terça-feira, 17 de julho de 2007

Pré-publicações - 44

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Ludwig Tieck, Três Contos Fantásticos, Antígona, Lisboa, 2007 (Julho).
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Pré-Publicação:
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"Eckbert, o Louro
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Algures no Harz, vivia um cavaleiro a quem chamavam simplesmente Eckbert, o Louro. Rondava os 40 anos, não chegava a ter estatura média e o cabelo, muito louro e curto, caía liso, emoldurando-lhe o rosto pálido e encovado. Levava uma vida de grande recato, sem nunca se envolver nas contendas dos vizinhos, e só raramente o viam fora das muralhas do seu pequeno castelo. Como ele, também sua mulher se comprazia na solidão, e um terno amor parecia uni-los; o facto de o céu não ter querido abençoar-lhes a união com descendência era a única coisa que muitas vezes lamentavam.
Eckbert recebia poucas visitas e, mesmo então, em nada mudava o habitual ritmo de vida; a sobriedade era seu apanágio, e a parcimónia tudo parecia reger. Nessas ocasiões, Eckbert mostrava-se alegre e bem-disposto, mas, de novo só, logo deixava transparecer uma certa reserva, uma surda e contida melancolia.
O mais assíduo hóspede do castelo era Philipp Walther, um homem a quem Eckbert se apegara por lhe ter encontrado no modo de pensar afinidades com o seu. Tinha morada na Francónia, mas acontecia passar temporadas de mais de seis meses nas cercanias do castelo de Eckbert. Coleccionava ervas e pedras que, depois, se entretinha a classificar; vivia de uma pequena fortuna e não dependia de ninguém. Eckbert acompanhava-o muitas vezes nos seus passeios solitários e, de ano para ano, foi-se tornando mais íntima a amizade entre ambos.
Há horas em que uma angústia se apodera de nós por insistirmos em ocultar de um amigo um segredo que até então tudo fizemos para esconder; a alma sente um impulso irresistível de se expor inteira, desvelando o que alberga de mais recôndito, no intuito de estreitar ainda mais a amizade. Em tais momentos, as naturezas sensíveis dão-se a conhecer mutuamente, e por vezes acontece uma delas recuar, assustada, perante as revelações da outra.
Era Outono. Numa noite de nevoeiro, Eckbert estava sentado à lareira com o amigo e Bertha, sua mulher. As chamas difundiam uma luz clara pelo aposento e brincavam no tecto; a escuridão parecia penetrar pelas janelas e, lá fora, as árvores sacudiam o frio húmido dos ramos. Como Walther se queixasse de que o aguardava um longo caminho de regresso, Eckbert propôs-lhe que passasse ali a noite, metade dela em amena conversa, dormindo depois num dos aposentos até ao amanhecer. Walther aceitou a oferta, levaram-lhes vinho e a ceia, avivaram a lareira com mais lenha, e a conversa entre os amigos foi-se tornando mais animada e íntima.
Quando os criados levantaram a mesa e se retiraram, Eckbert pegou na mão de Walther e disse-lhe:
– Meu amigo, devíeis ouvir da boca de minha mulher a história da sua infância, que é por de mais estranha."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Pré-publicações - 43

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Bernardo Pinto de Almeida, Força de Imagem (O Surrealismo na Colecção Berardo), Campo das Letras, Porto, 2007 (Julho).
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Pré-publicação:
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"Sob o título Força de Imagem, de que aqui se publica uma primeira parte, a que se seguirá uma segunda, mais específica e necessariamente mais pessoal no plano da interpretação sobre o Surrealismo em Portugal, procurei fazer uma abordagem do fenómeno estético surrealista. A que agora se publica retoma uma abordagem anteriormente disponível nos Cadernos do Museu n.º 2 do Sintra-Museu Berardo de Arte Contemporânea, que se editou para acompanhar uma primeira exposição, ali realizada, do núcleo surrealista desta importante colecção.
Procurando tomar em linha de conta as várias abordagens recentes sobre o tema que vêm mobilizando de Rosalind Krauss ou Donald Kuspit a Hal Foster, entre outros, ao longo da última década, alguns dos mais interessantes discursos da nova crítica de arte sobre uma eventual actualidade do Surrealismo (nomeadamente no que toca à possibilidade de rever alguns conceitos entretanto ultrapassados que se associaram à sua história e fortuna crítica), entendi, neste ensaio breve, pensar globalmente o fenómeno estético introduzido pela teoria e práticas surrealistas.
Tratou-se, então, e antes do mais, de voltar à origem do Movimento Surrealista, a partir dos seus textos fundadores – numa palavra, a André Breton –, para, a partir deles, encetar essa discussão, tendo em conta a importância do Surrealismo no desenvolvimento da arte moderna ao longo do século XX, e procurar contextualizar esse estudo a partir do importante núcleo reunido na colecção Berardo. Esta opção pelo regresso ao texto bretoniano corresponde à convicção profunda, que julgo ser pertinente sustentar, da necessidade de o continuar a ler em interdependência directa com as práticas artísticas dos principais artistas ligados ao Surrealismo.
Num espelhamento mútuo, no qual reside, a meu ver, a chave maior de compreensão do fenómeno surrealista. Mesmo sendo possível – como o pretendeu Krauss sobretudo – querer retirar a Breton esse papel fundador, substituindo-lhe, em medida de importância, autores como Georges Bataille ou mesmo Antonin Artaud, para ancorar hipóteses conceptuais em torno do informe ou da abjecção, não julgo que tal seja esclarecedor quanto ao que foi, histórica e esteticamente, o Surrealismo desde a sua origem."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Cotovia, Gradiva, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Viva a polémica!

