segunda-feira, 4 de junho de 2007

O ano das antecipações ficcionais

w
O incansável colaborador e amigo Carmo da Rosa antecipa-se à opinião pública portuguesa e acaba de enviar para o Miniscente o seu actualizadíssimo relato sobre o caso "BNN + doação de rins" que teve lugar na Holanda no fim-de-semana passado. Eis o texto:
e
No dia 1 de Junho, e não 1 de Abril, golpada genial do canal BNN da televisão holandesa. Uma doente terminal (tumor no cérebro, com apenas 6 meses de vida), iria doar um rim num programa de televisão ao vivo a um dos três candidatos escolhidos por ela entre 25 doentes. Doentes com mais de 50 anos, fumadores e desempregados foram eliminados. O primeiro-ministro Balkenende deplora profundamente a transmissão do programa e diz que isto vai lesar a imagem da Holanda no resto do mundo. É a opinião da maioria dos parlamentários, tanto de esquerda como de direita. Mais de 100 jornalistas presentes, mais de metade são estrangeiros. Os candidatos, duas mulheres e um rapaz, precisam realmente de um rim. É mostrado um curto filme de cada candidato sobre o que fazem na vida, os problemas que têm e todos os projectos que ainda pensam realizar, caso Lisa, a ‘doente terminal’ - uma excelente actriz que consegue, não sei como, combinar generosidade com uma frieza implacável –, lhes queira conceder o rim. Para isso têm que responder às perguntas de Lisa que quer ter uma opinião bastante precisa do candidato da sua escolha, i.e, da pessoa que irá (há já um contrato para o efeito) dentro de um mês receber o seu rim. Ao mesmo tempo chovem telefonemas e SMS em que o público também pode escolher um dos candidatos. A preferência do público vai para Charlotte. Lisa pergunta a Claire: "Claire, aceitarias um rim de um assassino em série?". Claire embucha, mete os pés pelas mãos, diz primeiro que não mas acaba por afirmar: "Claro que sim, um rim é um rim". Eu dizia à minha mulher: "Isto não pode ser, não podem pôr as pessoas, sobretudo a Lisa, perante este dilema!"- De repente, este terrível dilema lembra-me o filme de Alan Pekula, Sophie’s Choice. No momento em que Lisa, depois de um suspense terrível, vai finalmente apontar o candidato da sua escolha, o apresentador tira-lhe repentinamente a palavra! E antes que eu (mentalmente) tirasse o rim a este cabrão pelas costas com uma naifa, por ser totalmente insensível, diz ele, com uma grande calma:"‘Até para nós (BNN) isto seria ir longe de mais!. Não, a Lisa é uma actriz totalmente saudável e os candidatos são realmente doentes mas estão implicados no nosso complot e aceitaram participar para chamar a atenção para a falta de doadores de rins". Logo a seguir ao programa trinta mil pessoas assinaram o formulário como dadores de órgãos. Eu, ainda vou pensar no assunto, mas achei o programa genial, afinal de contas…

