(Marguerite Duras, Emily L., tradução: José Carlos González; Livros do Brasil, Lisboa, 1988, p. 5)
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Cerveja e literatura - 40
(Marguerite Duras, Emily L., tradução: José Carlos González; Livros do Brasil, Lisboa, 1988, p. 5)
terça-feira, 30 de outubro de 2007
Cerveja e literatura - 39
"Aloysia voltará para cumprir o contrato; ela gosta de sentir a admiração das pessoas quando canta. – Josefa olhava-as a todas, as mãos em cima da mesa perto do jarro azul da cerveja. – Acho que esperam que eu as sustente a todas, eu, que fui tão condenada pelo meu amante e que posso nunca mais ter outro, que morrerei solteirona, o que lhe convinha de certeza."
(Stephanie Cowell, As mulheres de Mozart, tradução: Maria Georgina Segurado, Editorial Presença, Lisboa, 2006, p.141)
segunda-feira, 29 de outubro de 2007
Cerveja e literatura - 38
“ ‘Bebo contigo/ cerveja, Whisky/ p´ra que se veja/ mais rubra a crista’ – o marialva que Alexandre O´Neill ridiculariza assim tem a ‘cor local’ a defendê-lo das raras investidas deste género que se lhe dirigem. Dispõe de privilégios, é bom lembrar. Tem mitos, clima saudosista, poetas que o cantam, e não lhe faltam os cronistas do quotidiano – uns para exaltar as fraquezas da mulher, outros a coragem do macho (…)”
(José Cardoso Pires, Cartilha do Marialva, Ulisseia, Lisboa, 1960, p. 175)
domingo, 28 de outubro de 2007
Volta ao Mundo - 8
e" 'Demoras a chegar. Demoras a partir. Esta demora dá-te tempo para pensar.'
Diz-me o Gabriel, um homem mais velho do que a idade, numa voz que não interrompe o silêncio. Estamos na cidade com mais silêncio do mundo.
À nossa frente apenas Sul. Pintado com cores de brincar. Parece-me água, mas pode não ser. É demasiado azul, demasiado.
(Torno a abrir a carta enquanto frase soltas, fragmentos, se misturam com recordações)
Assistimos à luta das árvores, a crescerem contra o vento, contra as entranhas vazias da terra. Não contra o Homem. Esse preocupa-se em lutar com a sua imensidão.
Estamos sentados no chão, protegidos por uma árvore diagonal. E esmaga-me o tamanho do céu.
e
(Recordo o frio…)
e
“Morreria sem esta força a puxar-me para Sul, sem a tranquilidade dura deste lugar.”
Fala-me com as mãos. Há vida em cada gesto simples que me oferece.
e
(Releio apenas as últimas linhas:
Ushuaia, 25 de Outubro de 2010
Gabriel)
e
Guardo de novo a carta no envelope. Regresso sempre, mas ainda me lembro da primeira vez que estive no fim do mundo. Quando pensava que a solidão estava só e que o fim não tinha continuação."
Texto: Clara Faria Piçarra
Foto: Miguel Sacramento
sábado, 27 de outubro de 2007
Episódios e Meteoros - 54

Não sei se foi por causa disso, mas, em 2004, o filme de Mel Gibson sobre a paixão de Cristo passou-me completamente ao lado. Para mais, tinha-me ocupado de literatura profética durante algum tempo - fora esse, há mais de uma dúzia de anos, o tema do meu doutoramento - e já me tinha antes deliciado com A Paixão e com toda a Tetralogia Lusitana de Almeida Faria, sem esquecer outras paixões mais frondosas e igualmente venezianas.
Embora hesite habitualmente entre o abismo dos agnósticos - aí está uma palavra que soa sempre a névoa - e uma certa tendência para predador do absoluto - aí está uma palavra que não se deve utilizar numa crónica, a não ser que saiba a vodka -, a verdade é que a grande e única narrativa da minha infância (e da infância católica que, mais ou menos, todos respirámos) era e é coisa que hoje, muitas vezes, me enfastia e que, quase sempre, se vai tornando em matéria para a mais doce das indiferenças.
