domingo, 18 de novembro de 2007

Os grandes lumes

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Hoje adormeceu de vez o equinócio, esse génio que faz da conciliação dos hemisférios o seu impossível ofício. Por ele, rasgam-se os espíritos e hesitam as fidelidades, contra ele gelam as noites e despem-se as árvores nas ruas. Para sinalizar a entrada em cena da lareira, a lua apareceu deitada no outro lado do mirante, como se fosse uma sineta frágil e acossada pelo vento. Embrulho-me no casaco de lã e revejo os olhos já fechados do equinócio, agora que enceta a longa hibernação que nos levará a todos, pelo túnel do demo, até aos reinos de Março.

sábado, 17 de novembro de 2007

Episódios e Meteoros - 57

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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A comunicação é a era da galinha
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O ensaísta Mario Perniola criou, há três anos, a noção de “sensologia” que definiu como a “transformação da ideologia numa nova forma de poder que dá por adquirido o consenso plebiscitário baseado em factores afectivos e sensoriais”(1). Trata-se de uma noção interessante, já que nos bate directamente à porta. Não há, de facto, ninguém que não seja testemunha desta transformação da vida, baseada em receitas que nos curariam de todos os males, num espectáculo em que a imaginação salta, sem cessar, entre as suas próprias imagens e as imagens (televisivas, ciberespaciais, etc.) que nos entram, dia-a-dia, no sangue. Sendo este salto, como é, um salto recheado de afectos e emoções à solta, um pouco como a galinha que levanta as asas e corre mitologicamente, através do quintal do espaço público, sem necessitar de capoeira para estar detida.
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Provavelmente, como é normal na tradição judaico-cristã, a noção de sensologia poderá reflectir uma teoria da conspiração: como se fôssemos todos, afinal, marionetas iludidas e controladas nas mãos de um deus maior. Como se a liberdade raramente fosse uma escolha plausível. Como se a iniciativa não fosse matéria para galináceos. Mas a verdade é que o show noticioso dos últimos dias ilustra, no essencial, a sensologia de Perniola.
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Foi a cimeira do Chile, na qual Chavéz desempenhou o papel de palhaço contratado para despertar a “sensorialidade” (e para fazer de futuro Mugabe lisboeta). Foi o debate do orçamento, no qual Santana e Sócrates esvaziaram os números e os temas em nome de denúncias e ressentimentos “afectuosos” (defesas de dama). Foi o anúncio sensível das digitalizações de Portas e foi ainda o appeal das eleições argentinas, a gravata de Shinzo Abe ou o “porreiro” como síntese máxima da última cimeira europeia dos 27.
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Provavelmente quem tem mesmo razão é o alemão Peter Sloterdijk(2), para quem os media, e especialmente a televisão, são a última técnica de “meditação da humanidade”, depois da era das grandes receitas (ideologias) e das “religiões regionais”. Ou seja, para Sloterdijk, a televisão, é o primeiro “redentor” que nos deixa “realmente livres”, porque, ao fim e ao cabo, os “indivíduos” querem é que “os deixem em paz; e esta tranquilidade é uma coisa que agora podem ter de uma vez por todas”.
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Devo-vos dizer que estou bem mais com o alemão, do que com a mera constatação de Perniola. Mas entre os dois, existe um pequeno limbo que, para nos poupar a esforços, passámos a designar por “comunicação”. Já lá vai, pois, o tempo dos infernos em chamas e dos paraísos das doçuras virginais.
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(1) Mario Perniola, Contra a comunicação, Teorema, Lisboa, (2004) 2005, p.12
(2) Peter Sloterdijk, Ensaio sobre a intoxicação voluntária, Fenda, Lisboa, (1999) 2001, p. 132

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Outra vez a noite

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De novo a noite: as persianas como cálamos mudos, a roupagem dos cedros quase sem voz, o cão indolente com olhos pasmados e livros, muitos livros a escalarem o monte de carvalho onde há ainda moedas egípcias e um globo tosco de feira. Um tipo põe-se a escrever e encontra no que escreve a ostensão da linguagem que persegue a própria linguagem, sem quase deixar folga para o resto. Ou seja: para as mãos, para os braços pousados no teclado, para a boca que se abre, para os olhos como simples velas por içar. Uma embarcação é sempre transitória. E respira de desejo. É assim a noite. Outra vez.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 48

