terça-feira, 8 de maio de 2007

Em jeito de índice

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Devido ao interesse e à dimensão dos posts hoje publicados pelo Miniscente, convirá destacar:
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-Pré-publicação do romance de Eduardo Pitta, CIDADE PROIBIDA (QuidNovi).
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Estreia de Fernando Ilharco na rubrica "Escavações Contemporâneas".
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Edição do antepenúltimo episódio de VANITAS - 51, AVENUE D´IÉNA de Almeida Faria.
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A partir de amanhã, inicia-se no blogue Folhetins e Novelas a publicação de dois novos folhetins da autoria, respectivamente, de Fernando Monteiro e de Luís Graça.

Pré-publicações - 27

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Eduardo Pitta, CIDADE PROIBIDA, QuidNovi, Lisboa, 2007.
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[Primeiro Capítulo]
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"Nora sentiu o aperto no lado esquerdo da nuca. Agora acontecia com frequência. E não pôde deixar de pensar que tinha sido preciso chegar aos 50 anos para ficar dependente de inibidores de enzima. Olhou para o relógio e viu que tinha uma hora pela frente. O motorista vinha às oito. Largou o relatório, enterrou-se no sofá e semicerrou os olhos. Sabia-lhe bem estar ali, os braços perdidos na seda puída, com a luz de Abril coada pela buganvília. Afinal, comprara a casa por causa dela. Virada a poente, a parede envidraçada garantia devassa a todo o comprimento. Mas ela tinha apostado no avanço da trepadeira. O toldo listrado ainda lá estava mas já ninguém se lembrava dele. Acima de tudo, Nora gostava do instante em que o reflexo dourado das lombadas era toda a luz à sua volta. Nesse lapso de pura magia olhava a correnteza dos livros, o jarrão com as aráceas, o pé esguio do candeeiro de marfim que o pai trouxera da viagem a Moçambique, as molduras de prata com retratos da família e, no canto esquerdo, o brilho dos puxadores de latão das portadas viradas ao jardim. Tinha de fixar esse instante antes que desaparecesse. A escuridão engolia a sala num ápice, e mesmo a parede de vidro dava a ver os verdes a enegrecer. Era nesse preciso momento que Teddy (um smoke inglês de pêlo curto) se espreguiçava e partia. O gato tinha lugar cativo no cadeirão chippendale e nunca se refizera da partida de Martim, o filho de Nora. O mais que fez foi esperar três dias. Assim que intuiu o carácter definitivo da mudança, urinou sem complacência na porta do quarto do dono. Passava a ser o macho da casa. Foi nesse dia que Nora ouviu os berros. E o baque. Receando o pior, subiu as escadas com alvoroço. Percebeu tudo quando viu o rosto afogueado da criada e o rabo grosso de Teddy.
Não teve remédio.
— Vá arrumar as suas coisas, Isaura. Daqui a dez minutos deixo-lhe o cheque na cozinha. Não dê nunca o meu nome como referência, ver-me-ia obrigada a ser desagradável.
A rapariga não queria acreditar. Tartamudeou, bateu no avental, barafustou, rompeu a chorar. Chorava convulsivamente, a cara opada, feita um borrão vermelho. Nora achou repugnante de ver, mas foi inflexível. Isaura partiu a rosnar impropérios, ameaças veladas, o homem dela era ucraniano, e nunca se sabe, nunca se sabe do que um ucraniano de maus fígados é capaz. Teddy seguiu o melodrama à distância. A partir daquele dia ignorou os criados. Nunca mais voltou ao primeiro andar.
Martim vivia noutra casa há praticamente três anos. Os amigos da mãe achavam natural que um rapaz da sua idade, independente, que vivera seis anos em Inglaterra, escolhesse um canto seu. Volta não volta perguntavam por namoradas.
A parcimónia de Nora era lendária.
— Não faço ideia.
Dizia aquilo num tom que não admitia réplica.
