sexta-feira, 4 de maio de 2007

Acrobacias antes do voo

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A piada da engenharia bateu hoje à porta do governo (dizia Mário Lino, perante uma audiência regional, estar "inscrito na Ordem dos Engenheiros"). O fantasma teve aqui um nome claro: a (imprudente) acrobacia da OTA. Mas terá um outro nome oculto: o fim do estado de graça do governo.

Fernando Monteiro no Folhetins e Novelas

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Depois de ter iniciado a sua vida com a publicação (ainda a decorrer e a meias com o Miniscente) do conto de Almeida Faria, VANITAS - 51, AVENUE D´IÉNA, o blogue Folhetins e Novelas anuncia agora a publicação do romance A Múmia do Rosto Dourado do Rio de Janeiro de Fernando Monteiro (que se prolongará durante 103 episódios, a partir da próxima Quarta-feira, dia 9 de Maio). No Jornal do Comércio do Recife, escreveu Schneider Carpeggiani sobre este romance: o autor “constrói um complicado mosaico, cuja última peça só se encaixa no momento derradeiro. A idéia que parece permear A Múmia é a de que não basta mais ter uma boa história, mas sim a posse da maneira exata para desestruturá-la, requentá-la e, por fim, requintá-la, completando dessa forma sua sedução”. Sobre o romance e o autor, consultar mais aqui.

Escavações Contemporâneas


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A nova rubrica, "Escavações Contemporâneas", tem o painel já confirmado: às Segundas, João Pereira Coutinho; às Terças, Fernando Ilharco; às Quartas, Viriato Soromenho Marques; às Quintas, Bragança de Miranda e, às Sextas, Paulo Tunhas (a ler hoje sem falta!).
A ideia é remar contra a corrente da rede, aproveitando, no entanto, a corrente da própria rede. Isto é: desenterrar textos (minimamente atemporais) que a voragem da actualização em que vivemos tenha feito desaparecer.

