terça-feira, 11 de setembro de 2007

Cerveja e literatura - 7

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“Adoro os assados temperados com queijo; mas comer mais de uma libra de carne, à noite, não é, sobretudo, prudente. Todavia, até ao número dois não pode haver objecção material, e, na realidade, entre dois e três não há senão a diferença de uma unidade. Aventurei-me talvez até quatro; a minha mulher diz que foram cinco, mas evidentemente foi confusão de duas coisas bem distintas. O número abstracto cinco, estou disposto a admiti-lo; quanto ao concreto, só referindo-se às garrafas de Brown Stout, sem cujo adubo os assados com queijo são difíceis de digerir.”
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(Edgar Allan Poe, Pequena Discussão com uma Múmia em O Rei Peste e outros contos, tradução: L.V.Nicolau; Editora Hugin, Lisboa, 2001, p.45)

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

A velha "Aliança"

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Já existia, há alguns séculos, uma famosa aliança entre Portugal e a Inglaterra. Cresci a ouvir falar desse pacto de sangue sem nunca ter reparado nos seus reais efeitos. Foi preciso chegar ao século XXI, já o Allgarve é uma peça de teatro de arrabalde, para entender a profundidade da coisa. Afinal, é na aliança entre o furor tablóide inglês, por terra, mar e ar, e a expressão indígena e genuína do nosso povo que essa força imensa se está agora a revelar. Não é por acaso que a CNN abriu ontem noticiários a discutir a palavra "arguido" e as razões quase metafísicas que terão levado dois "arguidos" a escaparem do Reino conquistado pelo nosso Afonso III para os conhecidos bosques de Notthingam. Cumplicidades apenas explicáveis por uma aliança, no mínimo, peculiar.

Cerveja e literatura - 6

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Descrever a genealogia dos Ramires sem cerveja? Manifestamente impossível:
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“O Paço acastelado de Santa Ireneia, com as fundas carcovas, a torre albarrã, a alcáçova, a masmorra, o farol e o balsão; o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de cabelos e barbas ancestrais, derramados sobre a loriga de malha; os servos mouriscos, de surrões de couro, cavando os regueiros da horta; os oblatos resmungando à lareira as Vidas dos Santos: os pajens jogando no campo do tavolado – tudo ressurgia com verídico realce, no poemeto do tio Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances; o truão açoitado, o festim e os uchões que arrombavam as cubas de cerveja, a jornada de Violante Ramires para o Mosteiro do Lorvão... ”
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(Eça de Queiros, A Ilustre Casa de Ramires, Editora Ulisseia, Lisboa, 1995, p.42)

sábado, 8 de setembro de 2007

Uma história encantada

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Uma amiga minha entra na Biblioteca de Oeiras. É fim de verão. Tempo para leituras ao modo dos teares por completar. E diz-me ela, alertando-me para uma "história curiosa": "Tenho passado o dia a ler e a escrever com calma. E como te disse as minhas leituras têm sido as tuas páginas". Até aqui tudo bem, Vanessa, e só espero que não te caia em cima um meteorito ou uma dessas setas envenenadas que são próprias dos deuses mais desastrados. A minha amiga resistiu e lá conseguiu continuar a ler-me (há vários romances meus por lá: é assim a generosidade do serviço público). A certa altura, está a Vanessa à luta com o meu Máscaras de Amesterdão, e eis que a grande surpresa invade a via láctea. Diz ela: "imagine-se que eu estava apenas a abrir as páginas ao acaso para saborear frases soltas. Não era para perceber o sentido, queria apenas sentir o som. Por vezes, faço isso com poesia e também o tento fazer lendo outro tipo de literatura" (...) "E ao abrir, comecei pela página de face, quase vazia, com inscrições de datas e pontuações da biblioteca com referências. Então os olhos caíram sobre a tinta azul que dizia: "Para o Eduardo Prado Coelho com um abraço do... assinatura ilegível".
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Nessa altura, a Vanessa precisou de confirmar a assinatura com a do seu próprio exemplar de E Deus Pegou-me pela Cintura para ter todas as certezas acerca do móbil do crime. Salvo seja. Mas era mesmo verdade, verdadinha: "Eu tinha nas mãos um livro que autografaste ao Eduardo Prado Coelho em 22/10/02. Em cima da secretária repousava um outro que me tinhas autografado em 06/03/2007. Após o pasmo inicial, calculei que aquele momento fosse muito bonito e representativo da forma mágica como as vidas se cruzam no ocaso do acaso. E as datas, que já foram dias específicos, com acontecimentos concretos, com pessoas dentro de pessoas, de repente foram mais do que números" (...) " Fiquei imaginando o hiato entre os dois tempos com a mesma assinatura, a quantidade de vida, de histórias, de pessoas, de paisagens sonoras, que cabiam ali dentro" (...) "e era verdadeiramente impressionante".
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"É assim", minha amiga - que me autorizaste a tornar pública esta ópera silenciosa: do outro lado das empatias, dos reconhecimentos e dos panegíricos sinceros, ou não, os vulcões também se abatem. Há muitos anos, já tinha comprado romances meus por vinte escudos no Terreiro do Paço. O que eu não sabia é que um romance com dedicatória e tudo pudesse, em menos de cinco anos, ser extraviado para os corredores de uma biblioteca pública. Achei este enredo delicioso, confesso. É terno e dispõe os acasos diante de nós como se fossem um self-service sem fim. Às vezes, a literatura não muda mesmo as nossas vidas. Não é?