A verdade é que lidava mal com o problema. Andaria o filho pelos 15 anos quando lhe disse que queria levar com ele o Tó nas férias do Carnaval. Ela achou bem. Eram amigos, andavam os dois nos Salesianos, e o Tó, embora arisco, seria bem recebido na casa da Curia. Tendo nascido ambos, Martim e o Tó, no mesmo dia e praticamente à mesma hora, o marido de Nora, num acesso de liberalismo, garantira ao Sequeira, o motorista, que os rapazes estudariam no mesmo colégio.
— Pago eu!
E honrou o compromisso até ao dia em que o Tó, então com 16 anos, desapareceu sem razão aparente da vida dos pais e da família Moncada.
O bilhete continuava lá em casa porque ela o tinha pedido ao motorista e não o devolveu:
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Não se ralem comigo. A vida que eu quero aí não dá. Salesianos, muito bacano, e depois? Recepcionista do Estoril-Sol à custa de cunha da família Moncada... Empregado no casino? Não quero. O pai dê um abraço ao senhor engenheiro. A mãe diga ao Martim que não me esqueço dele. Nunca. Ele percebe. Dou notícias. Beijos, Tó.
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Na tarde em que o leu, Nora gelou. Tinha gravada na memória a imagem de Martim na cama com o filho do motorista. A casa da Curia só tinha camas de casal, e as férias de Verão, tal como as do Carnaval e da Páscoa, impunham protocolos próprios. Embora fossem cinco, os quartos da casa não eram grandes. Anos houve em que o Grande Hotel foi uma extensão natural do núcleo familiar. Naquele dia, Nora julgava-os entretidos na vila. Seriam seis da tarde quando foi ao quarto à procura de uma revista extraviada. E então viu. Completamente nus, a dormirem profundamente, o radiador aceso em cima do tapete, muito próximo da cama, lençóis e cobertores atirados para trás, a perna esquerda do Tó atravessada nas costas do filho. Toda ela abanava, mas obrigou-se a olhar, a custo sustendo a respiração. Depois fechou a porta. À noite pretextou uma enxaqueca e pediu que lhe servissem o jantar no quarto. O marido nunca soube. Era preciso evitar confusões, perguntas embaraçosas, recriminações mútuas, os mexericos que um regresso intempestivo provocaria, sabe-se lá com que consequências para o motorista. Todos se interrogariam: o marido, os pais, os sogros, a irmã, os amigos, os outros empregados.
Quando as férias acabaram, tudo voltou à rotina. Nora desdobrou-se em estratégias para dificultar o convívio dos rapazes. Matriculou o filho no Instituto Italiano, impôs aulas de judo nas noites que sobravam e arranjou um explicador de matemática que só tinha vaga ao sábado à tarde e morava em Algés. Ao mesmo tempo que achava simpática a ideia do judo, o marido aprovou o cuidado com a matemática. A cultura italiana deixou-o indiferente.
— Esse explicador é mesmo bom? É o melhor? Não havia outro mais perto?
No dia seguinte pediu os contactos do professor do Passos Manuel.
— O Tó também vai. E para o judo também.
Nora não queria acreditar no que ouvia, sentia-se metida num pesadelo. Três vezes por semana eles iam e vinham do clube de judo sem que ela conseguisse mexer um dedo. Para a Rua do Salitre, ao menos para aí, Martim ia sozinho, mas nem por um momento lhe passou pela cabeça que o súbito interesse do filho pelo dolce stil nuovo pudesse ter alguma coisa a ver com os penetrantes argumentos do jovem mestre Carlo Sifreddi.
Uma noite, Martim chegou bastante mais tarde do que era costume.
— Estivemos a ver os frescos do primeiro andar. O Sifreddi tem a mania dos detalhes. Sabe tudo.
Curioso, Nora não se lembrava de ter visto frescos no palacete Braancamp Freire, mas também só lá fora ouvir conferências, não tinha sequer a certeza de conhecer o jardim.
No dia em que soube da fuga do Tó ficou sem saber o que pensar. Teve pena, sinceramente teve, do Sequeira e da Laurinda, atónitos, de olhar vazio, pendurados numa infinitude de perguntas sem resposta. Para ela, era pequeno consolo pensar que as coisas podiam mudar. Com efeito, não mudaram.
Naquele momento não sabia o que mais a incomodava, se o aperto na nuca ou a perspectiva do jantar. E o comprimido que não fazia efeito! Mas ainda tinha uma hora à sua frente."
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Editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

