quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 36

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Entre o ouro, a água, a memória e, claro, a cerveja:
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“A bordo havia, cerveja e pãezinhos. Guido temperava tudo com a sua tagarelice inesgotável. Falava agora das enormes riquezas escondidas no mar. Já não se tratava de peixe, como Luciano julgava, ou de tesourtos naufragados, mas de oiro dissolvido na água. Lembrando-se de repente que eu estudara química, interpelou-me:
- Deves saber qualquer coisa a este respeito.
As minhas recordações eram um tanto vagas, mas respondi que sim com a cabeça e arrisquei uma observação, da qual não tinha muita certeza que fosse exacta:
- O oiro do mar é o mais dispendioso de todos.”
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(Italo Svevo, A Consciência de Zeno, Editorial Minerva, Lisboa, (1923) s/d, p.249)

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 35

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É no ambiente de luta entre adolescentes (tentações violentas, pequenos raptos, agressões avulsas, brincadeiras abismadas e um calão esmerado) que as luzes de “halogéneo da cor de malva” contracenam com o “ar perfumado a madressilva”. Neste desconcerto afectado com algumas fugas para a frente, uma simples garrafa de cerveja roubada sempre dá algum colorido à sofreguidão:
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“- Eu estou bem, Dummie. Deixa-me em paz.
Pengiun não se via em lado nenhum no jardim das traseiras. Fiquei no pátio com a garrafa bifada de San Miguel e um Silk Cut acabado de acender. Uma noite fora do vulgar em Begshall: um ar perfumado a madressilva, o perímetro de intrigante escuridão do jardim, vestígios de caracóis e margaridas visíveis no rasgo oblongo de luz da cozinha. Sentia-me (com a cada vez mais forte noção de que a escola – pelo menos a uniforme e repressiva St. Dymphna – tinha acabado) leve e despreocupado.”
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(Glen Duncan, Catavento, tradução: Paula Antunes; Publicações Europa-América, Mem Martins, 2006, pp. 94/95)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 34

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Como eu adoro os incêndios da imaginação. Para mais, pela pena de Nelson Rodrigues:
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“E a moça não tirava os olhos dele, numa contemplação insaciada. Vi-o alargar o colarinho, afrouxar a gravata, bufando:
- Calor danado!
Mas já o chope lhe incendiava a imaginação. Falou, sem parar e, súbito, fez, de si mesmo, uma biografia portátil: estivera na África, fora legionário. Ela, que só conhecia os legionários de Carnaval, pareceu admirar-se:
- Como legionário?
- Da Legião Estrangeira.
- Aqueles do filme?
Confirmou, numa brusca e desesperadora nostalgia da África e da farda. Lembrava-se, acima de tudo, do sol africano, fixo e alucinante. Com a curiosidade espicaçada, Lourdinha insistiu:
- O negócio lá como é que é, hein?
João riu, alto. E Lourdinha percebeu que o som desse riso a conquistava.”
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(Nelson Rodrigues, O Drama/16 em Pouco Amor Não É Amor, Companhia as Letras, São Paulo, 2002, pp.124/125)

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 33

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Em Junho de 1991, Sebald deslocou-se a uma pequena localidade chamada Kissingen (“fui por Amesterdam, Colónia e Frankfurt…”). Tudo para compreender, no terreno, o significado das “memórias” de Luísa Lanzberg, de que o escritor alemão faz eco no final de Os Emigrantes. No texto, influenciada porventura pelo tom de desassombrada expiação do livro, a cerveja acaba por ilustrar sintomas de uma pessoa totalmente disforme que Sebald, fortuitamente, encontra no comboio:
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“Não saberia dizer se a deformação do corpo e do espírito do meu companheiro de viagem tinha a sua origem num longo internamento psiquiátrico, numa debilidade congénita ou somente no consumo de cerveja e de petiscos. Para meu grande alívio, o monstro saiu na primeira estação a seguir a Gemunden, por isso fiquei sozinho na carruagem, com excepção de uma mulher de idade, do outro lado da coxia, que ia a comer uma grande maçã gastando para tal a hora bem medida que levou a chegarmos a Kissingen.”
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(W.G. Sebald, Os Emigrantes, tradução: Telma Costa, Teorema, Lisboa, 2001/5 p. 209)