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Recebi do amigo e habitual correspondente na Holanda, Carmo da Rosa, o seguinte texto (que anuncia a tradução de um post de conhecido blogger holandês, publicado mais abaixo):
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"Para festejar os quatro anos do Miniscente e para satisfazer ao mesmo tempo o interesse polémico da minha ‘compagne de route’, Fernanda Valente (manifestado em post de 14 de Julho), envio desta vez em tradução um artigo de um dos melhores blogueiros holandeses. Bastante conhecido nestas lides, apesar de poucos saberem quem é esta figura enigmática que assina - por motivos de segurança - com LAGONDA. Há quem diga que é uma mulher, outros acham esta hipótese pouco provável e a mim faz-me lembrar o fado do embuçado, que nós bem conhecemos… ‘Era El-Rei de Portugal’."
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Argamassa: o islamismo moderado
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Para onde quer que nos viremos somos confrontados com o raio do Islão! Não se fala noutra coisa na rádio e na televisão. Toda a gente faz o melhor que pode para, de forma forçada, demonstrar uma atitude positiva em relação ao Islão, para estabelecer em quase todas as declarações uma (muita rebuscada) ligação de amizade com a Meca. ‘Não se tratava de jovens islamitas’, esclarece o apresentador do telejornal holandês de forma espontânea, quando os enfermeiros das ambulâncias são mais uma vez agredidos em Amesterdão. Ou então é o apresentador do boletim meteorológico que de repente se põe a explicar o decurso da estação das chuvas no Líbano. No Líbano? Porque não em Madagáscar? E mesmo ao ministro holandês da justiça, que na realidade apenas quer explicar como funciona a democracia, escapa-se-lhe entre dentes a palavra ‘sharia’. Pois é! Quando temos a caixa dos pirolitos atulhada destas coisas o lapso freudiano é inevitável.
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‘Bom dia padeiro, no Alcorão não está escrito que o véu é obrigatório para as mulheres, olhe, já agora arranje-me aí duas sêmeas e cinco papos-secos por favor?’.
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Até para os mais ferozes defensores desta religião tornou-se já quase impossível manter a ideia que tudo vai bem com o Islão, que é ‘apenas uma religião’, comparável a tantas outras! Passam-se meses – qual quê? passam-se aaaaaanos! sem que seja necessário defender o Budismo no telejornal. Nunca vi o comportamento de colonos judeus no telejornal explicado a partir da Thorá. Mas um muçulmano mal levanta o dedo mindinho, logo uma armada de jornalistas, de exegetas e de multiculturalistas está pronta para explicar que não há azar; que o levantar do dedo mindinho é normal nos muçulmanos; que se trata de um muçulmano moderado, de maneira nenhuma um terrorista.
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Como vêem as coisas não se tornaram mais descontraídas. Mas parece que já se avista uma esperança no horizonte! O fantástico islamismo moderado, que dentro em breve vai finalmente meter mãos à obra e vai tratar de iluminar a meia dúzia de fundamentalistas enraivecidos que povoam este mundo. Porque quase todos os muçulmanos são nomeadamente moderados, e desejam intensamente um Islão secular, onde haja mais espaço para a liberdade individual e para a emancipação. Pelo menos, parece ser isto o que temos que acreditar. Mais de dois anos após a morte de Theo van Gogh as sociedades ocidentais ainda não ouviram ‘algo’ significativo da parte do Islão moderado. Talvez possamos prudentemente fazer um balanço?
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Um estudo recente afirma que a percentagem de jovens marroquinos que rejeita a sociedade ocidental já chegou aos 50%. Eu lembro-me que ainda não há muito tempo a percentagem era de 15%. E desta forma é dada uma resposta à sacrossanta pergunta que nunca é posta. A pergunta é a seguinte: Quem é que tem mais influência? O Islão moderado sobre o fundamentalista, ou o fundamentalista sobre o moderado?
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Pois bem!
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É absolutamente irrelevante quantos muçulmanos moderados existem, enquanto eles não mexerem uma palha e não abrirem a boca. Porque são os empreendedores fanáticos e motivados que fazem a história; são os indivíduos dispostos a agir que marcam o compasso; são os persistentes que constroem pacientemente o molde onde a moderação vai enrijecer e tomar a sua forma definitiva. Enquanto os moderados não se moverem, e não se atreverem a resistir activamente contra os seus correligionários mais extremistas, estarão sempre na mó de baixo e serão sempre levados a reboque. Esta maioria silenciosa e complacente de muçulmanos é utilizada pelos fanáticos como escudo para se defenderem, ou então como uma enorme arma que vão pôr em marcha quando a altura for propícia.
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Porque o Islão é mesmo assim. Atacar de surpresa a cultura dominante é o único truque do Islão, mas dominam esta faceta com grande perfeição. A doutrina nasceu num país, e já se encontra em mais de 50. Como é isso possível? Porque o Islão marcha sempre em frente, nunca retrocede. São sempre os fundamentalistas que semeiam activamente a influência do Islão, alargando fronteiras e batendo-se por elas, nem que seja durante séculos: nunca os moderados conseguiram com sucesso uma retirada estratégica. O Islão só se retira quando é activamente combatido e derrotado, e para isso, em regra, foi sempre necessário utilizar medidas robustas.
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Assim foi em todo o Médio Oriente, onde a cultura persa foi completamente aniquilada. Assim foi na Indonésia, que nuns escassos 100 anos passou de totalmente budista para totalmente muçulmana. Assim é AGORA no Caxemira, onde já foram mortos milhões de hindus. Assim é agora na fronteira norte do Paquistão, na Tailândia, em África e no Líbano, e também vai ser assim na Europa. E sempre da mesma maneira – uma vanguarda inatingível que não tem medo de sujar as mãos e que em cada dia que passa dá um passo em frente, dispersa entre uma enorme horda silenciosa de simpatizantes que é apenas utilizada como massa de cimento para preencher e cimentar o espaço conquistado. O Islão moderado não é nada mais do que argamassa.
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E porque será que nós julgamos que vamos escapar? Porque é que não damos o corpo ao manifesto? Porque não fazemos uma tentativa para controlar a situação, porquê ficar à espera, na esperança da bóia de salvação que o Islão moderado nos possa atirar? E porque razão ousamos pensar que o Islão moderado é realmente moderado? Julgamos isso por causa desta única frase:
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‘Nós não podemos fazer nada’.
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Esta frase pode ser ouvida em todo o mundo. No sul da Tailândia onde os budistas sobreviventes são ameaçados e assassinados por milícias muçulmanas. E o que é que as autoridades muçulmanas locais nos dizem? É muito aborrecido, mas não podemos fazer nada. Na Indonésia raparigas cristãs são decapitadas por salteadores muçulmanos. E o que é que o governo muçulmano nos diz? Muito chato, mas não podemos fazer nada. O Islão significa nomeadamente amor! No Darfur, a milícia Janjaweed comete actualmente um genocídio expedito contra a população negra. E o que é que dizem os funcionários do Sudão? Sim, temos muita pena, mas não podemos fazer nada. Já o Arafat, com os seus terroristas suicidas, não podia fazer nada. E o Hezbollah, esses então não podem fazer mesmo nada. Nós não pudemos fazer nada: é o eterno pretexto de Allah.
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Atentado nos Estados Unidos? Não podemos fazer nada; o Islão é mera tolerância. Atentados à bomba em Madrid e Londres? Não, não podemos fazer nada; na realidade o Islão é uma religião de bondade! Samir A (tentativa de atentados contra o parlamento holandês e contra uma central nuclear)? Mohammed B (assassínio de Theo van Gogh)? Não podemos fazer nada; são rapazes holandeses como os outros. Parlamentários e jornalistas são seriamente ameaçados? Não podemos fazer nada; ‘jihad’ significa na realidade apenas uma luta interior. O Anti-semitismo e o ódio contra homossexuais que ressurge? Não podemos fazer nada; perante Allah somos todos iguais. Crimes de sangue? Lapidações? Não podemos fazer nada; o Islão é na realidade um paraíso de liberdade para as mulheres! Viva! Fantástico!
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Não podemos fazer nada."
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Lagonda
(tradução do Neerlandês: Carmo da Rosa)