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Cerveja e literatura - 5

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Foi neste escritório que o vi pela última vez. Com aquela prancheta inundada de traços, riscos e manchas onde escrevia. Lembro-me da sua voz e do humor que se desprendia do edifício aparentemente austero. E parece que o imagino no final da década em que nasci, a de cinquenta, a medir forças com a sua intensa e duradoura estadia de Évora. No final do mais emblemático dos seus romances, Aparição, com o enredo já praticamente resolvido (à excepção da morte de Sofia), a Feira de S. João merece um testemunho descritivo derradeiro e solar. O reitor do liceu é então focado, no centro da sua última ceia, ou cena, ao modo de uma despedida e simultânea evocação:
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"Eis-te aí, bom reitor, com amigos que eu não sei, a uma mesa da esplanada, cheia de canecas vazias de cerveja, como um pólipo de ventosas... Saúdas-me risonho, o lábio grosso, a face injectada de boa disposição. O verão era a tua hora de grandes libações, lembro-me de no "café" te ver com frequência bebendo uma tarde inteira, enchendo a mesa de vidros que mandavas retirar para não publicares a tua sede."
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(Vergílio Ferreira, Aparição, Portugália Editora, Lisboa, 1960, p.260)

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Não me mudaram a vida - 3

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Escreve Abel Barros Baptista, num estimulante texto hoje publicado no blogue de Carla Quevedo: "(...) só podemos dizer que mudaram a nossa vida os livros que nós próprios escrevemos, e só podemos dizer que não mudaram a nossa vida os livros que não escrevemos". Não iria tão longe, pois há muitos livros que escrevi no último quarto de século que em nada mudaram a minha vida: nela desaguaram, confundiram-se nela e depois aluíram no anonimato e nos sortilégios inexplicáveis do esquecimento. Hoje pertencerão a outro céu, a outras montanhas e a um outro rio. Por outro lado, os livros que ainda não escrevi - e estou neste Setembro a braços com dois projectos de livro a vir - mudam-me amiúde o curso real da vida, na medida em que pressionam limites, evitam horizontes definidos e alteram percursos que seriam (intimamente) óbvios. Estou a respirar, neste momento, dia a dia, o encanto de tal vertigem.
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Já agora, lembro-me do impacto que teve em mim o Grande Sertão: Veredas (que li, de ponta a ponta, apenas em 1983). O livro continua aqui, neste escritório, mesmo em frente, na estante principal. Sei que jamais o poderia ter incluído na minha lista, mas, por outro lado, devo confessar que acabou por diluir-se na minha memória activa. Aquela permanente metáfora da "travessia" acabou por criar outros precursores que, de longe, a foram iluminando e legitimando. E é por isso que o Grande Sertão:Veredas deixou, para mim, de ser matriz: por trás, envolvendo esse pasmo mais imediato, foram aparecendo e sobretudo reaparecendo textos de deriva, redenção e expiação que o superaram: textos sibilinos medievais (que o mundo académico me obrigou a ler durante anos), releituras do Quijote ou de Diderot e, nos últimos anos, toda a recolocação em evidência de uma literatura baseada em media res.

Volta ao Mundo - 2

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Uma volta ao mundo. Vamos dar uma volta ao mundo! E que simples se pode tornar. Uma mochila, com a leveza de um ano dentro, e uma enorme vontade de proximidade. Afinal a descoberta fica apenas a um passo.
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Queremos contar histórias. Aliás, será a nossa única responsabilidade: fotografar e escrever histórias do mundo. No Laos, no Tibete, na Patagónia, na Ilha da Páscoa... que histórias terão as pessoas para contar? Serão essas as crónicas que enviaremos para o Miniscente! Semanalmente, um pouco mais, dependendo das pulsações do planeta, mas sempre com a novidade nas mãos.
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No nosso blogue, historiasdomundo, podem ser também seguidos o projecto e o itinerário. Uma incerteza que acompanhará a liberdade dos dias.
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A partida será já amanhã, para Havana! E ao dizer isto fica tanto por dizer. Fica tudo para contar...
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Clara Faria Piçarra e Miguel Sacramento.

Cerveja e literatura - 4

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Mais uma espera tensa. Enquando Claude tenta desesperadamente (e em vão) contactar Joe Donovan, vai escutando a rádio e é então que a imagem da cerveja parece cair do céu. Patricia Highsmith cobre de negro os horizontes rápidos dos seus contos e tudo neles parece, de facto, bater certo até ao precioso nível da fermentação:
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"Ventos frios do Canadá estão a caminho e, quando chegarem, esta massa de calor que tem estado a pairar sobre Nova Iorque durante os últimos seis dias..., rapazes! Será então que suponho que a maioria dce vocês exclamará: "Que alívio!" E suponho que irão logo ao frigorífico buscar uma garrafa da melhor cerveja-glu-glu-glu... americana..."
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(Não se Pode Confiar em Ninguém em O Álibi Perfeito, Biblioteca Visão, Lisboa, 2000, p.39)

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Não sou de prémios, mas

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acho que o Jansenista merece o prémio das melhores crónicas de Agosto. Sem dúvida nenhuma. Parabéns.
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E acho que a Carla merece o prémio da melhor epístola de Agosto. Assino por baixo. Entusiasmadamente.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Intrigas da casa

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Escrevi uma peça de teatro no passado mês de Junho.Toda a gente que a lê diz que é, no mínimo, delirante. É de tal modo alimentada a metamorfoses, dizem, que acaba por parodiar a própria natureza dramática onde quereria respirar. Acham, por exemplo, que colocar em cena o "Senhor B" e a "Memória do senhor B" é assim tão complicado? Se continuam a fazer-me mais críticas dessas, ainda aqui a publico para desgraça minha. A pobre peça chama-se A Rosa de Junho e deverá estar para o drama como as fitas do Ed Wood estiveram - e estão - para o cinema.