sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Pré-publicações - 66

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Vem aí, em Dezembro, a primeira edição integral de:
Jacques Prévert, Palavras/Paroles, tradução: Manuela Torres, Sextante, Lisboa, 2007.
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Pré-publicação:
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"A PESCA À BALEIA"
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À pesca à baleia, à pesca à baleia,
Dizia o pai, numa voz furibunda,
Ao seu filho Prosper, escondido no armário,
À pesca à baleia, à pesca à baleia
Tu não queres ir,
Mas porquê?
Mas porque é que eu hei-de ir pescar um animal
Que não me fez nenhum mal, papá,
Vai lá tu pescá-la, já que te apetece,
Eu prefiro ficar em casa com a mãezinha
E com o primo Gaston.
Então o pai foi sozinho no seu baleeiro
Enfrentar o mar encapelado…
Eis o pai no mar alto
Eis o filho em casa
Eis a baleia em fúria
E eis que o primo Gaston entorna a terrina da sopa,
Com o caldo a ferver.
O mar estava mau,
Mas a sopa estava boa
E eis Prosper desolado na cadeira:
Acabei por não ir à pesca à baleia,
E afinal porquê?
Talvez a pescássemos,
E então eu comia-a.
Mas eis que a porta se abre
E surge o pai encharcado
E esbaforido
Com a baleia às costas.
Lança o animal sobre a mesa, uma bela baleia de olhos azuis,
Uma baleia como nunca se viu,
E diz numa voz desabrida:
Tratem de a esquartejar,
Tenho fome, tenho sede, quero comer.
Mas eis que Prosper se levanta,
Olhando o pai no branco dos olhos
No branco dos olhos azuis do pai,
Azuis como os da baleia de olhos azuis:
E porque é que eu hei-de esquartejar um bicho que não me fez mal nenhum?
Que se lixe, prescindo da minha parte.
E atira a faca para o chão,
Mas a baleia pega nela, corre para o pai
E trespassa-o.
Ah, ah!, exclama o primo Gaston
Faz lembrar a caça, a caça às borboletas.
E eis Prosper a fazer as participações,
A mãe de luto pelo pobre marido,
E a baleia, de lágrima no olho, ao ver o lar desfeito,
De súbito exclama:
Mas porque é que eu fui matar este imbecil?
Agora os outros vão perseguir-me em barcos com motor fora de bordo
E vão exterminar toda a minha família.
Então, rompendo num riso arrogante,
Dirige-se para a porta e diz
Ao passar pela viúva:
Minha senhora, se alguém perguntar por mim,
Diga por favor:
A baleia saiu,
Sente-se
E espere,
Daqui a quinze anos ela há-de voltar…"
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 45

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Interessante pacto entre a aura diáfana das termas e a espuma a sobrevoar a geometria dos jardins e a magia dos encontros:
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“Klima identificou-se e perguntou-lhe quando ela teria tempo para o ver.
- Acabo o serviço às três horas. Podemos encontrar-nos às quatro.
Em seguida, foi preciso combinarem um local para o encontro. Ruzena propôs a grande cervejaria da estância termal, que estava aberta durante todo o dia. A magra, que ficara ao lado dela e não lhe tirava os olhos dos lábios, fez um sinal de cabeça aprovador.”
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(Milan Kundera, A Valsa do Adeus, tradução: Miguel Serras Pereira; Círculo de Leitores, Lisboa, 1990, p.40)