Escavações Contemporâneas - 5


LC
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Fernando Ilharco*)
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Terrorismo Pós-Capitalista (I)
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Em Lisboa caiem as primeiras horas da madrugada. Na América, já depois do jantar, as cadeias internacionais de televisão estão em velocidade de cruzeiro. Nos estúdios da CNN, em Atlanta, o computador do editor de serviço indica uma chamada telefónica com origem no Golfo Pérsico. John, a quem chamavam ‘falcão’ por se ter celebrizado com os directos nocturnos do outro lado do mundo em cima do prime-time americano, tem a linha 9 a piscar – a 9 não utiliza os circuitos dos repórteres e dos correspondentes das equipas da CNN por todo o mundo. É uma linha privada, directa, só utilizável pelo ‘falcão’. É das linhas mais seguras da estação, protegida contra escutas, gravações, “contra a CIA, o Pentágono e a Internet", como costumam comentar.
"Do Golfo !?… Não tenho "pendentes" no Golfo... quem é que me quer falar do Golfo? Porque não vai para a bicha como os outros...."
No caos que envolve o fecho dos noticiários, entre ecrãs e mais ecrãs, numa torrente de decisões, o “falcão” colocou a chamada nos auscultadores.
- … fala o movimento para a libertação do Sul ... exigimos que nos coloquem de imediato no ar... têm 60 segundos…
A história mais ambígua, mais mal contada e mais decisiva de sempre estava prestes a começar.
Nesse momento numa outra linha, o Pentágono solicitava que a chamada fosse colocada no ar. O “falcão” pressentia que algo estava para acontecer. Num segundo tudo mudou: de uma noite sem história para a maior crise de sempre. Enquanto chamava o Bill e o Manolo, os coordenadores da noite, o “falcão” disparou o spot “something fast”. Nunca havia sido usado, mas desde há uns anos estava pronto a ir para o ar. Sob o indicativo “breaking news”, e um fundo azul do planeta suspenso no espaço, a vermelho destacava-se o subtítulo “something…”
A confusão no estúdio era imensa. As chamadas não paravam e os acontecimentos sucediam-se vertiginosamente. Na linha 9 a chamada misteriosa aguardava. O sistema telefónico indicava tratar-se de uma chamada de um telefone móvel por satélite, algures na região do Golfo Pérsico/Médio Oriente.
- ... é uma brincadeira idiota, vamos avançar com a peça sobre o México ... - referiu Bill, prontamente interrompido por Manolo. Tinha passado um minuto e a Casa Branca estava em linha pressionando para que colocarem a chamada no ar: “vão colocar no ar a chamada dos tipos. Deixem-nos falar à vontade... tentem mantê-los a falar o mais tempo possível... esta linha fica aberta para nós...”
O “falcão” colocou de novo a 9 nos auscultadores e preparou-se para a colocar em emissão. “… estamos prontos…”, disse ele.
A emissão avançou... “CNN breaking news... something… vamos colocar no ar uma chamada telefónica feita em directo... a partir do Golfo Pérsico...”
Durante alguns segundos parecia o vento e o mar, cortados por sinais electrónicos.
- “... em nome dos povos explorados do Sul... exigimos aos fascistas do Ocidente que cumpram três condições: terminem para sempre as transmissões de televisão por satélite para o hemisfério Sul; libertem os nossos irmãos prisioneiros e escravos na Europa, na América e na Ásia; abandonem em definitivo todos os territórios ocupados no Médio Oriente, na América, em África e na Ásia... têm 24 horas... não pretendemos negociar coisa alguma... se falharem, o vosso novo ano começará como nunca pensaram ser possível... três cidades ocidentais serão atingidas por mísseis nucleares... dentro de 30 minutos queremos ver os primeiros sinais de boa vontade da vossa parte...”
Enquanto isso, no Pentágono o gabinete de choque denominado "a derradeira chantagem" ouvia a chamada. Washington estava ao corrente. Há semanas que os satélites espiões registavam os fluxos de dados que entravam e saíam de um pequeno barco no Golfo Pérsico. Tratava-se de um grupo extremista, sem ligações politicas de peso, praticamente isolado e seguramente sem capacidade de lançar mísseis nucleares. No entanto, todos os cuidados eram poucos. Chantagem é chantagem e o que se passou nunca chegou a ser inteiramente esclarecido.
A NATO garantiu a segurança das cidades ocidentais. Os movimentos mais ou menos radicais, mas com “curriculum” demarcaram-se do golpe. Fontes não identificadas da Defesa dos EUA referiram “não poder garantir que o grupo extremista não tivesse material nuclear”, chamando recorrentemente a atenção para os perigos do seu manuseamento. Por todo o mundo populações inteiras avaliavam os mais variados boatos. O mais persistente de todos identificava como centro geográfico da chantagem uma pequena aldeia nas fronteiras da Europa e da Ásia. Uma aldeia cuja população havia partido à medida que outros protagonistas iam chegando. Era ali que estavam instaladas as rampas dos mísseis, “que afinal existiam”.
As declarações, os telefonemas e o “bluff” prosseguiram durante 36 horas nas televisões internacionais. A meio do segundo dia de crise aguda, uma enorme explosão varreu a remota aldeia. Os comunicados oficiais referiram que o grupo extremista detinha de facto um engenho nuclear, o qual havia explodido quando o haviam tentado lançar. No entanto fora do circuito dos media internacionais outra história corria: um míssil de enorme potência, lançado de um submarino, apagara a aldeia do mapa.
As populações mantinham-se confusas e assustadas. Dali a dias, por todo o mundo, grupos às centenas comandados por “vigilantes” concluíam que a única forma de escaparem aos mísseis dos inimigos ou dos amigos era não terem terroristas por perto. Denunciaram-nos e expulsaram-nos. Quem tinha um nome relacionado com algo suspeito teve que mudar de vida. A bem ou a mal. O terrorismo com causa e com nome tinha chegado ao fim. Outra história estava apenas no começo.
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* Público, Futuro, 30 de Dezembro de 1996.

