terça-feira, 20 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 49

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“Se bem que Copenaghem fosse um excelente jogador, Popinga fingia estar seguro de si, indo ao ponto, o que enchia o outro de raiva, de dar um giro entre as jogadas. Numa mesinha, ao lado dele, havia uma caneca de cerveja de Munique da qual chegara há pouco um barril.
Ao cabo de um hora, durante a qual Popinga não cessou de ser de uma ironia agressiva, o outro, de súbito, com um leve sorriso nos lábios, pô-lo de xeque-mate.”
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(Georges Simenon, O Homem que Via Passar os Comboios, tradução: Gemeniano Cascais Franco, Colecção Mil Folhas, Público, Porto, 2002, p.36)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A série sobre a cerveja e a literatura

"Workers mashing malt to make beer, engraving by Gustave Doré, from London: A Pilgrimage, 1872" (NYRB, 11/22, Vol. LIV, Number18, 2007, p.40)
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Impressionante: É como se a água extinguisse o véu que a percorre. Vico remeteria a cena para a "Idade Divina", eu para a heróica, outros lembrar-se-iam sobretudo dos rituais do Douro. Analogias. Mas trata-se aqui do malte; sim, do precioso malte.
Robert M. Solow utiliza a imagem para ilustrar a revolução industrial inglesa, numa crítica a um livro recente que refere o tema (Gregory Clarck, A Farewell to Alms: A Brief Economic History of the World, Princeton University Press).
A série sobre a cerveja e a literatura, que o Miniscente está a publicar, vai continuar a todo o vapor. E é por isso mesmo que a imagem não podia passar despercebida!

Pré-publicações - 68

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Ana Isabel Buescu, Catarina de Áustria (1507-1578) - Infanta de Tordesilhas - Rainha de Portugal, A Esfera dos Livros, Lisboa, 2007
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Pré-publicação:
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"Sexta-feira, 15 de Janeiro de 1507. Em Valhadolide, no coração de Castela, frei Henrique de Coimbra, bispo de Ceuta e embaixador do rei D. Manuel de Portugal, preparava-se para seguir viagem em direcção a Torquemada, onde o monarca o enviava com uma missão específica.
Para além da visitação formal de pêsames, que o rei quis que apenas então tivesse lugar, pela morte inopinada e fulminante do jovem rei Filipe I de Castela, ocorrida em Burgos a 25 de Setembro de 1506, D. Manuel procurava inteirar-se do ambiente e das movimentações políticas em torno de D. Joana, rainha e viúva de vinte e sete anos de idade, e dos meandros da «governança de Castela» . Procurava, ainda, fazer avançar aquela que era a ambição maior da política imperial de um rei que juntara «o Oriente ao Ocidente» : persuadir os reis cristãos e a cúria pontifícia à cruzada contra os muçulmanos, através do confronto com o reino mameluco do Egipto e o Turco otomano, no palco europeu e no longínquo Oriente, conseguir a destruição de Meca e a libertação da cidade santa de Jerusalém, assim se alcançando – desejava D. Manuel que sob a égide do rei português – uma nova idade de um império cristão universal .
No caso dos reinos da Península, agora que era morto o jovem e efémero rei Filipe I, tratava-se de dar continuidade a esse ambicioso desígnio político junto de Fernando, o Católico e também de quem rodeava a jovem rainha, então forçada e inesperadamente aposentada em Torquemada. Outros episódios desta ofensiva político-diplomática junto das cortes europeias haviam tido lugar nos anos de 1505 e 1506, e emissários de D. Manuel procuraram junto de Henrique VII de Inglaterra, do imperador Maximiliano, do rei de França, Luís XII, e de Fernando, o Católico, fazer valer os pontos de vista e a estratégia do monarca português. Por duas vezes, D. Manuel incumbira então o franciscano frei Henrique de Coimbra, homem letrado, experiente e da sua absoluta confiança, seu confessor e conselheiro, dessas missões – de Agosto de 1505 a Março de 1506, frei Henrique esteve nas cortes de Inglaterra e Castela a advogar a cruzada contra o infiel. Agora, em Janeiro de 1507, o monarca tornava a enviá-lo, já provido do bispado de Ceuta, a avaliar a situação política castelhana e a dar continuidade a esse projecto . Era, pois, em Valhadolide, a caminho de Torquemada, com objectivos político-diplomáticos bem precisos, que se encontrava o embaixador de D. Manuel naqueles primeiros dias de Janeiro do ano de 1507.
Depois de dizer missa no mosteiro de Valhadolide e estando prestes a prosseguir a sua jornada, como previsto, frei Henrique de Coimbra recebia uma carta de João Mendes de Vasconcelos, trazida por um moço de estribeira de D. Manuel. Nela, aquele agente do rei português junto da corte castelhana informava o bispo, entre outros assuntos que considerava de maior relevância, de que D. Joana, rainha de Castela, «era parida de uma filha», nascida no dia anterior, 14 de Janeiro, em Torquemada. O diligente e zeloso frei Henrique escreveu de imediato a D. Manuel relatando o sucedido e anunciando a intenção de ir de imediato aposentar-se em Dueñas – como aliás estava já determinado –, lugar a cerca de quatro léguas de Torquemada, para mais perto estar dos acontecimentos e cumprir a missão de que fora incumbido pelo monarca e prevendo que, a breve trecho, não haveria pousada na região com a chegada dos grandes à corte."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

