segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Cerveja e literatura - 20

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De um checo o que se pede é, no mínimo, a descrição sumária de uma fábrica de cerveja para traduzir algo de grande, ou quase incomparável:
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“(...) o papel entrava directamente para uma caldeira enorme, tão grande como a caldeira gigante da fábrica de cerveja de Smíchov.”(…)“Então, enchi-me de coragem e subi as escadas para a plataforma que se estendia à volta da cuba oval, passeei pela plataforma como se passeasse pela plataforma na fábrica de cerveja de Smíchov, à volta das caldeiras em que se faziam, de uma só vez, quinhentos hectolitros de cerveja, encostado ao corrimão olhava para baixo, como se estivesse nos andaimes de um edifício em construção.”
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(Bohumil Hrabal, Uma solidão demasiado ruidosa, Tradução: Ludmila Dismánova e Mário Gomes, Afrontamento, Porto, 1992, pp. 79/80)

domingo, 30 de setembro de 2007

Pré-publicações - 56

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Pedro Marta Santos, Guia Terapêutico do cinema – Como curar insónias, fobias, depressões e desastres amorosos, Guerra e Paz, Lisboa, 2007 (Setembro).
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Pré-publicação:
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“No início de Matador de Pedro Almodovar, o protagonista (Nacho Martí­nez), um antigo toureiro, masturba-se em frente à televisão enquanto vê slasher films (filmes cujo objectivo é mostrar sangue e morte). Para Quentin Tarantino, um grande fã de Matador e um dos poucos cineastas que sabe transformar os slasher movies e os exploitation films em entretenimento auto-paródico, «Edi­son e os irmãos Lumière inventaram a câmara para filmar violência» .
Desde o seu início que o cinema tem um fraquinho pelos endiabrados e os iconoclastas. Tod Browning e James Whale gostavam de meter medo, Buñuel apreciava chocar e o Código Hays, o mecanismo auto-censório da indústria de cinema norte-americana, não impediu Elia Kazan ou Otto Pre­minger de abordarem temas proibidos como o racismo (Pinky), o estupro (Baby Doll) ou a droga (O Homem do Braço de Ouro). O Homem é violento, mas o Código, que vigorou entre 1934 e 1969 (!), não permitia «a obsce­nidade e a blasfémia» (sic). Samuel Fuller, um ex-jornalista de crime, que serviu na infantaria durante a Segunda Guerra Mundial, sabia que a vida era frequentemente obscena e blasfema, e os seus filmes libertam a fúria dessa percepção: se a dor, o sexo e a violência são tão indissociáveis da condição humana, porque não haveria de o ser do cinema?
É o nosso próprio corpo que dita essa relação ancestral entre dor, sexo e violência. A epinefrina (conhecida pelo nome mais carinhoso de adrenalina) e a norepinefrina são hormonas libertadas pelo corpo durante experiências dolorosas ou muito stressantes, podendo causar uma sensação de prazer. As endorfinas, que são uma espécie de opiáceos biológicos, produzem-se na glândula pituitária e no hipotálamo, servindo tanto de analgésico como de estimulador de bem-estar – talvez venha daqui a expressão «farmácia ambulante».
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Pré-publicações - 55

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Steven Landsburg, Mais sexo é mais seguro - A sabedoria irreverente da economia, Guerra e Paz, Lisboa, 2007 (Setembro).
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Pré-Publicação:
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"É verdade: a SIDA é o castigo da natureza para a nossa tolerância relativamente ao comportamento sexual desregrado e socialmente irresponsável. A epidemia é o preço a pagar pelas nossas atitudes permissivas face à monogamia, à castidade e a outras manifestações de conservadorismo sexual extremo.
Já terão lido muitas outras páginas acerca do pecado da promiscuidade.
Deixem que vos fale agora sobre o pecado da auto-repressão. Vejamos o caso de Martin, um jovem encantador e geralmente prudente, com um passado sexual limitado, e que tem estado a namoriscar docemente com Joan, uma colega do trabalho. À medida que se aproximava a festa do escritório, na semana passada, tanto Joan como Martin alimentavam silenciosa e separadamente a perspectiva de que talvez pudessem acabar por ir juntos para casa. Desafortunadamente, o Destino, através dos seus colaboradores nos Centros para o Controlo de Doença, interveio. Na manhã do dia da festa, aconteceu a Martin reparar num daqueles panfletos espalhados no metropolitano, patrocinados pelos CCD, apregoando as virtudes da abstinência. Castigado e purificado, decidiu ficar em casa. Na ausência de Martin, Joan foi fisgada por Maxwell, igualmente encantador, mas consideravelmente menos prudente – e Joan foi infectada com SIDA.
No momento em que o cauteloso Martin se retira do jogo de acasalamento, torna mais fácil para o ousado Maxwell atacar a desgraçada Joan. Logo, se aqueles panfletos no metropolitano são mais eficazes contra Martin do que contra Maxwell, então, são uma ameaça para a segurança de Joan. E isto é ainda mais verdade quando estes panfletos se substituem aos anúncios da Calvin Klein, que poderiam ter colocado Martin num estado de espírito mais benéfico do ponto de vista social."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

