terça-feira, 9 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 25

e
Uma chegada a Hamburgo à meia-noite. Depois um desconhecido. Logo a seguir a travessia, já a dois, de uma zona emblemática. E ainda uma fotografia simbólica do antigo regime (também não havia outra no Oceano Google). Tudo traduzido, para culminar o fado germano-francês, por um escritor algo seráfico e convertido - a seu modo - à “Ibéria”. Enfim, uma cerveja convulsiva entre as luzes da noite:
e
“O táxi meteu, por fim, pela Reeperbahn: music-halls, cervejarias, dancings e cabarets. Cingido de mil letreiros multicolores, Sankt Pauli desprezava o aguaceiro!
– Já não conheço este bairro! – exclamou Dieter. – É certo que não venho aqui há quinze anos. Esqueci-me de dizer-lhe... Sou de Berlim e passei uma parte da guerra, e do após-guerra também, na América.”
e
(Christine Garnier, Uma Mulher em Berlim, tradução de José Saramago; Publicações Europa-América, Mem Martins, 1957, p.20)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 24

3
E no tempo em que os animais falavam e as línguas se inventavam como castelos feitos de nuvens, nesse tempo límpido e folgazão, lá andava ela, espumosa, nem sempre cândida, às vezes amarga, mas decidida:
e
“Falavam que comia a quanta imundície: caramujo, até rã, com as braçadas de alfaces, embebidas num balde de água. Ver, que almoçava e jantava, da parte de fora, sentado na soleira da porta, o balde entre suas grossas pernas, no chão, mais as alfaces; tirante que, a carne, essa, legítima de vaca, cozinhada. Demais gastasse era com cerveja, que não bebia à vista da gente. Eu passava por lá, ele me pedia: — "Irivalíni, bisonha outra garrafa, é para o cavalo..." Não gosto de perguntar, não achava graça. Às vezes eu não trazia, às vezes trazia, e ele me indemnizava o dinheiro, me gratificando.”
e
(João Guimarães Rosa, O Cavalo que Bebia Cerveja em Primeiras Estórias, Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1988, pág. 83)

domingo, 7 de outubro de 2007

Episódios e Meteoros - 51

e
(crónica publicada no Expresso Online desde anteontem)
e
No país dos insones
e
Na insónia, há uma espécie de túnel obscurecido que se forma. Subitamente. Vindo daquele tipo de surpresa que surge nas paisagens sem fim: praias inóspitas, mares tempestuosos, planícies extensas, estepes quase desertas. E há, por vezes, que saber percorrer esse túnel como se não houvesse tempo no horizonte. Mas apenas um breve instante, uma ínfima travessia, um logro que poderá vir por bem.
e
O que se pensa numa insónia não é nunca objectivo. É antes uma súmula indistinta, sem grandes contornos. Uma pintura expressionista à procura de sentido. A insónia é um sarcófago sem múmia, um canal sem Veneza à volta, um Stabat Mater sem Vivaldi. Geralmente, a esperança rareia na insónia. É da praxe. Mas sabe-se, apesar do tom crepuscular, que tudo irá continuar. Para além do muro. É curioso que, na literatura, a insónia é amiúde encarada como tema menor. Por que será, meu caro Marcel?
e
Bem esperei pela resposta, mas Marcel não respondeu. Nem nunca nos responderá. Sabe-se, contudo, que, entre esse silêncio irrespondível, Marques Mendes saiu da sua insónia, enquanto, desprevenido, Menezes nela terá entrado. De fora, a tentar acordar do pesadelo, Santana Lopes esgaravata à sua volta e não gosta nada que o tenham acordado à pressa, sem jeito, para mais num directo nocturno que ostenta uma personagem tão sonhada quanto adulada. Qual sarcófago, qual Veneza, qual Vivaldi!
e
No governo, a tecnologia e os rankings internacionais descansam os espíritos. Para além do mais, até Dezembro, haverá muita Europa e ainda mais dilemas a converter em matéria de crónica (Mugabe é, nessa vasta amálgama, apenas uma gota de orvalho). E se 2009 vai ser terreno fértil de campanha eleitoral, resta a 2008 ser o palco de todas as decisões. Há quem seja apólogo da teoria salvífica que revê em Manuela Ferreira Leite a encarnação sebástica do próximo Outono. Enfim, conjecturas sonolentas, cenas de vigília, mágoas de sabor gótico.
e
Certo é que, dez anos após a euforia da Expo, nove anos depois de Timor ter sido um generoso talismã para Guterres e vinte anos após o estado de graça de Cavaco, nos preparamos para um 2008 igualmente eufórico. Portugal gosta de altos e baixos, de carrosséis ondulados e abismados, de nevoeiros densos que alternem com um sol escaldante e porventura hipnótico. Portugal gosta de acordar a meio de um desígnio traçado (neste caso, o tecnológico) e expor-se depois à insónia. Ou seja: ao pequeno debate, às ínfimas travessias e a todo o tipo de logro que venha por bem. Qual sarcófago, qual Veneza, qual Vivaldi!
e
O Portugal profundo, mais do que um país de poetas, é - e sempre foi - uma terra de bravos insones.