Escavações Contemporâneas - 22


LC
w
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: João Pereira Coutinho)
e
A arquitectura da felicidade
e
Alain de Botton tem má fama. Sobretudo nos círculos canónicos, onde é visto como besta negra da filosofia popular. Preconceito idiota. Quando leio Alain de Botton, recordo sempre as palavras do escritor Joseph Addison na original «Spectator»: se Sócrates trouxe a filosofia do Céu para a Terra, é necessário também trazer a filosofia das bibliotecas para os cafés. Alain de Botton não é filósofo; é divulgador de. Que o mesmo é dizer: relembra velhas verdades a novos auditórios. Cumpre a função.
E é precisamente de «função» que nos fala o seu último livro, The Architecture of Happiness (Hamish Hamilton, 280 págs.), a melhor colheita do autor até ao momento: cuidado na forma, informado no conteúdo. E particularmente devastador para os excessos modernistas do século XX, que sacrificaram a natureza humana à beleza racionalista da função arquitectónica. Que nos diz Alain de Botton? O mesmo que Ruskin um século antes: a arquitectura não se limita à qualidade técnica que exibe; a arquitectura é uma arte humana e, como todas as artes humanas, lida essencialmente com a natureza dos homens em sociedade. Tradução: se um arquitecto acredita que o seu «métier» é semelhante ao de um poeta ou pintor, ele passa ao lado do essencial. A arquitectura tem pouco a ver com a originalidade solipsista de outras expressões artísticas. Pior: na busca da originalidade arquitectónica existe sempre uma pulsão autoritária - a necessidade de impor colectivamente o que apenas nos pertence individualmente. Não preciso dar exemplos, embora as experiências urbanísticas do nosso Siza fossem um bom exemplo: a Avenida dos Aliados, no Porto, um espaço tradicionalmente de encontro e fruição, está hoje convertido num deserto de cimento por onde se passa mas não se fica.
Alain de Botton também oferece um caso: na década de 20, Henry Frugès, industrial francês, resolveu encomendar a Le Corbusier um conjunto de habitações para os seus operários. Le Corbusier correspondeu à encomenda com universo utilitário e concentrado: habitações despojadas; janelas rigorosamente rectangulares; total ausência de «folclore decorativo», para usar as palavras do próprio. O resultado, do ponto de vista funcional, é perfeito. Mas perfeito na cabeça de Le Corbusier.
Na realidade, os operários que passavam 12 ou 14 horas a trabalhar numa fábrica desejavam mais do que «função» e «racionalidade» na altura de regressar a casa. Por isso começaram, com o passar do tempo, a rasgar janelas onde só havia cimento; a plantar pequenos jardins; a acrescentar portadas de madeira; e a desfigurar, para horror do arquitecto, o sonho abstracto que o animara. Ainda hoje é possível visitar Pessac, no sul de França, e contemplar o lugar do crime: o lugar dessa revolta humana contra os abusos do racionalismo modernista.
Longe de mim sugerir aos portuenses que saiam à rua e, confrontados com uma paisagem lunar, desatem no cultivo de uma horta. Relembro apenas que os sítios que habitamos devem expressar a forma como vivemos. E nem sempre espaços perfeitos, estética ou funcionalmente, são uma promessa de felicidade. Se dúvidas houvesse, bastaria olhar para as nossas próprias casas: espaços imperfeitos que se vão moldando ao nosso corpo, e ao corpo das nossas rotinas, como se fossem peças de vestuário que habitamos por dentro. E que não trocamos por nada.
e
Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