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Al Berto nos seus inícios. O vórtice da noite, testemunha de "Tangerina":
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"o ópio agia, desejava morrer num lugar público, sentado num bando de jardim e esperar a morte ao amanhecer. a cidade acordaria estremunhada pelas luzes dos jornais luminosos anunciando que, no centro dela, num jardim, o seu morto mais morto permanecia intacto em exposição.
vomitei, vomitei o ópio a cerveja e os soníferos, encolhi os ombros, apanhei um táxi e fui para casa. só se falha uma vez, pensei eu. subi as escadas sozinho, como sempre o fizera. sozinho, até ao fim dos dias. recomeçarei."
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(Al berto, Livro Primeiro / À Procura do Vento Num Jardim de Agosto – original: 1974/1975 –, em O Medo, Contexto / Círculo de Leitores, Lisboa, 1991, p. 28)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Sinceramente

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Nos últimos meses, por razões muito diversas (sobretudo de trabalho, confesse-se), tenho lido muito pouco na blogosfera. Têm-se passado dias sem ler ou ver um único blogue. Desde 2003 que tal não acontecia. Mas garanto que estou nos antípodas do tom de exposto ressentimento e antinomia (blogosfera versus não-blogosfera) que vi inscrito, há pouco, no Abrupto:
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“(…) como os milhares de leitores quotidianos do Abrupto estão fora destes pequenos círculos interiores da blogosfera, o blogue continua de boa saúde e recomenda-se. No entanto, não precisam de se afadigar tanto, a lei das coisas é que tudo o que sobe tem que descer e é só esperarem sentados.”
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Como se, à moda de um populismo fantasmático, o Abrupto se ligasse directamente às massas e se desse francamente mal com os "círculos" infectados e minúsculos que se arrastam pela blogosfera. Eu sempre tentei andar longe das intrigas menores (e maiores) que reconheço terem terreno fértil no meio. Mas este tipo de discurso do anjo é, ele mesmo, húmus (e do puro) para uma tal fertilidade. Sinceramente.

Cerveja e literatura - 47

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Depois de narrar uma turbulenta chegada a Santiago do Chile e repetir exaustivamente a receita do vinho mais empanadas, só a um terço do seu romance, Jogos de vida e morte (2003), é que Ben Richards dá aos dois protagonistas (joe e Fresia Castillo) a proeza de uma discreta cerveja. Curioso é o facto de a condução e a apetência noctívagas se misturarem nas escolhas. Sinal dos tempos, por um lado, intemporalidades, por outro:
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“Sentaram-se num pequeno restaurante sob o calor impiedoso e seco. A mesa baloiçava, e o local cheirava a cera do chão e a repelente de insectos. O empregado tratou-os como se tivessem acabado de desembarcar de uma nave espacial oriunda de Marte. Joe pediu uma cerveja, e Fresia, uma garrafa de Fanta.
- Deverias tirar proveito do facto de ser eu a conduzir – disse-lhe Joe.
- Detesto beber durante o dia.”
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(Ben Richards, Jogos de vida e morte, tradução: Alberto Gomes; Editorial Presença, Lisboa, 2003/2005, pp. 93/94)