Cerveja e literatura - 23

e
A Ignorância de Kundera põe em jogo dois checos que, depois do fim do comunismo, procuram em vão a mitologia do Nostos, ou seja, da cruel miragem de um regresso dourado. Tudo o que reencontram acaba sempre por ser estranho: mundos abismados, admirados, imaginariamente ingratos. E eis como a cerveja, de modo provocatório, simbólico e telúrico surge em cena com um dos marcos dessa embaraçosa relação de amor e ódio:
eee
“- O almoço é contigo, o vinho comigo! – Vê na carta alguns vinhos franceses e escolhe um: - o vinho é para mim uma questão de honra. Não percebem nada de vinho, os nossos compatriotas, e tu, embrutecido pela tua Escandinávia bárbara, percebes ainda menos.
Conta-lhes como as amigas se recusaram a beber o Bordeaux que ela lhes levara:
- Imagina, um milésimo de 1985! E elas, de propósito, para me darem uma lição de patriotismo, beberam cerveja! A seguir tiveram pena de mim e, já bêbadas de cerveja, continuaram com o vinho!
Conta-lhe, tem graça, riem.
O pior era que me falavam de coisas e de pessoas das quais eu não sabia nada.”
e
(Milan Kundera, A Ignorância, tradução: Miguel Serras Pereira; Edições Asa, Porto, pp. 159/160)

