segunda-feira, 14 de maio de 2007

A Chave do Dia - 1

JMR
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A 20 de Julho do ano passado, concluí uma rubrica (que atingiu apenas 20 posts) que se chamou "Quotidianos". Vou relançá-la hoje com outro nome: A Chave do Dia. A nova rubrica reatará uma cena por mim vivida no próprio dia em que escrevo. Não será uma rubrica obrigatoriamente diária, como nada o é na rede, apesar da compulsão que lhe alimenta a fluidez do sangue.

Mini-entrevistas/Série II – 149


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Nome: Luís António Martins dos Santos, Docente universitário (Departamento de Ciências da Comunicação – U. Minho), 39 anos.
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Falar da Blogosfera já equivalerá, neste momento, a falar de ‘imprensa’ ou de ‘edição livreira’, por exemplo. Ou seja, se falarmos desse imenso espaço (o Technorati diz que já segue uns milhões) de edição pessoal como uma entidade una não passamos, certamente, de generalizações.
Esse lugar em que co-existem blogs, podcasts e wikis (para referir apenas os formatos mais populares) é tão imenso e tão variado que sinto dificuldade em encontrar uma só imagem para o descrever. Diria que as várias blogosferas são novos espaços de interacção social com particularidades; umas emanando directamente do formato – como um certa cultura de valorização do novo, uma predominância de um tipo especial de escrita (curta, dinâmica e com referências externas), uma facilidade enorme de disseminação de informações (Links, trackbacks, feeds de rss) – outras resultantes, sobretudo, da percepção de que estaremos perante espaços absolutamente distintos – a existência de regras de ‘presença’ e de relacionamento fluidas e a relativa desvalorização do ‘estatuto social físico’, por exemplo.
Creio que, no caso particular dos blogs (e não tanto no caso das salas de chat), o discurso sobre a alter-existência, sobre a duplicidade de registos (o eu físico e o eu virtual) não colhe. Pelo menos não colhe para as blogosferas que conheço. As existências ‘blogosféricas’ com as quais mais contacto são bem reais e, no mais das vezes, indistintas (na essência) das existências ‘off-line’ dos autores.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Com franqueza, ‘apenas através dos blogs’, não me recordo de nenhum de forma muito explícita. Mas isto acontece, parece-me, porque no meu ‘bloglines’ não tenho uma pasta especial para blogs e um outra para feeds de órgãos de informação. Está tudo misturado e a separação é feita pelos temas.
Há, porém, assuntos que foram despoletados na blogosfera e que segui com atenção, sendo que a sua presença nos ditos media tradicionais foi consideravelmente mais reduzida. Lembro-me, por exemplo, da recente polémica sobre a ‘net neutrality’.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Os blogs são, para mim, em simultâneo, espaço de recolha de sugestões, espaço de anotações e espaço de debate.São um universo de estímulos, um lugar de inquietude permanente. E isso – acho – é espaço vital para um curioso obsessivo como creio ser.
Aprendi muito nestes três anos que levo de interacção mais directa com os blogs e creio que, nesse particular, a minha ‘conta corrente’ vai sempre estar negativa.
Foi através dos blogs que conheci muitas pessoas com interesses semelhantes aos meus e que com elas partilhei algumas dúvidas. Foi, ainda, através dos blogs que conheci muitas pessoas pelas quais fui surpreendido.
Os blogs afastaram-me da televisão…e também isso vejo como um desenvolvimento positivo.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Não será nem mais nem menos do que todas as outras, se considerarmos (como eu faço) que ‘editorialmente livre’ é coisa
indissociável de ‘editorialmente responsável’.
Se esse for o nosso entendimento, aplicam-se todas as regras conhecidas (as legais e as do bom senso) sem grandes diferenças. E isso deixa-nos suficientemente livres para criar, assinalar, coleccionar, debater ou expor. Tudo, de uma forma mais simples e barata do que no passado.
A blogosfera não resolve problemas, não altera equilíbrios e não existe como espaço neutro (higienizado, se quisermos). Ela é, ao mesmo tempo, motor e reflexo e, nisso, importa passivos e activos de outros ambientes. É, portanto, tão restritiva e tão livre quanto os enquadramentos (e as pessoas) que participam, naquele momento, na sua construção.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete, Maria João Eloy, André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira, João Espinho, Henrique Raposo, Jorge Vaz Nande, João Melo, Diogo Vaz Pinto, Alice Morgado e Sérgio dos Santos, Adolfo Mesquita Nunes, João Paulo Sousa, Pedro Ludgero, João Tunes, Miguel Cardina, Paula Cordeiro, Edgar, André Azevedo Alves e Inês Amaral, David Luz, Saboteur, João Miguel Almeida, O Impensado, Hugo Neves da Silva, Paula Capaz, João Pinto e Castro, Sandra Ferrás, Alberto Lyra e Carlos Araújo Alves.