sábado, 29 de setembro de 2007

Volta ao Mundo - 6

Acabo de receber mais uma crónica da volta ao mundo que a Clara e o Miguel estão a dar durante um ano. Lembro que tudo se iniciou no início de Setembro e que os dois viajantes já passaram, entretanto, por Madrid, Havana, Galapagos e, como se pode ver, pelo Equador. Boas leituras!
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"La Mitad Del Mundo
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Tinha acabado de chegar. Foi tirando com calma tudo o que guardara no saco. Um chapéu de abas largas, um guarda-chuva, um casaco comprido, um lenço, outro lenço e outro e outro. E sentou-se, como se esperasse. Passaram uns minutos. Com uma suavidade desenquadrada da paisagem vestiu o casaco, o chapéu, espalhou os lenços pelo corpo, abriu o guarda-chuva. E começou a dançar.

Pousei o café e olhei com mais atenção. Movimentos surdos diluíam-se no chão. Como os seus olhos. Não dançava para ninguém, apenas para si.
Vivo numa das cidades mais altas do mundo. Mas não tenho medo de cair. Uma vez por mês subo a Cotopaxi para não me esquecer. Deste ar que respiro, deste azul tão fundo, de que vivo na metade do mundo.
Não sei se cantava.
E foi de repente. Olhou para mim:
- Estranhas-me?
Nada. As palavras adormeciam-me na garganta.
- Não tenhas medo de mim. Só não quero ser ausente de sombra.
Disse-me.
Ausente… de sombra. Ausente… de sombra. Sabia, mas não reparara. Ao meio-dia Quito transforma-se na cidade dos homens sem sombra.
Menos a Isabela. Uma menina de quinze anos que se aumenta, que inventa pedaços de corpo apenas porque nunca quer guardar todo o sol dentro de si.

(Antes de começar esta viagem tinha uma certeza: queria escrever histórias do mundo. Sem necessidades descritivas ou de relato diário de experiência pessoal. Apenas contar uma história de alguém com outra perspectiva do que pensamos conhecer, que não fosse possível ler num guia, na Internet ou num livro de viagens. E é tão simples, não tenho que as procurar. Basta-me olhar e querer ver. O que me atraiu em Quito não foi ser Património Mundial da Humanidade, ou ser uma cidade rodeada de vulcões castanhos e azuis e brancos, ou ter um centro histórico tão bem conservado, tão colonial, tão esmagador, com tão pouco oxigénio. Foi saber o que pensa alguém que vive sem sombra)."