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Lisboa

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Dá que pensar. O partido vencedor não chega aos 30% e tem para festejar, na capital, o povo das excursões que vem do Teixoso, Alandroal, Mirandela e Famalicão. Depois, há um novo partido da engenharia, cujo segundo lugar desmente (razoavelmente) uma qualquer penalização dos ex-responsáveis da CML. O PSD aparece como terceiro partido. Sem comentários. Segue-se o novo partido dos Cotas/Make Love Not War com mais de dez por cento. O PC e o BE têm espaço suficiente para o megafone fracturante (juntos ultrapassam Marques Mendes). Entretanto o PP desaparece e confunde-se com um boomerang táctico que ninguém entende. As praias, ontem, estavam vazias e eu cheguei a lembrar-me - parece que foi agora - de estar no Estádio Municipal de Tomar, corria o ano de 1969 e diziam na "telefonia" que havia eleições (acho que o União local recebia a Académica). O bom povo português devia ler Do Fanatismo de Eric Hoffer, editado entre nós há pouco tempo pela Guerra e Paz. É que, enquanto o paternalismo nacional se preocupa com todos estes sintomas, há uma trepadeira subterrânea que vai crescendo, crescendo, crescendo. Sem que ninguém veja.

domingo, 15 de julho de 2007

HAPPY BIRTHDAY!