Pré-publicações - 34

Jean Echenoz, Ravel, (traduzido do francês por Armando Silva Carvalho), Sextante Editora, Lisboa, 2007 (Junho).
e
Pré-publicação:
e
"Sair do banho às vezes não é fácil. Em primeiro lugar, custa abandonar a água morna e cheia de sabão, onde se formam bolhas presas aos cabelos perdidos no meio das células de pele friccionada, e enfrentar o ar frio e brutal duma casa mal aquecida. E a seguir, mesmo esquecendo o tamanho que se tem e a altura a que se ergue essa banheira com os seus pés de ave de rapina, é sempre difícil saltar por cima do rebordo e conseguir alcançar, procurado a custo com o dedo grande do pé, o chão ladrilhado do quarto de banho. Convém actuar com prudência para não aleijar o entrepernas, ou correr o risco de escorregar e dar um trambolhão. A solução para esta dificuldade seria certamente mandar fazer uma banheira à medida, mas isso significa despesas, talvez ainda maiores que o custo da instalação do aquecimento central, que continua a não ser suficiente, apesar de instalado há pouco tempo. Seria bem melhor permanecer, assim, dentro de água até ao pescoço, horas e horas, para não dizer para sempre, accionando a torneira com o pé direito, por intermitências, e deixar entrar de vez em quando um pouco de água quente, regulando o termóstato, mantendo uma boa atmosfera amniótica.
Mas a coisa não pode durar mais, como sempre o tempo não pára, daqui a menos de uma hora Hélène Jourdan-Morhange vai aparecer. Ravel é obrigado a sair da banheira e, depois de se secar, enfia um roupão de um tom pérola refinado, lava os dentes com a escova articulada, barbeia-se sem omitir um pêlo que seja, penteia-se sem descurar o depurado risco, depila uma sobrancelha onde durante a noite um pêlo teve a ousadia de crescer como uma antena. Em seguida, colocando em cima do toucador um estojo de mãos, de luxo, feito de carneira de primeira escolha num tom de pele de lagarto e acolchoado em cetim, no meio de escovas de cabelo, pentes de marfim, e frascos de perfume, aproveita as unhas amolecidas pela água quente para as cortar sem dor, e pelo tamanho devido. Pela janela do quarto de banho esteticamente arrumado, lança um olhar para o jardim a preto e branco, sob as árvores despidas, a relva cortada está morta, e o jacto de água paralisado pelo gelo. É um dos últimos dias de 1927, e é ainda cedo. Depois de ter dormido pouco e mal, Ravel está de mau humor como todas as manhãs, sem sequer saber o que vestir, o que agrava a má disposição."
e
Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

domingo, 3 de junho de 2007

A Chave do Dia - 11


JMR
e
Perdido entre a felicidade de várias escritas, nomeadamente uma série de micro-ensaios e a súbita conclusão (e ininterrupta revisão) de uma peça de teatro, o que mais me apetecia era não ter que enfrentar amanhã a segunda-feira (nem, hoje mesmo, uma feira do livro onde irei ainda comparecer). Às vezes, pergunto-me acerca das razões da felicidade. Para além da velha história constitucional e americana de setecentos, até os economistas do nosso tempo já a contracenam com o PIB. Mas eu, no silêncio da minha casa (ouve-se Mahler), não contraceno a felicidade seja com o que for, nem tão-pouco faço lei da sua silhueta inquieta e encapelada. Interrogo-a e é tudo. Mas o mais curioso é que, ao lado da interrogação, a felicidade me continua a aparecer como um espaço que diz agora, um agora vago. Uma nuvem foliforme talvez.

