sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Vórtice

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Não é por ter acabado de ler o editorial de José Manuel Fernandes, mas garanto que, de cada vez que me lembro do caso Maddie, ocorre-me sempre uma célebre conferência de imprensa dada pela Polícia Judiciária em Portimão. Dava um bom início de romance: um inspector com ar seco de Boliqueime, prostrado em frente de uma secretária estilo escola primária do Estado Novo, literalmente afogado por jornalistas e folhas de papel que, de repente, começaram a aspirar o estrado, o estuque, as notícias, a prosódica e até o móbil do crime. Um vórtice prodigioso. Adorava revê-lo no RTP-Memória.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Episódios e Meteoros - 43

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(crónica publicada desde hoje no Expresso Online)
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O (novo) estilo império
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Há dias em que apetece dissolver o passado, à imagem do que acontece àquelas aspirinas que desaparecem na água em menos de dez segundos. Bem sei que, ao longo dos anos, nos vamos transformando em novas pessoas. É verdade.
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Lembro-me, há quarenta anos, de passar as férias grandes na Praia da Rocha (o meu pai, à noite, estacionava o carro junto à fortaleza com desmedida facilidade). Lembro-me, há trinta anos, de concluir o meu primeiro ano lectivo como professor e de ter tentado, pela primeira e última vez, a bizarra arte do campismo. Lembro-me, há vinte anos, de andar a escrever o meu terceiro romance na Palmstraat sob imensa compulsão estival, lusitana e casamenteira. Lembro-me, há dez anos, de ter passado um Agosto ateniense com tal guião que teria dado um grande romance, se eu tivesse um décimo do génio de Lawrence Durrell.
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Lembro-me, hoje de manhã, de ter colocado na máquina de fazer sumos a Praia da Rocha de 1967, a tenda de campismo comprada em Badajoz em 1977, as folhas escritas na “Brother” em 1987 (do que viria a ser o No Princípio era Veneza) e ainda as varandas noctívagas que, em 1997, acenaram aos deuses gregos de Vouliagmeni. Resultado: uma aspirina dissolvida. Em pó. Dando ao presente – a este momento concreto – o estatuto de império. Como se apenas existisse o dia de hoje. Como se aquilo que mais me apetecesse fosse o que afinal acontece. Agora e aqui. Tão-só isso. Como eu percebo o Duchamp!
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Ainda acerca desta iminência do presente: a doença infantil do comunismo era, há anos, uma brincadeira para sonhadores que não distinguiam a barbárie das miragens. Se não viam a primeira, é porque se ofuscavam com a hipnose da segunda. Ou se acaso a segunda os inebriava é porque a primeira não lhes passava assim tanto ao lado. Enfim, o que sobra de tudo isso, hoje em dia, já não é muita coisa. Felizmente. Mas há uma outra doença infantil que passou a fazer moda, nos últimos anos: a febre da instantaneidade. Estar “On” e existir, estar visível num ecrã e existir, estar na rede e respirar. Tudo isso ou a morte. O que já foi “Vitória ou morte, Venceremos!” é hoje “Aparecer ou morte, Salvemo-nos!”.
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Como eu agora percebo que Duchamp, no nosso tempo, pouco mais seria do que um episódio de feira. E há-os ainda em quantidade (e subsidiados): como franguinhos a assar em directo, ou como aspirinas dissolvidas no copo. Em directo. Diante dos meus e dos vossos olhos. Sem miragens. “É assim”: Um império liofilizado, que sucederá ao reino do queijo fresco, onde apenas aquilo que é de hoje tem direito ao ser. E, sobretudo, se e quando se dá a ver. Com muita audiência. Nem que seja um macaquinho. Ou um puro idiota.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Jogos que já lá vão

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Quando eu era pequeno, abundava nos areais do país um famoso prego. Não, não se tratava de uma iguaria: esse prego tinha mais de vinte centímetros de altura e fora concebido para dar mil reviravoltas no ar até caprichosamente se espetar na areia. O jogo do prego era um jogo familiar e de verão e apelava à habilidade, ao ritmo e à ponderação. A destreza da minha mãe colocava-a como vencedora face a tudo e a todos nos Agostos da Nazaré, da Figueira ou de S. Pedro de Moel. Tal como o pião de extremidade metálica e pontiaguda, este brinquedo para todas as idades desapareceu do mapa. O que antes era um prazer da intimidade e da comunicação familiares (um "dispositivo" na linguagem de Oakeshott) é hoje uma heresia da UE. Mais uma. De facto, do mundo dos objectos ao dos simulacros e do mundo dos prazeres do corpo ao da instantaneidade hipnótica, tudo se passou num ápice. E o sol continua a brilhar para todos nós.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