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Faz hoje precisamente quatro anos, ao início da tarde, escrevi o primeiro post do Miniscente.
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Sim: Um nome estranho. Mas eu explico-me, pois lembro-me muito bem da cilada semântica que fundou o nome antes ainda de haver coisa.
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Se a reminiscência apela a uma persistência do passado que escapa ao domínio de quem rememora, o "Miniscente", pensei eu, apelaria a uma densa persistência do presente que escaparia, também, ao domínio de quem pretende actualizar. Era esta a ideia. E a ideia confirmou-se em pleno: num blogue, o presente excede-se sempre a si próprio e põe permanentemente em causa o controlo de quem enuncia. E uma nova palavra apareceu assim, no berço desejadamente violável, da, para muitos, sacrossanta língua portuguesa.
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Deixo por baixo o texto que escrevi propositadamente para este dia, na sua versão integral e final. Nos últimos cinco dias, como os leitores saberão, publiquei-o em cinco pequenas partes.
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O meu blogue, o Miniscente, faz hoje quatro anos. Quando se é ou se aspira a trintão, quatro anos é muito tempo. Dá para fazer balanços de vida e para repensar um ciclo de projectos. Quando se é ou se aspira a quarentão, quatro anos é algum tempo. Dá para alterar o sentido das coisas e repor alguma ordem na casa. Quando o passo é o seguinte, na quinquagésima paragem, os mesmos quatro anos tanto se diluem numa imagem de vórtice, como se confrontam com a duração de uma Primeira Grande Guerra Mundial ou com o longo período de uma edição como a do ainda magnífico Le Rameau d´Or (1911-1915) de James George Frazer. Ou seja, o tempo comporta-se e debate-se, meio sonolento, pairando entre o abismo irremediável e o horizonte por resgatar.
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Mas quando o tema diz respeito a blogues, o tempo cheira subitamente a eternidade. Nada que se compare a um livro que tenha levado o dobro do tempo a escrever, o que já me aconteceu, nem nada que se compare a um desses planos faseados sob a forma de organigrama sem fim. Não, com os blogues a música é outra. De facto, o Miniscente mudou-me a vida, bem mais do que a literatura o havia feito há mais de um quarto de século. Se cada romance e se cada ensaio foram recortando a minha vida em episódios densos com princípio, meio e fim – uma espécie de descendência onírica que me foi carregando a memória –, já o Miniscente se intrometeu e inseminou no curso íntimo da minha vida, passando a calcorrear-lhe os ritmos, a mimar-lhe a respiração e, quando menos se esperaria, até a ditar-lhe as linhas e o tom das urgências diárias.
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Não existe quase nada, hoje em dia, que eu pretenda exprimir ou silenciar que não acabe por reflectir-se, de um modo ou de outro, na gotejante e compulsiva ordem da blogosfera. É como se a minha máscara se tivesse, a pouco e pouco, transformado em rosto, mas sem que a metamorfose fosse clara ou passível de prova. Uma pele renovada pelo zapping. Um blogger tende, na maior parte das vezes, a ser um réu e um jurado ao mesmo tempo, numa espécie de tribunal ausente – ou simulado – de que apenas sobra um veredicto permanente e irrevogável que modela o presente, relegando a jurisprudência, a memória e sobretudo o futuro para um plano completamente secundário.
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Um blogger é um “Já” (a iminência enquanto corpo) que passou a depender do compasso musical onde se insere: mera nota, mera peça e mera inscrição que julga decidir sobre o seu usufruto, isto é sobre a sua liberdade, tal como um escritor – no tempo em que a literatura se sobrepunha socialmente ao circo das imagens móveis – julgava a morosa maturação da sua escrita laboratorial. Não, nos blogues não há oficina, nem laboratório à moda dos velhos canônes, mas apenas e tão-só linha de montagem, desejo e constrangimento. Três termos num único e reluzente esplendor: linha de montagem como fôlego e actualização; desejo como existência, vínculo e afirmação em rede; e, por fim, constrangimento como imposição, glamour e voragem próprias.
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Ao ler-se um texto de natureza confessional, como é este, vai pensar-se que o meu balanço de blogger é negativo. E sê-lo-á em parte. É até difícil imaginar o que eu teria feito, ao longo destes 48 meses, se não me tivesse devotado à actividade que o Miniscente mobiliza. Nem tenho a certeza se o Miniscente corresponde ao perfil de blogue que eu mais teria desejado fazer (o mesmo se aplica a outros blogues mais modestos por mim criados, o Minitempo ou o Minion). Nada é perfeito, já se vê. Grande parte da nossa vida é uma resposta ao curso irregular com que o inaudito nos acena, mas é também a partilha de uma terra de ninguém dominada pelo imponderável. Planear é querer domar o monstro que se esconde nos solavancos mais ínvios do tempo. É por isso que os blogues acabam por ser atractivos: justamente, porque não se arrogam a esse tipo de feitos deístas ou salvadores; daí que vivam às mil maravilhas ao lado de todo o tipo de imprevisto, de espanto, de ordinary life e do mais puro nexo circunstancial.