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Volta ao Mundo - 9


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Chegou ontem uma nova crónica da volta ao mundo que a Clara e o Miguel estão a levar a cabo, durante um ano. Tudo começou, como se lembrarão, há mais de dois meses e... para trás já ficou Madrid, Havana, Galapagos, Quito, Buenos Aires e Ushuaia. O casal já está, entretanto, na Ilha da Páscoa, embora a crónica que agora aqui se publica seja a relativa aos fiordes da Patagónia chilena:
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"De barco pelos Fiordes Patagónicos, Puerto Eden, Chile"
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"Entrou na sala e acordou o meu preconceito. Imaginei-a a rir em festas, quando afasta o cabelo; a passear em lojas de roupa, quando caminha por entre as mesas; a fumar cigarrilhas, quando procura algo na mala; a sentar-se num café de luxo
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- Posso? -, quando se senta à minha mesa. Estranho. Nem a pensava em espanhol.
- Gosto de andar de barco.
Imagino…
- Para comer fruta.
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Paro.
E é já sentada no seu coração que conversamos até amanhecer. Descreve-me os cheiros, o tempo, a vida de Puerto Eden com histórias de índios e lendas antigas; como gosta de acordar antes do tempo para ouvir os próprios pés, denunciados por estalos de madeira a cada passo arrastado.
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- É nesse momento que acordo dos sonhos – diz-me.
Continua a mergulhar todos os dias para apanhar marisco, como a avó da sua avó, nua para nunca ficar doente. Come peixe, ovos e algas. Leva o filho à escola de canoa e regressa pelo caminho mais longo. Porque nesta aldeia não existe o hoje nem a palavra solidão. Cada dia tem outro dentro, uma pessoa é todas as outras.
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Chegamos às seis da manhã. Despedimo-nos. Confessa-me que gostou de mim porque tenho riscos a prolongarem-me os olhos. O seu abraço cheira a madeira. Eu cheiro a madeira. Agarra os sacos com uma mão para me dizer adeus, levam fruta e pedaços soltos da minha admiração. Enquanto o seu barco se afasta imagino. Mas agora com mais verdade.
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(Só se chega a Puerto Eden de barco. Isolada por glaciares, montanhas e ventos que gelam, fica a dois dias de uma das cidades mais a sul do mundo, Puerto
Natales. Só três dias depois de lá sairmos tornámos a ver uma aldeia)."
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segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 46

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Vencedor do Prémio Camilo Castelo Branco em 1961 com este romance (Matai-vos uns aos outros), Jorge Reis morreu em Paris em 2005. José Pacheco Pereira fez eco do facto num dos seus blogues. A cena que abaixo se transcreve, com raros recortes dialectais (a reduplicação dos “rr aristocráticos” é realmente paródica), dá a ver um diálogo entre um agente da polícia (Santiago) e um alto funcionário da “Vila Velha” (administrador) acerca da recente morte de um importante proprietário rural, seu amigo. A cerveja interpõe-se à conversa e, ao fim e ao cabo, serve de mote à lentidão do meio, da troca de palavras, das imensas pausas, do mistério e de todo o spleen imobilizado que rodeia a própria cena:
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“– Erra decerrto um homem de baixa extrracção: varrino; mas soube torrnarr-se um dos nossos prroprrietários mais abastados!... Como deve saberr, Vila Velha é terra de lavrradorres... Pois ele erra o único que se dava ao trrabalho de tomarr o barrco e irr à outrra banda correrr a fazenda!...
E cacarejou uma casquinada de mofa, lembrando a Santiago o que o Padre Manuel Bernardes pensava de abegões e feitores!...
– ... Toma uma cerrveja?
Santiago pestanejou como se acordasse: tivera uma ausência. O administrador continuara certamente a discorrer e ele, pegando-lhe de uma frase, deixara de o ouvir...
– Se prreferre outra coisa?
– Muito obrigado: uma cerveja.
– João – dizia já o outro ao contínuo, que passava a cabeça vagamente embrutecida pela abertura da porta. – Vai ao café buscarr uma cerrveja e um copo de água do Luso... Frresquinha, am!”
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(Jorge Reis, Matai-vos uns aos outros, Prelo, Lisboa, 1961/1972, pp. 16/17)

