terça-feira, 31 de julho de 2007

A falha revelada

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A morte de Bergman não me levará para o encapelado mar do depoimento, esse panegírico emudecido ao sabor de repetidos topoi que se presta a encenar uma emoção (tantas vezes tosca, googlada e feita à pressa a pensar nos "Blogues de Papel" do Público).
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Resta-me, pois, um episódio cómico que me faz rir de tempos a tempos. Acontece que vi em Julho de 1983, na cidade de Leeuwarden, capital da Frísia (norte da Holanda), o filme Fanny and Alexander. Trata-se de uma obra com duração apreciável (mais de três horas, 188 minutos precisamente). Talvez por mestrias de indução narrativa e provavelmente, também, por algum cansaço, a verdade é que saí da sala de cinema ao intervalo... convencidíssimo de que o filme terminara. Uma falha por revelar e que acabou por tornar-se em objecto de paródia por parte de amigos meus ao longo dos anos. Ainda bem que a vida tem coisas destas. Obrigado Bergman!

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A vestal e o sol

Olhei para a esfera, enquanto ainda se movia, e reparei que a lua se ia escondendo no momento em que o sol emergia como um vulcão aéreo e leve. A imobilidade invadiu subitamente o pátio e deu-me a ver os raios do clímax egípcio - em árabe, ash-shams - a pairar entre os últimos ramos da ameixoeria e o sorriso que a vinda de Freddy Adu para o Glorioso me inspira. Segue-se um debate inspirado sobre a natureza do ar condicionado e o silêncio contagioso do cão - o velho Ulisses - que não abandona por nada deste mundo a placa de mármore da cozinha. O verão pode ser não apenas chá gelado servido em púcaros de linho por uma vestal incógnita. Eu estava a falar de esferas, não era?

domingo, 29 de julho de 2007

A carga dos novos ofícios

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O "não fazer nada", tão apregoado na estação idiota, corresponde a um fluxo de rotinas insaciadas e banhadas pelo horribilis. Por trás do descanso, fervilha uma espécie de ostensão suicidária. Uma correria vazia. Há algo de bárbaro nas 'deslocalizações' temporárias e planificadas dos indígenas dos nossos dias. É como se reatássemos o mundo selvagem que terá assistido à lenta transição do nomadismo para o espírito sedentário: um ofício em que os animais de carga e a carga mental transportada se confundem. Entra em cena o meu mês, Agosto, e sinto medo de me fazer à estrada. De mudar de cenário. De pensar no mar. De ouvir propostas.

Os grandes pavores

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Não quero comparar o facto com o enredo de A Falha, mas a verdade é que hoje recebo no pátio (da minha prodigiosa ameixoeira) perto de duas dezenas de ex-alunos que comigo formaram, ao longo de quase um ano (dois cursos de 14 semanas), uma comunidade online. Não me tendo quase (fisicamente) dado com eles, o mais curioso é que as relações de proximidade entretanto criadas são imensas. Coisa que desmente o que, nas suas belíssimas crónicas sobre Santa Cecília, Bénard da Costa discorre acerca da internet (esses "apavorantes subterrâneos").

Pilhas

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Entro subitamente de férias, como se fosse possível descobrir um modo de não fazer nada. Bem sei que tal idiotice não existe e é por isso que a pilha de romances por ler já me olha (entre outros, os últimos Updike, McEwan e Don Delillo) com aquele desdém irónico que a imobilidade das capas não consegue disfarçar.