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No meu caso, o lado positivo da blogosfera passa por este tipo de convivência tão nova quanto incerta. Isto é: saber conviver com a pulsação turbulenta do mundo, numa errância encapelada que quase se apaga no momento em que surge; no reverso do dever (pesado) e das narrativas tradicionais em que o fundamental passou a ser como o olhar que nasce e morre ao mesmo tempo, por simples paixão pelo imediato, pelo instantâneo, ou pelo fiat deslumbrado e sem precedentes com que na rede se passou a perceber – e a iludir – o ‘Outro’. O “fingimento”, tal como foi caracterizado quando a poesia e a literatura ainda eram um Olimpo social, é hoje o alicerce sobre o qual o blogger cava (não digo constrói) a sua palavra fugidia. Entrámos, de vez, na idade do cavador de pérolas. O meu primo e tenor, Tomás Aquino Carmelo Alcaide, teria sorrido com grande desdém. Eu – pelo meu lado – gosto, mas sem a limpidez de outros gostos que já me marcaram a vida. O Vergílio Ferreira teria gozado. Como só ele sabia fazer. Quando não estava a escrever.
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Nestes quatro anos, é óbvio que conheci muita gente interessante. E criei novas cumplicidades. Por outro lado, desleixei o (que na minha Holanda de há vinte anos designava por) “culto dos interiores”, descobri na malha que me escreve um discurso menos analítico, refiz algumas ideias sobre a figura do leitor e do criador de textos e esqueci muita coisa fundamental. Apercebi-me da forma de fluxo com que os variados mainstreams actuam, raramente reagi à barbárie expressiva e houve momentos – não poucos – em que cheguei a cansar-me desta actividade e dos seus previsíveis comentadores. Sim, porque a blogosfera é uma actividade, ainda que, e bem, Al Ries e a sua filha Laura Ries separem cristalinamente as águas: negócio é uma coisa, comunicação é outra.
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Um dia, tal como começou, o Miniscente há-de acabar. Mas não lhe darei, por ora, o privilégio de acabar em data certa, apolínea e pitagórica. Como é esta. Deixei para trás, neste ciberespaço apetecível, algumas séries de textos que não deslustram e muitas outras que foram concebidas ao nível de uma pastilha elástica conservadora. Em ambos os casos, ponderei sempre a forma e nunca, infelizmente, soube filtrar o que ia enunciando ao sabor das grandes audiências (embora, com o tempo, tivesse deixado de consultar, com regularidade mais ou menos adolescente, o “Sitemeter”). Diga-se, em concordância com o hábito e à luz da inexplicável efígie do seu monge, que, hoje em dia, também visito menos blogues, também desenvolvo muito menos networking e também perdi alguma paciência para actualizar links. Sintomas, dir-se-á. Sintomas, talvez, de mudanças que urgem. Até porque não há blogger que, só por ser blogger, tenha interesse. É por isso que sou alérgico a um
certo corporativismo tribal que abunda na blogosfera. E com o qual, rigorosamente, nada tenho que ver. Nem nunca terei.
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Sobretudo no último terço desta sua vida de quatro anos, o Miniscente não foi apenas voz como também deu a ouvir e a conhecer outras vozes. Isso aconteceu com as “Mini-entrevistas”, com as “Escavações Contemporâneas” (rubrica que pretende remar contra a amnésia das rotinas em rede) e com as “Pré-publicações” (existe hoje um “Clube” que conta com duas dezenas de editoras portuguesas que colaboram activamente nesta rubrica). Esta predisposição de simultânea expressão e interface de expressões tem moldado o Miniscente de um modo que seria inimaginável em Julho de 2003. Talvez esta nova dimensão (dir-se-á “cultural” – não gosto nada da palavra!) do meu blogue principal constitua uma compensação para o assumido défice de networking, de actualização de links e de visitas a outros blogues dos últimos tempos. Nada melhor do que a consciência deste tipo de (sigilosos) movimentos para ir repondo alguns equilíbrios.
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Contudo, o trabalho a bordo de um blogue, se bem que movido pela compulsão e por hábitos de permanente e actualizada inscrição, é sempre um trabalho que deverá concordar com o prazer. Com uma bitola mínima povoada pelo lúdico, pela liberdade de edição, pela manobra pouco calculista, pelo assombro da espontaneidade, pelo dislate irreparável, pela ostensão desnecessária, pela exposição pura e simples. Sem medos. Porque, como referi há mais de um ano, na sequência que ficou conhecida por “O Tom dos Blogues” (que vai aparecer, em breve, sob a forma de livro), com mais ou menos simplismo, embora com autenticidade, “os blogues somos nós mesmos”. É este, porventura, no meu caso pessoal, o móbil mais forte da persistência blogosférica: estar sempre prestes a comemorar um imenso nada que, de um momento para o outro, se pode miraculosamente transformar numa espécie de novo Rameau d´Or.

