sábado, 9 de junho de 2007

Escavações Contemporâneas - 25


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(António Quadros - António M. Ferro, Org.)
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O finalismo e o a-finalismo do nosso sistema educativo
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"(…) ao estudar, o fim do aluno é hoje «passar o exame», «ter o diploma» - e nada mais. O seu objectivo é quase unicamente utilitarista. Pretende o diploma porque o diploma dá acesso a posições social e economicamente compensadoras. Daí a sua total obediência, para não dizer escravização, à ciência do professor, que pode ser falsa, incompleta, desactualizada, pervertida e burocratizada, mas que não constitui para o aluno mais do que «o obstáculo que é preciso transpor», sem análises nem afirmações de personalidade que estariam deslocadas. Por sua vez, o professor, uma vez instalado na sua posição liceal ou universitária, limita a sua acção ao ensino de um conjunto de conhecimentos especializados, sujeitando inteiramente o aluno, ou a uma preguiça que o impede de actualizar-se constantemente no seu ramo de saber, ou a uma incapacidade intelectual para transcender o «conhecimento do compêndio», ou à especifica direcção cultural do seu espírito (…) observa-se que, ao longo dos anos da sua aprendizagem, o aluno apenas estudou para os sucessivos exames com que pretenderam medir a sua memória e a sua inteligente maleabilidade às atitudes culturais e espirituais mais diversas; e que esta diversidade heteróclita, acumulada nos anos cruciais da sua evolução mental, o levaram a deter-se cepticamente à beira dos grandes problemas da existência, não os vivendo heroicamente, mas, pelo contrário, substituindo, em todas as ocasiões, a verdade pela utilidade e pelo interesse.
(…) o aluno universitário sabe mais do que o liceal – mas não sabe melhor. Ao obter, finalmente, o seu diploma de curso superior, o licenciado olha para trás e lamenta o tempo que perdeu em todas as matérias que fogem à sua especialização. Essas matérias assemelham-se às peças de «puzzle»: mas nunca as conseguiu reunir e agora já é tarde. Não se lhe apresentaram como «necessárias», como harmoniosamente ligadas, como tendendo, com a lógica indestrutível dos acordes diferentes, mas unidos, de uma sinfonia, para um mesmo objectivo.
Licenciado, pode vir a ser um bom especialista, um bom profissional. Como homem, porém, será o que os caprichos da sua existência extra-univertária dele fizeram: família, cultura literária, influência de formas artísticas, amigos, formação religiosa ou política…E como estes factores sociais sofrem da mesma crise, espelhando a errada formação escolar básica, o resultado é a vida, em todos os seus planos antropológicos, cosmológicos ou teológicos, se reduzir à vida de cada um; cada homem passa a considerar-se o princípio e o fim de todas as coisas, a razão do «ego» domina as outras, a existência é um campo de batalha, não entre o bem e o mal, mas entre o «eu» e os «outros»."
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«Angústia do nosso tempo e a crise da universidade»
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Sociedade. Bloggers, Portugal.

Há quem tenha tempo para tudo. Ora vejam só. Vá lá: AQUI.

Quando blogar é ficção apetecida - 6

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IAC

Extractos de posts de natureza ficcional a que apetece criar o início e o fim do enredo, ou tão-só desfrutar o pousio em media res
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"Sabes do meu gosto por vozes encorpadas como bom vinho que me serves após baile no teu copo e a demora púrpura escorrida no vidro. Delicia-me o jeito discreto de lhe sentires o aroma e ler-te aprovação. Gosto de vozes cheias, lembrando noites longas de tabaco e whisky, prostradas por desmandos dos sentidos que a manhã sonolenta confirma. As vozes de clarinete evito por sugerirem finura dos corpos e funis da vida. Serão nossas por estes dias as vozes e os dias cheios e o cristal pintado de purpura ou dourado se este for escolhido pela tua adivinha do meu desejo. Inventas apetites que me serves sem receio de engano – por que antecipas o meu agrado, enriquecemos o pecúlio íntimo."
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Escavações Contemporâneas - 24


