quinta-feira, 12 de julho de 2007

Quarto aniversário do Miniscente - 3

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Não existe quase nada, hoje em dia, que eu pretenda exprimir ou silenciar que não acabe por reflectir-se, de um modo ou de outro, na gotejante e compulsiva ordem da blogosfera. É como se a minha máscara se tivesse, a pouco e pouco, transformado em rosto, mas sem que a metamorfose fosse clara ou passível de prova. Uma pele renovada pelo zapping. Um blogger tende, na maior parte das vezes, a ser um réu e um jurado ao mesmo tempo, numa espécie de tribunal ausente – ou simulado – de que apenas sobra um veredicto permanente e irrevogável que modela o presente, relegando a jurisprudência, a memória e sobretudo o futuro para um plano completamente secundário.
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Um blogger é um “Já” (a iminência enquanto corpo) que passou a depender do compasso musical onde se insere: mera nota, mera peça e mera inscrição que julga decidir sobre o seu usufruto, isto é sobre a sua liberdade, tal como um escritor – no tempo em que a literatura se sobrepunha socialmente ao circo das imagens móveis – julgava a morosa maturação da sua escrita laboratorial. Não, nos blogues não há oficina, nem laboratório à moda dos velhos canônes, mas apenas e tão-só linha de montagem, desejo e constrangimento. Três termos num único e reluzente esplendor: linha de montagem como fôlego e actualização; desejo como existência, vínculo e afirmação em rede; e, por fim, constrangimento como imposição, glamour e voragem próprias.
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(continua)
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Este texto é publicado em cinco partes, entre o dia 11 de Julho e o dia do quarto aniversário do Miniscente (15 de Julho).

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Quarto aniversário do Miniscente - 2

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O meu blogue, o Miniscente, faz quatro anos no próximo Domingo. Quando se é ou se aspira a trintão, quatro anos é muito tempo. Dá para fazer balanços de vida e para repensar um ciclo de projectos. Quando se é ou se aspira a quarentão, quatro anos é algum tempo. Dá para alterar o sentido das coisas e repor alguma ordem na casa. Quando o passo é o seguinte, na quinquagésima paragem, os mesmos quatro anos tanto se diluem numa imagem de vórtice, como se confrontam com a duração de uma Primeira Grande Guerra Mundial ou com o longo período de uma edição como a do ainda magnífico Le Rameau d´Or (1911-1915) de James George Frazer. Ou seja, o tempo comporta-se e debate-se, meio sonolento, pairando entre o abismo irremediável e o horizonte por resgatar.
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Mas quando o tema diz respeito a blogues, o tempo cheira subitamente a eternidade. Nada que se compare a um livro que tenha levado o dobro do tempo a escrever, o que já me aconteceu, nem nada que se compare a um desses planos faseados sob a forma de organigrama sem fim. Não, com os blogues a música é outra. De facto, o Miniscente mudou-me a vida, bem mais do que a literatura o havia feito há mais de um quarto de século. Se cada romance e se cada ensaio foram recortando a minha vida em episódios densos com princípio, meio e fim – uma espécie de descendência onírica que me foi carregando a memória –, já o Miniscente se intrometeu e inseminou no curso íntimo da minha vida, passando a calcorrear-lhe os ritmos, a mimar-lhe a respiração e, quando menos se esperaria, até a ditar-lhe as linhas e o tom das urgências diárias.
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(continua)
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Este texto é publicado em cinco partes, entre o dia 11 de Julho e o dia do quarto aniversário do Miniscente (15 de Julho).

terça-feira, 10 de julho de 2007

Quarto aniversário do Miniscente - 1

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No próximo domingo o Miniscente faz quatro anos de idade. O facto levou-me a escrever um texto sobre a estranha experiência que é ter-me transformado em blogger. Dividi o texto em cinco pequenas partes. Publicá-las-ei entre amanhã e o aniversário de 15 de Julho. Eu, por mim, vou ficar atento.

Uma revelação seis anos depois

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A sempre simpática Miss Pearls pergunta-me, a bordo do Corta-Fitas, se não quero "escrever alguma coisa" sobre alguns dos meus livros. E até me pede paciência. Pois eu sempre fui alérgico à modéstia da sardinha lusitana e sempre gostei muito de falar do que faço. Aproveito a deixa para revelar que fui eu que escrevi, em 2001 e por encomenda da então Editorial Notícias, uma brincadeira chamada A arte de engatar - Guia para tímidos de ambos os sexos (na altura, ninguém descobriu o autor do livro que foi reeditado - segundo creio - no verão passado). Pois fui eu e não os inventados "Joana Azevedo e Sá" e "Luís de Medeiros". E ri-me muito com a coisa. Some-se, pois, mais esse aos tinta e um. Talvez o ambiente de estio me leve a fazer mais algumas confissões. Lúdicas, mas reais. Às vezes apetece.