Quarto aniversário do Miniscente - 6

e
Sobretudo no último terço desta sua vida de quatro anos, o Miniscente não foi apenas voz como também deu a ouvir e a conhecer outras vozes. Isso aconteceu com as “Mini-entrevistas”, com as “Escavações Contemporâneas” (rubrica que pretende remar contra a amnésia das rotinas em rede) e com as “Pré-publicações” (existe hoje um “Clube” que conta com duas dezenas de editoras portuguesas que colaboram activamente nesta rubrica). Esta predisposição de simultânea expressão e interface de expressões tem moldado o Miniscente de um modo que seria inimaginável em Julho de 2003. Talvez esta nova dimensão (dir-se-á “cultural” – não gosto nada da palavra!) do meu blogue principal constitua uma compensação para o assumido défice de networking, de actualização de links e de visitas a outros blogues dos últimos tempos. Nada melhor do que a consciência deste tipo de (sigilosos) movimentos para ir repondo alguns equilíbrios.
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Contudo, o trabalho a bordo de um blogue, se bem que movido pela compulsão e por hábitos de permanente e actualizada inscrição, é sempre um trabalho que deverá concordar com o prazer. Com uma bitola mínima povoada pelo lúdico, pela liberdade de edição, pela manobra pouco calculista, pelo assombro da espontaneidade, pelo dislate irreparável, pela ostensão desnecessária, pela exposição pura e simples. Sem medos. Porque, como referi há mais de um ano, na sequência que ficou conhecida por “O Tom dos Blogues” (que vai aparecer, em breve, sob a forma de livro), com mais ou menos simplismo, embora com autenticidade, “os blogues somos nós mesmos”. É este, porventura, no meu caso pessoal, o móbil mais forte da persistência blogosférica: estar sempre prestes a comemorar um imenso nada que, de um momento para o outro, se pode miraculosamente transformar numa espécie de novo Rameau d´Or.
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(Este texto foi publicado em cinco partes, entre o dia 11 de Julho e hoje, 15 de Julho, dia do quarto aniversário do Miniscente).

sábado, 14 de julho de 2007

Quarto aniversário do Miniscente - 5

e
Nestes quatro anos, é óbvio que conheci muita gente interessante. E criei novas cumplicidades. Por outro lado, desleixei o (que na minha Holanda de há vinte anos designava por) “culto dos interiores”, descobri na malha que me escreve um discurso menos analítico, refiz algumas ideias sobre a figura do leitor e do criador de textos e esqueci muita coisa fundamental. Apercebi-me da forma de fluxo com que os variados mainstreams actuam, raramente reagi à barbárie expressiva e houve momentos – não poucos – em que cheguei a cansar-me desta actividade e dos seus previsíveis comentadores. Sim, porque a blogosfera é uma actividade, ainda que, e bem, Al Ries e a sua filha Laura Ries separem cristalinamente as águas: negócio é uma coisa, comunicação é outra.
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Um dia, tal como começou, o Miniscente há-de acabar. Mas não lhe darei, por ora, o privilégio de acabar em data certa, apolínea e pitagórica. Como é esta. Deixei para trás, neste ciberespaço apetecível, algumas séries de textos que não deslustram e muitas outras que foram concebidas ao nível de uma pastilha elástica conservadora. Em ambos os casos, ponderei sempre a forma e nunca, infelizmente, soube filtrar o que ia enunciando ao sabor das grandes audiências (embora, com o tempo, tivesse deixado de consultar, com regularidade mais ou menos adolescente, o “Sitemeter”). Diga-se, em concordância com o hábito e à luz da inexplicável efígie do seu monge, que, hoje em dia, também visito menos blogues, também desenvolvo muito menos networking e também perdi alguma paciência para actualizar links. Sintomas, dir-se-á. Sintomas, talvez, de mudanças que urgem. Até porque não há blogger que, só por ser blogger, tenha interesse. É por isso que sou alérgico a um certo corporativismo tribal que abunda na blogosfera. E com o qual, rigorosamente, nada tenho que ver. Nem nunca terei.
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(continua)
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Este texto é publicado em cinco partes, entre o dia 11 de Julho e o dia do quarto aniversário do Miniscente (15 de Julho).