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
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Um inquérito de Verão*
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Crespim Afreixo Afluxo Estorninho, notório dirigente do PLSCR (Partido Liberal Socialista Conservador da Renovação), solicitou a este jornal uma entrevista, invocando «a extraordinária e nefanda campanha de obscurecimento a que o seu ideário rudemente tem sido submetido», bem como as «dúbias e inconfessáveis manipulações que a sua figura, de indiscutível recorte ético, sofre por parte dos órgãos de comunicação em geral e da imprensa escrita em particular». Nada mais nos restava senão dar a voz ao distinto político. Deslocamo-nos por isso à sua vivenda da Rua Afrânio Idêntico Estorninho (nome de seu avô, conspícuo democrata e celebrado autor de uma monografia dedicada ao tema «O imposto sobre os isqueiros em Portugal ao tempo do fascismo») e ouvimos as suas declarações.
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«Perguntem-me coisas sobre as minhas férias», disse, ao mesmo tempo que estendia o whisky sem gelo que lhe pedíramos. «Eu nem gosto dessa coisa», comentou, apontando o copo, «mas em política é preciso usar de tudo. Desde que nos limites da ética, porque a mim, como eu gosto de dizer, quem me tira a ética tira-me tudo!» E refastelou-se no maple. «Estes questionários sobre as férias são a melhor maneira de fazer passar a nossa mensagem. Já os sobre telenovelas são piores. É preciso decidir sobre os personagens e corre-se o risco de ofender alguém, que é uma coisa que não vai com o meu feitio. Hoje em dia os personagens são mais densos, mais complexos... Eu digo sempre que gosto, mas acrescento um: mas...» Sorriu, como quem pode ou não revelar um segredo. Revelou: «O «mas» serve sempre para mostrar que podiam ser mais educativas, mais formadoras. Um político ético tem que ter uma atenção especial à educação. Eu até já li duas páginas do Max Weber, quando me falaram em ser entrevistado para a televisão... Acabei por não ser... Invejas... Mas vamos lá às minhas férias!».
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«Senhor doutor, perguntamos primeiro, onde passa as suas férias?»
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«Em Portugal, sempre; e na companhia da minha família, sempre. Desde criança que passo as minhas férias em Portugal e na companhia da minha mulher e da minha filha. Foi sempre assim, e não vejo razão alguma para mudar de costumes. Não sou desses que gostam de andar sempre no estrangeiro. O que é que o estrangeiro tem que Portugal não tenha?, é o que eu pergunto sempre a esses senhores. E a família é muito importante. A ética e a família para mim são tudo. Quem me tira a ética e a família tira-me tudo, como eu costumo dizer».
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«E como é que o senhor doutor ocupa as suas férias?»
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«É lógico que as ocupe durante um mês, mais ou menos, como um cidadão normal. Mas de vez em quando dou uma saltadela à sede nacional do meu partido, para ver se ninguém me anda a querer lixar. Confesso humildemente que é a minha única angústia de férias. A minha mulher até me leva de vez em quando a mal. Diz: «São uns asnos, não te lixam!» Eu até acho que é verdade, mas fica-me o bichinho, por dentro, a roer...»
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«Mas lê?»
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«Leio. Tenho lido...»
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«O quê?»
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«Coisas responsáveis, sempre numa perspectiva ética. Por acaso até tive no outro dia a grata surpresa de saber que a Dra. Edite Estreia, uma senhora que é uma senhora, vai ler um livro que também já está na minha mala: A origem da obra de arte, daquele sociólogo russo, Heidegger. Eu preocupo-me muito com a arte. Sempre numa perspectiva ética, evidentemente. De resto, aconselho a sua leitura ao Dr. Mário Soares e ao Prof. Cavaco Silva. E os romances portugueses modernos. A mim quem me tira os romances portugueses modernos tira-me tudo, como eu costumo dizer. E não digo isto só por estar na moda. Desde 1960 que digo sempre a mesma coisa: quem me tira o meu João de Melo tira-me tudo!»
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«E filmes?»