sábado, 28 de julho de 2007

Simão

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Cresci com uma outra ideia de equipa. Nos anos sessenta, quer o Benfica quer o Lusitano de Évora (mes deux amours) tinham equipas estáveis e fixas que sabiam resistir ao vertiginoso nomadismo dos defesos. Muitas vezes, a palavra utilizada para significar "equipa" era a palavra "linha" - li outro dia um postal que escrevi ao meu pai, em 1967, onde se repetia essa palavra - e das nossas "linhas" esperávamos, ano após ano, os mesmos rostos míticos, as mesmas vitórias e os mesmos propósitos de glória. Enfim, esse horizonte estável corresponde, hoje em dia, a uma ideia que se projecta, no máximo, em ciclos de três anos. Simão duplicou essa meta no Benfica e tenho a certeza de que continuará a ser um símbolo das muitas tardes e noites com que a equipa se refez de tempos (excepcionalmente) difíceis. E a esquecer. Por isso, o Miniscente dedica uma caña gelada ao ex-jogador do Glorioso e espera ainda revê-lo no Olimpo da Luz.

Escavações Contemporâneas - 43


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(António Quadros - António M. Ferro, Org.)
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O Mito Verdade ou Alienação*
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"(…) o mito é uma história exemplar e simbólica que, pelos actos dos seus protagonistas e pelo sentido do seu enredo, testemunha de uma antiquíssima experiência humana, mais profunda, de certo modo, do que a imagem cientifica, moderna e oficial das culturas; é a arca ou o arcano de uma indizível e longa revelação ôntica; é a codificada suma das intuições e de iluminações, de poemas e de filosofemas espontâneos ou aprendidos na vasta gama que vai das formas de cultura e aculturação à inspiração pessoal do transmissor ou do rapsodo; e é o que traz ao presente os segredos antigos e restantes de velhas civilizações e culturas, modificados embora por um percurso semântico difícil de seguir, de capitular e de sistematizar, mas que nem por isso deixa de ser ou deve deixar de ser para nós uma verdadeira «carta de prego», lançada remotamente ao mar do tempo por viajantes desconhecidos, nossos irmãos. José Marinho, um dos poucos filósofos que, depôs de Oliveira Martins, Sampaio Bruno e Aarão de Lacerda, meditou entre nós a essência do mito, escreveu pertinentemente que «todo o poeta verdadeiro, todo o artista autêntico é filómito, e é-o necessariamente. Não há arte sem imagem, e se a imagem meramente virtual não se insere no mundo próprio dos mitos, a imagem simbólica insere-se sempre no mundo mítico».
E isto porque o mito corresponde a uma experiência originária que o poeta não pode encontrar no círculo limitado da sua visão pessoal ou da sua existência social."
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*Poesia e Filosofia do Mito Sebastianista.
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

