quis que apenas então tivesse lugar, pela morte inopinada e fulminante do jovem rei Filipe I de Castela, ocorrida em Burgos a 25 de Setembro de 1506, D. Manuel procurava inteirar-se do ambiente e das movimentações políticas em torno de D. Joana, rainha e viúva de vinte e sete anos de idade, e dos meandros da «governança de Castela» . Procurava, ainda, fazer avançar aquela que era a ambição maior da política imperial de um rei que juntara «o Oriente ao Ocidente» : persuadir os reis cristãos e a cúria pontifícia à cruzada contra os muçulmanos, através do confronto com o reino mameluco do Egipto e o Turco otomano, no palco europeu e no longínquo Oriente, conseguir a destruição de Meca e a libertação da cidade santa de Jerusalém, assim se alcançando – desejava D. Manuel que sob a égide do rei português – uma nova idade de um império cristão universal .
No caso dos reinos da Península, agora que era morto o jovem e efémero rei Filipe I, tratava-se de dar continuidade a esse ambicioso desígnio político junto de Fernando, o Católico e também de quem rodeava a jovem rainha, então forçada e inesperadamente aposentada em Torquemada. Outros episódios desta ofensiva político-diplomática junto das cortes europeias haviam tido lugar nos anos de 1505 e 1506, e emissários de D. Manuel procuraram junto de Henrique VII de Inglaterra, do imperador Maximiliano, do rei de França, Luís XII, e de Fernando, o Católico, fazer valer os pontos de vista e a estratégia do monarca português. Por duas vezes, D. Manuel incumbira então o franciscano frei Henrique de Coimbra, homem letrado, experiente e da sua absoluta confiança, seu confessor e conselheiro, dessas missões – de Agosto de 1505 a Março de 1506, frei Henrique esteve nas cortes de Inglaterra e Castela a advogar a cruzada contra o infiel. Agora, em Janeiro de 1507, o monarca tornava a enviá-lo, já provido do bispado de Ceuta, a avaliar a situação política castelhana e a dar continuidade a esse projecto . Era, pois, em Valhadolide, a caminho de Torquemada, com objectivos político-diplomáticos bem precisos, que se encontrava o embaixador de D. Manuel naqueles primeiros dias de Janeiro do ano de 1507.
Depois de dizer missa no mosteiro de Valhadolide e estando prestes a prosseguir a sua jornada, como previsto, frei Henrique de Coimbra recebia uma carta de João Mendes de Vasconcelos, trazida por um moço de estribeira de D. Manuel. Nela, aquele agente do rei português junto da corte castelhana informava o bispo, entre outros assuntos que considerava de maior relevância, de que D. Joana, rainha de Castela, «era parida de uma filha», nascida no dia anterior, 14 de Janeiro, em Torquemada. O diligente e zeloso frei Henrique escreveu de imediato a D. Manuel relatando o sucedido e anunciando a intenção de ir de imediato aposentar-se em Dueñas – como aliás estava já determinado –, lugar a cerca de quatro léguas de Torquemada, para mais perto estar dos acontecimentos e cumprir a missão de que fora incumbido pelo monarca e prevendo que, a breve trecho, não haveria pousada na região com a chegada dos grandes à corte."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.