Escavações Contemporâneas - 3


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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Paulo Tunhas*)
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O QUE É O HORROR?
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"A televisão deixou-nos ver, no outro dia, um espectáculo dos mais sinistros que se possa conceber. Tinha aquela carga suplementar de horror que deriva da absoluta previsibilidade e transmitia uma sensação parecida com a da mistura de irrealidade e cruel verosimilhança que se tem quando alguém se parodia a si mesmo. Era demasiado ficcional para ser real e era simultaneamente demasiado real para ser ficcionável. Era uma terrível mentira verdadeira. Daquelas que fazem desaparecer o mundo por momentos às almas que apesar de tudo crêem numa espécie de afinidade entre os seres e não são escuteiras, quer dizer: não têm a irritante mania que o mundo existe sempre e que elas são extremamente necessárias a essa existência. Essas estão sempre bem e têm uma confiança que não é má-educação chamar cretina na infinita bondade universal do que lhes parece natural.
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O espectáculo consistia na confirmação pelo Conselho de Estado de Cuba, presidido por Fidel de Castro, da sentença de morte do general Ochoa e de mais três oficiais, condenados, parece, por tráfico de droga. Como infelizmente não parece impossível que seres que confundem a inefabilidade da sua inconsciência com a pedra-de-toque da verdade existam, talvez valha a pena explicar porque é que para um vulgar ser humano aquele espectáculo deveria ter provocado uma reacção de horror. Mas sem dúvida que é rigorosamente inútil procurar fazer, mesmo que vagamente, compreender quanto a questão da verdade ou falsidade da acusação é neste caso por inteiro espúria.
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Comecemos pela cena. Fidel de Castro falava ao Conselho de Estado, umas vinte pessoas. Exibia as suas penas pessoais pelo facto em si e pela condenação de Ochoa, antigo herói da revolução. O Supremo Tribunal Militar já ratificara a pena capital ditada pelo Tribunal Especial Militar. Tratava-se agora da decisão final. Fidel falava com emoção. Dava a entender que a sua decisão era um sacrifício. O príncipe, mesmo o príncipe de uma revolução, tem que obedecer à lei. Não falava pelo seu coração (o seu coração batia por um antigo amigo), falava por uma obrigação maior — o bem do povo e da revolução, a justiça popular — que habitava nele e a que ele se dedicava. Mesmo que lhe ferisse o coração. Falava, em última análise, contra si. O seu voto de confirmação da pena de morte — cuja abolição os comunistas entre nós devem achar uma vitória da liberdade, e não é preciso dizer mais — partia-lhe o coração. E contra o seu coração, em primeiro lugar, votou. O voto dos outros a seguir veio. E, por unanimidade, foi concordante com o voto de Fidel.
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Esta história edificante de um sacrifício revolucionário é, a todos os títulos, exemplar — e na sua exemplaridade reside discretamente o seu horror. É exemplar, em primeiro lugar, porque é inteiramente previsível. Toda a gente sabia que se iria passar assim. Os ímpetos perestroikos ainda não chegaram a Cuba e os modelos seguidos são os das tiranias de ideologia altruísta (de que o comunismo é, perdoe-se o optimismo, o modelo acabado). Por isso não há novidade para o espectáculo.
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É exemplar, em segundo lugar, porque é já uma paródia de si mesmo. É a repetição de uma história antiga, o que o comunismo, mais do que qualquer outro sistema, tem tendência a exibir, confirmando, por uma vez, uma previsão de Marx. Daí o lado quase cómico de tudo isto — ou inteiramente cómico para quem não sentir o horror da morte ou a puder justificar. Há descrições fiáveis, feitas por autores divulgados, das encenações que Estaline e os seus amigos faziam em privado das últimas declarações das vítimas dos processos de Moscovo. Mas o problema é que a tragédia, repetindo-se, continua tragédia. O cómico, se se quiser, é a consequência histérica da irrealidade aparente dos factos. É uma defesa. E uma defesa do cinismo. Não é inteiramente perdoável, mesmo que olhar de frente a tragédia seja insustentável.
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É exemplar, em terceiro lugar, porque é uma mentira verdadeira que faz perder o mundo. Quer dizer, é uma traição ao mundo. Há crimes que degradam o valor do mundo. Expresso numa linguagem egoísta, isto significa que há actos que fazem perder a sensação de continuidade do Eu com o mundo. Certamente haverá almas que o negarão: terão os resquícios de uma ciência do mundo que lhes pemitirá restabelecer a continuidade. É coisa de escuteiros progressistas e é uma mentira verdadeira porque simultaneamente inconcebível e previsível e real.
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É exemplar em quarto e último lugar porque provoca o silêncio. Os confiantes cretinos na bondade do que se educaram a pensar como natural perdoam tudo. E perdoam tudo porque nunca lhes passou pela cabeça aquilo que Santo Agostinho uma vez escreveu: que a piedade é coisa diferente da pura e simples abstenção do mal. Não sabem, singelamente, o que é horror."
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*O Primeiro de Janeiro, 19 de Julho de 1989