sexta-feira, 27 de julho de 2007

Escavações Contemporâneas - 42


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
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Köhlin e nós*
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Os recentes acontecimentos na Silésia Oriental espantaram todo o mundo. Von Breuklin declarou-se «chocado e surpreendido». Aparentemente, bastaria às autoridades levantarem um dedo e nenhum dos trágicos eventos teria visto a luz do dia. Mas é verdade que os piores sentimentos, nacionais e trans-nacionais, germinavam há já bastante tempo por aquelas paragens. Mary Woodsworth, no Listener, tinha chamado a atenção para o facto num artigo preclaro datado de Maio passado: «Sente-se a crispação nas faces e a pesada herança de tradições seculares. As refeições nas casas dos mineiros são totalmente ocupadas na discussão do futuro. As perspectivas apresentam-se geralmente sombrias. Os mais velhos, como se tudo por eles tivesse sido previsto, limitam-se a grunhir qualquer coisa enquanto enfiam a cara no prato cheio de schnakplötz, a especialidade da região. As mulheres não falam, apenas sorriem, como que a pedir desculpa. É de recear o pior».
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E o pior aconteceu. Os noventa tanques blindados passearam-se pelas artérias da cidade impunemente. As escolas fecharam. Contam os jornais que as ruas subitamente se tomaram desertas. Ellen Schnakplötz, enfermeira no hospital principal, ainda hoje um belo edifício, diz que não faz ideia, desde há duas semanas, onde o pai e o irmão se encontram. O mesmo poderiam dizer, sem dúvida, centenas de outras mulheres da região. Com o seu metro e 89 centímetros, Ellen Schnakplötz, apesar de tudo, parece calma. Ri-se mesmo muitas vezes, e o seu riso transmite algum conforto ao pequeno quarto onde vive desde há dois anos. Por causa do actual estado das coisas, não há água na casa. Ellen não se queixa. Graceja com toda a situação. «Os nossos avós passaram por pior e sobreviveram», foi a coisa mais próxima de um queixume que ouvi daquela boca.
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O principal inspirador destas movimentações é o hoje internacionalmente esquecido Richard de Coudray-Spekov, um aristocrata que, entre 1913 e 1917, data do seu precoce falecimento, escreveu uma série de artigos fogosos e veementes no ainda hoje existente Köhliner Zeit. O último acabava justamente com este pungente apelo: «Será possível que, passados tantos anos, a nossa própria identidade nos permaneça desconhecida? Será possível que o sangue dos nossos pais e as lágrimas das nossas mães corram pelos belos rios da nossa terra em vão, sem que quem neles mergulhe ou beba das suas cristalinas águas sinta um arrepio ancestral que tinja a sua alma com as cores do amor? Será possível que tudo permaneça envolto num denso manto de esquecimento? Não! A vida não merece a pena ser vivida assim, e eu não acredito que no peito dos meus generosos concidadãos os apelos ancestrais não hajam sobrevivido. Unamo-nos então como que juntos num mesmo corpo; que cada um faça da mão do seu vizinho a sua própria mão e do coração de todas as outras famílias o seu próprio coração. E não confundamos, sobretudo, a tibieza e o perdão!»
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Apesar do incidental comentário de Chamberlain quando, em 1938, no caminho para Munique, passou por Köhlin — «Köhlin does not exist!» —, Köhlin existe. E as palavras de Richard de Coudray-Spekov renasceram para os seus habitantes, 73 anos passados sobre o seu trágico e misterioso fim. A história da humanidade está cheia desses pensamentos que se escondem e revelam ciclicamente, perturbadores e íntimos às memórias colectivas. Por isso não é de estranhar que Ferdinand-Auguste L’Échineur possa comentar o caso nestes termos: «Os grandes catalizadores implodem. Não basta convencer, não basta gerir, é preciso também justificar. Sem esta terceira vertente não há discurso político eficaz. Os poderes que julgavam que a Köhlin bastava o seu schnakplötz enganaram-se tragicamente. A memória pode mais que o parco salário da razão e as úberes terras da identidade prometem a paixão».
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E agora? Agora há as histórias das pessoas simples, do homem comum que tanto convém lembrar sem pretender preteri-lo em benefício de fantasias quiméricas de individualidades dúbias cheias de falsos problemas e permanentemente alimentadas por reflexões pretensamente morais que, de resto, não seguem. A história de Köhlin é um hino ao homem comum, lutando contra as adversidades e reconquistando a sua identidade. Ao homem comum que é capaz de esquecer o seu prato de schnakplötz e elevar-se para os céus, oferecendo a camisa ao seu irmão, mesmo que este já tenha três vestidas. Não esqueçam Köhlin. No desmoronar dos grandes catalizadores, é de lá que nos pode vir algum consolo. E a cerveja é excelente, de facto.
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*O Primeiro de Janeiro, 8 de Julho de 1990
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Episódios e Meteoros - 41