domingo, 11 de novembro de 2007

Episódios e Meteoros - 56

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu
blogue de crónicas)
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Na manhã da passada segunda-feira, como que a abrir o espesso cortinado da semana, Santana Lopes fez uma verdadeira revelação profética. Na sua habitual crónica da TSF, anunciou que o dia 6 de Novembro, data de início da discussão do orçamento geral do estado, iria marcar o despertar de "um novo ciclo político".
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A História - com letra grande - conforma-se com as balizas que lhe são propostas, sempre que nelas reconhece a convicção. Sempre foi assim. Aliás, a declaração de Santana não foi vã. Muito longe disso. No mesmíssimo dia, dez anos depois de 1975, Cavaco também iniciava um novo ciclo político. É este paralelismo que, pela voz do ex-primeiro ministro, dá luz à revelação como confere ainda ao seu novo desempenho parlamentar um renovado empenhamento.
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Tal como era próprio da literatura do profeta Daniel, também Santana apresenta as suas "visões" acompanhadas da respectiva interpretação. Tudo muito límpido, de acordo com uma tradição em que a primeira obra aguarda sempre a sua conclusão providencial (é o caso da relação entre o primeiro e o segundo Zacarias que estão separados entre si por dois séculos). Aliás, o tema do retorno do herói salvador é clássico.
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Santana Lopes conhece como ninguém estas realidades e encarna-as com naturalidade. E sentido de dever. Trata-se, ao fim e ao cabo, de uma longa história, que é a sua, e que tem antecedentes que são do conhecimento público. Bastará ler a profecia Sibila Tiburtina (séc. IV), o Pseudo-Methodius (séc. VII), a Carta de Adso (séc. X), as Calamidades da Igreja de Liège de Rupert de Deutz (séc. XI), a Investigação do Anticristo de Gerhoh de Reichersberg (séc. XII), as Duas cidades de Otto de Freising (séc. XII), a Árvore da vida de Ubertino de Casale (séc. XIV) e sobretudo o final do famoso Prognosticatio de João Lichtenbergen (este último já do séc. XV).
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Bem podem autores menores, como Frank Kermode, afirmar que os homens "precisam de concordâncias fictícias com origens e fins para dar significado à vida". Santana Lopes, ainda que bastante incompreendido, não cabe em tal análise. E há momentos em que a História apenas espera por um simples aceno para que a verdade se transforme finalmente em obra. O providencialismo dos comunistas, dos mais diversos Mahdis e dos próprios Fraticelli (proibidos pelo Papa Pio V em 1568) ficaram pelo caminho. Todos sabemos como. Mas Santana não. E a procissão ainda vai no adro. Melhor: o cortinado da História acaba agora mesmo de se abrir!

sábado, 10 de novembro de 2007

Pré-publicações - 67


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Rutka Laskier, O Diário de Rutka, Sextante, Lisboa, 2007 (lançamento na próxima semana).
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Pré-publicação:
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"O diário de Rutka
Janeiro-Abril, 1943"
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"19 de Janeiro de 1943
Mal posso acreditar que estamos já em 1943, é o quarto ano deste inferno. Os dias passam depressa, uns iguais aos outros. Sempre o mesmo tédio nojento e pegajoso. A cidade está em grande alvoroço.
[…]

27 de Janeiro de 1943
Hoje estou estranhamente bem-disposta. Quase que invadida por uma alegria, uma felicidade, da qual não me apercebi. Como se tivesse inspirado toda a alegria, toda a distância incomensurável. E o mais importante é que não tenho saudades. Noutros dias, sinto-me completamente absorvida pela nostalgia de algo de belo, maravilhoso e distante. Acho que só me poderia sentir aliviada se me encontrasse num sítio bonito, olhando para paisagens maravilhosas. Quando estou à beira-rio e olho para a cascata a jorrar, sinto algo dentro de mim que se levanta e vai para longe…
[…]

5 de Fevereiro de 1943
O círculo está cada vez mais apertado. No mês que vem já deve haver gueto, um gueto de verdade, cercado por muros. No Verão, vai ser insuportável estar tanto tempo numa prisão, não ver flores nem campos. No ano passado, andei pelos prados, apanhava sempre muitas flores, o que me lembrou que qualquer dia deve dar para ir à Rua Malachowska sem sermos deportados, ir ao cinema à noite… Já estou tão «submergida» com os horrores da guerra que as piores notícias não me fazem impressão nenhuma. Não posso acreditar que algum dia poderei sair de casa sem a estrela de David, que a guerra acabará completamente. Estou curiosa sobre como será, talvez enlouquecesse de alegria.
[…]
Meu Deus! Oh Rutka, já deves ter endoidecido, porque já estás a chamar por Deus, como se Ele existisse. Este niquinho de fé que costumava ter já se quebrou completamente. Se Deus existisse, Ele não teria seguramente permitido que seres humanos fossem atirados vivos para fornos, nem que cabeças de criancinhas fossem esmagadas por cabos de pistolas ou amontoadas em sacos e gaseadas até à morte… Soa como uma ficção. Aqueles que não viram nunca hão-de acreditar. Mas não é uma lenda, é a verdade. Como a vez em que bateram num velho até ele ficar inconsciente, porque não tinha atravessado a rua como devia. Só isto já é absurdo. Mas não é nada, desde que não haja Auschwitz… e um cartão verde… O fim… Quando é que virá?..."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.