Episódios e Meteoros - 50

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A medalha de Sócrates
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(crónica publicada desde ontem no Expresso Online)
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Falar de uma máquina do tempo foi sempre falar de fantasmas. Mas convenhamos: mesmo entre fantasmas, há fantasmas e fantasmas. Por exemplo, o lado fantasmático do popular Back to the Future de Robert Zemeckis nada tem que ver com a imaginação suscitada por Orlando de Virginia Woolf, nem com a ("impossível") imagem de uma derrota eleitoral para Marques Mendes ou para Luís Filipe Menezes. Cada uma destas fantasias corresponde a um patamar bem diferente, embora exista nelas algo comum, justamente porque uma máquina do tempo é sempre um artifício que serve para exorcizar as fragilidades da vida.
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As várias histórias do paraíso, a Atlântida visionada por Platão no Crítias, terra de lagos e de crateras cheias de vinho, ou a actualizada metáfora do "Middle-West" (Sócrates teve decerto em vista algo mais enigmático do que o Iowa ou o Nebraska) são também cenários de diversas máquinas do tempo onde o sonho (ou, por vezes, o lapso) supera a simples ordem do vivido.
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Uma máquina do tempo articula, como todas as máquinas bem oleadas, dois termos. Neste caso, em vez de hardware e software, temos os rituais biográficos e os rituais do dia-a-dia. O modo como a máquina os coloca em harmonia depende essencialmente do combustível, isto é, das narrativas que dão - ou que vão dando - sentido à nossa vida.
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Em tempo de imagens, as novas narrativas vivem sobretudo de fluxos (ficcionais) de informação que têm intensidade e duração diferentes. Por exemplo, a imagem da gripe das aves, a imagem dos McCann, a imagem do murro de Scolari ou a épica de Mourinho são mais persistentes do que as imagens caducas de Aquilino no Panteão, do surfista desaparecido em Espinho ou até da imagem da guerra ao Irão promovida pelo Ministro dos Negócios Estangeiros francês.
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Todo este insaciado combustível (de trânsito televisivo ou cibernáutico) alimenta essencialmente o hardware. Ou seja: dá-nos a pista de dança, enquadra-nos num espaço de sentido, numa lógica. Mas depois, claro, existe o espaço da congeminação individual: o chamado tempo das expectativas que nem sempre se adequa a esta voragem de imagens. É aqui que o software de cada um pode alterar tudo, até porque é feito de conjecturas (aceleradas e) cruzadas que tentam seriar a informação e domar, a seu bel-prazer, a própria máquina do tempo. Nem sempre com sucesso, é certo. Mas muitas vezes com um sorriso parcialmente vencedor. E irónico.
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A "falha", ou o lapso - sei do que falo -, constituem amiúde formas exultantes de ironia. Sócrates, na passada semana, face a face com Bush, levou consigo esta preciosa medalha. Para mais, sem ter minimamente dado por isso.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Pré-publicações - 54