Seja como for, Gibson frustrou todas as minhas perspectivas (no domingo passado, vi a fita na televisão). Ponha-se de lado a pálida conotação da fé, com todo o respeito pelos anjos; ponha-se de lado a identidade dos personagens, com todo o respeito pelo casting e pela direcção de actores; ponha-se de lado a requintada atmosfera criada pela língua aramaica a contracenar com a hebraica e a latina... e o que sobra é sangue e mais sangue: uma violência de altar barroco e de cenas noctívagas com cobras e corujas em nome da expiação dos pecados do universo. Uma tirada patética, cheia de talha dourada e a milhas da catequese inflamada por que passei há quase meio século: aí, sim, o medo tinha ainda patas de seda e olhos de cabeçudo.
E como não há história baptismal sem demónios, lá surge no filme de Gibson - entre o colorido painel de adereços - uma mão cheia de judeus crispados e almofadados que acaba por convencer o pobre do Fausto romano a cometer o maior dos pecados. Azar o deles.
Bem pôde, pois, a minha avó ter-me falado de revoluções e perseguições. Bem pôde o fogo posto de muitas inquisições ter sido extinto. Bem pôde a catequese ter-se tornado num conto de fadas langoroso e longínquo. Bem pôde, para muitos, o simples esquecimento das grandes e variadas tragédias do século XX. Bem pôde tudo isso. Mas não haja dúvida de que a intolerância continua a viver da repetição insaciada duma mesma tónica. Duma mesma carne. Dum mesmo dogma sectário. Por outras palavras: dessa luxúria binária - própria de filme de terror de terceira classe - que afinal anima, do princípio ao fim, o psicodrama de Mel Gibson.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Cerveja e literatura - 37
"Mas depois de ouvir contar vinte vezes de que modo perdera Jakes o nariz e Sukey a honra – e devemos reconhecer que eram histórias admiravelmenbte bem contadas – começou a enfastiar-se um pouco com a repetição, pois só há uma maneira de se cortar o nariz e outra de se perder a virgindade – ou pelo menos assim se afigurava a Orlando – ao passo que as artes e as ciências tinham em si uma diversidade que lhe aguçava profundamente o interesse. Por isso, embora guardando deles as melhores recordações, deixou de frequentar as cervejarias e os campos de chinquilho, arrumou no armário a capa cinzenta, deixou brilhar a estrela que trazia ao peito e cintilar no joelho a jarreteira, e apareceu de novo na corte de Jaime. Era jovem, era rico, era belo. Ninguém podia ter sido mais aclamado."
(Virginia Woolf, Orlando - Uma biografia, tradução: Ana Luísa Faria; Relógio d´Água, Lisboa, 1924/1998, p. 26)
Pré-publicações - 64/65
"(...) A impressão que Gauguin causava normalmente nas pessoas era de uma força contida, tanto física como psicológica. Fisicamente, tanto Gauguin como Van Gogh eram baixos, mesmo pelos padrões da França do século XIX. A marinha francesa, em que em tempos tinha servido, registava a altura de Gauguin como sendo um 1,63 m, mas ele achava-se alto e de perna comprida. Archibald Standish Hartrick, um escocês que o conheceu na Bretanha, achava Gauguin «uma bela figura de homem».
Vincent transmitia a impressão oposta. Quando vivia na Holanda chamavam-lhe, depreciativamente, «het schildermanneke», «o pequeno pintor». Um vizinho holandês recordava-o como «bem constituído », mas não era assim que a maioria das pessoas se lembrava de Vincent ao longo dos anos seguintes. Hartrick considerava-o «um homenzinho um tanto enfezado, de feições vincadas». Um dos profissionais do hospital de Arles, o Dr. Félix Rey, achava-o um espécime ainda mais desinteressante — «miserável, patético... baixo e magro».