domingo, 18 de novembro de 2007

Os grandes lumes

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Hoje adormeceu de vez o equinócio, esse génio que faz da conciliação dos hemisférios o seu impossível ofício. Por ele, rasgam-se os espíritos e hesitam as fidelidades, contra ele gelam as noites e despem-se as árvores nas ruas. Para sinalizar a entrada em cena da lareira, a lua apareceu deitada no outro lado do mirante, como se fosse uma sineta frágil e acossada pelo vento. Embrulho-me no casaco de lã e revejo os olhos já fechados do equinócio, agora que enceta a longa hibernação que nos levará a todos, pelo túnel do demo, até aos reinos de Março.

sábado, 17 de novembro de 2007

Episódios e Meteoros - 57

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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A comunicação é a era da galinha
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O ensaísta Mario Perniola criou, há três anos, a noção de “sensologia” que definiu como a “transformação da ideologia numa nova forma de poder que dá por adquirido o consenso plebiscitário baseado em factores afectivos e sensoriais”(1). Trata-se de uma noção interessante, já que nos bate directamente à porta. Não há, de facto, ninguém que não seja testemunha desta transformação da vida, baseada em receitas que nos curariam de todos os males, num espectáculo em que a imaginação salta, sem cessar, entre as suas próprias imagens e as imagens (televisivas, ciberespaciais, etc.) que nos entram, dia-a-dia, no sangue. Sendo este salto, como é, um salto recheado de afectos e emoções à solta, um pouco como a galinha que levanta as asas e corre mitologicamente, através do quintal do espaço público, sem necessitar de capoeira para estar detida.
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Provavelmente, como é normal na tradição judaico-cristã, a noção de sensologia poderá reflectir uma teoria da conspiração: como se fôssemos todos, afinal, marionetas iludidas e controladas nas mãos de um deus maior. Como se a liberdade raramente fosse uma escolha plausível. Como se a iniciativa não fosse matéria para galináceos. Mas a verdade é que o show noticioso dos últimos dias ilustra, no essencial, a sensologia de Perniola.
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Foi a cimeira do Chile, na qual Chavéz desempenhou o papel de palhaço contratado para despertar a “sensorialidade” (e para fazer de futuro Mugabe lisboeta). Foi o debate do orçamento, no qual Santana e Sócrates esvaziaram os números e os temas em nome de denúncias e ressentimentos “afectuosos” (defesas de dama). Foi o anúncio sensível das digitalizações de Portas e foi ainda o appeal das eleições argentinas, a gravata de Shinzo Abe ou o “porreiro” como síntese máxima da última cimeira europeia dos 27.
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Provavelmente quem tem mesmo razão é o alemão Peter Sloterdijk(2), para quem os media, e especialmente a televisão, são a última técnica de “meditação da humanidade”, depois da era das grandes receitas (ideologias) e das “religiões regionais”. Ou seja, para Sloterdijk, a televisão, é o primeiro “redentor” que nos deixa “realmente livres”, porque, ao fim e ao cabo, os “indivíduos” querem é que “os deixem em paz; e esta tranquilidade é uma coisa que agora podem ter de uma vez por todas”.
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Devo-vos dizer que estou bem mais com o alemão, do que com a mera constatação de Perniola. Mas entre os dois, existe um pequeno limbo que, para nos poupar a esforços, passámos a designar por “comunicação”. Já lá vai, pois, o tempo dos infernos em chamas e dos paraísos das doçuras virginais.
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(1) Mario Perniola, Contra a comunicação, Teorema, Lisboa, (2004) 2005, p.12
(2) Peter Sloterdijk, Ensaio sobre a intoxicação voluntária, Fenda, Lisboa, (1999) 2001, p. 132

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Outra vez a noite

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De novo a noite: as persianas como cálamos mudos, a roupagem dos cedros quase sem voz, o cão indolente com olhos pasmados e livros, muitos livros a escalarem o monte de carvalho onde há ainda moedas egípcias e um globo tosco de feira. Um tipo põe-se a escrever e encontra no que escreve a ostensão da linguagem que persegue a própria linguagem, sem quase deixar folga para o resto. Ou seja: para as mãos, para os braços pousados no teclado, para a boca que se abre, para os olhos como simples velas por içar. Uma embarcação é sempre transitória. E respira de desejo. É assim a noite. Outra vez.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 48