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 44

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Num ambiente de recepção, a sagacidade dos bastidores e a diversidade dos convivas podem acabar por convocar um colorido realmente singular. Augusto Boal deu voz e figura a um tal quadro nas primeiras páginas do seu romance, "A deliciosa e sangenta aventura latina de Jane Spitfire – espiã e mulher sensual" (1977). Não deixa de ser curioso verificar a presença de cervejeiros ao lado de liberais, como se os primeiros fossem, afinal e no mínimo, uma ´força de concertação social’:
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“Os olhos ávidos de Mr. Cartwright seguiam fascinados os movimentos das ágeis ancas de sua mulher, o baloiçar dos seios. Quando passou por perto, não se conteve e agarrou-a. Quis beijá-la. Quis outra coisa.
– Não querido, hoje não, não agora. Uma vez por mês basta!
– Hoje é dia 23! A última vez foi no dia 22 do mês passado. Recordo-me muito bem..."
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(...)
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"Os convidados começaram a chegar e as comidas ainda não estavam prontas. Janet pediu que fosse recebê-los e entretê-los com salgadinhos, palavras amáveis e whisky.
Veio muita gente: professores, comerciantes, banqueiros, cervejeiros, liberais. Todas as mulheres vestidas de rendinhas e babados, todas com chapeuzinho...”
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(Augusto Boal, A deliciosa e sangenta aventura latina de Jane Spitfire – espiã e mulher sensual, Moraes Editores, Lisboa, 1977, p. 15).

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A era das fusões a frio

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O filósofo Rui Santos, grande defensor da posição Universalia sunt post res, e, porventura, muito marcado pelo desejo de fusão entre o BCI e o BCP, proclamou recentemente a união entre o Sporting e o meu Benfica. Eu mais facilmente assinaria de cruz, e já, a diluição dos dois estados ibéricos (a parte da cidade do Porto que apoia o FCP podia, se fosse essa a sua opção, ficar de fora da nova União para melhor expiar, de modo paroquial e autónomo, orgulhos próprios). Como se vê, até prefiro o Saramago e as tapas everywhere ao produtor de Corrupção e sobretudo a Rui Santos. Ah, mas não falho uma única palestra de domingo à noite. Lá isso não! Filosofia e cosmopolitismo é comigo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Valer a pena

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Já que hoje me referi a "coisas que valem a pena", aqui deixo mais uma: a excelente reportagem, em tempo real - não há jornal online que se compare à funcionalidade íntima da blogosfera -, do "Fórum das Letras" que decorre neste momento na cidade de Ouro Preto. O Francisco, além do mais, é um óptimo cultor dos detalhes.

O Cirurgião Inglês

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O meu amigo Eduardo Côrte-Real é autor de um dos mais divertidos e consistentes textos sobre design (O Cirurgião Inglês). Para o ler, basta passar pelo site Arte Capital, edição de outro amigo e também arquitecto: João Palla. É raro ver o humor a desenhar, ou a intimar, a mais complexa das cirurgias. Vale mesmo a pena passar por lá.

Cerveja e literatura - 43

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Mais do que curioso: "Uma cerveja no inferno" é a tradução de Cesariny do livro de Rimbaud, "Une saison en enfer". De facto, existem diversas cervejas “Saison” que, quem sabe, vaticinaram este deslizar espumante no título tão inventivo quanto português - e cesarinyiano - da obra. Uma delas em Charleville. Que teria dito Rimbaud? Conhecendo o tradutor, teriam ambos rido e ter-se-iam depois abraçado. Não tenho dúvida nenhuma. E é muito provavelmente o que estarão a fazer neste momento. Até porque o incipit da “Saison” é praticamente apoteótico: “Jadis, si je me souviens, ma vie était un festin où s´ouvraient tous les coeurs, où tous les vins coulaient” (não, neste caso, não tenho o prazer de ter em casa a tradução portuguesa).
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Jean-Arthur Rimbaud, Iluminações / Uma Cerveja no Inferno; tradução: Mário Cesariny; Lisboa, Assírio & Alvim, 1999-2007)