Folhetim - 13

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA

por Almeida Faria

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«Ainda que me irrite a arte actual, o título da sua exposição agrada-me, lembra-me as emoções e dramalhões dos vivos. Que alívio ter passado já por isso! Amanhã de manhã, como não há cá ninguém aos sábados, vou ao vestíbulo dar uma vista de olhos a esses seus mistérios da morte e de Diónisos. Gostei do cartaz, e gosto de ver pintura à luz crepuscular da tarde ou da madrugada. Não me agradeça, não o faço por obrigação; faço-o pelo mesmo motivo que me levou a coleccionar as minhas pinturas, esculturas, azulejos, jóias, baixelas, tapeçarias, tudo que estava aqui. Notou que me refiro a elas como me referiria a minha mulher, a minha filha? Não a meu filho, que para mim deixou de existir. Compreende a minha vontade de juntar sob este mesmo tecto as minhas obras, por amor delas, não por vaidade? O Walter Scott, o Victor Hugo e outros possessos pela vaidade é que precisaram de casarões à sua imagem. À Maison Visionnée Habitant Visionnaire. Só um vaidoso escreve frases destas. Hugo, evidentemente. Em mil novecentos e dezanove, no ano da mais monstruosa matança de arménios, comprei o torso de Hugo esculpido por Rodin em mármore branco, colocado a três quartos e virando um pouco a cabeça para nos olhar de frente. Desde aí associei Hugo ao massacre. Esquisitices, não ligue. Como não posso aspirar à criação artística, tento viver no halo dela. Sem sofrer, ao contrário dos artistas, que têm fama de nunca se darem por satisfeitos. O senhor é desses? Ainda bem. A não ser que o diga para me convencer ou para se convencer de que é artista. Depois de ver os seus quadros decido. Se a insatisfação fosse critério, também eu seria artista, pois nunca me satisfiz com o que tive. Já agora, se me permite, confesso-lhe o seguinte. Nos anos vinte, quando um descendente de Mallarmé cedeu ao Louvre o retrato do célebre simbolista por Manet – aquele em que ele assenta a mão meditativa sobre um caderno aberto enquanto o fumo do charuto levemente se eleva, e que se inspira no Baudelaire de Courbet –, meteu-se-me na cabeça arranjar qualquer dos restantes retratos do poeta, um dos mais retratados que conheço. Foi muito retratado por Whistler para quem posou vezes sem conta, e por Munch e Gauguin, porque Mallarmé os recebia todas as terças-feiras no seu salão da rue de Rome e lhes chamava os seus terça-feiristas. Desisti de vir a ter um retrato de Mallarmé ao ver que não adiantava continuar procurando, mas desforrei-me com a Palas Ateneia, não assinada nem datada, embora seguramente de Rembrandt. Comprei-a ao governo soviético num lote de cinco obras, entre elas A Lição de Música, também conhecida por Dama e Cavalheiro Tocando, de Gerard ter Borch. Só que, para me assegurar da não-concorrência do meu intermediário Wildenstein, combinei que eu ficava com o Rembrandt e lhe cedia as quatro restantes. Cumpri com o meu rigor habitual, que me soube a meia derrota pela perda daquele óptimo Ter Borch.
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(continua)
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Próximo episódio: “Numa ingratidão indesculpável, após o luxo do terceiro andar achei um tanto serviçal este quarto de criada, apesar de renovado e com banho privativo. Os dedos tremiam-me, os dentes batiam-me enquanto me fechava à chave.”