O limbo discreto

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Há quatro anos, a blogosfera portuguesa vivia a sua adolescência. Com maior ou menor ênfase, essa palpitação explosiva foi serenando ao longo dos verões de 2004 a 2006. Apesar do Hezbollah, lembro-me que, há um ano, já se falou amiúde em “banhos” como sinal de um menor aquecimento do meio. Desta vez, as eleições autárquicas lisboetas poderiam ter constituído um óptimo barómetro para avaliar o modo como a blogosfera está, ou não, a reflectir as pressões que se fazem sentir no espaço público.
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Pois bem, longe das polémicas de outros tempos, as eleições parecem estar a acomodar a blogosfera a um limbo de discretas microcausas, um dos terrenos férteis da sua curta história.
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(texto completo no Expresso Online depois de amanhã)

segunda-feira, 9 de julho de 2007

O teor da felicidade

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O Verão a entrar no ritmo de trabalho: últimos cursos, arguições, notas de passagem, resumos de texto, releituras e sobretudo o lazer como horizonte sempre imperfeito. O único modo que tenho de descansar é permanecer na cadência de um projecto onde se imagina e escreve como se o abismo fosse já aqui. Coisa inadiável. Ontem não vi telejornais e hoje ainda não os li, nem em papel nem na rede. Há um lado maravilhado neste e noutros alheamentos que inscrevem o que há a dizer no inaudito. Corro as persianas e não chego a abrir o ar condicionado: gosto deste calor mole que adorna a pele como se fosse uma lava invisível e breve.

domingo, 8 de julho de 2007

Sete Maravilhas

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Vi tudo na TV-I. Comentários rápidos: injusto não ter visto o Convento de Cristo figurar entre as seven portuguesas (e erro de Évora o não ter candidatado os 104 hectares do centro histórico em vez - apenas - do templo romano). A nível mundial: injusto não ver contemplado o Templo de Salomão entre as seven. Acrescente-se ainda o momento mais idiota da noite: o assobio à estátua da Liberdade. De resto, já se sabe, o Estádio da Luz foi - e é sempre - a maior das maravilhas do universo. Toda a gente sabe isso.

sábado, 7 de julho de 2007

Blogues e Meteoros - 38

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O frisson épico
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(crónica publicada esta semana no Expresso Online)
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Por trás do cenário da presidência portuguesa da UE, o país anda encantado com as Sete Maravilhas (do mundo, do país, tanto faz!). A discussão é frívola, atravessa sem grande ruído regionalista – felizmente – o nosso breviário de costumes e irá acabar naquilo que, hoje em dia, se designa por “grande evento”. Pouca importa a designação e o teor do “grande evento”, pois o que nele conta é a comunicação pela comunicação, o impacto da simulação mundializada e o aparecimento em rede de algumas figuras (ou fantasmas?), cujo êxtase reside nessa aparição e não, claro, no que proferirem, cantarem ou ajuizarem.
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Mas não se pense que as designações são coisas vãs. Na maior parte das vezes, ao designar, quer o plebeu quer o nobre significam muito para além do que desejariam. Por exemplo, quando Durão Barros invocou solenemente "Bartolomeu Dias" e "Vasco da Gama", no Dia Um da presidência portuguesa (para significar a Alemanha e Portugal), o artifício disse bem mais a seu respeito (e da Comissão) do que acerca do Tratado do Éden. O cariz heróico, mobilizador e entusiástico, subjacente às “Descobertas” de Durão Barroso (e omnipresente no vocabulário oficial), contrastou com um óbvio alheamento do público.
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Apesar da propensão geral para os “grandes eventos”, é curioso como o capricho metafórico dos Descobrimentos nos persegue. E nos mascara. Devo dizer que, com os meus dez ou onze anos, já brincava à Infante D. Henrique nas poças da chuva. Com quinze, deitava caravelas no Rio Nabão e sentia um frisson épico que não desonrava as lendas domésticas sobre o Mundo Português, os êxtases pessoanos ou a eloquência em verso de Garrett sobre Camões. Estávamos todos já em rede: eu, as “Lendas e Narrativas” e ainda um delirante reitor do então Liceu Nacional de Évora que dava animadas aulas sobre o “Quinto Império”. Um dia, como sabemos, veio a XVIIª precedendo o augurado paraíso da Expo-98. “Foi assim”, parafraseando Zita Seabra: as alucinações comemorativas e as metáforas do nosso destino sempre adoraram voltar ao local do crime: à gesta dos Descobrimentos (Ai, Ai, “Sete Maravilhas”!). Como um ratinho a pedalar numa redoma de plástico. Como um passarinho a debicar na ameixa (mais do que) madura. Como um insípido episódio, às esquerdas ou às direitas, sempre a rimar consigo mesmo. Sempre.