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Uma proposta irrecusável
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(crónica publicada desde hoje no Expresso Online)
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Há uma década, o Carlos Pinto Coelho convidou-me a ir ao Acontece para fazer uma “proposta”. No então programa do Canal 2 da RTP, a rubrica pretendia dar voz a algo de singular, interessante ou até inadvertido. Várias foram as pessoas que, na altura, aproveitaram o palco para propor leituras de Joseph Conrad e Wislawa Szymborska, audições de Lionel Cecil e Leo Slezak, ou visitas ao Guggenheim que abrira as suas portas, em Bilbao, a 19 Outubro de 1997. Outros ainda, porventura menos eruditos, terão sugerido viagens a Taiwan ou à indiana Noida.
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Mas eu, indeciso e sem aquele beau dire e beau faire que é natural em Vasco Graça Moura, aproveitei os meus sessenta segundos para propor aos tele-espectadores que faltassem ao trabalho durante um dia. Apenas isso: preguiçar, dar uma volta, ficar em casa, experimentar um banco do jardim, auscultar coretos e vultos, espreitar montras, decotes, olhares, nuvens altas, quiosques ou cafés imobilizados pelo tempo. Apenas isso: reinventar em 24 horas aquilo que jamais se faria num dia normal de trabalho. Fosse qual fosse o trabalho.
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Parece que nos corredores de S.Bento a coisa foi motivo de chiste. Aliás – soube-o mais tarde através da equipa do Acontece –, Guterres achou graça ao figurão e até mandou um assessor dizer que aquilo não era coisa a repetir. Humor governamental, claro. Na altura, ainda em poderosíssimo estado de graça.
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A verdade é que a minha ideia nada teve que ver com a Intersindical, nem com o processo de doutoramento – porventura ainda em gestação – de Carvalho da Silva. Não, a ideia era bem mais heterodoxa e, para os lados da Infante Santo, Fernando Namora tê-la-ia compreendido com toda a fidelidade se ainda fosse vivo nos idos de noventa. É que o seu romance, Rio Triste, publicado em 1982, espelhava a mesma proposta que, quinze anos mais tarde, me viria a passar pela cabeça.
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O livro narra a história de um homem normalíssimo que, num belo dia, não regressa a casa como sempre ao fim da tarde. Esgotada toda a trama de cariz policial, é no desfecho que a verosimilhança acaba subitamente por ocupar a expectativa do leitor. Ao fim e ao cabo, como se me tivesse visto e ouvido no Acontece, o homem decidira, ao contrário da sua rotina de anos e anos, faltar um dia ao emprego. Sem razão nenhuma, a não ser a de uma sadia contingência de natureza impulsiva e espontânea. Um acidente no Tejo, que aconteceu nesse dia como podia ter acontecido noutro dia qualquer, fez o resto: a morte do artista.
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Eis como um simples proposta, aparentemente “irrecusável” (ao jeito de Coppola), encontrou os seus públicos-alvo no passado. Melhor: na ficção. Só gostava de saber se houve alguém, na realidade, que também tenha seguido as pisadas dessa minha proposta televisiva e perversa.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Coisas da casa

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O trabalho acumulado neste final de Julho foi imenso. Peço, pois, desculpa aos muitos amigos que felicitaram o Miniscente no dia do seu quarto aniversário (a 15/7) por não os ter referido, um a um, em post adequado. Creio, no entanto, que a autenticidade se sobrepõe, neste caso, à 'gentileza do link' (bem sei que, há meia década, em plena infância blogosférica, a linearidade deste tipo de exigências era outra). O Miniscente vai abrandar o ritmo até ao fim de Agosto. Curiosamente, depois de me ter quase esquecido da existência do Sitemeter - não ia lá desde finais de Abril -, verifiquei hoje que o blogue está a braços com uma enorme diminuição de visitantes. Não sei se piorei, é o mais certo, ou se a coisa reflecte um sintoma mais geral.
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Contudo, e tal como escrevia há dez dias, o trabalho a bordo de um blogue, se bem que movido pela compulsão e por hábitos de permanente e actualizada inscrição, é sempre um trabalho que deverá concordar com o prazer. Com uma bitola mínima povoada pelo lúdico, pela liberdade de edição, pela manobra pouco calculista, pelo assombro da espontaneidade, pelo dislate irreparável, pela ostensão desnecessária, pela exposição pura e simples. Sem medos. E se o Miniscente se iniciou a pensar em tudo menos nas audiências, também acabará, um dia, a pensar em tudo menos nas audiências. Embora, não sejamos hipócritas, elas sejam importantes.