terça-feira, 4 de setembro de 2007

Não me mudaram a vida - 2

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Em jeito de repto lançado por bloggers e amigos (...) fui ontem levado a imaginar uma lista de dez livros que não me teriam “mudado a vida”. Um desafio complicado, já se vê. Comecei por referir que “às vezes, há livros maus que podem mudar a vida. O que nem sempre acontece com um livro (literariamente) bom”. Seguiu-se, depois, o breve inventário baseado na memória de leituras marcantes, sobretudo ao nível da contingência e do momento (não consigo ser indiferente a nada do que leio!), mas que acabaram por não afectar o curso posterior das minhas decisões e iniciativas.
Por outras palavras: a lista incorporou obras que me prenderam enquanto as li, mas que depois se esfumaram ou diluíram nos enigmas do alheamento e do esquecimento. O que significa que acabaram por não entrar na cristaleira dos meus cânones individuais (nessa categoria cabem todos os livros que, para o bem ou para o mal, ainda hoje me continuam a bater à porta mundana do ser e do fazer).
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(versão integral na crónica do Expresso Online da próxima Quinta-feira)
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P.S. - Carla: pode ter-se gostado muito de um livro e depois ele pouco ou nada ter contribuído para o que fazemos e somos. A questão não é fácil, eu sei. Até porque o dizer (e o ler), de um lado, e o acontecer (e o vivido), do outro lado, são coisas que andam de mãos dadas, embora - dizem os senhores dos Turns - sejam ambos autónomos no modo como se atacam um ao outro. De qualquer modo, como exercício a coisa tem graça e não permite, julgo eu, conjecturar amor ou desamor face à literatura (ou ao salto em altura). O exercício inverso, que, no meu caso, tento levar a cabo na crónica da próxima quinta-feira, não deixa de ser interessante para melhor compreender este. Por fim, parece-me que a tentação de responder a esta pergunta é óbvia: ela permite desmontar corpos estranhos que pareciam ser órgãos naturais da (nossa) máquina. Daí a sensação de separação, de frieza e até de "insensibilidade". Senti, também, esse efeito ao pensar na minha própria lista.

Volta ao Mundo - 1

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Dentro de dias, o Miniscente vai iniciar uma volta ao mundo que durará um ano. O contrato já estava assinado desde Junho, mas só agora começa a ser divulgado. Infelizmente, a saga não vai (ainda) ser protagonizada pelo escriba deste blogue. A autoria da longa e aventurosa jornada pertence a um casal que se apresentará aqui mesmo dentro de poucos dias. O destino já está mais ou menos traçado (embora com correcções a integrar): Cuba, Pantagónia, Terra do Fogo, Sul do Chile, Ilha da Páscoa e outras ilhas do Pacífico, Nova Zelândia, Austrália, China, Nepal (seguir-se-á sudeste asiático ou Índia), Áfríca oriental, Norte de África e, de novo, Portugal. As crónicas que regularmente serão recebidas e publicadas no Miniscente basear-se-ão em histórias e relatos suscitados pelos locais e não apenas na óptica descritiva. Sobre os nobres viajantes, diga-se que, entre outros atributos, ele é um fotógrafo e ela - para além de neta do grande cantor Luís Piçarra - é uma amante (e óptima praticante) da escrita. O Miniscente, por vezes, tem privilégios destes!

Cerveja e literatura - 3

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Não gosto especialmente de Feliciano de Castilho. Mas esta passagem sempre ilustra a perspicácia terapêutica da fermentação:
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"- Onde está aqui o mel e a agua-ardente?....
- Se não tem receitas mais promptas para os seos doentes!....
- Bem sei que não ha agua-ardente nem mel, mas se tivessemos uma dorna de cerveja!....
Conta Olearius, que um urso na Livonia....
- Para o diabo você e mais o seu Oleado!
- Uma última indicação e desço da tribuna para deixar livre a palavra aos meos illustres adversarios. Tem ahi alguem uma luva que possa dispensar?"
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(Mil e Um Mysterios, Romance dos Romances, Obras de António Feliciano de Castilho, Tomo III, Capítulo XX, O Monstro, p. 170, Typografia Lusitana, Lisboa, 1845)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Não me mudaram a vida - 1