domingo, 13 de maio de 2007

Quando blogar é ficção apetecida - 3

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Extractos de posts de natureza ficcional a que apetece criar princípio e fim, ou tão-só desfrutar o pousio em media res.
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"Lembro-me da primeira vez que neveguei por um hipervídeo. Foi em 2002, há quase cinco anos, durante uma aula de pós-graduação da PUC de São Paulo.
Um convidado apresentou a novidade a mim e aos demais alunos: tratava-se de uma reportagem online sobre “esportes radicais” construída a partir de vídeos interligados.
Nós, alunos, clicávamos dentro do vídeo (na imagem de um desportista, por exemplo) e éramos deslocados para outro vídeo (uma entrevista com o tal desportista, para este exemplo).
Achámos a experiência estimulante, verdade. Mas o fato é que, depois disso, foi somente ocasionalmente que ouvi falar deste tipo de construção: o hipervídeo."
somente ocasionealmente que ouvi falar deste tipo de construção: o hiperv

sábado, 12 de maio de 2007

New European Laws

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Conheço a história, fiquei de facto chocado e cheguei à fala com a vítima que acabou por me pedir discrição (a minha intenção era ter feito do caso matéria de crónica). Porém, hoje, amigo meu que reside também em Amesterdão - o Carmo da Rosa - enviou-me, livre e desinteressadamente, a sua versão dos factos. E eu decidi retribuir à sua genuína liberdade com a minha própria liberdade de editar. A Europa manter-se-á portanto discreta e o meu compromisso de não revelar em demasia a trama também. Leiamos, pois, o enredo, tão real ele é quanto inacreditável:
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"Uma nossa amiga de longa data, artista plástica vivendo em Amesterdão, foi há dias hospitalizada depois de ter sido agredida à porta de casa por três pobres jovens marroquinos desempregados e sem perspectivas.A vítima, para evitar mal-entendidos e a propagação de já existentes preconceitos contra Norte-Africanos, esclarece que os jovens, cuidando tratar-se de uma marroquina (como eles), não tentaram roubar seja o que for, mas apenas quiseram dar uma valente sova na nossa compatriota…Porque, isto é a explicação da vítima para o que em primeira instância se pensou tratar de uma ordinária agressão, mas era afinal uma salutar correcção: ‘O que é que faz uma mulher sozinha de bicicleta às 11 da noite no centro de Amesterdão!!!’Se ao menos a nossa juventude tivesse esta corânica preocupação, em vez de seguirem as peripécias do Big Brother, não haveria tantos lares destruídos e não se veria por aí tantas poucas vergonhas, ámen. Peço desculpa, Allah u Akbar…"

Blogues e Meteoros - 30

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(desde anteontem no Expresso online)
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Daqui a cinquenta anos, que vozes reflectirão de modo convincente o início do século XXI português? A voz de Sócrates? As vozes de “A Bela e o Mestre”? A voz de Marcelo, ou o tom analítico das vozes de “A Quadratura do Círculo”?
Não consigo conjecturar. Não faço a mais pequena ideia. Mas parece-me que o tom de análise é sempre o tom mais agastado, mais sujeito a erosão, mais mortificado. E também me parece que o tom do discurso político é sempre uma ferida aberta pela contingência e pelo imediato. Sobrarão, talvez, as pastilhas elásticas de Mourinho, os tiques espontâneos de Pedro Tochas ou as loucuras de Jardim.
~r
(...)
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Pode ser que a voz de Barreto se venha a tornar num ícone do Portugal do início do século XXI. Mas eu desconfio, desconfio profundamente. Apostaria bem mais nas ravinas incontroláveis que ressoam nas vozes de “A Bela e o Mestre”. Essas ravinas não nos dão a forma do nosso país, eu sei. Mas era sobre elas que Eça voltaria a escrever, se fosse vivo.