Bancos e espectáculo

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Teria sentido abrir aqui na blogosfera uma ampla tribuna aos clientes (nós todos) dos bancos que operam em Portugal. Numa altura em que a encenação do outro lado do palco - administadores, accionistas, etc. - torna visível um paradoxal PREC (é esse o aparato mediático que conduz a tomadas de posição imaginárias), os clientes continuam a mendigar nos balcões ao sabor de (nem sempre pequenas) prepotências, intolerâncias e mal-entendidos. A minha própria história - e estou a pagar apenas um único empréstimo - já dava um livro. Quem sabe, um dia, se não dará mesmo.
Em termos mais gerais, a história não se fica pelo respeito às pequenas letras da lei, nem pela sedução diária no espaço público e muito menos pela incontida redenção do consumo. A história é invariavelmente um misto de falsidade e ilusão com (muitas) incompetências e pequenos poderes ao fundo. A história é, no seu desenlace, quase sempre, a de um relato anónimo e solitário que traduz a impotência do cliente.
O mercado deve ser encarado como uma coisa séria e, como tal, deve ser defendido. Parece-me óbvio que o mercado deverá sempre ter como base um equilíbrio de posições, de direitos e deveres repartidos e ainda uma ética recíproca de cumprimentos. Mas há muita gente no sistema bancário com mentalidade corporativa, tacanha e burocrática que não olha a meios para abusar da sua posição negocial. Daí que o cenário real seja bem mais unívoco. Para agravar esta situação de desnivelamento, a justiça é sempre demasiado cara para o cliente.
Para obviar a tais desproporções, creio que um provedor (dos direitos) dos clientes dos bancos não teria grande sentido; seria, ao fim e ao cabo, mais uma formalidade da actual tentação reguladora. Já a exposição pública de posições e o relato de simples histórias poderiam tornar-se mais eficazes (o recente exemplo das denúncias das juntas médicas na educação comprova-o). Fica o desafio. Um desafio que se adequa à natureza da blogosfera. Seja como for, reatarei o tema no início de Setembro. Toca-nos a todos: muito mais do que as imagens da Alfândega do Porto.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Vistas da época

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Vista parcial do belo Rio Guadiana. Bem menos dócil do que os arrabaldes de Roterdão.

domingo, 5 de agosto de 2007

Divertimento

Sei que é brincadeira, mas agradeço ao Porta do Vento o "prémio EXCELÊNCIA BLOGUÍSTICA" atribuído ao Miniscente. É 0 verão, é o verão.

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

De que se escreve o dia

LCA
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Enfim, não é todos os dias que alguém nos oferece um poema sobre a nossa própria casa. Parabéns, pois, ao Manuel Nunes:
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Trinta e dois versos para uma casa
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À Isabel
Ao Luís
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A casa conhece a lenta
respiração das muralhas,
o rumor de todos os dialectos
do antiquíssimo tempo.
Firma-se na sombra
das pedras,
no arrimo
da claridade dos muros,
e deixa-se prender
nos afectuosos garfos
da ameixoeira,
estendidos como braços
na direcção dos livros.
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No pátio que a tarde atravessa
com a sua língua
de calma,
um inominado nume, saído
da penumbra de um templo,
passeia sobre os canteiros
de relva
por entre a previsível alegria
das crianças.
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Enquanto o espírito sublime
de Argos, mítico cão de Ulisses,
carrega sob o nome sagrado
do próprio dono
a sede inclemente
de que se escreve o dia.
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A casa é um lugar
onde se fala
o idioma fértil
dos afectos.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