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«Adoro vídeos. Levo o vídeo para onde quer que vá. Posso telefonar ao mesmo tempo que os vejo, o que no cinema, era uma chatice, não se podia fazer. Ainda ontem vi de enfiada o Citizen Kane, o Couraçado Potemkin e o Pátio das Cantigas — os meus três filmes preferidos —, enquanto telefonava ao Dr. Jaime Karsen, que é um gajo que eu nem conhecia do meu partido e que me anda a querer tramar. Mas quando vou ao cinema nunca saio a meio. Sou como a Dra. Edite Estrela, que é uma senhora que é uma senhora: nunca abandono nada que tenha entre mãos. Seria pouco ético. E nunca adormeço, também.»
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«E a praia, a areia e o mar, dizem-lhe alguma coisa?»
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«Então não dizem? É lógico que dizem. Mas dizem mais à minha filha e à minha mulher. Eu gosto sempre de ficar perto de um telefone. E Portugal — que eu amo, do ponto de vista ético, mais do que tudo — tem ainda muitas coisas de subdesenvolvimento. Por exemplo, não há telefones nas praias. A culpa, é claro, é do Governo, pouco esclarecido nestas matérias. Por isso, só por isso, eu gosto mais de piscinas. Sou como o Dr. Brederode. Mas a minha mulher e a minha filha dizem-me o que se passa na praia, e é como se eu estivesse lá. Ainda ontem estava um gajo do meu partido, que é também dirigente de um clube de futebol, a falar com um assessor do PR no toldo ao lado. Estava a querer tramar-me. Mas a minha mulher à noite contou-me e eu telefonei logo. Arranjei uma reunião especial na comissão dele: tem as férias lixadas.»
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«A solidão perturba-o?»
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«Não. De forma alguma. Nós, os políticos, temos de saber fazer frente à solidão. Mas é uma má-educação com a qual nunca transijo. Ficar sozinho é uma coisa muito egoísta. Levo sempre pelo menos quinze pessoas comigo. Sou um ser solidário, não solitário, como diz uma senhora que é uma senhora e que eu muito gostaria de ver no meu partido, porque é uma senhora que é uma senhora. Do ponto de vista ético, evidentemente.»
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«Senhor doutor, há ainda uma pergunta que gostaríamos de lhe fazer: onde é que, concretamente, passa as suas ferias?»
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O nosso entrevistado pareceu, por um momento, surpreendido com a pergunta. Olhou nervosamente para a enciclopédia dourada na majestosa estante à sua frente. O seu olhar devorador como que pressentiu todo o saber humano, num lance leve de homem hábil. Reflectiu. Levantou ambas as mãos pausadamente, olhando primeiro para o tecto e depois fitando-nos intensamente. Pronunciou: «Concretamente, é difícil. Mas vou ser sincero, porque a mim quem me tira a sinceridade tira-me tudo, como eu costumo dizer. Primeiro, tenho que ver para onde é que os outros vão. E para onde forem mais que sejam importantes, eu vou também. É uma espécie de dever. Não é por mim, percebe? — é pelo país. Eu não quero é que me tramem!»
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«Alguma mensagem final?»
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«Obrigado. Os portugueses são filhos da labuta. Precisam de férias. O meu partido garante—está já em estudo na comissão de que eu sou presidente — a extensão das férias para todos os filhos da labuta. É portanto urgente que votem em mim. Sou um filho da labuta como toda a gente, mas sou mais assumido do que toda a gente. A minha mulher e a minha filha apoiam-me. Não acreditem no Governo, não acreditem na outra oposição! Vamos fazer deste país um autêntico pais de filhos da labuta, mais filhos da labuta que os outros todos!»
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Crespim Afreixo Afluxo Estorninho, depois desta declaração final, pausou com solenidade satisfeita. Via-se que tinha conseguido fazer passar a sua mensagem. Levantamo-nos para sair. De repente pareceu nervoso. Agarrou-nos o braço. «Espere lá, há uma coisa que se esqueceu de perguntar, foi aquilo sobre música. É que eu gosto muito de música: Verdi, Pavaroti e essas coisas. E o Rui Veloso, também! É claro, é mais para a minha filha. Mas eu gosto muito do que a minha filha gosta. Já tenho o disco dele. Escrevam, por favor, que tenho o disco dele. Eu mando-o comprar, se for preciso! E o dos PSP também! Mas, pelo amor do Céu, digam que tenho o disco dele!»
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(O Primeiro de Janeiro, 19 de Agosto de 1990)
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

