terça-feira, 28 de agosto de 2007

Pré-publicações - 48

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Joëlle Ghazarian, Cântico do Crime, Quasi, Famalicão, 2007.
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Pré-publicação:
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de O Nadador Nu
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"Depois foi um grande silêncio, porque em toda a palavra está o silêncio dessa palavra e cada silêncio fulgura no centro da ameaça da sua palavra – como um buraco dentro de um buraco, no ouro dentro do ouro.
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Como transmitir-lhes força, pôr as mãos no idioma, forçar as tripas, como assobiar nos seus sacos quentes, transmitir o segredo? Como apagar a linguagem transe de conteúdo insaciável e infinito de que o nosso corpo é o lugar circunscrito, mundo escrito dolorosamente (mas num fogo suave) nas faixas de seda saídas do âmago das bestas plenas? Ou será preciso que a mão se suavize para que a frase seja fina como a seda que de súbito se rasgasse pela força de um nome derradeiro?
Nesta confusão, o brilho da linha verbal, poderosamente atada a um universo marmóreo, cosendo os órgãos da frase de carne, é um meio subtil de transferir a violência da vida para uma unidade mental de significações. Sim, para encontrar o ouro é preciso perdidamente e ordenadamente virar as palavras em todos os sentidos, para dar à luz a sua matéria orgânica vital. Por esta inspiração da língua e dos órgãos confundidos em todo um corpo tenso, apto aos segredos e às delicadas subtilezas da terra, o enigma materno talvez então lhes seja transmitido.
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– É tão leve o esperma antes de se tornar espesso, murmura Macha quase involuntariamente. Tira de mim, escultor, a tua palavra encharcada de baba que deveria ser um canto encantatório, uma ventania do corpo. Deixa de obturar as aberturas da nossa carne. Ele afasta-se para a parede que contemplava a sua brancura ao fundo.
Ela espreguiça-se, por fim, devagar. Desde há horas, centrada na cama, os seus gestos tinham-se esquecido:
– Estou deitada e os lençóis flúem e refluem nesta ressaca sob o ar arqueado. Os lençóis reluzem como se eu tivesse tomado veneno.
Ele contempla-a a mexer nas palavras dos seus membros, a organizá-las no espaço deste espaço, a estabelecer-lhes movimentos de rotação e translação umas com as outras, criando-se nele de novo uma tensão que evita a fuga completa da vida interior, tensão que Macha sente."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Presciência

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Estou a ler um romance cuja efígie matricial, por assim dizer, imaginei há uns anos. Na Primavera de 2002, mais propriamente. Ou seja: o que eu imaginei era diferente, claro, mas a traça, a história, alguns propósitos e até cambiantes, para além do tratamento de informação (do mundo árabe, por exemplo) não andariam muito longe. Trata-se de O Terrorista de John Updike (2007). Não chego aos calcanhares do senhor, como é evidente. Mas a sensação de estar a ler uma espécie de Déja Vu deixa-me, no mínimo, estupefacto. Já muitas vezes tive a sensação do Ovo de Colombo, ou seja, de desejar ilimitadamente ter escrito romances que vou lendo, mas confesso-me imaculado e virgem nesta nova sensação de niilismo que tem como base uma estanha presciência imaginativa.

Águas

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Há muitas vezes um certo paralelismo entre surpresa e felicidade. Um momento de felicidade é sempre, de alguma maneira, um efeito de surpresa. A inversa não é tão verdadeira, embora a consciência de um hiato feliz traga quase sempre a surpresa por perto. Águas do mesmo lago.

Coisas da bola

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Como bom amante de futebol nunca vejo um FCP-Sporting. O importante é que empatem e que se dêem particularmente mal um com o outro. Mas, depois de ter lido os jornais, já percebi que o resultado foi fruto de cena. As habituais cenas das Antas.

domingo, 26 de agosto de 2007

O rio

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Tive diversíssimos encontros, episódios e solilóquios com, ou por causa do Eduardo Prado Coelho. Ficarão guardados. Não me apetece agora referir nenhum deles. Apenas uma lembrança menor e numerológica: fez ontem precisamente três anos que cumpri os meus cinquenta de idade. E nesse dia, por coincidência, quase à hora da festa que dei na minha casa de Évora, o Eduardo apareceu a deambular cruzando-se com a minha surpresa e queixando-se sobretudo do calor e de tudo o que "remetesse para o excesso". Desde esse momento até ao último dia da sua vida decorreram três anos certos e impiedosos. E por que se põe a gente (sempre) a dar coerência a coisas sem qualquer importância (como diria Kermode)? Talvez para reservar o que apenas pertence à nossa reserva mais íntima. Já seria, essa, uma boa razão. Sobretudo quando a inevitabilidade do panegírico invade todos - ou quase todos - os textos que hoje fazem transbordar o desmedido rio dos media.