Embora Gauguin tivesse tendência para impressionar à primeira vista, nem toda a gente gostava dele depois de o conhecer melhor. Muitos dos membros do pequeno grupo de pintores parisienses de vanguarda desconfiavam dele, ou eram-lhe mesmo hostis. Camille Pissarro, por exemplo, que a certa altura tinha acolhido Gauguin sob a sua asa protectora, acabou por ver nele um ladrão das ideias de outros artistas, e o jovem pintor Paul Sérusier achava que havia nele uma faceta dúbia, uma certa dose de fingimento e também de crueldade. «Fazia-nos pensar num bufão, num trovador e num pirata, tudo ao mesmo tempo.»
Gauguin tinha modos reservados. Falava numa voz triste e rouca. Tinha, na descrição de um escritor chamado Charles Morice, «um rosto grande, ossudo e sólido e uma testa estreita». A boca era direita e os lábios finos, e tinha «umas pálpebras pesadas que se abriam indolentemente sobre uns olhos azulados ligeiramente salientes que giravam nas órbitas, olhando para a esquerda e para a direita quase sem que o corpo ou a cabeça tivesse de se dar ao trabalho de se mexer»."
Nigel Warburton, O que é a Arte?, Bizâncio, Lisboa, 2007.
e
Pré-Publicação:
e
"A questão da arte parece mais adequada a uma resposta filosófica do que a uma resposta artística. Contudo, tal não significa que a filosofia tenha uma resposta simples. De facto, um dos resultados do estudo da filosofia é a tomada de consciência de que a maioria das perguntas aparentemente simples não tem uma resposta simples.
A filosofia pode fornecer uma base teórica para as nossas crenças mais queridas; mas também pode, do mesmo modo, mostrar quão pouco sabemos. O oráculo de Delfos considerou Sócrates o homem mais sábio de Atenas, o que o surpreendeu, pois Sócrates sentia que não tinha a certeza de coisa alguma. Porém, ao questionar quem estava seguro dos seus conhecimentos o filósofo acabou por perceber que o oráculo tinha razão. A sua sabedoria consistia em conhecer os limites do seu conhecimento, ao passo que os outros emitiam dogmaticamente opiniões indefensáveis. O meu objectivo neste livro é pôr a claro um conjunto de posições indefensáveis, revelando os contra-argumentos e os contra-exemplos que as põem em causa.
Dada a dificuldade de dizer algo positivo e verdadeiro acerca da arte, pode ser tentador rejeitar em bloco a questão da arte. Para quê darmo-nos ao trabalho de filosofar acerca das obras de arte? Barnett Newman sugeriu que os artistas precisam tanto da teoria da arte como as aves da ornitologia. Mas há uma verdadeira questão aqui, que merece ser examinada, precisamente por ser tão enigmática. E quanto mais os artistas põem em causa a noção do é que a arte, mais enigmática parece tornar-se."
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Novidade do dia
Cerveja e literatura - 36
- Deves saber qualquer coisa a este respeito.
As minhas recordações eram um tanto vagas, mas respondi que sim com a cabeça e arrisquei uma observação, da qual não tinha muita certeza que fosse exacta:
- O oiro do mar é o mais dispendioso de todos.”
(Italo Svevo, A Consciência de Zeno, Editorial Minerva, Lisboa, (1923) s/d, p.249)
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Cerveja e literatura - 35
“- Eu estou bem, Dummie. Deixa-me em paz.
Pengiun não se via em lado nenhum no jardim das traseiras. Fiquei no pátio com a garrafa bifada de San Miguel e um Silk Cut acabado de acender. Uma noite fora do vulgar em Begshall: um ar perfumado a madressilva, o perímetro de intrigante escuridão do jardim, vestígios de caracóis e margaridas visíveis no rasgo oblongo de luz da cozinha. Sentia-me (com a cada vez mais forte noção de que a escola – pelo menos a uniforme e repressiva St. Dymphna – tinha acabado) leve e despreocupado.”
(Glen Duncan, Catavento, tradução: Paula Antunes; Publicações Europa-América, Mem Martins, 2006, pp. 94/95)