Pré-publicações - 33

e
Iñaki Abad, Despedidas fatais, Sextante Editora, Lisboa, 2007 (Junho - traduzido do castelhano por Marcelo Correia Ribeiro).
e
Pré-publicação:
e
"Arrastando o saco de viagem como se disso dependesse a sua vida, Isabel Varela puxava por ele mas de nada lhe valiam as rodas, atolavam-se no empedrado do passeio que rodeava a imponente fachada da estação central da Piazza Garibaldi, e retirá-las de lá exigia um ulterior esforço do braço, um golpe seco, esgotante. Havia algo de desesperado naquele movimento aos tropeções, mas o que mais surpreendia era a firmeza e a determinação com que a mulher avançava no meio da gente, a cabeça erguida, a cara descoberta e o cabelo castanho solto, o impermeável comprido, azul-marinho, ajustado na cintura e os passos desenvoltos. Passou diante duma farmácia onde piscava uma cruz verde e luminosa, e dirigiu-se para a entrada principal, onde se concentrava um formigar incessante de pessoas. Umas saíam apressadas para as paragens dos autocarros ou para a bicha duma praça de táxis vazia, enquanto outras, pelo contrário, se precipitavam para o átrio da estação.
– Táxi, táxi – murmurou alguém como uma cobra junto do pescoço de Isabel Varela. – Táxi, signorina, táxi…
Continuou a andar sem prestar atenção ao tipo que lhe oferecera os serviços de um táxi ilegal e que, com mais uma dezena de outros, revoluteava à roda de algum turista ou de um incauto, dispostos a transportá-los num veículo sem licença nem taxímetro e a enganá-los no preço da corrida ou, no pior dos casos, a roubá-los em qualquer descampado da periferia.
– … táxi, signorina, táxi – as palavras eram moscas pegajosas – táxi barato, táxi para a cidade ou para fora, táxi…
Vagueavam também pela zona várias albanesas de rostos citrinos e olhar ávido, com crianças enfaixadas nos seus colos, prontas para roubar habilmente qualquer objecto de valor. Isabel aferrou-se ainda com mais força ao cabo do saco, não para defender as bagatelas da mulher que tinha começado a deixar, a identidade de um passado que se reduzia a uns poucos vestidos, camisolas, roupa interior, um necessaire, cremes, alguns livros lidos e inúteis, sapatos e uma agenda, mas apenas por essa estranha fidelidade aos féretros, que era precisamente como ela sentia, padecia e arrastava aquele saco. Vigiamos os féretros mesmo se só contêm matéria morta, velamo-los, acompanhamo-los e empurramos, carregamo-los, levamo-los de um lado para o outro, choramo-los. Abraçamo-nos desesperadamente a eles e depois damos-lhes sepultura sob a terra, ou encerramo-los em nichos ou os incineramos. Já nada contém de vital, só matéria morta, repetiu para si mesma; e, todavia, defendemo-los com unhas e dentes, com lágrimas e recordações. O saco era o féretro da vida que Isabel Varela estava a deixar para trás, sim, porque ao fim e ao cabo, a vida é um féretro que trazemos às costas e que vamos enchendo a cada minuto, a cada segundo, que torna mais pesada a nossa caminhada, como costumava dizer o seu pai, e quando já não podemos dar sequer mais um passo, quando aquela caixa está cheia e nos extenua, significa que é chegada a nossa hora e, simplesmente, morremos.
Ela já não podia nem queria continuar a carregar aquele peso, mas também não queria morrer."
e
eActualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

sábado, 2 de junho de 2007

Belo fim-de-semana

Acabei há minutos uma peça de teatro. Chamei-lhe A Rosa de Junho.