segunda-feira, 7 de maio de 2007

Folhetim - 12

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA

por Almeida Faria
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w12
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"Cheio de má consciência dei comigo a pensar que nem sequer me lembrava do paradeiro de muitos dos meus quadros, que se separam de mim mal os termino e vão sem cerimónia à sua vida, como se nunca me tivessem pertencido. Não me pertencem, realmente, mas duvido que isto diga respeito a alguém. Ainda menos àquele fantasmático anfitrião a quem só as perguntas interessavam, não as respostas. Apostado em provar que a minha presença o incitava ao solilóquio, confessou: "Nas noites em que me desencontro de mim mesmo pego num livro qualquer e volto a entender a minha velha devoção aos livros, à sua capacidade de me fazerem sonhar no meio das páginas. Nas minhas fases de bibliofilia moderada encontrei bibliófilos que não liam nada, folheavam para verem a data de impressão, a qualidade do papel, o seu estado geral. Ou, quando liam, de cada livro compravam dois exemplares, um para lerem e o outro para ser posto na paz das prateleiras, intacto e virginal. Vinha isto a que propósito? Ah, sim, a propósito dos elogios que o poeta Perse fez ao memorial, escrito directamente em francês, das minhas visitas à Transcaucásia. Dizia Perse que eu seria escritor, se insistisse na escrita. Lisonjeava-me enquanto seu mecenas, mas é verdade que li imenso. Pouco a pouco, porém, a felicidade associou-se-me ao olhar. Até os livros me interessavam mais com encadernações excepcionais. Não por novo-riquismo mas porque me contentava com olhar. Por isso me convém a minha existência definitiva, sem desejo nem dor nem doença. Este meu aspecto físico é apenas aspecto, nada mais. Era o aspecto que eu tinha ao mudar de estatuto e de estado. Sou mais dono de mim desde que me limito a contemplar obras-primas. Mas o senhor está a pensar que não o deixo dormir e que abuso das leis da hospitalidade, o que aliás é o caso. Tenho a atenuante de nem todos os dias apanhar por aqui um artista disposto a ouvir-me.»Nitidamente fatigado fez uma pensativa pausa, que aproveitei para me sentar, já mal sentindo as pernas, os pés gelados, o peito e as costas em pele-de-galinha. Ele porém interpretou o meu sentar-me como convite a novas divagações, que retomou de um modo cada vez mais caótico e errático: (...)"
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e(continua)
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Próximo episódio: “Só um vaidoso escreve frases destas. Hugo, evidentemente. Em mil novecentos e dezanove, no ano da mais monstruosa matança de arménios, comprei o torso de Hugo esculpido por Rodin em mármore branco, colocado a três quartos e virando um pouco a cabeça para nos olhar de frente. Desde aí associei Hugo ao massacre. Esquisitices, não ligue.”