Escavações Contemporâneas - 39


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: António Quadros - António M. Ferro, Org.)
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O Homem Português (1983*)
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O português quer viver, crescer e de um modo geral ser, mas afeiçoou-se a convicções negativistas, nomeadamente ao nível político e educativo, que o conduzem a um auto-envenenamento mental. É porque não acreditamos em nós próprios, no que somos e valemos, no nosso pensamento e na nossa cultura, que em vez de pensarmos a partir daí a renovação das nossas leis, das nossas instituições ou dos nossos sistemas, constantemente, em sucessivos remendos, nos limitamos a importar, a repetir, a copiar ou a adaptar, ao mesmo tempo que nos autocriticamos sem medida e nos negamos. Disse-o de uma forma lapidar Fernando Pessoa, num pequeno texto que por várias vezes tenho citado: «uma nação que habitualmente pense mal de si mesma acabará por merecer o conceito de si que anteformou. Envenena-se mentalmente.» Daí que, acrescentou, « o primeiro passo para uma regeneração, económica ou outra, de Portugal, é criarmos um estado de espírito de confiança – mais, de certeza, nessa regeneração.» Vivemos hoje um período de menoridade e de adolescência regressiva em que, predominando o intelecto passivo, as pessoas se auto-satisfazem e auto-iludem como os lugares-comuns ideológicos, com os discursos demagógicos e com as ideias convencionais de gerações que, para repudiarem um certo tipo histórico de nacionalismo, perderam a própria identidade e já não sabem quem são ou para que são, os portugueses. (…) devido ao cientismo e ao tecnicismos predominantes que o positivismo nos trouxe, sem o acompanhamento de uma educação do intelecto para o desenvolvimento das faculdades superiores do homem, o nosso ensino público dirige-se à mentalidade pueril, não logrando a elevação do intelecto passivo e adolescente até ao intelecto activo e adulto, o que explica a facilidade com que o estudante cai nas mais quiméricas, utópicas ou demagógicas ideologias, com pouca ou nenhuma capacidade de eleição ou de análise.(…).
e
*Conferência proferida em 13 de Dezembro de 1983 subordinada ao tema geral “Que Cultura em Portugal no próximos 25 anos?”
e
Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Quarto aniversário do Miniscente - 4

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Ao ler-se um texto de natureza confessional, como é este, vai pensar-se que o meu balanço de blogger é negativo. E sê-lo-á em parte. É até difícil imaginar o que eu teria feito, ao longo destes 48 meses, se não me tivesse devotado à actividade que o Miniscente mobiliza. Nem tenho a certeza se o Miniscente corresponde ao perfil de blogue que eu mais teria desejado fazer (o mesmo se aplica a outros blogues mais modestos por mim criados, o Minitempo ou o Minion). Nada é perfeito, já se vê. Grande parte da nossa vida é uma resposta ao curso irregular com que o inaudito nos acena, mas é também a partilha de uma terra de ninguém dominada pelo imponderável. Planear é querer domar o monstro que se esconde nos solavancos mais ínvios do tempo. É por isso que os blogues acabam por ser atractivos: justamente, porque não se arrogam a esse tipo de feitos deístas ou salvadores; daí que vivam às mil maravilhas ao lado de todo o tipo de imprevisto, de espanto, de ordinary life e do mais puro nexo circunstancial.
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No meu caso, o lado positivo da blogosfera passa por este tipo de convivência tão nova quanto incerta. Isto é: saber conviver com a pulsação turbulenta do mundo, numa errância encapelada que quase se apaga no momento em que surge; no reverso do dever (pesado) e das narrativas tradicionais em que o fundamental passou a ser como o olhar que nasce e morre ao mesmo tempo, por simples paixão pelo imediato, pelo instantâneo, ou pelo fiat deslumbrado e sem precedentes com que na rede se passou a perceber – e a iludir – o ‘Outro’. O “fingimento”, tal como foi caracterizado quando a poesia e a literatura ainda eram um Olimpo social, é hoje o alicerce sobre o qual o blogger cava (não digo constrói) a sua palavra fugidia. Entrámos, de vez, na idade do cavador de pérolas. O meu primo e tenor, Tomás Aquino Carmelo Alcaide, teria sorrido com grande desdém. Eu – pelo meu lado – gosto, mas sem a limpidez de outros gostos que já me marcaram a vida. O Vergílio Ferreira teria gozado. Como só ele sabia fazer. Quando não estava a escrever.
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(continua)
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Este texto é publicado em cinco partes, entre o dia 11 de Julho e o dia do quarto aniversário do Miniscente (15 de Julho).