Blogues e Meteoros - 33

e
(crónica publicada desde anteontem no Expresso Online)
e
O Triunfo do Design - III
e
Quando olhamos à nossa volta, não é raro sentirmos nos objectos, nas mensagens e no design que lhes dá corpo uma espécie de pulsação. É como se o nosso corpo andasse por aí, fora de nós, perdido entre as imagens que calcorreiam o planeta a uma velocidade estonteante. O facto tornou-se tão comum que uma simples referência, como é o caso, acaba quase sempre por misturar um fio de surpresa com a mais elementar constatação do óbvio. Esta aparente invisibilidade do design é um dos aspectos mais fascinantes do seu triunfo no nosso dia a dia.
e
Nos últimos trinta anos muita coisa aconteceu para que tivéssemos chegado a esta troca de pulsações entre os objectos que nos vestem, transportam ou acomodam e nós próprios. Dou dois exemplos. O primeiro, já um clássico, deu pelo nome de “Lateral Thinking” (E. de Bono, 1970) e baseou-se na oposição entre a arrumação “vertical” da mente (sistema de “construção de padrões”) e as mensagens cujos formatos a conseguissem pôr em causa. As imagens “Benetton” dos anos noventa — hoje vulgarizadíssimas — constituíram um bom exemplo deste tipo de desmontagem, na medida em que obrigavam a suspender a padronização habitual da mente.
e
O segundo exemplo tem apenas dois anos e apareceu por via das ideias de Lindstrom (“Brand Sense”, 2005) que estão agora a invadir o mercado sob o signo dos designs sensoriais: “saborear”, “cheirar”, “tactear”, para além dos mais clássicos “ouvir” e “ver” (Damásio acrescentar-lhes-ia certamente a variante “somatossensorial”). Estas duas formas visuais de atenção realçam, de modos diversos, a característica mais emblemática do design actual: fazer do presente um território realizável e crível que incorpore as nossas emoções e não um “mero trânsito”, como pretendiam os místicos medievais ou os ideólogos oitocentistas.
e
Os designs contemporâneos estão, pois, a estimular a migração dos nossos processos mentais e sensoriais, transformando o espaço público num complexo orgânico onde a nossa carne, as nossas pulsões e impulsos se revêem como se agissem no seu espaço mais íntimo.
e
Abruptamente, saltámos todos para cima do palco da tragédia grega. A grande catarse já lá vai e agora habituámo-nos a ser heróis ou vilões, tanto faz, que se entregam a um único desígnio: o desejo. É como se o riso, o choro, a livre associação de ideias, os pequenos prazeres ou a comoção que é própria dos grandes acontecimentos se libertassem das suas âncoras mais habituais para vaguearem, entre nós e nós próprios, de modo espontâneo. Este novo complexo orgânico — mais do que Big Brother, um verdadeiro Big Body especular e espectacular —, estando fora de nós, está também dentro de nós e sorri-nos diariamente nas ruas, nos outdoors, nos objectos domésticos, na televisão, na arte pública, na moda, nos blogues, nos desportos, na comunicação política ou nos hipermercados.
e
Através do sortilégio do design, a cidade global é cada vez mais preenchida pelo espelho confortado do nosso corpo e por uma nova confidência que se está a reencontrar consigo mesma. A satisfação, o usufruto e a paixão estão a fixar-se na cultura material que nos envolve como um segundo ar, tão sintético quanto espiritual.
e
Há uma nova ergonomia que nos está, a pouco e pouco, a levar o corpo (e as pulsações) para fora de si. Há uma nova encarnação que está a dar-nos de volta, no quotidiano mais insuspeito, o corpo, a alma e o pathos. Há um novo e deus em cena a escrever direito por linhas muito subtis.

Escavações Contemporâneas - 21


LC
e
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: António Quadros, Org. António M. Ferro)
e
Os escritores: uma missão sem tempo*
e
Toma aspectos angustiosos, o drama dos escritores. Homens de missão, como podem eles cumpri-la com a plena responsabilidade sem a qual a obra humana nunca se completa? A missão degrada-se entre nós, em virtuosismo amador. Raras são as actividades que se constituíram profissionalmente e não conquistaram os seus sagrados direitos. A grande excepção é a actividade intelectual. Dir-se-á que a literatura não é uma profissão, mas sim um sacerdócio, algo que plana acima do grosseiro materialismo da vida. Enquanto o escritor não dispuser de tempo, porém, a sua actividade não poderá constituir um sacerdócio, como não constitui uma profissão.
O escritor também tem o direito inalienável à família, à casa, à satisfação das mais naturais ambições humanas. Para realizar estes fins, busca a subsistência e a sobrevivência fora da sua vocação, em outras profissões, em trabalhos burocráticos que o diminuem intelectualmente e lhe roubam o tempo, o tempo sem o qual não haverá ócio e portanto criação.
e
*«A Existência Literária»
e
Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)

