sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Cerveja e literatura - 1

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No início do segundo capítulo de Ter Ou Não Ter (1937) de Ernest Hemingway, o protagonista, em jeito de incontinência confessional, revela-nos: "Comi sopa de feijão encarnado e carne guisada com batatas por quinze cêntimos. Uma garrafa de cerveja Hatney levou a conta aos vinte e cinco". O livro (que contém uma cena de pesca incrível) seria, em 1944, adaptado ao cinema por Howard Hawks. E eu pergunto-te, Francisco: conheces esta cerveja? E, já agora, que achas deste projecto de rubrica (para o qual estou mal preparado)?
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Aos leitores solicitam-se sugestões, i.e.: muitas passagens de romance com cerveja!
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(Ter ou Não Ter, Livros do Brasil, s/d, Lisboa, p.32, tradução: Jorge de Sena)

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O que parece não é

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A avaliar pela análise que está neste momento a ser desenvolvida no Laboratório Nacional de Engenharia Civil, parece que Alcochete é mesmo alternativa à Ota. Saliento sobretudo o facto de os media terem hoje reatado o tema. É, de facto, incrível como se passa da discussão em forma de torrente para o mutismo mais radical. As pessoas gostam de ser obedientes. Um bom rebanho faz sempre jeito. Quanto ao aeroporto: há coisas em que S. Tomás tinha e tem ilimitada razão.

Episódios e Meteoros - 46

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"Dado como morto em 1918"
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(ler versão integral no Expresso Online a partir de hoje)
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"(...) No porto de Brest, descontraído e ao sabor do vento, é ele quem acaba por receber no quebra-mar o barco que transporta o contingente português com destino à fatídica região da Flandres. As altas patentes já o davam, a essa hora, como desertor, mas também como actor de possível sumiço. Afinal, compreendidos os factos, tudo se compõe e ele acaba por cumprir, como previsto, no árduo corrupio das transmissões, um serviço vital para aquela longa faixa que vai do sul de Lille, ocupada pelos alemães, a Laventie e à Boulogne marítima. É nesse teatro de guerra que os gases entram subitamente em acção, lesando-o de forma algo irremediável (...)."

Contra os maus augúrios (act.)

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O mito não se dissocia do quotidiano. Pelo contrário: molda-o como se fosse um fogo sereno mas inteiramente seguro de si. Outros vibrarão pela fugacidade. Aqui, pelo contrário, vibra-se pela atemporalidade feita hora. Em cada hora.
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P.S. - E nas renovadas origens, o bom gosto da Luz parece ter aportado em boa hora! Também já me fiz sócio do Marselha (ah, Papin!), do Liverpool (que derrotámos por duas vezes há duas épocas) e do Besiktas que tem vista para o Bósforo. Quanto aos felinos da capital, creio que não vale a pena preocupar-me: a loba de Roma e a brisa de Manchester saberão o que fazer.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Pré-publicações - 48

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Joëlle Ghazarian, Cântico do Crime, Quasi, Famalicão, 2007.
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Pré-publicação:
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de O Nadador Nu
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"Depois foi um grande silêncio, porque em toda a palavra está o silêncio dessa palavra e cada silêncio fulgura no centro da ameaça da sua palavra – como um buraco dentro de um buraco, no ouro dentro do ouro.
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Como transmitir-lhes força, pôr as mãos no idioma, forçar as tripas, como assobiar nos seus sacos quentes, transmitir o segredo? Como apagar a linguagem transe de conteúdo insaciável e infinito de que o nosso corpo é o lugar circunscrito, mundo escrito dolorosamente (mas num fogo suave) nas faixas de seda saídas do âmago das bestas plenas? Ou será preciso que a mão se suavize para que a frase seja fina como a seda que de súbito se rasgasse pela força de um nome derradeiro?
Nesta confusão, o brilho da linha verbal, poderosamente atada a um universo marmóreo, cosendo os órgãos da frase de carne, é um meio subtil de transferir a violência da vida para uma unidade mental de significações. Sim, para encontrar o ouro é preciso perdidamente e ordenadamente virar as palavras em todos os sentidos, para dar à luz a sua matéria orgânica vital. Por esta inspiração da língua e dos órgãos confundidos em todo um corpo tenso, apto aos segredos e às delicadas subtilezas da terra, o enigma materno talvez então lhes seja transmitido.
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– É tão leve o esperma antes de se tornar espesso, murmura Macha quase involuntariamente. Tira de mim, escultor, a tua palavra encharcada de baba que deveria ser um canto encantatório, uma ventania do corpo. Deixa de obturar as aberturas da nossa carne. Ele afasta-se para a parede que contemplava a sua brancura ao fundo.
Ela espreguiça-se, por fim, devagar. Desde há horas, centrada na cama, os seus gestos tinham-se esquecido:
– Estou deitada e os lençóis flúem e refluem nesta ressaca sob o ar arqueado. Os lençóis reluzem como se eu tivesse tomado veneno.
Ele contempla-a a mexer nas palavras dos seus membros, a organizá-las no espaço deste espaço, a estabelecer-lhes movimentos de rotação e translação umas com as outras, criando-se nele de novo uma tensão que evita a fuga completa da vida interior, tensão que Macha sente."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Presciência