Escavações Contemporâneas - 37


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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: António Quadros - António M. Ferro, Org.)
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Estamos debruçados sobre o papel branco, como sobre o espelho labiríntico da nossa alma enigmática. Escrevemos, pensamos, libertamos inteiros compartimentos fechados, e logo outros escondidos e logo aqueles, invisíveis, de que jamais suspeitáramos. Existiam realmente, esses universos que o pensamento nos cria, a partir às vezes de uma imagem, de uma palavra, de uma sombra? Sentimos que nunca mais acabaremos, até ao último dia, até ao último minuto, até à última inspiração, de nos aproximarmos, de abrirmos novas portas, de descobrirmos novos espaços. Visitámos em Creta, o labirinto de Cnossos, o palácio onde o signo do labris, o duplo machado sacrificial, foi desenhado em cada divisão acrescentada ao projecto primitivo. Assim, sabemos que um labirinto não é uma série cifrada de corredores, mas uma imensa habitação que se vai construindo através dos tempos, aumentada e remodelada de geração para geração, sendo cada compartimento absolutamente necessário e funcional. Enganam-se aqueles psicanalistas que julgam ter encontrado o mecanismo secreto, a fotomontagem das almas. Uma alma, quando é explorada, penetrada, analisada, quando, sobretudo, se assume como reveladora do cosmos e representante infinitamente complexa do infinitamente grande, amplia-se, cresce, vai formando, lenta e incansavelmente, um corpo invisível, dia a dia maior, dia a dia diferente. (…) Assim, o papel branco do escritor é como a superfície cutânea, na qual um abcesso de fixação vai drenando o curso evolutivo do seu pensamento. O importante é que o canal nunca se feche, entre a elaboração conceptual e a expressão exterior. O importante é que o labirinto nunca se dê por concluído, nunca degenere em sistema circular, nunca se circunscreva num muro, nunca feche a última porta.
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*«O Movimento do Homem»
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Escavações Contemporâneas - 36


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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
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Felicidade
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"Aristipo de Cirene, que viveu, parece, por volta da primeira metade do século IV a.C., dizia que «três são os estados relativos ao nosso temperamento: um, pelo qual sentimos dor, semelhante à tempestade no mar; outro, pelo qual sentimos prazer, parecido com a leve onda, porque o prazer é um leve movimento, comparável a uma brisa favorável; o terceiro é o estado intermediário, pelo qual não sentimos dor nem prazer, análogo à calma do mar». E o prazer é para ele uma coisa diversa da felicidade: enquanto que o primeiro é imediatamente buscável, a segunda — que é algo como o sistema de todos os prazeres particulares passados, presentes e futuros — é-nos possível apenas indirectamente, por meio dessas leves ondas, leve movimento das brisas favoráveis.
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A felicidade, pelo menos aparentemente, é para nós tão «vulgar» como o era para Aristipo de Cirene. É uma mistura de prazer, lembrança e esperança dele, uma espécie de harmonia incompreensível, porque todos os tempos se dividem perpetuamente e nos deixam inermes e abandonados no seu movimento. Para mais, a felicidade é notoriamente menos conspícua que o prazer. O prazer é, em geral, facilmente reconhecível; a felicidade não. A mais terrível pergunta de todas é: «foi, até agora, feliz?». É terrível porque parece que não faz sentido. Não faz sentido responder que sim: o título mais obsceno que alguma vez algum livro recebeu foi certamente o da autobiografia de Pablo Neruda, Confesso que vivi. Ou então deve dizer-se isso exactamente porque não faz sentido. Mas responder que não faz tão pouco sentido como responder que sim: como é que se pode saber que não se foi feliz? E talvez também se deva dizer isso por não fazer sentido.
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Há algo na felicidade que não tem nada que ver com o verbo ter. A verdadeira raiz da felicidade é a admiração. É-se feliz na medida em que se admira a felicidade, em que se soube admirar a felicidade própria e alheia. Mas é-se feliz como se não fosse connosco. A felicidade é a coisa mais impessoal do mundo, mesmo que se manifeste pessoalmente. A felicidade é muito exactamente uma Ideia, no sentido de Platão. Algo que nos esforçamos por imitar mas que pertence a uma categoria ontológica diferente.
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E nesse sentido pode coexistir, mesmo que imperceptivelmente, com a dor, o que não acontece, é claro — a não ser nos limites literários —, com o prazer. Dor e prazer são termos contrários; dor e felicidade não. Enquanto houver força para admirar a Ideia da felicidade ela existe - de uma maneira ou de outra, mesmo que estejamos completamente despossuídos dela. Em nenhum lugar se vê isso melhor do que na música, que é aquilo que Schopenhauer chamava «órgão do sonho». E na poesia também, quando é uma espécie de música.
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Platão dizia que a filosofia é uma preparação para a morte. A morte não é uma Ideia, e por isso é impensável. E a dedicação filosófica é uma dedicação ao pensável, um esforço para transportar o pensável para além do impensável, nisso residindo o lado inútil da filosofia, que é o seu lado não prático. Mas é só através de uma dedicação deste tipo que a felicidade pode ser admirada e imitada.
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Talvez então que a recordação dos leves movimentos, das brisas favoráveis a que se referia Aristipo de Cirene deva ser uma recordação, e uma esperança, por imitação. A felicidade e a harmonia não foram nunca possuídas porque são literalmente insusceptíveis de posse: são susceptíveis apenas de admiração."
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)