Pré-publicações - 63


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Frederico Lourenço, Caracteres (com desenhos de Richard de Luchi), Livros Cotovia, Lisboa, 2007.
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Pré-Publicação:
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"Prefácio"
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"Não seria exagero afirmar que, a seguir aos diálogos mais literariamente perfeitos de Platão (Protágoras e Banquete), a grande obra-prima da prosa grega é essa jóia que dá pelo nome de Caracteres. Foi composta no século IV antes de Cristo por Teofrasto, escritor natural da ilha de Lesbos, que se estabeleceria em Atenas para estudar com Platão e Aristóteles; consiste numa sequência de trinta caricaturas miniaturais em prosa, que delineiam, em poucas palavras, toda uma personalidade com traço certeiro, sarcástico e genialmente lacónico.
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Os títulos dos Caracteres de Teofrasto (socorro-me da excelente tradução de Maria de Fátima Silva na editora Relógio d’Água) são, por exemplo, O parolo, O pedante, O forreta, O parlapatão (etc.); e cada pequeno texto do autor grego obedece como que a uma estrutura padronizada comum aos trinta retratos, apresentando marcas retóricas repetidas, que dão, em última análise, coesão à obra. Tomemos, como exemplo, o início de O parolo: “A parolice é uma espécie de desconhecimento das conveniências. Eis o perfil do parolo. É tipo para emborcar umas sopas de cavalo cansado antes de sair para a assembleia…” Ou o início de O parlapatão: “A parlapatice, se se lhe quiser encontrar uma definição, é uma espécie de incontinência do discurso. Eis o perfil do parlapatão. Seja o que for que lhe diga alguém que o encontra por acaso, ele salta logo a reclamar que não é nada disso, que ele é quem está bem dentro do assunto…”.
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Apaixonado, há longos anos, por este milagre de requinte (tanto na observação social como na escrita cinzelada), fui compondo uma sequência de Caracteres em número igual aos de Teofrasto, aportuguesando e modernizando, como é óbvio, as personalidades caricaturadas. Pedi a Richard de Luchi — cujo traço lembra o de dois ilustres conterrâneos seus, Osbert Lancaster e Ionicus, e que já me ajudou na adaptação para jovens da Odisseia — para ilustrar cada retrato; os desenhos dele são literalmente metade do livro (até mais).
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Cumpre-me dizer que, ao contrário de Teofrasto, incluo, além de retratos “humanos”, outros, zoomórficos, já que, como diz o povo português, a muitos animais “só lhes falta falar” — ao passo que, no respeitante a muitos seres humanos, “mais valia estarem calados”.
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Finalmente, uma palavra de apreço para James Diggle, que chamou a minha atenção para os Caracteres e cuja edição da obra na Cambridge University Press me deu a conhecer a verdadeira genialidade de Teofrasto; e um agradecimento a Carlos Mendes de Sousa, pelas gargalhadas com que reagiu à leitura em voz alta destes textos."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

domingo, 21 de outubro de 2007

Post confessional

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Apesar da permanente reactualização do Miniscente, reconheço a crise.
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Neste momento, há quatro rubricas em funcionamento pleno: o projecto "Cerveja e literatura", as pré-publicações (um trabalho a meias com duas dezenas de editoras portuguesas), a volta ao mundo da Clara Piçarra e ainda a edição (necessariamente tardia) da minha crónica semanal do Expresso Online.
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Mas a crise é de outra natureza e não, portanto, daquilo que melhor caracteriza um blogue: a sua ininterrupta reactualização. A crise tem que ver com a minha falta de apetência para dizer. Seja para dizer sobre as coisas à minha volta, seja para dizer sobre mim próprio. Seja ainda para dizer sobre os outros, nomeadamente sobre os outros blogues. Não tenho tido paciência para o networking e para o ardil criador de audiências.
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Estados de alma. Melhor: um bloqueio que o trabalho de escrita de Setembro e Outubro, por si só, não explica. Mas um bloqueio, de qualquer maneira.
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Vou continuar, claro, mas não ficava bem comigo se não revelasse estas coisas menores. Já agora: em Novembro, sairá a público o livro "A Expressão na rede - o caso dos blogues" que tem como base a minha série, aqui enunciada entre Maio e Junho de 2006, "O tom dos blogues". Lembram-se?