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Escavações Contemporâneas - 7

LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas*)
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Morreu o programa? Viva o programa!*
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(O Primeiro de Janeiro, 14 de Outubro de 1990.
Ver referência do autor, escrita hoje no blogue Atlântico, sobre este artigo)
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Terminou recentemente, ao modo exemplar do balão estourado, o debate mais ou menos público sobre o projecto de programa de Filosofia para o ensino dito secundário. O processo do balão estourado governa-se por regras simples. Primeiro, arranja-se alguém com fôlego suficiente para encher o balão; depois, é fatal como o destino, quem enche o balão exorbita do fôlego e fica com o nariz em situação perigosa; finalmente, numa atitude ao mesmo tempo caridosa e malévola (a natureza humana é dada a estes paradoxos), um espinho, tornado invisível pelo balão demasiado inchado, surge de repente e estoura tudo. O divertimento tem como consequência o não ter praticamente consequências, excepto uns orgulhos feridos, uns ódios amestrados e umas vaidades recompostas. A substância que estava dentro do balão, a natureza do espinho e as razões que motivaram tão grácil duelo caem no esquecimento a velocidade prodigiosa, na pressuposição ousada de alguma vez alguém as ter sequer suspeitado. Passada uma semana, é necessário um verdadeiro talento arqueológico para as imaginar.
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Por motivos puramente jornalísticos, talvez valha a pena fazer, neste caso, um pequeno esforço. Comecemos pelo ar do balão, isto é, o projecto de programa agora rejeitado. Era um disparate puro e simples. Um disparate cuidado e esmerado, mas um disparate. Em primeiro lugar, porque insusceptível de realização, o que é um defeito, apesar de tudo, considerável. O programa pressupunha, ou melhor, ostentava a pressuposição de uma familiaridade com a tradição analítica anglo-saxónica por parte dos professores de Filosofia do liceu. Ora, seria sem dúvida belo e prometedor para o futuro da Filosofia em Portugal que a intimidade com Austin, Hare, Ryle, Strawson e Dummett fosse coisa certa e segura entre as gentes que, de Chaves a Faro, ensinam Filosofia. Infelizmente, nada há mais longínquo da verdade; os professores de Filosofia que acabam o seu curso nas nossas universidades (o melhor é passar por cima da questão das universidades) são, na esmagadora maioria, almas ignaras e inermes, capazes de ler apenas umas poucas linhas em francês, sem recursos pessoais ou institucionais de espécie alguma e única e compreensivelmente preocupados em resolver os mais imediatos problemas de sobrevivência a que uma lamentável indecisão vocacional os conduziu. Nunca ouviram falar de nenhum daqueles nomes nem a sua miserável situação profissional ou a fatídica ausência de entusiasmo filosófico lhes estimula a mais remota curiosidade para tal. Mais depressa se tornarão delegados sindicais, carreira que promove depressa e notoriamente exige menos aptidões intelectuais, se é que exige algumas.
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Em segundo lugar, modernité oblige, o projecto de programa descurava (como certamente o seu substituto irá fazer) qualquer perspectiva histórica. Alguém deveria explicar a alguém que grande parte dos alunos dos liceus portugueses não fazem a mais remota ideia se a fundação da nacionalidade portuguesa é anterior ou posterior à invenção da salsicha enlatada ou às Demoiselles d'Avignon, e isto não por qualquer tara congénita ou motivos semelhantes, mas porque, pura e simplesmente, os programas liceais estão estruturados de modo a que qualquer curiosidade em matérias desse teor se desvaneça à primeira aula. O único programa de Filosofia decente seria aquele que, não descuidando elucidações conceptuais e cruzamentos com outras disciplinas, indicasse sobretudo um (mesmo que discutível) fio histórico entre as doutrinas. Os adolescentes, ainda que principalmente interessados em dramas que julgam sem qualquer possível relação com os dos seus antepassados e em furores e melancolias amorosas, são capazes de maravilhamento pela História. Não têm culpa nenhuma de lhes ensinarem coisas decididas por gente que vive na ressaca de historicismos, ou que se comporta como tal. Não têm culpa que o respeito e o encantamento pela História pareça pecado mortal aos olhos de quem escolhe o que vai aparecer nos manuais que vão utilizar.