Escavações Contemporâneas - 4


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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: João Pereira Coutinho*)
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Os terroristas de Conrad
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"O dr. Theodore Dalrymple tem razão. Aliás, o dr. Dalrymple tem sempre razão – mas existem momentos em que até um sábio exagera. Aqui há umas semanas, e a propósito do último livro de John Updike, The Terrorist, Dalrymple aplaudia a obra em artigo no City Journal mas notava que existe obra melhor para entender a cabeça de um fanático. E citava Joseph Conrad. E citava The Secret Agent.
Eu li The Secret Agent numa altura de certa inocência política e até moral. Vivia-se a queda do Muro, o optimismo do fim da história. E o 11 de Setembro ainda pairava longe. A obra de Conrad era um policial negro sobre um atentado falhado, um crime conjugal e um suicídio inesperado. Tudo muito convencional. Então o livro ficou a dormitar na estante e quando voltava a Conrad, voltava às obras filosoficamente maiores. Como Heart of Darkness, uma machadada eloquente nas certezas virtuosas da «fé» iluminista. Ou como The Shadow-Line, novela aparentemente menor sobre a linha imperceptível que cruzamos na viagem pessoal rumo à maturidade.
Por causa de Dalrymple, e da obra de Updike, regressei a The Secret Agent. Soprei o pó. Li. Reli. E fui anotando, página a página, a presciência assustadora do autor, que em 1906 escrevia sobre o mundo de 2006.
Enredo: Adolf Verloc (curioso nome: Adolf) é casado com Winnie, mais nova e mais inocente do que ele. O casal vive por cima de uma loja esquálida numa rua esquálida de Londres, na companhia da mãe de Winnie e do irmão de Winnie, Stevie, um adolescente retardado (não é pleonasmo; o rapaz é clinicamente retardado). E se todas as famílias infelizes são infelizes à sua maneira, a infelicidade que Verloc trará para dentro de portas será, literalmente, o seu próprio fim: ao recrutar Stevie, o adolescente (e um inocente), para um atentado terrorista ao Observatório de Greenwich, Verloc destrói o último elo que o ligava à humanidade. Destrói e destrói-se aos olhos de Winnie.
A obra de Conrad está historicamente correcta. Em 1894, uma tentativa falhada ao Observatório era um sinal de que as actividades anarquistas e terroristas seriam um problema sério para o futuro da Europa. Conrad percebeu o sinal e, como sempre acontece, recebeu assobios fartos dos seus contemporâneos mais optimistas. A obra era «demasiado sórdida para ser trágica e demasiado repulsiva para ser patética», escreveu-se. Em cartas ou diários, o próprio autor questionava seriamente se a publicação do livro fora um gesto sensato. Estas dúvidas acabariam por cessar poucos anos depois: quando um membro da espécie assassinava o arquiduque Franz Ferdinand em Sarajevo. A Europa mergulhava, e mergulhava euforicamente, na matança das trincheiras.
Ler The Secret Agent, no eterno retorno de hoje, é revisitar a mais brilhante visão sobre a mentalidade de um terrorista. Dalrymple sublinha a essência dessa mentalidade: o tédio existencial profundo de quem recusa participar na vida, no seu incerto cortejo de vitórias ou fracassos e nas exigências de disciplina, sacrifício ou sentido moral que a define. Concordo, sim; concordo e cito: «ele era uma vítima da descrença filosófica em qualquer tipo de esforço humano», escreve Conrad sobre Verloc. É o niilismo de Verloc que o convida à violência: como se houvesse na violência uma promessa de redenção. E não deixa de ser singular como o «ennui» venenoso e destrutivo de Verloc também se encontra nos terroristas que Conrad prenunciou. Lawrence Wright, no recente The Looming Power: Al Qaeda’s Road to 9/11, é primoroso ao explicar a atracção do jihadismo para jovens muçulmanos, sobretudo sauditas, que encontram em versões radicais do Islão uma fuga ao puritanismo tradicional do credo doméstico. Exactamente como Verloc, filho de um pregador cristão e radical, «um homem superiormente confiante nos privilégios das suas certezas». A melhor forma de derrotar o dogma é pela criação de um dogma que o derrote.
E a violência? Dirige-se a quem, ou a quê? Nos terroristas de Conrad, dirige-se aos símbolos maiores do seu tempo. «O fetiche de hoje não está na realeza ou na religião», afirma um dos comparsas de Verloc. «O fetiche de hoje está na ciência». Matar um rei ou um presidente é um acto convencional. Atacar uma igreja pode ser confundido com uma atitude espiritual. O radicalismo do terror deve atacar aquilo que os contemporâneos mais prezam. Na Inglaterra eduardiana de Conrad, a ciência era a manifestação suprema do progresso. Cem anos depois, o que mais prezamos é a normalidade «burguesa», alguns dirão «capitalista», das nossas vidas urbanas. Torres de negócios onde fazemos negócios. Transportes públicos onde nos deslocamos em público. Habitualmente.
Os terroristas de Conrad regressaram sob novas roupagens. E a única forma de entender a besta é saber do que a besta gasta. Conrad sabia. Sabia que os herdeiros da «fé» iluminista estavam errados ao acreditar que os homens matam porque a corrupção da sociedade os obriga a isso. E sabia também que a ignorância ou a pobreza não explicam a escolha pelo mal – uma escolha tantas vezes consciente e autónoma. Ouvir o coração das trevas é regressar à natureza prévia onde ele bate. E a única natureza que interessa, ontem como hoje, é a humana."

domingo, 6 de maio de 2007

Sinais da noite eleitoral

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A primeira noite eleitoral, de que me lembro no pós-1974, em que os derrotados não dão os parabéns aos vitoriosos. Vitalino Canas ficou na "História".
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O sorriso de Ségolène deixando-se invadir pelo tédio (vulcânico) da derrota.
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A palavra "pide" na boca de Jardim para sinalizar queixas à CNE.
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Sarkozy, já depois da vitória, num Renault tão dessacralizado e vulgar quanto o é a França de hoje.
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As mãos de Mourinho a tremer.
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Manuel Monteiro relança-se no universo "sem um único cartaz".