sexta-feira, 1 de junho de 2007

Pré-publicações - 32

e
Edith Wharton, Em Marrocos, Publicações Europa-América, Mem Martins, 2007.
e
Pré-publicação:
e
"Com tais oportunidades à minha frente, era impossível, nessa radiosa manhã de Setembro de 1917, não partir logo para Tânger, impossível não fazer justiça à cidade de um azul pálido alcandorada entre muros castanhos contra os densos jardins da «Montanha», à animação do mercado e às belezas secretas das suas íngremes ruas árabes. Tânger está apinhada de gente em trajes europeus, há letreiros ingleses, franceses e espanhóis por cima das suas lojas e táxis nas suas praças; pertence, tanto como a Argélia, ao familiar mundo de viagens — e aí, para além da última prega da «Montanha», fica um mundo de mistério, onde irrompe a aurora rosada. O automóvel está à porta e lá vamos nós.
Depois de deixar a estrada de macadame que sai de Tânger para sul, parece que embarcamos num oceano petrificado num barco que não está à altura da aventura. Assim, aos saltos entre lombas e rodados, a descer margens e a entrar em rios, a subir precipícios e a entrar em poços de areia, ganha-se fé no transporte usado e na coluna vertebral; mas ambos devem estar sãos em todas as articulações, para resistirem ao esforço dos longos quilómetros até Arbaoua, o posto fronteiriço do protectorado francês.
Felizmente, há mais em que pensar. Na primeira curva à saída de Tânger, a Europa e os europeus desaparecem, e assim que o automóvel começa a subir e descer os montes áridos além dos últimos jardins, tem-se a certeza de que cada figura na estrada será pitoresca e não prosaica, cada traje gracioso e não grotesco. Do mesmo modo, sabe-se que não haverá mais camionetas, nem eléctricos, nem veículos motorizados, apenas longas filas de camelos que se erguem em frisos castanhos contra o céu, burricos pretos a trotar pela vegetação debaixo de selas carregadas, e nobres figuras embrulhadas andando ao lado deles ou majestosamente empoleiradas nas suas bossas. E durante quilómetros e quilómetros não haverá mais cidades — somente, salpicando algumas encostas nuas, círculos de palhotas com telhados de junco numa paliçada de cactos azuis, ou uma ou duas centenas de tendas nómadas feitas de pêlo de camelo preto, abrigadas em paredes de espinhos de barbela e agrupadas em redor de um terebinto e um poço.
Entre estas colónias nómadas fica o bled, a imensidão de terra inculta e deserto de palmito; uma terra tão destituída de vida quanto o céu está vazio de nuvens. O cenário é sempre o mesmo; mas, para quem tem o amor dos grandes espaços vazios e do jogo de luz nas extensões de terra e rocha ressequida, a uniformidade faz parte do encanto. Num tal cenário, cada ponto de referência ganha um valor extremo. Observa-se, durante quilómetros, a pequena cúpula branca da campa de um santo a erguer-se e a desaparecer com as ondulações da pista; por fim chega-se lá, e a campa solitária, sozinha com a sua figueira e o seu poço de parapeito partido, dá significado à imensidão. A mesma importância, mas intensificada, assinala a aparição de cada figura humana. Os dois cavaleiros vestidos de branco que passaram em fila indiana na encosta vermelha até ao círculo de tendas no espinhaço têm uma importância misteriosa e inexplicável: segue-se o seu avanço com olhos que doem de conjecturas. Ainda mais empolgante é o encontro da primeira mulher velada que lidera uma pequena cavalgada vinda do sul. Todo o mistério que nos espera espreita pelos buracos para os olhos nas roupas tumulares que a abafam. De onde vieram, para onde vão, todos estes lentos viajantes vindos do desconhecido? Talvez apenas de um douar coberto de colmo para outro; mas desenrolam-se atrás deles distâncias intermináveis, e cheiram a Tombuctu e ao deserto longínquo. As figuras que devem abundar nas cidades saarianas, no Sudão e no Senegal. Não há elos quebrados; estes viandantes olharam a edificação de cidades que eram pó quando os Romanos empurraram os seus postos avançados através do Atlas."
e

Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença, Sextante Editora e Vercial.