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Al Berto nos seus inícios. O vórtice da noite, testemunha de "Tangerina":
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"o ópio agia, desejava morrer num lugar público, sentado num bando de jardim e esperar a morte ao amanhecer. a cidade acordaria estremunhada pelas luzes dos jornais luminosos anunciando que, no centro dela, num jardim, o seu morto mais morto permanecia intacto em exposição.
vomitei, vomitei o ópio a cerveja e os soníferos, encolhi os ombros, apanhei um táxi e fui para casa. só se falha uma vez, pensei eu. subi as escadas sozinho, como sempre o fizera. sozinho, até ao fim dos dias. recomeçarei."
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(Al berto, Livro Primeiro / À Procura do Vento Num Jardim de Agosto – original: 1974/1975 –, em O Medo, Contexto / Círculo de Leitores, Lisboa, 1991, p. 28)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sinceramente

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Nos últimos meses, por razões muito diversas (sobretudo de trabalho, confesse-se), tenho lido muito pouco na blogosfera. Têm-se passado dias sem ler ou ver um único blogue. Desde 2003 que tal não acontecia. Mas garanto que estou nos antípodas do tom de exposto ressentimento e antinomia (blogosfera versus não-blogosfera) que vi inscrito, há pouco, no Abrupto:
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“(…) como os milhares de leitores quotidianos do Abrupto estão fora destes pequenos círculos interiores da blogosfera, o blogue continua de boa saúde e recomenda-se. No entanto, não precisam de se afadigar tanto, a lei das coisas é que tudo o que sobe tem que descer e é só esperarem sentados.”
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Como se, à moda de um populismo fantasmático, o Abrupto se ligasse directamente às massas e se desse francamente mal com os "círculos" infectados e minúsculos que se arrastam pela blogosfera. Eu sempre tentei andar longe das intrigas menores (e maiores) que reconheço terem terreno fértil no meio. Mas este tipo de discurso do anjo é, ele mesmo, húmus (e do puro) para uma tal fertilidade. Sinceramente.

Cerveja e literatura - 47

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Depois de narrar uma turbulenta chegada a Santiago do Chile e repetir exaustivamente a receita do vinho mais empanadas, só a um terço do seu romance, Jogos de vida e morte (2003), é que Ben Richards dá aos dois protagonistas (joe e Fresia Castillo) a proeza de uma discreta cerveja. Curioso é o facto de a condução e a apetência noctívagas se misturarem nas escolhas. Sinal dos tempos, por um lado, intemporalidades, por outro:
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“Sentaram-se num pequeno restaurante sob o calor impiedoso e seco. A mesa baloiçava, e o local cheirava a cera do chão e a repelente de insectos. O empregado tratou-os como se tivessem acabado de desembarcar de uma nave espacial oriunda de Marte. Joe pediu uma cerveja, e Fresia, uma garrafa de Fanta.
- Deverias tirar proveito do facto de ser eu a conduzir – disse-lhe Joe.
- Detesto beber durante o dia.”
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(Ben Richards, Jogos de vida e morte, tradução: Alberto Gomes; Editorial Presença, Lisboa, 2003/2005, pp. 93/94)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Volta ao Mundo - 9


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Chegou ontem uma nova crónica da volta ao mundo que a Clara e o Miguel estão a levar a cabo, durante um ano. Tudo começou, como se lembrarão, há mais de dois meses e... para trás já ficou Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires e Ushuaia. O casal já está, entretanto, na Ilha da Páscoa, embora a crónica que agora aqui se publica seja a relativa aos fiordes da Patagónia chilena:
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"De barco pelos Fiordes Patagónicos, Puerto Eden, Chile"
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"Entrou na sala e acordou o meu preconceito. Imaginei-a a rir em festas, quando afasta o cabelo; a passear em lojas de roupa, quando caminha por entre as mesas; a fumar cigarrilhas, quando procura algo na mala; a sentar-se num café de luxo
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- Posso? -, quando se senta à minha mesa. Estranho. Nem a pensava em espanhol.
- Gosto de andar de barco.
Imagino…
- Para comer fruta.
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Paro.
E é já sentada no seu coração que conversamos até amanhecer. Descreve-me os cheiros, o tempo, a vida de Puerto Eden com histórias de índios e lendas antigas; como gosta de acordar antes do tempo para ouvir os próprios pés, denunciados por estalos de madeira a cada passo arrastado.
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- É nesse momento que acordo dos sonhos – diz-me.
Continua a mergulhar todos os dias para apanhar marisco, como a avó da sua avó, nua para nunca ficar doente. Come peixe, ovos e algas. Leva o filho à escola de canoa e regressa pelo caminho mais longo. Porque nesta aldeia não existe o hoje nem a palavra solidão. Cada dia tem outro dentro, uma pessoa é todas as outras.
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Chegamos às seis da manhã. Despedimo-nos. Confessa-me que gostou de mim porque tenho riscos a prolongarem-me os olhos. O seu abraço cheira a madeira. Eu cheiro a madeira. Agarra os sacos com uma mão para me dizer adeus, levam fruta e pedaços soltos da minha admiração. Enquanto o seu barco se afasta imagino. Mas agora com mais verdade.
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(Só se chega a Puerto Eden de barco. Isolada por glaciares, montanhas e ventos que gelam, fica a dois dias de uma das cidades mais a sul do mundo, Puerto
Natales. Só três dias depois de lá sairmos tornámos a ver uma aldeia)."
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