Um ano de Reactor

e
Um dos melhores blogues portugueses de reflexão sobre o design, o Reactor, fez ontem um ano de vida. O responsável pelo feito é o meu amigo e colega, José Bártolo, de quem passo a transcrever o texto de balanço dos últimos doze meses de design em Portugal ("12 MESES DE DESIGN EM PORTUGAL"), redigido para comemorar o aniversário. Os meus parabéns, é claro!
e
"O Reactor nasceu dia 6 de Outubro de 2006, há precisamente um ano. O reconhecimento da crescente importância dos blogs relativamente à difusão e discussão de ideias e a consciência da escassa existência, em Portugal, de outros meios nos quais o design fosse objecto de reflexão séria e consistente, levou-me a desenvolver este projecto que permitir-me-ia desenvolver uma nova estratégia de diálogo com os meus interlocutores de sempre – amigos, colegas e alguns alunos que, como eu, sabem, que a prática do design não se faz sem uma verdadeira “prática de ideias” – e alargar esse diálogo a novas vozes permitindo um exercício de contraditório mais amplo e dinâmico.
e
Apesar de algumas indefinições ao nível de modelo e método, o Reactor procurou, desde o primeiro “post” harmonizar uma orientação de registo mais ensaístico com um outro registo quase jornalístico, ou seja, a componente de crítica assumidamente autoral com a componente de divulgação menos “contaminada” pela marca interpretativa. A intenção de harmonizar estes dois registos tinha a ver com a própria natureza do medium, sendo o blog um espaço de reversibilidade entre escritor/leitor, espaço de diálogo onde as ideias do “autor” são “rescritas” pelos leitores, a própria natureza dos textos deveria oferecer aos leitores consistência para que houvesse ancoragem para o seu comentário e abertura para que esse comentário encontrasse estímulo. Tendo o Reactor nascido sob o signo da balança, a instabilidade dos equilíbrios tocou-lhe como marca. Os textos foram sendo crescentemente lidos (os últimos seis meses consolidaram uma média de 150 visitas por dia) mas escassamente comentados com as naturais consequências que daí resultam para a vida do blog.
e
Passados 12 meses, o que aconteceu durante este tempo na cultura do design em Portugal?
e
O ano civil inicia-se com o anúncio do cancelamento da edição 2007 da ExperimentaDesign. O caos instalado na Câmara de Lisboa foi a principal, mas não a única, razão para este cancelamento. È consensual que Portugal não pode prescindir de um evento com a relevância da ExperimentaDesign e parece claro que essa relevância permite que o evento se realize mesmo que a principal Câmara do país esteja cativa da incompetência do seu executivo, o que faz com que as razões (eminentemente políticas) deste cancelamento mereçam ser pensadas. A Experimenta não pode realizar o evento dentro das condições que quis e não quis, seguramente com razão, realizar o evento dentro das condições que teve. As divergências entre agentes culturais e agentes económicos tendem a acentuar-se sempre que o papel de uns e de outros se torna reversível.
e
Recentemente, enquanto Guta Moura Guedes dava uma esclarecedora entrevista ao Reactor, a Universidade do Minho e Câmara Municipal de Guimarães anunciavam criar, no âmbito do projecto CampUrbis, a Bienal do Design, a arrancar em 2008, e a partir de 2012, ano em que a cidade é Capital Europeia da Cultura, o Instituto de Design Aplicado. A um ano (ou eventualmente menos) do início da futura Bienal nada foi tornado público, nem uma ideia sobre o sentido do evento, os critérios de programação ou o nome dos programadores. Em todo o caso, parece ser clara uma crescente atenção política relativamente ao design. Este facto deveria decorrer, em princípio, da meritória acção do CPD enquanto organismo a quem compete o exercício do “lobby” junto do poder político e económico, no entanto, sabe-se que dele não decorre. A acção, diletante e inconsequente, de Henrique Cayatte à frente do Centro Português de Design tem sido uma desilusão. Parece-me justo destacar, em contrapartida, a acção meritória da AND, porém apesar do seu louvável empenho creio que a atenção (crescente nos últimos 15 anos) de alguns agentes políticos e económicos relativamente ao design não resulta destes estarem mais e melhor esclarecidos mas, essencialmente, de uma renovada ignorância sobre o que é o design. A crescente circulação da palavra “design” não é acompanhada por uma crescente definição do que o design é, pelo contrario, o “sucesso do design” deve-se sobretudo ao facto da palavra deixar de ser progressivamente usada como substantivo e passar a ser usada como um adjectivo com um valor qualificativo cada vez mais frágil e indefinido. Em todo o caso, esta banalização não deixa de ter uma face positiva ao permitir uma maior abertura relativamente ao design. A publicação em Diário da República do reconhecimento da actividade de designer é, alias, uma consequência muito positiva desta (ainda que tardia) abertura.
r
Vários acontecimentos, alguns particularmente relevantes, contribuíram, ao longo destes doze meses, para a dinamização da nossa cultura do design, destaquemos alguns:
e
a) Várias conferências foram acontecendo de norte a sul do país. Através das conferências foi possível perceber o importante papel que algumas escolas de design vem revelando, a existência de público e o crescente acompanhamento mediático (dos jornais aos blogs) em torno dos eventos. O destaque maior vai para o extraordinário ciclo Personal Views que Andrew Howard e a ESAD tem vindo a promover. A oportunidade de termos entre nós, num espaço de pouco meses, Spiekerman, Lupton, Blauvelt, Brody ou os Experimental Jetset é algo de raro e extraordinariamente importante. Uma palavra, ainda, para a conferência Underground organizada, em Novembro, pela Design Research Society e pela ESD/IADE; para duas conferências, durante o mês de Junho, na Lusófona (o Congresso “Arte, Design e Tecnologia” e “Os caminhos do design”); e para a conferência “Reflexões sobre o Design” que em Maio levaram a Almada nomes como Paulo Heitlinger, Nuno Coelho ou Lasalete de Sousa.
r
b) Com o MUDE – Museu do Design e da Moda virtualmente existente porém sem mostrar nada de relevante, com as grandes instituições e os grandes museus a revelarem a continuada ausência de atenção relativamente ao design (a exposição no verão de 2006 sobra a Roma Publications na Culturgest foi a excepção), o destaque maior vai para a colaboração de Stefan Sagmeister com a Casa da Música, a identidade da instituição foi apresentada pelo designer austríaco nesse fim-de-semana alucinante marcado ainda pela presença de Neville Brody na ESAD. Relativamente a exposições ou instalações de design, elas aconteceram pontualmente. No verão a instalação Mensagens que tive o prazer de comissariar levou à Área Panorâmica de Tui, na Galiza, a voz de mais de uma dezena de designers portugueses (João Machado, Frederico Duarte, Heitor Alvelos, R2, Miguel Carvalhais, Nuno Coelho, Francisco Laranjo, António Silveira Gomes, Valdemar Lamego, André Cruz, Pedro Taboaço, David Carvalho e Joana Bértholo ); recentemente inaugurou a exposição Remade In Portugal patente na Estufa Fria.
e
c) Destaque para a transformação gráfica do Público, redesenhado por Mark Porter, o designer do Guardian; a par da transformação gráfica assistimos a alguma renovação ao nível de conteúdos com realce para os artigos de Frederico Duarte. Outros destaques há que merecem ser feitos: Os Silva!Design deixam de desenhar a Agenda Lisboa, perdeu-se qualidade e imaginação gráfica, perdeu-se o contacto seminal com as magníficas ilustrações da Sofia Dias; algumas editoras revelam uma atenção particular dada ao design gráfico (com a Tinta da China); o nosso pequeno Mercado editorial procura usar as plataformas web para se estender, surgindo o The Radical Designist e os Cadernos de Tipografia.
r
d) Estes últimos 12 meses serviram, também, para reforçar em termos nacionais e internacionais a qualidade do trabalho de alguns jovens estúdios e designers, como é o caso da Boca do Lobo, André Cruz ou os Pedrita, entre outros.
e
Penso ser consensual que o surgimento dos blogs contribuiu para renovar e alargar o espaço de reflexão sobre o Design. Em termos internacionais, blogs como o Design Observer ou o BLDG tornaram-se referências determinantes, com um papel claramente activo na construção teórica do design e da arquitectura contemporâneas. Em Portugal, neste ultimo ano surgiram vários blogs centrados na prática do design (o Design português surge em Setembro; o CoconutJam em Outubro; o Design Lab em Março) juntando-se a outros anteriormente criados (destacando-se o Ressabiator e o Desígnio) e cujo papel divulgador, formador e dinamizador do design é inquestionável. Da parte Reactor houve, desde sempre, consciência da importância de um trabalho que sendo individual visa objectivos comuns, que implicando dedicação individual só pode ser feito através da partilha colectiva.
e
No futuro próximo, a estrutura do Reactor será ajustada mas não sofrerá significativas alterações. Manter-se-á uma regular publicação de entrevistas, de ensaios e a procura de mapear o território do design. Haverá lugar a novas colunas (como a “Pequena Enciclopédia de Design” e o “Design and the City”) e a procura de criar extensões entre a actividade on-line e off-line. Continuaremos activos e reactivos, esperamos dos leitores uma crescente participação e o necessário diálogo que é, afinal, a razão de ser deste projecto."