quinta-feira, 7 de junho de 2007

A Chave do Dia - 12


JMR
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Ontem, em viagem, um amigo deu-me a conhecer este site que é da sua autoria. Não só é útil e completo como confirma a necessidade de alguma sinalização das conectividades da rede. A prova é física: tem três a quatro vezes mais visitas do que o blogue mais visitado (do nosso blogómetro).

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Quando blogar é ficção apetecida - 5

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Extractos de posts de natureza ficcional a que apetece criar o início e o fim do enredo, ou tão-só desfrutar o pousio em media res.
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"O professor Adriano Moreira contou-nos, então, numa dessas aulas ao entardecer, defronte ao jardim tropical muito mal iluminado de árvores exóticas, relva esparsa e mero pachorrento no lago sombrio, que o presidente Kennedy quando chegou ao poder usou da condescendência familiar com o secretário-geral do PCUS Krushchev, pela tratando-o inclusivamente por "oncle Nikita"!... O tratamento inusitado, do presidente americano se assumir uma espécie de "sobrinho" do líder russo, teria sido um dos factores que conduziu à instalação dos mísseis em Cuba e consequente crise porque Krushchev viu nessa atitude um sinal de fraqueza de alguém que a história provou não ser mole."
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Pré-publicações - 35

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Pré-publicação:
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"Há um hiato de quase dois mil anos entre Platão e Thomas More, durante o qual a utopia parece ter desaparecido, pelo menos no Ocidente. A Vida de Licurgo, de Plutarco, recua a um passado mítico; o ensaio de Cícero sobre o Estado é uma obra sem grande importância; e A Cidade de Deus, de Santo Agostinho, destaca-se sobretudo pelo brilhante ataque jornalístico à velha ordem de Roma, que faz lembrar as diatribes actuais de Maximilian Harden.[1] Tanto quanto sei, não existe, para além destas obras, praticamente nenhum outro texto que faça sequer alusão à questão da utopia – excepto numa concepção de utopia enquanto vaga época áurea do passado onde todos os homens eram virtuosos e felizes.
Contudo, embora ausente da literatura, a utopia não estava ausente do espírito dos homens; e a utopia dos primeiros mil e quinhentos anos depois de Cristo é transplantada para as alturas, e apelidada de «Reino dos Céus». É claramente uma utopia de escape. O mundo, aos olhos dos homens, está repleto de pecado e de problemas; não há nada a fazer, a não ser procurar o arrependimento e o refúgio na vida depois da morte. A utopia do cristianismo é, portanto, fixa e imutável: aquele a quem um passaporte tiver sido concedido poderá entrar no reino dos céus, mas nada pode fazer para criar ou moldar este paraíso. A mudança, o combate, a ambição e o progresso pertencem ao mundo do pecado, e não concedem a satisfação derradeira. A felicidade não reside na acção, mas em assegurar um saldo positivo no balanço final – a felicidade, por outras palavras, encontramo-la na indemnização final. Este mundo de impérios em desagregação e cidades delapidadas abriga apenas os violentos e os «mundanos».
Se durante este período a ideia de utopia perde o seu apelo prático, o desejo-de-utopia permanece; e o desenvolvimento do sistema monástico, bem como as tentativas de grandes papas, a partir de Hildebrando, no sentido de estabelecer um império universal sob o escudo da igreja demonstram que, como sempre, existia uma ruptura entre o que as pessoas pensavam e aquilo que as circunstâncias específicas e as instituições existentes as obrigavam a fazer. Não precisamos de dar atenção a estas utopias parciais e institucionais antes de chegarmos ao século XIX. O aspecto a realçar, agora, é que o reino dos céus, enquanto utopia de escape, não conseguiu manter a fidelidade dos homens, quando estes descobriram outros canais e possibilidades.
A transição de uma utopia celestial para uma utopia mundana ocorre durante esse período de transformação e de ansiedade que marcou o declínio da Idade Média. A sua primeira expressão é a Utopia de Thomas More, o grande ministro ao serviço de Henrique VIII."
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[1] Maximilian Harden, pseudónimo de Felix Ernst Witkowski (1861-1927), jornalista alemão.
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Primeira pessoa