Folhetim - 11

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria

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Calou-se, num minuto de luto pela desolação actual do seu terraço. Hesitei entre sentar-me ou dizer-lhe cara a cara que a minha curiosidade dava indícios de ter terminado. Receei que nem me ligasse e, de facto, sonâmbulo falante, voltou à carga: "Coleccionar é ser sultão não de pessoas mas de coisas. É buscar uma harmonia entre coisas de que nos sentimos protectores, ainda que elas nos sobrevivam. De cada vez que comprei uma peça, concedi-lhe e concedi-me um período de adaptação para perceber se ela e eu nos pertencíamos. Cheguei a levar este noivado a extremos inimagináveis. Mesmo que a razão me contrariasse, ninguém me convencia de que a minha colecção podia viver sem mim. Sentia que só através de mim aquelas obras, aqueles livros, aqueles móveis renasciam, que antes de me pertencerem eles vegetavam num limbo indefinido, corriam perigos indeterminados mas não menos terríveis, o perigo de se degradarem ou desaparecerem se os meus cuidados os não salvassem. Enquanto que a maioria das paixões nos ameaça com o risco do caos, a paixão de coleccionar tem a vantagem de impor um método à imensa desordem do mundo e dos objectos. Cada objecto coleccionado narra algo, traz consigo traços de quem o fez, traz alguns dos contentamentos e tormentos da sua feitura. Tormentos por vezes violentos, ainda que nem sempre evidentes. Quem se entrega ao impulso de caçar objectos belos, recorrendo a diversas tácticas e estratégias, sabe do que falo, sabe que, como qualquer apaixonado, não descansa enquanto não consegue o que quer. Acha que exagero se lhe disser que os objectos vivem na alma do coleccionador, tal como a alma do coleccionador permanece viva nos seus objectos? Não acha? Que lhe parece?"
Vencidos pelo peso do sono, os meus olhos estavam já meio fechados quando estas interrogações me caíram em cima e me obrigaram a levantar as pálpebras murmurando uns "nãos" de cortesia que o meu anfitrião decerto nem ouviu.
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(continua)
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Próximo episódio: “Dizia Perse que eu seria escritor, se insistisse na escrita. Lisonjeava-me enquanto seu mecenas, mas é verdade que li imenso.”