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William Blake, Cantigas da Inocência e da Experiência, tradução e introdução desta edição: Manuel Portela; Antígona, Lisboa, 2007 (Setembro).
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Pré-publicação (extracto do prefácio de Manuel Portela):
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William Blake (1757­‑1827), gravador, pintor e poeta, nasceu e morreu em Londres. Oriundo de uma família dissidente de pequenos comerciantes, as suas inclinações místicas e artísticas manifestaram­‑se desde tenra idade. Teve ainda na infância as primeiras visões de anjos. Aos dez anos, ingressou na Escola de Desenho de Henry Pars. Durante cinco anos aprendeu a técnica do desenho, mas acabaria por não seguir para a Academia de Pintura e Escultura de St. Martin’s Lane, uma das principais escolas de arte de Londres. Em 1772 foi admitido como aprendiz do gravador James Basire, trabalhando na sua oficina durante sete anos. Foi aí que começou a adquirir a mestria nas técnicas da gravura, que veio a ser o seu meio artístico predilecto. Em 1779, último ano do contrato de aprendiz, ingressou na Escola da Royal Academy (fundada em 1769), cujo currículo abrangia as disciplinas de pintura, anatomia, perspectiva e arquitectura. O contacto com o mundo artístico londrino intensificou­‑se nestes anos, tendo exposto por três vezes pinturas e desenhos na Royal Academy, mas acabaria por se dedicar sobretudo à gravura. Fez a sua primeira gravura comercial em 1780, tendo realizado ao longo da vida cerca de 580 ilustrações e gravuras para vários editores, destinadas a obras de índole diversa – livros de orações, livros de poemas, livros para crianças, narrativas de viagens, estampas artísticas, etc. –, ou por encomenda de clientes particulares. Da sua obra como ilustrador, destacam­‑se as ilustrações para os poemas L’Allegro, Il Penseroso e Paradise Regained, de John Milton, realizadas entre 1816 e 1820; os desenhos e aguarelas para o Livro de Job, realizados em1821; e o conjunto de desenhos, aguarelas e gravuras (nunca concluídos) para A Divina Comédia, de Dante, realizados entre 1824 e 1827.
O interesse na gravura reflecte­‑se numa preferência por linhas, contornos e superfícies definidas, que caracterizam também os desenhos e pinturas. A obra pictórica revela a influência da arte clássica e da arte gótica, cujas formas Blake conhecera, em certos casos, por intermédio de gravuras. Os primeiros poemas salientam­‑se pelo uso de formas métricas e estróficas regulares, às vezes de sabor arcaico. No que diz respeito à imaginação literária, são evidentes as influências das leituras da Bíblia, da literatura renascentista inglesa, das obras do poeta John Milton e da literatura mística de Jakob Böhme e Emanuel Swendenborg. Por volta de 1788 experimentou integrar textos e imagens na mesma chapa, combinando a tecnologia da impressão com a tecnologia da pintura. Desenvolve progressivamente uma técnica que vai culminar no livro impresso iluminado , forma que continuará a usar até ao fim da vida. Esta técnica resultou num dos primeiros exemplos de arte intermédia reproduzível, isto é, uma arte que é simultaneamente poética, pictórica e mecânica. Deste modo, a disposição eidética e visionária de Blake incluía a tecnologia de mediação gráfica: o acto de imaginar a imagem era igualmente o acto de tentar reproduzir, através de uma técnica mecânica, as imagens verbalizadas ou desenhadas. Esta técnica permitia­‑lhe o controle directo sobre todas as fases de produção, desde a escolha do papel até à publicação e distribuição.
Todos os livros iluminados de William Blake foram gravados, impressos, coloridos e publicados pelo autor. A aplicação da cor terá sido feita, por vezes, em colaboração com Catherine Blake. Mesmo quando a tira­-­gem impressa era de vários exemplares, o facto de cada página ser colo­rida individualmente significa que cada cópia era, de certo modo, uma edição. A variação na aplicação das cores e, em certos livros, na ordem relativa das gravuras, de exemplar para exemplar, acentua a singularidade de cada cópia­‑edição, ainda que parte das variações decorram do modo manual desta forma de trabalho e não de uma intenção de produzir variações. Em geral, a variação cromática é tanto maior quanto maior é a distância temporal entre exemplares ou grupos de exemplares, o que reflecte a evolução na execução técnica e na concepção do livro impresso iluminado. A comparação de exemplares produzidos no ano da primeira impressão com exemplares produzidos alguns anos depois, ou já nos últimos anos de vida, comprova o uso de diferentes paletas de cor ­– para alterar texturas, graus de transparência e opacidade e atmosferas gerais –, e também a omissão ou o adição de elementos ao desenho gravado original. Por outras palavras, é materialmente visível a intenção de releitura de muitas páginas dos seus próprios originais, que assim parecem incorporar a passagem do tempo na sua forma. Esta releitura autoral cria novos eixos de sentido na relação entre a matéria pictórica e a matéria linguística das gravuras, pelo que não é indiferente para o acto de interpretação da página iluminada o exemplar a partir do qual se lê.
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O Tigre
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Tigre, Tigre, brilho ardente,
Lá nas florestas da noite;
Que olho, que mão traçaria
Tua feroz simetria?
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Em que infernos, em que céus
Arde o fogo dos teus olhos?
Que fole o pôde soprar?
Que mão tal fogo agarrar?

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E que braço, & que arte,
Pôde o coração talhar­‑te?
E quando a bater se pôs,
Que pés terríveis? Que mãos?
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Que martelo? E que malha?
E teu cér’bro em que fornalha?
Que bigorna, ou forças tais
Agarram garras fatais?
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Quando as estrelas raiaram
E o céu de pranto inundaram:
Sorriu ele ao ver­‑te inteiro?
Quem te fez, fez o Cordeiro?
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Tigre, Tigre, brilho ardente,
Lá nas florestas da noite:
Que olho, que mão traçaria
Tua feroz simetria?
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cerveja e literatura - 19

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No início do romance de Steinbeck, Um dia diferente (original: Sweet Thursday, 1954), Doc regressa ao "Laboratório Biológico do Oeste", após a guerra, e constata que o encarregado, Old Jingleballicks, nunca de facto chegou a tomar conta das instalações nos últimos dois anos. Depois de cair em si, sai de casa e é a cerveja que acaba por transformar-se em meta imediata. Digerir o inadiável. Afinal, a Doc, "todas as cervejas agradam":
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"Doc deixou-se cair na sua velha cadeira absolutamente aniquilado. Amaldiçoou Old Jingleballicks, saboreando o veneno das suas palavras, e, em seguida, levantando-se automàticamente, encaminhou-se pela rua imersa em silêncio para a loja de Li-Chong, a fim de comprar cerveja.
Só que ao ver por trás do balcão um homem bem vestido, mexicano pela aparência, ocorreu a Doc que Li-Chong tivesse partido.
- Cerveja – disse Doc. – Duas garrafas.
- Pronto – respondeu o lojista.
- O Mack está por cá?
- Sim, senhor.
- Diz-lhe que quero vê-lo.
- Digo-lhe que quer vê-lo quem?
- Diz-lhe que o Doc voltou.
- Sim, senhor Doc – respondeu o homem.
- Esta cerveja agrada-lhe?
- Todas as cervejas me agradam – respondeu Doc."
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(John Steinbeck, Uma dia diferente, tradução: João Belchior Viegas; Livraria Bertrand, Lisboa, S/d, p.13)