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Isabel Coutinho assina hoje um artigo no Público (P2) sobre a Book Expo America que terminou anteontem em Nova Iorque. O destaque é sintomático e pretende enfatizar tendências em princípio novas: "(...) os departamentos de marketing das editoras estão a mudar os circuitos de promoção do livro utilizando a internet. Apostam nos blogues, no podcasting e em vídeos com traillers de livros". Seja como for, é verdade que alguns meses antes da BEA de 2007, estes mesmos condimentos e alguns outros foram devidamente testados entre nós. Sei que o Público terá sido dos poucos jornais que não se lhes referiu, mas a memória, essa, fica aqui, aqui e aqui para ser avivada. Eu gosto da Isabel Coutinho, já agora. Mas a verdade não pode nunca ser entendida como puro acidente de relato. Já lá vai o tempo em que o pudor e a primeira pessoa do singular se arrasavam num campo de batalha feito de mutismos.

O Triunfo do Design - IV

Ler o texto completo na próxima Quinta-feira, no Expresso Online.
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No nosso tempo, a repetição deixou de ser um ritual. Sem qualquer negativismo o afirmo. É que se o rito tornava actual um mito, a repetição apenas torna actual a própria actualidade. Ao contrário do que Nietzsche disse, “Deus” não morreu. Pelo contrário, “Ele” desceu à Terra e transformou a repetição na nova “Escritura”. Ao fim e ao cabo, a repetição é o alicerce do estado generalizado de sedução em que o nosso espaço público se tornou. Neste novo reino sagrado, a conquista persuasiva do sentido passou a exceder de longe a verdade (e, naturalmente, pouco se importa com ela). É assim em todos os tipos de comunicação que hoje se “criam” (na esfera política, publicitária, institucional, etc.). E é assim, naturalmente, no âmago do código genético que os possibilita a todos: o design.