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Chuva, chuva

r
Em Barcelona, neste início de noite inusitadamente chuvosa. Visitar amigos que conhecemos, um dia, na Via Láctea sabe sempre melhor.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Pré-publicações - 57

e
Jorge Reis-Sá, O Dom - Divertimento, Editorial Magnólia, Vila Nova de Famalicão, 2007 (Outubro).
e
Pré-publicação:
e
"Como se a chuva viesse com as nuvens baixas. Como naqueles dias de Inverno em que as nuvens são escuras, pretas, quase que não se imagina o sol por detrás do frio. Como se a chuva viesse nesses dias com o vento que as faz voar como pássaros pelo céu, e nós aqui, agasalhados até aos ossos, os guarda-chuva não funcionam, dobram, partem, e nada se pode fazer senão deixar que o Inverno passe, pensar que sim, que o Inverno ainda há-de passar e que essas nuvens baixas e ventosas são passageiras.
Mas foi assim, como se a chuva viesse. Foi com esse frio que algo se passou e ainda agora, algum tempo depois, eu não sei o quê. Vi, só. Nada mais. Estava no centro comercial e vi pelos vidros enormes que dão para o adro e para a avenida e logo me apeteceu descer as escadas rolantes em desespero e ir ajudar, ver o que se teria passado, mas o que se está a passar, pensava, o que é isto, as pessoas, as pessoas, este vento de sul que parece vindo do mar, a oeste, um vento que trará a chuva, para já só salpicos, quase toda a gente sem guarda-chuva na avenida que desce até ao rio.
Foi assim: as pessoas a caírem. E eu estava à espera que as horas passassem, tão-só. Eu estava encostado ao vidro, no centro comercial entre as minhas coisas, entre os meus desejos mais íntimos, entre as minhas loucuras diárias e a minha vida.
Porque foi assim: as pessoas a caírem. A primeira que vi tinha decerto a minha idade, alguns anos dentro da casa dos trinta e levava pela mão uma criança. Vestia um sobretudo castanho, as nuvens assim o impunham e a miúda, essa criança, trazia um guarda-chuva verde, pequenino, na mão direita. Brincava com ele, dirigiam-se para o centro comercial. Se tudo acontecesse como devia, se por debaixo dessas nuvens não tivesse vindo o que veio, iriam certamente passar por mim junto a este vidro e eu, como homem, ver a senhora da minha idade que trazia a criança pela mão, tirar-lhe então as medidas. Filha? Que me interessa isso, nunca interessou. Iria observar paulatinamente, em câmara lenta, quase, a sua passagem, medir-lhe as curvas e imaginá-la como veio ao mundo."
e
Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Cerveja e literatura - 22