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Pré-publicações - 53

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Rubem Fonseca, A Grande Arte, Campo das Letras, Porto, 2007 (Setembro)
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Pré-publicação:
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"Não era uma ferramenta como as outras. Era feita de material de qualidade superior e o aprendizado do seu ofício muito mais longo e difícil.
Para não falar no uso que dela fazia seu portador. Ele conhecia todas as técnicas do utensílio, era capaz de executar as manobras mais difíceis – a in-quartata, a passata sotto – com inigualável habilidade, mas usava-o para escrever a letra P, apenas isso, escrever a letra P no rosto de algumas mulheres.
A mulher estava deitada ao seu lado falando banalidades. Ele olhou à sua volta. As paredes eram pintadas de verde, como certos hospitais. Havia um toca-discos, coberto por uma capa empoeirada de acrílico, ao lado de uma televisão portátil. Uma lata de talco ordinário estava sobre a cama e ele tocou-a com o pé descalço.
Não adiantava imaginar por que fazia aquilo. Era uma perda de tempo especular por que determinadas coisas dão prazer. O P não tinha ressonâncias literárias, nem ele se considerava um psicótico puritano querendo esconjurar a congénita corrupção feminina.
O facto de as mulheres serem prostitutas não tinha qualquer influência em sua resolução. Apenas não queria correr riscos, por isso escolhia indivíduos que a sociedade considerava descartáveis. Mas, ao olhar o rosto da mulher curvada sobre seu corpo nu, admitiu que talvez estivesse mentindo para si mesmo. Era mesmo uma mulher inexpressiva, não faria realmente falta. O prazer que podia propiciar era mínimo, fácil de achar, de imaginar.
A mulher passou a língua no seu peito, detendo-se no mamilo. Sentindo o ingurgitamento no baixo-ventre, afastou-a e levantou-se, postando-se em pé ao lado da cama. A mulher ajoelhou-se à sua frente, dúctil, funcional.
Ele agarrou-a pelo pescoço e jogou-a de costas ao chão, acrescentando à força das mãos o peso de seu corpo. A mulher abriu a boca, tentando respirar, emitiu um grunhido roufenho, os olhos arregalados fixados no rosto dele, os braços levantados, os dedos trémulos, procurando um apoio que a salvasse de afundar e sucumbir na escuridão que rapidamente a engolfava.
Tudo durou poucos segundos.
Dentro da bainha de couro estava o objecto brilhante, que ele segurou, colocando-se en garde, os músculos do corpo tensos – uma recreação que se permitiu, naquele momento de euforia e volúpia. Mas logo mudou a empunhadura do instrumento e sentou-se ao lado da mulher no chão. Cuidadosamente traçou no rosto dela a letra P, que no alfabeto dos antigos semitas significa “boca”.
Apanhou suas roupas sobre uma cadeira e vestiu-se alerta, expedito, apesar de sua mente não ter parado de imaginar e lembrar. Quando terminou inspeccionou o quarto e o banheiro. Verificou pelo visor da porta que o corredor estava vazio. Ao sair limpou com um lenço o botão da campainha fazendo-a soar, a única falha, todavia irrelevante, em seu cauteloso procedimento.
Não haveria impressões digitais, testemunhas, quaisquer indícios que o identificassem. Apenas sua caligrafia.
Não tomei conhecimento dos factos de maneira ordenada. Os Cadernos de anotações de Lima Prado chegaram-me às mãos muito antes das minhas conversas com Míriam, que me ajudaram a entender as relações de Zakkai, o Nariz de Ferro, com Camilo Fuentes. Para reconstituir o que se passou no apartamento de Roberto Mitry, além de minhas deduções e induções, baseei-me nas informações de Monteiro (o nome verdadeiro não era esse), o vendedor de armamento bélico."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Pré-publicações - 52