Episódios e Meteoros - 42

EBS
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Cinematografias de verão
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(crónica publicada desde hoje no Expresso Online)
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Estou sentado numa cadeira de verga no terraço do Grande Hotel da Nazaré. Aponto em frente na direcção do mar. Já não lembro a minha voz. Nem a temperatura desse verão, nem o som que envolvia aquela única construção em altura que simulava ser uma falésia, ou um contraponto à ferradura santa do Sítio de que retenho apenas a redenção fotográfica. Estou nas nuvens e por trás, além dos meus pais e do meu irmão, está uma tia que guiava um taunus com o globo à frente, que administrava uma empresa de moagens e que escrevia poemas no Século Ilustrado sob pseudónimo. Talvez por tudo isso – a fotografia sugere-me um episódio do paraíso – se chamasse Tia Mar.
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Corria a década de sessenta, antes ainda do mundial de Inglaterra. Não me lembro das altíssimas taxas de crescimento económico, nem do sabor das pêras que vinham de Alcobaça embrulhadas em perfume. As ondas lá em baixo, no areal, eram altas, certas e envolviam as sete saias das nazarenas que, destemidas, vendiam bolos, rendas e uns barquinhos de madeira pintados de azul e vermelho. Os banheiros – seres mitológicos vestidos de branco – agarravam nos miúdos que escapavam aos toldos e barracas e, de modo espartano, atravessavam-nos nas ondas como se fossem golfinhos de aço. Não se falava em Maios revolucionários e a guerra era tinta de marcianos numa caixa minúscula de O Século.
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Havia poucos turistas, uns tantos franceses com os seus daufines ou com um ou outro simca aronde para evocar a, então para mim desconhecida, nouvelle vague. Mas o meu olhar tinha seguramente a câmara na mão: era solto, selvagem e estava mergulhado numa inocência à Pierre le Fou. Uma inocência que não se via a si própria, porque se resumia a uma espécie de monólogo celeste em que a voz do pensamento e a voz do vivido ainda pactuavam em harmonia como nos tempos mais pródigos do cinematógrafo de Méliès.
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Há um tempo em que tudo bate certo. O verão herda esse percurso antigo, silenciando-o e, ao mesmo tempo, dando-o a beber com sofreguidão. Os extremos do verão terão aqui a sua génese: enquanto os corpos se sentem leves como as folhas de um limoeiro, a memória é invadida pela inexplicável tentação das esfinges que ecoa do passado. A minha Tia Mar continua no terraço, fuma um cigarro comprido e ri com ar de quem oferece champagne a toda a gente. Godard sorri abraçado aos banheiros. As nazarenas pousam a mão nas barbas de Méliès. O dono do daufine cumprimenta os meus pais. Ainda havia França. E o meu irmão olha para a rebentação agitada já a pensar em física quântica.
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Eu, o quase encoberto, continuo sentado na cadeira de verga. No terraço olímpico da Nazaré.

Boas notícias do defeso

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Os quatro anos de Miniscente vão dar origem a três livros em papel. O plano abrange um ensaio sobre a expressão na rede, um outro ensaio (de natureza poética) sobre fotografia e ainda a antologia temática, naturalmente baseada numa selecção de posts do blogue. A trilogia aparecerá nas bancas no próximo Outono e, depois em 2008, na Primavera e outra vez no Outono. Não revelo ainda o nome da editora, mas confesso que as negociações foram rápidas, estimulantes e eficazes, tal como (nem sempre) acontece no futebol. Os três futuros livros já passaram nos exames médicos.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Marcador de vidas (act.)

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Relembro, para começar, este breve excerto do prefácio que Luciana Stegagno Picchio escreveu para a segunda edição do meu romance No Princípio era Veneza (1990): “E é assim que o último desencontro de Antonioni e Maria, ele num quarto de hotel, em Milão, e ela numa cama distante, em Tel Aviv, parece simular a união ideal dos dois, embora agora a bordo de um sonho de olhos abertos, como se estivessem de novo juntos "sem sabê-lo, numa navegação ao sabor de uma miragem comum."
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Mas a paixão por Antonioni ganharia novos vínculos, quando vi e revi o Para Além das Nuvens, em 1996, (filme também dirigido por Wenders), tendo, em finais de Setembro desse mesmo ano, assistido a uma sessão com a presença do realizador em Montemor-o-Novo. Antonioni já não falava em público, mas a mulher fez as honras da casa, respondendo a todas as perguntas com muito entusiasmo, antes da projecção de um filme sobre a rodagem e os bastidores (behind the scenes) do Para Além das Nuvens. As quatro pequenas histórias (passadas em Ferrara, Portofino, Aix en Provence e Paris) de Para Além das Nuvens influenciar-me-iam depois na redacção de um conjunto de novelas que fui escrevendo, enquanto a lenta gestação do meu romance As Saudades do Mundo (1999) se ia fazendo. Essas novelas foram publicadas no DN-A ao longo do verão de 2001. Tudo ecos de Antonioni.
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Um grande autor é, portanto, muito mais do que um sábio e longo currículo; ele é sobretudo um activo marcador de vidas. De muitas vidas. Quase sempre incógnitas.
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P.S. - E o mais fascinante é descobrir o modo como o mesmo marcador de vidas se inscreveu um pouco por todo o lado. O caso de João Paulo Sousa é um desses universos que apenas hoje, naturalmente, é revelado.