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Em terceiro e último e rápido lugar, o projecto rejeitado sofria de uma desproporção essencial, fruto da falta de respeito anteriormente referida. Por muito importantes — e actuais, como se diz — que as questões postas pela tradição analítica anglo-saxónica sejam, elas só ganham o seu pleno sentido contra o pano de fundo de tradições anteriores. Quem quer que tenha estudado em Inglaterra (onde, de resto, não se ensina Filosofia no «secundário») sabe perfeitamente que é assim. Ora Duns Escoto, Ockham e Pascal (para escolher um trio variado) não são respeitados neste programa. O programa de Manuel Maria Carrilho — cujas virtudes aqui omito, já que não pretendo fazer dele uma apreciação exaustiva — é de um novo-riquismo filosófico patético. Exceptuando poucas áreas — as da Filosofia Política, por exemplo —, incha de modernidade. E estoura. É um mistério como pode alguém com dois dedos de cabeça cair numa coisa destas. Quase que nem precisava do espinho para rebentar. O bom senso deve ser a coisa pior distribuída do mundo.
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Mas o espinho, nesta edificante história, estava lá. Arrebitou-se em reuniões que misturavam gente mais ou menos séria e honesta, gente que mais ou menos procurava defender os seus lugares e as respectivas incompetências, e gente que mais ou menos tem fé em Deus ou no curso da História e acha a concordância com essas fés a pedra de toque da verdade. É o que se chama um espinho de respeito. Tanto mais que, ao que se diz, por detrás das «Associações de Pais», que eram, por assim dizer, o «espinho visível», altíssimos e espirituais poderes manobravam, orientando o curso do mundo. E o Ministério foi obrigado a renegar o promissor e espevitado filhote.
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Resta saber o que vai agora acontecer. Na mais plena boa vontade, e sem lugares ou fés para defender, talvez valha a pena fazer um aviso modesto e muito geral. Vale para todos os programas de todas as disciplinas, desde Filosofia a Matemática. Consiste na elucidação seguinte: as mais exigentes, as mais edificantes, as mais atentas reformas hão-de sempre revelar-se de uma total inconsequência enquanto o ensino do Português for a vergonha que se sabe que é. Particularmente na Filosofia, enquanto os alunos chegarem ao décimo ano do liceu desconhecendo completamente qualquer regra gramatical; enquanto o sujeito e o predicado continuarem, nos testes dos alunos, a formar frases-Frankenstein; enquanto cada palavra, da mais simples à mais complexa, for um enigma resolvido a martelo — não há nada a fazer. Esqueçam-se, por favor, do programa de Filosofia e dos outros todos. Olhem para o de Português. Percebam que se no primeiro ano do ciclo um aluno passa o tempo todo a ser esclarecido sobre a natureza do «signo», não pode nunca jamais em tempo algum fazer a mínima ideia do que é a gramática; sobretudo se, passado o tempo escolar obrigatório, vai sachar os campos dos pais. Percebam que se procurarem remediar essas coisas, os professores de Filosofia (e os outros todos), mesmo ignaros e mal pagos, vão ter maior sucesso na sua delicada e brutal tarefa. Percebam que o que se passa nos inumeráveis liceus deste país é, antes de tudo o mais, a dramática tentativa de administração de conhecimentos vários sem um meio eficaz (a língua portuguesa) de transmissão. Percebam que isto é a única coisa urgente a resolver. Tentem perceber. Mas se não perceberem, pelo amor do Céu, não façam programa nenhum.
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Ou então, bem vistas as coisas, façam. Desde pelo menos 1975, sexta-feira 11 de Julho, dia em que o Diário da República, lª série, nº 158, regista a aprovação, pelo Conselho da Revolução, do Decreto-Lei nº 363/75, sobre as bases programáticas para a reforma do ensino superior, até aos nossos dias, em que o Eng. Roberto Carneiro lança, perante a passividade geral, uma coisa obscena chamada «Escola Cultural», tudo é possível. Das universidades do Conselho da Revolução, «lugares de trabalho efectivo de professores e estudantes, lugares em que o ócio, o oportunismo, a indisciplina e outras formas condenáveis de individualismo» são «denunciadas como contra-revolucionárias e definitivamente banidas» até à «Escola Cultural» do Engº Carneiro, que tem como principais objectivos «promover a capacidade de distinguir entre o ter e o ser e de preferir o ser ao ter», «criar condições de satisfação e felicidade aos actores do drama escolar» e fomentar o aparecimento de «professores culturais» (sic), com o «diâmetro» superior ao dos professores «curriculares», o que muda é apenas o estilo da parvoíce, não o seu universal fulgor. Que mal pode vir ao mundo, nestas condições, de um programa de Filosofia mal feito, incompreensível para professores e alunos, enviesado, pouco criterioso e disparatado? Que mal pode suscitar o singelo facto de a esmagadora maioria dos alunos não aprender gramática portuguesa no liceu? Nenhum. Graças a Deus, nenhum. Qualquer coisa manifestamente serve.
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Morreu o programa? Viva o programa!