Encontros providenciais relatados em livros excepcionais. Com uma inevitável cerveja de permeio:
e
“Fiquei na dúvida de como reagir ao vulto enorme. Mas ele sorriu-me. Percebi-lhe a grande mansidão dos que raramente sofrem medo e por isso não chateiam. Havia mesas vazias, mas a minha era a mais próxima da porta.
"Aqui corre fresquinho". A explicação do tipo. E ofereceu-me uma cerveja, no imediato.
Começou conversa como se sentara, sem convite. Vivia qual um peixe, livre de gravidade, esses puxões comprimidores de quem se inibe ante o contacto. Cornos de caracol não era. Falava como fornicava, como se batia: ao lai-vai-disto e taruga! Um destino à grega era seu tutor. Por isso, entre outras coisas, usava sem snobismo o nome, brotado no mato duma seita, bairro popular: Simão Cara de Cão.”
e
(Nuno Bragança, A Noite e o Riso, Círculo de Leitores, Lisboa, 1969/1985, p.108)

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 21

e
Um diálogo e um encontro, no mínimo estranhos, num bar de Londres. O comediante Thomas Blaize e Cristopher Marlowe, dramaturgo, observam um homem “que bem pode passar pelo Diabo”. Até saírem para a rua, juntos, é a figura da “caneca” que acaba por expulsar os males e expiar o pior:
e
“Blaize engoliu a bebida num longo trago, escondendo a fisionomia atrás da caneca.”
e
“Levantei também a minha bebida, devolvendo o brinde. Os bordos das canecas tocaram-se e os nossos olhos encontraram-se. Sorri ao lembrar-me que tinha pensado que ele podia ser Lúcifer”.
e
“Baynes deu uma palmada no tampo da mesa. As bebidas tremeram nas canecas, oceanos em miniatura batidos pela tempestade”.
e
“E assim continuámos, eu a dardejar blasfémias, Blaize a encorajar as minhas injúrias e o homenzinho a objectar com ironia à medida que nos abastecia de cerveja, até ter esvaziado a bolsa, a noite avançar e cambalearmos para a rua.”
e
(Louise Welsh, Tamburlaine tem de morrer, tradução: Miranda das Neves; Teorema, Lisboa, 2005, pp. 53/54/55/57)

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 20

e
De um checo o que se pede é, no mínimo, a descrição sumária de uma fábrica de cerveja para traduzir algo de grande, ou quase incomparável:
e
“(...) o papel entrava directamente para uma caldeira enorme, tão grande como a caldeira gigante da fábrica de cerveja de Smíchov.”(…)“Então, enchi-me de coragem e subi as escadas para a plataforma que se estendia à volta da cuba oval, passeei pela plataforma como se passeasse pela plataforma na fábrica de cerveja de Smíchov, à volta das caldeiras em que se faziam, de uma só vez, quinhentos hectolitros de cerveja, encostado ao corrimão olhava para baixo, como se estivesse nos andaimes de um edifício em construção.”
e
(Bohumil Hrabal, Uma solidão demasiado ruidosa, Tradução: Ludmila Dismánova e Mário Gomes, Afrontamento, Porto, 1992, pp. 79/80)