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Truman Capote

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Acabo de ler um romance caracterizado como "precoce" que, de facto, viria a ser escrito e rescrito pelo seu autor durante anos e anos, mas jamais publicado. Esse primeiríssimo texto romanesco de Truman Capote, iniciado em 1943, foi descoberto (no passeio!) pelo porteiro do prédio de Brooklyn que o escritor abandonaria mais de duas décadas depois. Travessia de Verão é o nome deste romance póstumo de Capote que a Dom Quixote fez aparecer entre nós na Primavera passada. Não tendo podido fazer a pré-publicação, devo, no entanto, referir que o material tem imenso vigor, alimentando-se, numa história simples mas particularmente eficaz, do impacto do imponderável. Sem recortes judicativos, uma menina da alta novaiorquina e um vigilante de um parque de estacionamento desafiam a fixidez do mundo e antecipam, no desenlace, a alquimia do "muro" criada por Paul Auster em A Música do Acaso através da figuração da Ponte Queensboro. A ler. E a reler.

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Episódios e Meteoros - 45

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(crónica publicada desde hoje no Expresso Online)
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O Terreiro dos segredos
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As arcadas, a abertura do espaço, o arco da Regeneração e as colunas voltadas para o rio definem o equilíbrio e a geometria mais modelares que conheço numa Praça. Se há forma e corpo para uma ideia de Iluminismo, misturado ainda por cima com a perdição de uma beleza em suspenso, é aqui que a encontramos. Neste locus da ordem e da delicadeza de contornos que é a Praça do Comércio existe uma memória do antigo Terreiro que era avermelhado, cheio de varandas contíguas e desalinhadas, permeável apenas às marés, ao grande torreão do Paço e ao ímpeto mercantil da lendária Rua Nova.
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Depois precipitou-se a tragédia e, à ondulação irregular da Ribeira das Naus, sucedeu a nitidez, a definição e o rigor das formas. Ao centro da actual Praça, D. José I aspira à idealidade de um centro e, para sugerir essa demanda meio imaginária, o cavalo de bronze levanta, com imprevista leveza, uma das suas patas. Na Praça, entre a visível nuvem do comedimento, há muito mais sortilégios do que se possa supor. Desde os acenos em matéria de Ode do Café Martinho da Arcada até ao cais do Sul-Sudeste bordejam mistérios, vogas marítimas e maresias mitológicas. Para Cesário, o absurdo desejo de sofrer provém desta beleza por decantar, algo veneziana, cheia de mistérios, sempre a rorronar por baixo da pele de tanta aparente geometria.
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Desde a cadência bachiana dos arcos até à música silenciosa que de noite nos empresta o amarelado das luzes, vagueiam sigilos, silhuetas imersas pela vertigem pessoana, alaridos de paquete ou navio galgando o grande rio das Tágides. A Praça do Comércio é uma imensa história por contar. Ampla como um salão de baile sem fim, só dali se tornam visíveis os anjos de Ulisses, quando abrem as asas em direcção ao mais antigo dos impérios: o das obras imperfeitas. É o metro adiado, são estacas lamacentas, é o dinheiro perdido, são colunas apeadas e é a estação ferroviária deglutida pela voragem. Até quando?
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Sempre nos habituámos a ver os poetas prestar contas. Nem que tais contas fossem malditas, ou tão onerosas quanto o nosso desemprego pessoano: essa quase desistência que convida ao laxismo e à alarve aceitação de todas as pragas. Ao que nunca realmente nos habituámos foi a ter que saber, parcela a parcela, nome a nome, ministro a ministro, qual o destino do numerário. Quais as responsabilidades e quais os montantes. O episódio, relembremo-lo, teve lugar há mais de sete anos. Mais precisamente a 9 de Junho do ano 2000.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

A culpa

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Acabei hoje o breve e último romance de McEwan, Na Praia de Chesil (entre nós, como os anteriores, publicado pela Gradiva). Uma história de amor, uma geração, um percurso em fuga de si mesmo. A certa altura, já perto do final, em jeito de analepse, a mãe (Violet) da protagonista (Florence) interpela o protagonista (Edward), perguntando-lhe se "não seríamos (nós) sempre levados pela história e pelas nossas naturezas dominadas pela culpa, a sonhar com o aniquilamento?". A frase, curiosamente, encerra uma preocupação central de todos os livros de Agustina.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

Livros a vir

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O segundo volume do meu Manual de Escrita Criativa sai já no início do próximo Outono (Publicações Europa-América). Trata-se do guião do "Nível Avançado" dos Laboratórios de Escrita Criativa que tenho regido no Instituto Camões. Igualmente na rentrée, a Magna Editora tomará em mãos a publicação de um ensaio que escrevi sobre a blogosfera: A Expressão na rede - o caso dos blogues. O livro tem como ponto partida a reflexão levada a cabo no Miniscente, em 2006, sob o título "O tom dos blogues".

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

Trancas no portão! (act.)

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Um bando de idiotas invadiu uma propriedade e a coisa está a fazer notícia ao jeito de performance do Festival do Sudoeste. Eu que vou, muito em breve, plantar umas nogueiras transgénicas num terreno que tenho (algures) no Alentejo... tenho que me pôr a pau.
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P.S. - De facto, o Afonso merece que lhe seja sublinhado o "esforço"! (lincar tudo o que se escreveu sobre o assunto é, no mínimo, obra).