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Folhetim - 15

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA

por Almeida Faria
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15
(último episódio)
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Entrei a seguir na livraria, onde folheei e comprei o livro do Herbert. Decidido a flanar sem destino, demorei-me diante do Deux Magots observando um jongleur de boulevard disfarçado de explorador, com binóculos e chapéu colonial, que ora fingia buscar ao longe um oásis e escrevinhava num diário de viagem, ora desdobrava um mapa em cima do tejadilho dos automóveis que paravam no semáforo e que, quando o sinal verde voltava, desatavam a buzinar porque o funâmbulo não arredava pé nem dava mostras de deixar de analisar o mapa. O público da esplanada ria desocupado e, no fim do espectáculo, pagava recebendo em troca uma foto do falso ou verdadeiro aventureiro que a carimbava nas costas, assim autenticando a sua efígie de celebridade do género fugaz.
Para não ter que me dobrar a meter-me num táxi, vim de metro até à avenue Kléber e apeei-me na estação em frente ao Majestic. Virei à avenue des Portugais e, pela rue Jean Giraudoux, depressa desemboquei na avenue d'Iéna. Chegando ao número cinquenta e um, a minha falta de confiança na técnica fez-me pensar com pavor no código da porta. Sem nenhuma lógica receei o pior, ainda que o fecho funcionasse afinal sem problemas. Os problemas vieram mais tarde, depois de me despir e, em calções de pijama por causa do calor, me deitar em cima da cama lendo o livro recém-comprado.
Terei sido desviado do meu dia tranquilo pelo estudo acerca de Torrentius, de cuja vida se sabe mais que dos seus quadros? Há descrições de alguns deles, embora, por muito que se somem substantivos e adjectivos e todo o arsenal dos dicionários, jamais as palavras nos tragam o que num instante a mente recebe da imagem. Este Torrentius terá sido rosa-cruz, perjuro e debochado, um S. João Baptista do Marquês de Sade, acusado e perseguido, preso, torturado e destruído pelo puritanismo calvinista. Natureza-Morta com Brida, o seu único quadro conhecido ou sobrevivo, provável alegoria da temperança, da áurea mediocridade e do domínio sobre os instintos – tudo o que lhe faltou em vida –, está em Amsterdão no Rijksmuseum. Existe algum elo oculto entre a tormentosa vida de Torrentius e os acontecimentos que me levaram à presença do antigo proprietário desta casa? Alguém, além de mim, o viu no terceiro andar?
Ou conteria a assiette Nobel um desses filtros mágicos que provocam fantasias e nos desaparafusam o juízo? E as noites de hoje, de amanhã e depois, como serão? Se ouvir passos, ponho tampões nos ouvidos e não ligo. O truque serviu para resistir às sereias de Ulisses; também funcionará contra um fantasma. Terão os astros enviado o reconstrutor desta casa só para me forçar a meditar sobre a vanitas inerente a toda a arte? Se ao menos a série dos meus desenhos se equilibrasse entre a justa medida dos mestres – a brida de Van de Beeck – e a liberdade sem açaimo, o pensamento sem mordaça, a rédea solta, a desmedida! Mas não estou seguro disso e desespero até do título: As Lágrimas de Eros soa-me a patético. Agora é tarde. O pior é que arrefeci lá em cima e nem dois soníferos me põem a dormir. Não há meio de aquecer, o que é muito bem feito – para aprender a não andar em tronco nu num palacete destes.
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FIM