sábado, 5 de maio de 2007

Blogues e Meteoros - 29

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A cereja sobre o bolo
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(crónica publicada anteontem no Expresso Online)
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Por razões essencialmente académicas, viajei durante alguns anos dentro de manuscritos medievais. Eram escritos com grafemas árabes embora a língua neles transcrita fosse qualquer coisa entre o antigo Aragonês e o actual Castelhano. Quem os escrevia – autores anónimos que iam reactualizando quase sempre os mesmos textos – tinha perdido a língua mãe e grande parte da sua cultura original. O carácter híbrido destes autores (que sobrepunham à perda de memória uma grande criatividade expressiva) manter-se-ia até à expulsão definitiva da Península Ibéria, já no início de seiscentos.
Refiro-me às vastíssimas comunidades de raiz islâmica – os chamados “mouriscos” – que sobreviveram no Levante ibérico (sobretudo em Aragão) às conversões obrigatórias e às expulsões do início do século XVI (e do final do século anterior). A literatura aljamiada destes derradeiros autóctones islâmicos da Ibéria tinha uma característica singular: a miscelânea temática. Nos manuscritos que circulavam de mão em mão lia-se de tudo: descrição de viagens (na tradição árabe da Rihla), profecias (Aljofores), tratados de superstições, livros de sortilégios, crenças populares, receitas mágicas, fórmulas cabalísticas, temas épicos, ditados, lendas, “Rogarias y Alabanzas de Mahoma”, disputas com judeus e cristãos, instruções para a leitura do Alcorão, excertos tradicionais (Hadith), temas gramaticais (sobretudo fonéticos), preceitos relativos a heranças, medicina popular, fórmulas mágicas, sequências didácticas e morais, etc, etc.
Este modo desfragmentado de abarcar um mundo inevitavelmente perdido (hoje dir-se-ia “este discurso pós-cultura”) está a reaparecer na actualidade com outras vestes. Veja-se: perda de memória colectiva e de referências fixas; o emergir de uma nova hibridez (as fronteiras das culturas hoje atravessam-se no globo), de novos modos expressivos e de mediação (chatsfera, mediasfera, blogosfera, etc.). E ainda, para terminar, alguma miscelânea temática como método. Esta última característica tornou-se óbvia no universo dos blogues que está a ser, por sua vez, nos últimos – poucos – anos, transposto para livro. O Meu Pipi (Oficina do Livro, 2003), Pedro Mexia (Fora do Mundo, Cotovia, 2004), Barnabé (Oficina do Livro, 2005), O Gato Fedorento (Cotovia, 2005), Jaquinzinhos (O Espírito das Leis, 2006) e alguns outros iniciaram a saga.
Como cereja sobre este bolo de ressonâncias já antigas, surge agora Intriga em Família de Eduardo Pitta (Quasi, 2007) que reúne perto de trezentos posts desassombrados e heterodoxos do blogue
Da Literatura. Se ainda fosse preciso provar que na blogosfera se escreve particularmente bem, esta obra de Pitta reluziria. Além disso, neste guia “sage” e de bom manuseio, o recorte temático é, por natureza, abundante e variado. É a nouvelle cuisine servida a todos. Sem qualquer excepção. E graciosamente. Ponto.com.

Folhetim - 10

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria
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No meu tempo, poucos tiveram o privilégio de olhar estes quadros. Apesar de educado à europeia, conservei hábitos do Próximo Oriente e nós, orientais, não mostramos a ninguém os nossos haréns. Um costume prudente. As minhas belezas artísticas tinham de contentar-se com o privilégio da minha companhia. Não me julgo _ nem espero que me julguem _ um tiranete à antiga. Habituei-me foi a lidar com as minhas obras de arte como um sultão lida com o seu harém, como um sábio trata os amigos mais queridos e um pai se preocupa com os filhos. Depois do trabalhão que elas me deram, do pormenor com que as estudei, com que lhes discuti ou aceitei sem discussão os preços, com que lhes devotei o melhor de mim depois de serem minhas e as coloquei nesta casa para que nunca mais fossem separadas, queria conservá-las num espaço único, num porto de abrigo qualquer onde se sentissem bem, onde fossem, em suma, felizes. Será legítimo atribuir às obras de arte o direito à felicidade? Creio que sim. Não as coleccionei para perpetuar o meu nome como coleccionador, coleccionei-as para ter o direito a vê-las de cada vez que me apetecesse. Dispondo dos meios necessários, moveu-me o princípio de que cada aquisição fosse ponderada e escolhida com o maior detalhe, desde a sua qualidade intrínseca até à autenticidade da patina. De todas elas, a mais prestigiosa será sempre a face severa e suave daquela andrógina figura de Rembrandt a que uns chamam Alexandre o Grande e outros Palas Ateneia, a tal que nasceu já armada e guerreira da cabeça de Zeus. Inclino-me para esta última tese, agrada-me que a cabeça seja de mulher, ou melhor, de deusa. Custou-me tanto esforço e dinheiro e deu-me tal prazer, que chegava a adoecer ao pensar na hipótese de que algo lhe acontecesse. Hoje está a salvo em Lisboa. Aqui, todavia, bem iluminada e sem que um vidro se intrometesse entre nós e a nobreza dela, revelava a sua suprema força de carácter. Sem as minhas obras-primas, este edifício ficou irreconhecível. E o terraço perdeu a graça, as trutas e faisões desapareceram, a falta de rega secou a terra, secou o buxo, as sebes, os vasos ficaram vazios, os meus diálogos ficaram em suspenso por falta de alguém com quem dialogar."
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(continua)
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Próximo episódio: “Quem se entrega ao impulso de caçar objectos belos, recorrendo a diversas tácticas e estratégias, sabe do que falo, sabe que, como qualquer apaixonado, não descansa enquanto não consegue o que quer.”