Folhetim - 9

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria
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O meu anfitrião pareceu perder-se por instantes na distância dessas ilhas, de onde pouco depois regressaria: "Já que o senhor é dado à leitura, se quer conhecer Perse sugiro que comece por Exil, um dos livros que ele me enviou em mão para Portugal, por um amigo, e onde encontrei ecos do que eu mesmo vivi, longe das minhas origens, da minha primeira língua. Nem para mim nem para ele o exílio foi só uma experiência, não, o exílio foi a nossa experiência, uma via sacra com paragens precárias, provisórias, na nossa condição de nómadas. Ele gostava de disfarces, recorreu a vários pseudónimos e, na correspondência de meia dúzia de anos entre nós, inventou outro _ Douglas _ que depois ambos usámos. Por amor ao secretismo nenhum de nós concedia entrevistas, ser falados não fazia parte dos nossos objectivos. A mim faltava-me paciência para conversar com jornalistas e eles vingavam-se indo de propósito a Lisboa buscar informações irrelevantes junto do pessoal do Avis, ou ao Ritz em Paris ou a outros hotéis por onde passei. O caso de Perse era diverso, e acredito que a discrição lhe trazia vantagens libertinas. Casou tardíssimo, aos setenta e um, idade em que só poetas ou milionários se atrevem a casar. Consta contudo que, antes da americana com quem veio a casar, foi homem de longas ligações amorosas. O seu fascínio pelo feminino nota-se em poemas que resistem a ser classificados, pequenas epopeias, elegias ou odes com algo de bíblico, de erótico:
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_ Jeunes femmes! et la nature d´un pays s´en trouve toute parfumée...
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e eu sou sensível a versos desses porque também dediquei ao feminino um culto que muitos dos meus quadros denunciam: além da cunhada do Fantin-Latour de que já lhe falei, há um Retrato de Rapariga, do Ghirlandaio; uma Dona Leonor, irmã de Carlos V e duas vezes rainha, primeiro de Portugal, depois de França, retratada por Van Cleve; a Helena Fourment, do Rubens, a Madame Claude Monet, do Renoir; e outras, como a tristonha infanta Dona Mariana do Velasquez ou a Santa Catarina atribuída a Cranach. Lutei anos a fio por uma dama do Goya que não obtive e considero uma derrota esse insucesso.
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(continua)
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Próximo episódio: “Inclino-me para esta última tese, agrada-me que a cabeça seja de mulher, ou melhor, de deusa. Custou-me tanto esforço e dinheiro e deu-me tal prazer, que chegava a adoecer ao pensar na hipótese de que algo lhe acontecesse.”

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Folhetim - 8

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA

por Almeida Faria
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Aí tive um vago vislumbre do esplendor daquela casa em vida do proprietário. As portas de espelhos lapidados – de dobradiças e fechos e puxadores amarelos como os frisos das cadeiras, dos canapés e cadeirões dourados nos mesmos tons que os apliques de três braços – ampliavam a estreita galeria reflectindo os motivos dos móveis, dos tapetes persas, do soalho embutido, num cruzar de imagens repetidas que me deixou meio perdido. Por uma dessas portas, à direita de quem chega, a governanta indicou-me um corredor dito de serviço, de chão axadrezado e muros e tectos forrados de azulejos branco baço, como num hospital, e onde outrora ficavam os quartos das criadas. Coube-me o quarto número dez, com uma sacada virada a poente, que me alegrou pela perspectiva de ter sol ao fim da tarde. Desfiz a mala, saí e andei um bocado para desentorpecer as pernas. Desconhecidos passavam por mim descontraídos, talvez por ser véspera de fim-de-semana, véspera de férias para alguns, verão para todos, dia longo. Na Étoile tomei um táxi para o Museu d'Orsay, onde queria revisitar o Rimbaud e o Verlaine em Um Canto de Mesa, e o retrato de grupo no estúdio de Manet. Mas em nenhum momento dei por este inteligente e culto cavalheiro.
«Já vê que não me intrometi, nem no Museu d'Orsay nem enquanto o senhor lia. Respeito aqueles a quem a leitura dá prazer, também fui desses. Em jovem diletantei em livro de viagens que Saint-John Perse elogiou, e o gosto de ler estará na base da minha obsessão pela Leitura do Fantin. Este Perse era bom poeta, creio, embora um tanto áulico de mais para o meu gosto. Conhece versos dele? Não? Nem são bem versos, são versículos em tom oracular, de fôlego oceânico, de uma eloquência quente, comovente, frases como vagas demoradas. Impressionaram-me. Em Exil _ onde havia curiosos jogos fónicos entre Alexis, um dos seus nomes de baptismo, e exil _ o halo das palavras valia tanto quanto o seu sentido. Talvez os poetas sejam todos assim, não sei, este foi o que eu mais li e sei que ele saboreava as palavras como coisas concretas, dotadas de espessura e peso. Tínhamos em comum esse respeito pelo concreto. Os estudos de mineralogia, de geologia, de ornitologia, sobretudo das aves marinhas, a sua prática de navegar, aliados aos seus talentos, fizeram dele um cantor do cosmos, do mundo imemorial, dos mitos, do ar, do mar, dos elementos olhados como se acabassem de nascer. Botânico minucioso, aconselhou-me quanto à flora a plantar no meu parque normando e depois da guerra perguntava-me se a alta sabedoria das minhas árvores _ era assim que ele escrevia _ fora poupada aos furores bárbaros. A relação dele com a natureza era muito intensa, mais ainda que a minha, e o que ele mais apreciava nesta casa não era a biblioteca, era o terraço por cima de nós, no último piso. Já subiu até lá? Antes da guerra, nos anos breves em que fui reunindo as minhas preciosidades nesta casa para melhor me rodear do meu passado, os faisões esvoaçavam no terraço em voos curtos, domesticados, por sobre as colunas e obeliscos, e as trutas nadavam à vontade no tanque ao comprido, onde a água saltava de repuxos e saía de bicas, como num chafariz. Ali conversávamos sentados, num recanto elevado do terraço, e Perse não era como outros poetas de quem se diz que são uns tímidos, uns sujeitos virados do avesso, Perse era mais que um conversador, hipnotizava quem o ouvia narrar estadas na China, contactos políticos e cenas da sua infância em Guadalupe, Pointe-à-Pitre, nas Antilhas."
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(continua)
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Próximo episódio: “Consta contudo que, antes da americana com quem veio a casar, foi homem de longas ligações amorosas. O seu fascínio pelo feminino nota-se em poemas que resistem a ser classificados, pequenas epopeias, elegias ou odes com algo de bíblico, de erótico (…)”