domingo, 4 de novembro de 2007

Episódios e Meteoros - 55

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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
(ver também no meu blogue de crónicas)
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Philip Roth terminou o seu romance Casei com um comunista (1998) com uma frase lapidar: "As estrelas são indispensáveis".
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O comunismo mais ingénuo sempre sonhou, à moda dos místicos milenaristas, com um mundo perfeito. Longe dessa asa de cisne imaculada, ficava a barbárie, ou pelo menos a carne e o osso da realpolitik.
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Em todas as pessoas que foram, a pouco e pouco, abandonando o comboio de Marx e Lenine, é difícil disfarçar qual das duas costelas terá sido mais herdada. Se a ingénua, se a outra. Para não ir mais longe, olhemos para Pina Moura e para Isabel Pires de Lima. A diferença parece-me ser límpida e cristalina. E a conclusão óbvia.
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Quer isto dizer que, para a actual ministra da cultura, a frase de Roth há-de sempre ter soado muito bem. Daí que o deslumbre pelo Hermitage surja sem pecado, espelhando o desejo sempre frustrado de brincar a sério com bonecas idílicas de papier mâché.
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Afinal, o que era velha Rússia? Palácios infinitos, rendas preciosas, princesas lindas com borboletas a navegar na imaginação de príncipes estóicos; renas e mais renas, vastidões maravilhadas, ícones, tentações de sangue e vozes de gelo. Tudo a velejar num barroco de cores pastel, mas celestial. Que paraíso antes sonhado e proibido poderia Isabel Pires de Lima ter agora libertado, a não ser este?
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Estive com Isabel Pires de Lima numa única e fugidia reunião. Éramos jurados diante da escolha de um entre vários livros. Gostei da senhora: sorria com candura e não tinha ainda os olhos espantados de Judy Garland ou o ímpeto sumptuoso de Audrey Hepburn. Salvo seja. Nem o cabelo com os dourados que teriam encantado Pierre-Philippe Thomire. Hoje, quando volto a vê-la na televisão como personagem e ministra, noto, de facto, que algo de muito profundo mudou. Algo tão humano, quanto uma velha paixão subitamente revivida nos crepúsculos do Haiti.
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É por isso que deprecio, ou seja, que não levo muito a sério os habituais protestos do mundo cultural que quereriam ver o dinheirinho do orçamento nos seus próprios cofres e que nos vêm falar em "fait-divers de programação cultural" ou em "apequenar os museus portugueses".
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Deixem brilhar as estrelas!

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 42

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Com acidez, minúcia e ponta da espada afiada, Baudelaire diz em voz alta o que noutros Países Baixos ainda hoje se replica, sempre que se fala da bela nação trapista da Bélgica (Belgische trappisten!):
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“Os Belgas expõem os seus vinhos. Não bebem por gosto mas por vaidade – para se mostrarem à moda, ou se parecerem com os franceses.
A Bélgica, paraíso dos caixeiros-viajantes de vinhos.
Bebidas do povo: o faro (*) e a genebra.”
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(*) Tipo particular de cerveja que se bebe em Bruxelas. (N. Do T.)
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(Charles Baudelaire, Escritos Íntimos, tradução: Fernando Guerreiro; Editorial Estampa, Lisboa, 1994, p. 189)

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Cerveja e literatura - 41

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Um palco ideal para um feriado, ou para a sua véspera, ou para todas as vésperas que se dizem com uma bola de cristal no esquecimento. Onde ia eu? Na cerveja? A esta hora? Jamais. Mas leia-se, leia-se o que ao fundo, lá muito ao fundo, acontece:
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“No fundo, um palco. Em toda à volta mesas e sofás rotos e coçados. Um cheiro acre a cigarro e cerveja impregnava o ambiente. Uma bola de cristal, de outras danças e outras modas, rodopiava espalhando estrelas pela face de todos. No palco sete homens moviam-se ao som da sua música lenta, alheados, Uma bateria simples, franciscana, humilde, um contrabaixo, um clarinete, um trompete, um piano, um saxofone, e um negro grande, enorme, de pose pachorrenta e quase obesa que dançava com o seu trompete.”
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(Rui Alberto Silva, Sentados no sofá vermelho, Editorial Notícias, Lisboa, 2000, p.114)