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Clara Pinto Correia, Complementos Indirectos - Um Guia Prático para uma Escrita Feliz em Português, Quasi, Famalicão, 2007 (Setembro).
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Pré-Publicação (da "Introdução"):
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"(...) O português é uma língua maravilhosa. Tem uma riqueza de vocabulário deslumbrante, uma flexibilidade magnífica na articulação das ideias, uma lógica de utilização que raramente deixa margem a dúvidas, e uma beleza de entoação que atravessa sem vacilações todo o espectro linguístico que vai da oralidade analfabeta à erudição académica. Soa bem tanto nas canções como nos discursos, e é atraente para quem o ouve sem saber de que linguajar se trata. Por tudo isto, quem sabe expressar-se bem em português já percorreu meio caminho para ter o mundo na mão.
No entanto, uma grande parte dos portugueses parece desdenhar a sua língua de forma quase acintosa, e o senso comum não se cansa de insistir que esta tendência está a aumentar entre nós. Na Universidade, reparamos, certamente, que os nossos alunos, acabados de chegar do secundário, já com doze anos de aprendizagem de português em cima, escrevem muito mal e se expressam com dificuldade. Poderemos culpar
o Ministério da Educação por este fenómeno? Estaremos perante a consequência perversa de todos os passos desviantes que se foram dando até se chegar ao labirinto exasperante do TLEBS? Não temos a certeza absoluta, mas eu lembro-me de ir à escola e considerar absolutamente excitante aprender os segredos do bom português. Sei também que esta descoberta nunca está completa se não aproveitarmos aquelas idades em que ainda temos muito tempo livre para lermos avidamente tudo o que nos passa ao alcance das mãos – em casa, nas bibliotecas, nas feiras, nas estantes dos amigos, onde quer que a oportunidade de aumentar a nossa base de dados se proporcione. Talvez seja verdade que o ensino e o mundo actuais incentivam pouco os jovens a ler. Essa teria que ser a primeira linha da catástrofe a inverter-se. E, logo a seguir, seria preciso devolver ao estudo do português o carácter de descoberta emocionante que ele tinha quando eu ia à escola.
Seja como for, vivemos confrontados com a realidade de que o domínio do português de grande parte dos portugueses é no mínimo sofrível, e sabemos que essa limitação afecta todas as possibilidades de carreira e felicidade no trabalho de cada pessoa que padece dela. Uma apresentação oral mal feita, um memorando mal escrito, e lá se vai a vaga tão cobiçada para aquele emprego que parecia feito por medida para o candidato chumbado. O estrago, aliás, faz-se sentir antes mesmo da entrada no mercado de trabalho: um exame cheio de erros ortográficos, com verbos mal conjugados e uso estropiado de pronomes, tem incontornavelmente uma nota inferior a outro exame idêntico com o mesmo número de respostas erradas mas de redacção clara e compreensível. A média com que se sai do curso pode estar intimamente afectada pela falta de controlo sobre a língua portuguesa que o estudante manifesta (...)"
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Cerveja e literatura - 18

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E... depois há escritores de que se gosta muito. Mesmo muito. Patrícia Melo faz parte dessa minha escassa galeria. Encontrar cerveja na sua obra não é tarefa do alvor cinematográfico. De facto, o agraciado líquido, não sendo abundante, cruza-se razoavelmente com situações e personagens como se cruzará, no mercado de Belém, a “carne, o perfume, a geladeira, tralha para umbanda, artesanato, peixe roupa, panela, fruta, comida, peça para fogão, planta para arranjar marido”, tudo. Mas antes de qualquer chegada a Belém, a cerveja – aliás uma cerveja bastante acompanhada – acabará por intrometer-se na procura da verdade:
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“Quase não conversamos durante a viagem até Belém. Rôni não estava bem, transpirava muito, chegou a vomitar num saco de plástico.
Não me perguntou nada sobre a morte do meu irmão, e eu fiquei aliviado de não ter que contar que tudo saiu diferente dos meus planos. Minha ideia, enquanto eu ia para a casa de Adailson, debaixo do sol, com a barriga entupida de tucunaré e cerveja e a cabeça zonza de maconha, era inventar uma mentira e me picar.
Achei que ia resolver tudo na conversa. Enrolar.”
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(Patrícia Melo, Mundo Perdido, Campo das Letras, Porto, 2006/2007, p. 155)