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Às vezes, há livros maus que podem mudar a vida. O que nem sempre acontece com um livro (literariamente) bom. Dito isto, eis-me a responder ao repartido repto:
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I. Svevo, A Consciênia de Zeno
A. Camus,
A Queda
A. Huxley,
Também o Cisne Morre
A. Gide,
Sinfonia Pastoral
J. Kerouac, Pela Estrada Fora
P. Sollers,
Femmes / Mulheres
Y. Appery,
Diabolus in Musica
T. Mann,
Montanha Mágica
C. Bobin,
L´inespérée / A Inesperada
P. Süskind, O Perfume

Cerveja e literatura - 2

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Dubliners é um conjunto de histórias publicado no ano em que se iniciou a Primeira Grande Guerra Mundial. Na obra de Joyce, em Dois Conquistadores (sexta história do livro), surge o relato de uma espera (de Lenehan por Corley) que é preenchida por uma refeição meio improvisada: "A rapariga trouxe um prato de ervilhas secas, temperadas com vinagre e pimenta, um garfo e a ginger beer. Comeu àvidamente e achou aquilo tão bom que anotou mentalmente o nome do estabelecimento ("Bar-Refeições Ligeiras" - "Ginger Beer and Ginger Ale")."
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(Gente de Dublin, Livros do Brasil, s/d, Lisboa, pp. 72/73, tradução: Virgínia Motta)

domingo, 2 de setembro de 2007

Superioridades

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A frase é lapidar: "ninguém nesse país tem mais autoridade moral, ética e política que o nosso partido". Provavelmente, a herança mais forte de Lula tem que ver com a "superioridade moral dos comunistas", revelada em Outubro de 1917, e agora comemorada com capa, estopa e espada no Seixal.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Cerveja e literatura - 1

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No início do segundo capítulo de Ter Ou Não Ter (1937) de Ernest Hemingway, o protagonista, em jeito de incontinência confessional, revela-nos: "Comi sopa de feijão encarnado e carne guisada com batatas por quinze cêntimos. Uma garrafa de cerveja Hatney levou a conta aos vinte e cinco". O livro (que contém uma cena de pesca incrível) seria, em 1944, adaptado ao cinema por Howard Hawks. E eu pergunto-te, Francisco: conheces esta cerveja? E, já agora, que achas deste projecto de rubrica (para o qual estou mal preparado)?
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Aos leitores solicitam-se sugestões, i.e.: muitas passagens de romance com cerveja!
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(Ter ou Não Ter, Livros do Brasil, s/d, Lisboa, p.32, tradução: Jorge de Sena)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O que parece não é

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A avaliar pela análise que está neste momento a ser desenvolvida no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, parece que Alcochete é mesmo alternativa à Ota. Saliento sobretudo o facto de os media terem hoje reatado o tema. É, de facto, incrível como se passa da discussão em forma de torrente para o mutismo mais radical. As pessoas gostam de ser obedientes. Um bom rebanho faz sempre jeito. Quanto ao aeroporto: há coisas em que S. Tomás tinha e tem ilimitada razão.

Episódios e Meteoros - 46

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"Dado como morto em 1918"
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(ler versão integral no Expresso Online a partir de hoje)
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"(...) No porto de Brest, descontraído e ao sabor do vento, é ele quem acaba por receber no quebra-mar o barco que transporta o contingente português com destino à fatídica região da Flandres. As altas patentes já o davam, a essa hora, como desertor, mas também como actor de possível sumiço. Afinal, compreendidos os factos, tudo se compõe e ele acaba por cumprir, como previsto, no árduo corrupio das transmissões, um serviço vital para aquela longa faixa que vai do sul de Lille, ocupada pelos alemães, a Laventie e à Boulogne marítima. É nesse teatro de guerra que os gases entram subitamente em acção, lesando-o de forma algo irremediável (...)."

Contra os maus augúrios (act.)

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O mito não se dissocia do quotidiano. Pelo contrário: molda-o como se fosse um fogo sereno mas inteiramente seguro de si. Outros vibrarão pela fugacidade. Aqui, pelo contrário, vibra-se pela atemporalidade feita hora. Em cada hora.
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P.S. - E nas renovadas origens, o bom gosto da Luz parece ter aportado em boa hora! Também já me fiz sócio do Marselha (ah, Papin!), do Liverpool (que derrotámos por duas vezes há duas épocas) e do Besiktas que tem vista para o Bósforo. Quanto aos felinos da capital, creio que não vale a pena preocupar-me: a loba de Roma e a brisa de Manchester saberão o que fazer.