Escavações Contemporâneas - 20


LC
e
O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas)
e
O que é a amizade?*
e
Na Ética a Nicómaco, Aristóteles fala longamente da amizade. A amizade (philia) é uma virtude que conhece várias espécies: pode ter origem na utilidade, no prazer ou na bondade.
e
É esta última que Aristóteles considera perfeita. Traduz, nas suas palavras, «o próprio fundo do ser e não um estado acidental». É manifesta e coextensa à justiça. «São, portanto, os bons que são amigos no sentido rigoroso do termo, os outros são-no apenas por acidente e por analogia com os primeiros».
e
Não há nenhuma razão para não falarmos a linguagem de Aristóteles. É pelo menos duvidoso que a experiência da amizade se haja modificado tão profundamente no curso da história humana a ponto de tornar incompreensível o que Aristóteles tem a dizer sobre ela. E o que se ganha, pelo recurso à sua descrição compensa largamente aquilo que ela nos pode fazer esquecer.
e
Num ponto preciso, pelo menos, o que Aristóteles diz ilumina profundamente a experiência da amizade: a amizade é uma virtude política. É política no sentido rigoroso que Aristóteles confere a este termo e que não deve ser confundido com aquilo que as vozes degradadas do nosso tempo pretendem fazer crer que pensam quando dizem que «tudo é político». Esta última afirmação é uma mentira absoluta.
e
Há uma excepção que basta: o amor. O amor não é político. É mesmo, como o soube ver Hannah Arendt num dos seus livros terríveis e demónicos, a mais antipolítica de todas as actividades.
e
Mas a amizade é uma virtude política porque diz respeito a uma troca equitativa, ou pelo menos proporcional, entre os cidadãos. Regula-se por direitos e deveres. Há uma passagem muito bonita da Ética a Nicómaco em que Aristóteles encontra para as formas políticas que descreve — realeza, aristocracia e timocracia — modelos na vida privada: à realeza corresponderia a relação entre o pai e os filhos; à aristocracia, a existente entre o marido e a mulher; e à timocracia, a relação entre os irmãos. Nas suas formas puras, não degeneradas, a amizade constituiria o próprio fundamento da sociedade e garantiria a concórdia.
e
Voltemos à comparação com o amor. Sem dúvida que o amor tem regras. Mas são, como se sabe, pelo menos desde a Antígona, regras completamente diferentes das regras políticas, radicalmente alheias a elas. Quando duas pessoas que se amam falam, não estão a falar a linguagem política da amizade. Estão a ter uma conversa que nada tem a ver com tudo o resto, uma conversa para a qual não há resto. O amor exprime-se na proposição: «Eu quero apenas que Tu existas», como Santo Agostinho, que amava Deus, profundamente viu. O amor é excessivamente gratuito — muito mais gratuito do que a amizade, que, mesmo na forma mais elevada descrita por Aristóteles, comporta sempre alguma dimensão de utilidade.
e
É verdade que as amizades mais profundas — as que se tecem entre seres que se descobrem como funâmbulos atravessando o abismo da existência — têm, sempre, e necessariamente, uma gratuitidade próxima do amor. É, no entanto, uma verdade que não põe em causa a distinção essencial.
e
A amizade compõe (quer dizer: recorta e filtra) o mundo — o amor destrói-o.
e
Confundir estas coisas — a lei humana da amizade e a lei divina do amor — é realizar o terrorismo, vingando Antígona como ela não desejaria ser vingada. O gesto de Antígona ao sepultar Polínices foi um gesto radicalmente antipolítico, ditado pela sublimidade do amor. Se fosse um gesto «revolucionário» seria desprezível. Como são desprezíveis os terroristas, cujo amor abstracto e perverso pela humanidade destrói a amizade. E como são não menos desprezíveis os que os «compreendem» e perpetuam a confusão entre a lei divina do amor e a lei humana da amizade — o que se poderia muito propriamente chamar, não fora a desgraciosidade da expressão, o complexo de Antígona.
e
*O Primeiro de Janeiro, 28 de Setembro de 1988
e
Segundas - João Pereira Coutinho
Terças - Fernando Ilharco
Quartas - Viriato Soromenho Marques
Quintas - Bragança de Miranda
Sextas - Paulo Tunhas
Sábados – António Quadros (António M. Ferro, Org.)