Escavações Contemporâneas - 38


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
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O que ficará do comunismo? (1990*)
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O que é que vai permanecer do comunismo? Não falo do comunismo enquanto força internacional e doutrina, parece que ainda, na União Soviética. Para saber isso, basta ler as crónicas que o Prof. Adriano Moreira escreve às quartas--feiras no «Público»; só por desatenção ou má-fé se pode ficar sem pelo menos um vislumbre do futuro do mundo depois de tão eruditas e científicas explicações. Mas não é disso que se trata. O que se trata é de saber o que é que vai ser do comunismo enquanto pronto-a-vestir intelectual e afectivo no seguimento do eclipse do sol da terra. O que se trata é de procurar compreender como é que o espírito sopra para que milhares de pessoas em Portugal possam continuar unidas «às realidades inefáveis e desconhecidas de um modo inefável e desconhecido», para falar como o Pseudo-Dionísio.

É quase tão misterioso saber se os comunistas acreditam no comunismo como ter a certeza da fé em Deus nos católicos, embora certamente menos interessante. Em relação aos católicos é, digamos, natural que assim seja. A crença e a descrença devem, em princípio, formar um todo: «temor e tremor» e esperança podem perfeitamente andar de mãos dadas com desesperada coragem. Mesmo que a totalidade dos meus amigos católicos me pareça gente pouco dada a intimidades com «as realidades inefáveis e desconhecidas» e eminentemente dedicada às coisas dizíveis e tangíveis, eu devo sempre reconhecer que há algo que não posso saber. Só Deus sabe os segredos que as pessoas guardam.

Mas o problema com o comunismo é obviamente diferente. Enquanto que é literalmente impossível provar que Deus não existe, as provas do terror comunista são ostensivas até mais não. Eram-no desde há muito, mas negá-las agora exige um exercício de cegueira tão extraordinário que excede até as capacidades de gente excepcionalmente dotada para o efeito, como os comunistas. Claro que se pode ainda—pode-se sempre—recorrer ao argumento da «bondade» da doutrina e culpar a realidade crua e imperfeita dos «desvios» e dessas coisas desagradáveis que aconteceram. Ainda no outro dia um historiador russo, Medvedev, dizia que o capitalismo demorou muito tempo a reconhecer os direitos humanos: seria necessário dar pelo menos igual tempo ao comunismo.

O menos que se pode dizer é que é um disparate puro e simples. Passando generosamente por cima do facto do que é dito em relação ao capitalismo ser apenas uma meia-verdade, é como se alguém, depois de conseguir que a sua cozinheira, finalmente, cozinhasse bem, ou pelo menos decentemente, a substituísse por outra perfeitamente incapaz de fazer sequer uma omeleta e destinada a envenenar a família aos longo dos anos, com o argumento sumamente estúpido de que, quando aprendesse a cozinhar, alimentaria melhor os sobreviventes e os descendentes destes, caso os houvesse.

Como dizia Necker a Turgot, referindo-se a uma situação apesar de tudo menos preocupante: «Não consigo compreender esta fria compaixão intelectual pelas gerações futuras, que deverá endurecer os nossos corações contra os gritos de dez mil infelizes que agora nos rodeiam». A compaixão intelectual continua duvidosa e os números são muitos milhões.

O comunismo enquanto tal já não é susceptível de fé. Ultrapassou, por assim dizer, o seu limite de elasticidade. Mas a fé comunista, perdido o seu objecto primeiro, encontra facilmente um segundo objecto, íntimo e difuso. Os sonhos que se transformam, para certos homens, num ritual que é uma espécie de comércio com o sentido do mundo (o sentido do mundo confundindo-se com a ilusão da sobrevivência), são os últimos a desaparecer— e a matéria, definitivamente, não conta. A fé comunista, perdido o seu objecto primeiro, não vai no essencial mudar. Do Dr. José Magalhães ao pequeno militante professor num qualquer liceu do país, as mesmas coisas, estúpidas e prodigiosas de ortodoxia, irão ser repetidas, por exemplo, sobre a cultura. A litania dos infinitos direitos, o que com justeza se poderia chamar a obrigação aos direitos, a visão conspiratória do mundo que defende os pequenos talentos egotistas e lhes explica a própria nulidade disfarçada de produto de conjuras, perpetuar-se-ão numa linguagem a que alguém perfeitamente deu o nome de «baixo latim de legionários derrotados», espécie de ersatz daquela antiga comunhão com as «realidades inefáveis e desconhecidas», agora tristemente dizíveis e tangíveis. E então isso — essa cadeia de reflexos de um filantrópico e elitista ódio ao mundo, turvo, meio solene, despeitado, raivoso de poder—será, como já quase é, a última matéria restante dos sonhos solares do Dr. Cunhal. Provavelmente será também a mais durável. E ninguém diga que está bem. O baixo latim está em todo o lado.
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*O Primeiro de Janeiro, 29 de Julho de 1990