sábado, 20 de outubro de 2007

Episódios e Meteoros - 53

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O PSD e a ambiguidade do ornitorrinco
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(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
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Há pouco mais de dez anos, parece que foi hoje, comprei em Roma um livro que se debatia com o problema do ornitorrinco. Um problema que deu dores de cabeça aos investigadores europeus, a partir de 1799, quando confrontados com um animal que encerrava em si uma mistura estranhíssima de géneros: mamífero que põe ovos e que vê o leite escorrer ao longo do corpo peludo, apoiado ainda por cima, imagine-se, em patas que atrás têm esporões e à frente umas asinhas. Um quebra-cabeças do diabo capaz de ameaçar regras estáveis, paradigmas conhecidos e imagens experimentadas. Um panorama próprio dos prodígios de Boaistuau e das monstruosidades de Ravenna. O livro que comprei naquele belo verão romano era, de facto, um tratado de Umberto Eco - Kant e o Ornitorrinco - que viria a ser mais tarde traduzido para Português (em 1999) por José Colaço Barreiros.
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A grande conclusão da obra (à parte as reflexões semióticas) é a de que, confrontados com coisas desconhecidas, todos nós somos invariavelmente levados a integrá-las em modelos já antes experimentados. O exemplo do cavalo nas civilizações pré-colombianas é, neste caso, semelhante ao do ornitorrinco na Europa sete e oitocentista. E o exemplo do PSD outonal de 2007 não deixa de ter as suas semelhanças com o modo de compreender o ornitorrinco, na medida em que a tentação de se reduzir Menezes a Santana - este último já todos conhecemos - evidencia idêntico e apressado raciocínio. É, pois, natural que
José Pacheco Pereira tenha escolhido a metáfora do ornitorrinco para se apresentar, ainda que de modo interposto e virtual, ao recente congresso de Torres Vedras do partido laranja.
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Há, com efeito, em
Pacheco Pereira uma visão do partido político à imagem da perfeição cívica, facto que mais se aproxima do modelo de José Régio, quanto, na Confissão de um homem religioso, contrapôs o "deus dos filósofos" ao "deus da fé". É que o primeiro correspondia a qualquer coisa que podia ser reflectida, equacionada e ponderada. Enquanto o "deus da fé" apenas podia ser vivido como desígnio puro e espiritual. O verdadeiro PSD, que os amantes do ornitorrinco inevitavelmente designam por "populista", é um partido de fé, não discutível e profundamente profano ao nível da sacristia do aparelho. O PSD da reflexão, o de Pacheco Pereira , é como o "deus dos filósofos" que poucos entenderão: um pouco ao sabor da ideia platónica de cavalo que nada tem que ver com cada cavalo em concreto, revisto na sua crina incerta, na sua vitalidade selvagem e no seu destemido fôlego de trote.
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A razão tê-la-á
Pacheco . Como Sócrates, o antigo. Enquanto Menezes começa a fazer da imagem ambígua do ornitorrinco a sua própria marca. Veremos se o embaraço que Menezes já está a criar se pode comparar ao dos investigadores ingleses de 1799, diante desse "exemplo fantástico de adaptação ambiental", como escreveu Eco, "que permitiu a um mamífero sobreviver e prosperar nos rios".

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 32

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A espuma como sinal de uma passagem realmente enigmática e perturbadora:
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“Entrou um homem a pedir uma cerveja, bebeu-a de um só trago, atirou com o dinheiro para cima do balcão e saiu outra vez. Ouviu-se imediatamente um carro a arrancar.
- E depois? – Inquiriu Justin Merlin.
- E depois…- o empregado do bar limpou a espuma que ficara a assinalar a passagem do automobilista e levantou a caneca suja… - e depois começaram a fazer asneiras. Primeiro, o administrador do acampamento… não se sabe onde foram desencantá-lo, mas parecia mais um guarda dos campos de concentração do que o gerente dum lugar de prazer para pessoas chiques. Levava tudo aos berros. Só lhe faltava o cacete…”
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(Elsa Triolet, Luna-Parque, tradução: Mário Braga; Portugália Editora, Lisboa, 1961, p.49)

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Pré-publicações - 61

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Comunicação e Sociedade, A Regulação dos Media em Portugal, Vol. 11, (Org. Manuel Pinto e Helena Sousa) Universidade do Minho, Campo das Letras, Braga/Porto, 2007.
Pré-publicação:
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"A nova entidade reguladora no quadro das políticas de comunicação em Portugal"
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por Manuel Pinto* e Helena Sousa**
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"Este número temático da revista Comunicação e Sociedade resulta do trabalho desenvolvido no âmbito da Conferência “A nova entidade reguladora no quadro das políticas de comunicação em Portugal”, que teve lugar na Universidade do Minho no dia 10 de Abril de 2006. Pensada para debater as políticas de comunicação e a regulação dos media no nosso país, esta conferência foi uma iniciativa do projecto Mediascópio, do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade, que procura acompanhar, com as ferramentas teóricas e metodológicas das Ciências da Comunicação, o panorama mediático português num quadro global.
A entrada em funcionamento da Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) serviu de mote a uma necessária reflexão crítica sobre os mecanismos de regulação mediática no nosso país. A ERC é uma faceta, porventura uma das mais visíveis, de outras mudanças já definidas ou em processo de definição
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• no jornalismo (um novo estatuto que comporta uma maior responsabilização dos profissionais);
• no audiovisual (redefinição do serviço público, televisão digital terrestre, provedor do telespectador e do ouvinte);
• no mercado dos media (clarificação das condições e limites à concentração de empresas de media)."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Cerveja e literatura - 31

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Nem todos os romances que referem o 09/11 e exibem a liofilização dominante são actuais. Mas o que será um romance actual? Enfim, fica a espuma da cerveja para pensar em tão cândido tema:
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“Há bocado vi-te a beber cerveja, mas disseste-me para te trazer o mesmo que eu ia beber, por isso touxe-te destas. Não tinha bem a certeza do que querias.
– A Pepsi serve perfeitamente.
– Tens a certeza? Há cerveja de sobra nas geleiras, e já sei como são os tipos que andam na rua.
Eu soltei uma gargalhada desdenhosa. – Não tenho dúvidas a esse respeito – retorqui, abrindo a lata.”
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(Nicolas Sparks, Juntos ao Luar, traduçãode Alice Rocha; Editora Presença, Lisboa, 2006, p. 46)