Escavações Contemporâneas - 23


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Fernando Ilharco)
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Somos Todos Soldados (I - 17/08/1998)
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Nada parece ir já tão na frente como as guerras do novo mundo. Quando chegam já é tarde para lhes fazer frente. Quando são ganhas, geralmente não são conhecidas. Por vezes apenas se sabe quem perde. O anonimato, a surpresa, a prevenção e a dimensão planetária imperam nos conflitos que emergem rumo ao século XXI.
Nas situações de tensão os líderes políticos, económicos ou militares multiplicam declarações que visam ganhar ou aumentar o apoio tácito ou o suporte activo da população que representam ou que querem representar. Mas as preocupações democráticas que existem são as que já existiam. Os novos tempos não estão a trazer nada de novo nesse campo. Não há democracia electrónica alguma que não seja a que identifica os que estão nas redes e os que não estão. A motivação pura e simples, o chamado “factor moral” das guerras da era industrial, é também um factor a considerar. No entanto talvez nem a “motivação”, nem a “legitimidade democrática” sejam mais o essencial da história – se é que alguma vez o foram.
Os exércitos convencionais estão em redução drástica. Diz-se que vêm aí os tempos das unidades de elite: pequenas, móveis, ultra-sofisticadas, profissionais até à ponta dos cabelos. Diz-se também que “não há mais linha da frente”. Tudo isto sugere uma conclusão óbvia: se as guerras continuam, mas não há linha da frente, nem exércitos convencionais, então onde estão os soldados?… és tu, caro amigo, Hoje, os soldados somos todos.
Os batalhões e os milhões estão em fragmentação por todo o mundo. Quando a guerra assenta na capacidade de fazer sentido, de detectar movimentações, de seleccionar dados, de monitorizar o pormenor, de surpreender e de esperar o inesperado, os soldados são quaisquer uns. A situação a cada momento determina quem tu és, qual o teu papel, o teu poder, quais as expectativas que os vários lados vão fazer descer sobre ti, qual relâmpago caído dos céus.
Numa sociedade mediatizada, de comunicação instantânea, intensamente interligada e móvel, é difícil ou mesmo impossível vencer conflitos sem a verdadeira rede das redes a funcionar a nosso favor: os olhos e ouvidos de milhões e milhões de civis, espalhados por todo o mundo, e empenhados em defender um estilo de vida que é “o seu”. Sem esta enorme teia estar sensibilizada e familiarizada com mecanismos de alerta fáceis e disponíveis é impossível aguentar confrontos ou vencer conflitos na era pós-industrial.
Vamos a alguns exemplos que são já o dia a dia do cidadão comum. Em Londres, quase todo centro financeiro da cidade está sob vigilância de vídeo, em permanência e em tempo real. Nas paragens de autocarro e no metro uma das mais eficazes armas de prevenção não deixa dúvidas. Lê-se em enormes cartazes: “se és um ladrão, estás tramado!”, “nunca mais vais estar seguro”. Depois explica-se porquê: qualquer um, em qualquer lugar, que veja algo suspeito deve ligar para um número de telefone gratuito, que garante o anonimato do queixoso.
Os queixosos tendem no entanto a prescindir do anonimato quando as policias oferecem fortunas por pistas que levem à prisão de suspeitos. Quase 400.000 contos é quanto os EUA oferecem neste momento no caso das embaixadas em África. Estes prémios mudam a vida de qualquer um: os maus vão dentro; os queixosos vão de férias para o resto da vida; a comunidade local sente-se mais segura e muito mais atenta ao próximo prémio.
Sem este apoio dos espectadores/actores da realidade mediatizada é duvidoso que se consiga ultrapassar situações de conflito ou de guerra. “Numa era em que o armamento se torna intangível algumas das mais potentes armas são protagonizadas pelos media” (Alvin Toffler, “The New Intangibles” em “In Athena’s Camp: Preparing for Conflict in the Information Age”, RAND, EUA, 1997).
A natureza da guerra nos dias de hoje não assenta no embate frontal da força bruta, mas na capacidade de detectar dados potencialmente relevantes e de os comunicar em tempo real para quem pode influenciar o fluir das decisões. Há duas semanas foi o que se sabe nas embaixadas dos Estados Unidos da América na Nigéria e em Dar-Es-Salam. O “Público” na passada semana noticiava-se que em 1997 a CIA tinha impedido pelo menos cinco atentados do género. Essa é a natureza da guerra que corre: prevenir, não deixar acontecer, impedir, evitar, contornar, mudar, ultrapassar. Não foram os mísseis teleguiados, nem os Marines que impediram os atentados. Quem os impede, sabota, manipula, é gente afogada em tecnologia, de telemóvel, ligada às redes de computadores, aos satélites e aos contactos do primeiro ao terceiro mundo, passando por todos os sub-mundos do entretanto.
E as coisas vão ficar mais complicadas. Sem o apoio dos olhos e ouvidos de milhões e milhões não é possível vencer. A força bruta está mais barata do que nunca e a mais barata forma de a derrotar é não a deixar actuar.
Deixando de lado os velhos confrontos de tanques, aviões e metralhadoras, existe uma outra forma de ganhar as guerras do futuro. Uma forma vital e final. Que leva tempo a desenvolver, mas que já está em marcha, é o entendimento do mundo.“Demasiada gente está a ver que ganhámos”, queixava-se um militar de alta patente dos EUA num seminário em Washington no ano passado. Os inimigos já não são os mesmos de sempre: Estados, nações, exércitos. Há por aí gente com outra forma de entender as coisas: “os novos inimigos tem outro entendimento do mundo”, “vivem noutro mundo”, “guerreiam doutra maneira”. Alguns dos novos inimigos e das novas guerras estão em curso: terrorismo internacional, impérios criminosos globais, cartéis da droga, Estados párias. Como enquadrar o que se passa? Quem está contra quem em que confronto? Quais são os conceitos relevantes?
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Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)