Pré-publicações - 29

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Dom Quixote Contado Às Crianças por Rosa Navarro Durán com ilustrações de Francesc Rovira, Campo das Letras, Porto, 2007 (2ª edição).
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Pré-publicação:
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"Nma aldeia da Mancha de cujo nome não quero lembrar-me, vivia — não há muito tempo — um fidalgo de meia-idade. Tinha uns cinquenta anos. Era magro, as suas pernas eram compridas e fracas e a cara seca. Gostava de acordar cedo e ir à caça.
Dizem uns que se chamava «Quijada» ou «Quesada» e outros «Quijana». Mas isto pouco interessa à nossa história. Passava o tempo a ler livros de cavalaria, até ao ponto de deixar de caçar. Já só lhe interessava ler essas histórias apaixonantes.


Inclusivamente, vendeu terras para comprar mais livros. ia dia e noite as aventuras fantásticas que viviam os cavaleiros desses livros e acabou por acreditar que todas eram verdadeiras: que havia gigantes e feiticeiros, desafios e batalhas. Odiava os maus e admirava os valentes.


E tanto se meteu nesses livros maravilhosos que decidiu tornar-se cavaleiro andante como os seus personagens, para conseguir fama e ajudar as pessoas.


Mas, para ser cavaleiro andante precisava de três coisas: armas, cavalo e uma dama a quem servir. ncontrou em sua casa as armas dos seus bisavós. Estavam cheias de mofo, mas limpou-as. Então, percebeu que lhe faltava um capacete que lhe cobrisse a cabeça. Fê-lo de cartão e, para experimentar se era forte, deu-lhe dois golpes com a espada. E claro, rasgou-o! De modo que fez outro com barras de ferro por dentro, mas desta vez não o experimentou, receando estragá-lo. Foi ver o seu cavalo que só tinha pele e ossos e decidiu dar-lhe um nome adequado ao seu novo ofício."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Novas de hoje

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Inicia-se hoje no Folhetins e Novelas, blogue de edição ficcional por folhetins que criei com Paulo Querido, a publicação de duas novas narrativas da autoria, respectivamente, de Fernando Monteiro e de Luís Graça.
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Entretanto, pode ler hoje aqui no Miniscente:
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Pré-publicação do romance O QUE ENTRA NOS LIVROS de António Manuel Venda.
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Penúltimo episódio de VANITAS - 51, AVENUE D´IÉNA de Almeida Faria.
- A rubrica “
Escavações Contemporâneas”, hoje assinada por Viriato Soromenho Marques.