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Estou a ler um romance cuja efígie matricial, por assim dizer, imaginei há uns anos. Na Primavera de 2002, mais propriamente. Ou seja: o que eu imaginei era diferente, claro, mas a traça, a história, alguns propósitos e até cambiantes, para além do tratamento de informação (do mundo árabe, por exemplo) não andariam muito longe. Trata-se de O Terrorista de John Updike (2007). Não chego aos calcanhares do senhor, como é evidente. Mas a sensação de estar a ler uma espécie de Déja Vu deixa-me, no mínimo, estupefacto. Já muitas vezes tive a sensação do Ovo de Colombo, ou seja, de desejar ilimitadamente ter escrito romances que vou lendo, mas confesso-me imaculado e virgem nesta nova sensação de niilismo que tem como base uma estanha presciência imaginativa.

Águas

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Há muitas vezes um certo paralelismo entre surpresa e felicidade. Um momento de felicidade é sempre, de alguma maneira, um efeito de surpresa. A inversa não é tão verdadeira, embora a consciência de um hiato feliz traga quase sempre a surpresa por perto. Águas do mesmo lago.

Coisas da bola

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Como bom amante de futebol nunca vejo um FCP-Sporting. O importante é que empatem e que se dêem particularmente mal um com o outro. Mas, depois de ter lido os jornais, já percebi que o resultado foi fruto de cena. As habituais cenas das Antas.

domingo, 26 de agosto de 2007

O rio

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Tive diversíssimos encontros, episódios e solilóquios com, ou por causa do Eduardo Prado Coelho. Ficarão guardados. Não me apetece agora referir nenhum deles. Apenas uma lembrança menor e numerológica: fez ontem precisamente três anos que cumpri os meus cinquenta de idade. E nesse dia, por coincidência, quase à hora da festa que dei na minha casa de Évora, o Eduardo apareceu a deambular cruzando-se com a minha surpresa e queixando-se sobretudo do calor e de tudo o que "remetesse para o excesso". Desde esse momento até ao último dia da sua vida decorreram três anos certos e impiedosos. E por que se põe a gente (sempre) a dar coerência a coisas sem qualquer importância (como diria Kermode)? Talvez para reservar o que apenas pertence à nossa reserva mais íntima. Já seria, essa, uma boa razão. Sobretudo quando a inevitabilidade do panegírico invade todos - ou quase todos - os textos que hoje fazem transbordar o desmedido rio dos media.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Truman Capote

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Acabo de ler um romance caracterizado como "precoce" que, de facto, viria a ser escrito e rescrito pelo seu autor durante anos e anos, mas jamais publicado. Esse primeiríssimo texto romanesco de Truman Capote, iniciado em 1943, foi descoberto (no passeio!) pelo porteiro do prédio de Brooklyn que o escritor abandonaria mais de duas décadas depois. Travessia de Verão é o nome deste romance póstumo de Capote que a Dom Quixote fez aparecer entre nós na Primavera passada. Não tendo podido fazer a pré-publicação, devo, no entanto, referir que o material tem imenso vigor, alimentando-se, numa história simples mas particularmente eficaz, do impacto do imponderável. Sem recortes judicativos, uma menina da alta novaiorquina e um vigilante de um parque de estacionamento desafiam a fixidez do mundo e antecipam, no desenlace, a alquimia do "muro" criada por Paul Auster em A Música do Acaso através da figuração da Ponte Queensboro. A ler. E a reler.