Pré-publicações - 28

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António Manuel Venda, O QUE ENTRA NOS LIVROS, Ambar, Lisboa, 2007.
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Pré-publicação:
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"Depois de uma última leitura do texto, dei ordem de impressão. A descrição do mágico velhinho ocupava cerca de meia página. Assinei e a seguir ainda rabisquei uma nota a informar o livreiro de que nem sabia por que estava a enviar-lhe aquela descrição, mas que já que ele perguntava eu fazia um esforço para responder. Não deixei a minha morada; mas na carta, ainda na parte escrita no computador, informava-o de que lhe iria telefonar a marcar uma ida à livraria. Afinal, pensei, nem me custava muito, porque em menos de uma hora conseguiria pôr-me lá; tinha era de esperar por uma altura em que não houvesse muitos afazeres. Meti a folha num envelope para o qual copiei o nome do livreiro e o endereço da livraria, desliguei o computador e fui até à rua. Senti o choque do frio, que talvez acabasse por me manter acordado durante mais algum tempo. Olhei as estrelas no céu – um céu estrelado como os do Verão, e o frio a atacar-me, como se fosse um bando de arqueiros pequeninos, todos a lançarem flechas feitas de agulhas. Lembrei-me de como em «O Medo Longe de Ti» o mágico velhinho tinha feito tudo para roubar um beijo que estava cravado numa estrela pequenina, um beijo da rapariga mais bonita do mundo e destinado ao jovem escritor.
Dei uma volta pelo monte. As agulhas dos arqueiros do vento frio não paravam de me acertar. Passei perto dos cães, que já estavam a dormir, os três em cima das mantas que de dia carregavam entre os dentes para se exibirem. Só um dos gatos apareceu, o branco, rebolando-se junto de mim. Os restantes três deviam andar na caça, ou em disputas no montado com alguma gineta. Voltei para casa e com a tenaz afastei os troncos que ardiam na lareira, para que as chamas fossem morrendo. Se piasse uma coruja àquela hora não seria de admirar. Esperei um pouco, mas não piou nenhuma. Vi o gato branco a passar pelo parapeito de uma das janelas, aos saltos, como se fosse com pressa em direcção a alguma coisa, talvez juntar-se aos outros na contenda com a gineta. Sim, podia ser isso, se houvesse mesmo gineta, e contenda. Um dos cães ladrou, o mais novo, mas calou-se logo a seguir; se calhar tinha sentido algum intruso por perto, um javali, ou um texugo, ou simplesmente um rato a aventurar-se por um monte onde havia gatos, ou um ouriço-cacheiro. Entrei no quarto, com a luz ténue de uma lâmpada colocada junto ao chão a permitir-me andar sem tropeções.

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– Caro colega, procurava um título?
– De um livro, suponho! – atirou o outro, com um sorrisinho que normalmente seria sonoro mas que naquela ocasião se ficou por um movimento da boca.
O senhor Sapinho Júnior disse que sim. E acrescentou um «obviamente» que se preocupou em destacar na resposta com uma pronúncia das sílabas ainda mais cuidada do que lhe era habitual. O dono da livraria ficou na expectativa, até que o senhor Sapinho Júnior lhe virou as costas, metendo-se novamente nas procuras. Passaram uns segundos, até que mesmo de costas atirou ao colega:
– António Manuel Venda. O nome, colega, diz-lhe alguma coisa?
– Autor? – perguntou o outro.
– O romance «O Medo Longe de Ti». Editora Temas e Debates.
O homem repetiu tudo para a funcionária, a quem tinha captado o olhar, como se aquilo fosse um jogo de passa-palavra. Enquanto ela se embrenhava nos registos informáticos, ele chegou-se ainda mais perto do senhor Sapinho Júnior e disse-lhe:
– Na Sapinho Livros não têm a obra, presumo…
– Ora exactamente – confirmou o senhor Sapinho Júnior. – E pretendo adquiri-la.

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Estava com o carro a uns dois metros dele. Com o motor desligado. Abri a porta e procurei no chão uma pedra pequena, coisa que não foi difícil de encontrar. Apanhei-a e fechei a porta, e logo a seguir abri o vidro e atirei a pedra para perto do pequeno mocho. Ele não se mexeu, mas os seus olhos estavam muito abertos, e tinham vida, neles eu percebia que existia vida. Podia ser mesmo um vigilante."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Livro do Dia, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.