quarta-feira, 2 de maio de 2007

A voz e o juízo

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Na radiografia portuguesa que António Barreto tem apresentado, às Terças-feiras no canal 1 da RTP (“Portugal – Um Retrato Social”), há uma voz que não se limita a relatar ou a narrar. Ela também denota outros dons e não é nunca neutral (a prosódica tem faculdades parecidas com as que luzem na imagem). A voz de Barreto, profunda e um tanto melosa, aparece como dissociada da realidade que evoca. Como se já não pertencesse à festa ou ao desencanto de que dá conta. Como se os contrastes do mundo enunciado se tivessem apeado do analista que, quase funéreo, lhes enumera virtudes e uma mão cheia de desaires. Uma voz é sempre uma voz que julga. O testemunho das “angústias” e da “pouca sorte” – ontem o tema remetia para a juventude (esse rio entre ravinas, descontrolado) – reflecte-se na voz de Barreto com a luminosidade com que o pico da montanha terá observado Sísifo. O pathos, ou a paixão soterrada na experiência que já foi, sobressai ainda mais quando a cascata do presente excede a capacidade do comentário. Por outro lado, no verso da ciência sociológica, e, porventura, com a legitimidade que ela empresta à abordagem, não é raro apercebermo-nos – nós, espectadores – de que aquela voz tão excessivamente off não pára de enumerar dados óbvios, senso comum, alguns desabafos de snack, encadeamentos argumentativos mudos, generalidades. Não é sempre assim, é evidente. Mas a seriedade e o caos coabitam em todo o lado. Mesmo nos discursos brilhantes. Até mesmo no universo cristalino de António Barreto.

Folhetim - 7

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA

por Almeida Faria

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«Aqueles fulgores de frutos e flores onde perversamente aparece a pétala fanada, a polpa murcha, o podre; aquelas riquezas da Terra onde de súbito surge o bolor e o verme; os moluscos e insectos carregados de recados, a mosca simbolizando talvez o demónio ou o mal, o caracol cuja casca alude, segundo alguns, ao vazio da fortuna, ao oco tambor da vanglória e da fama. Quanto me esforcei por obter uma dessas maravilhas! Mas as boas não apareciam no mercado, quem as tinha não as largava, ou estão nos museus, no Louvre, em Berlim e Viena, e nas grandes colecções dos holandeses. Fui de propósito a Estrasburgo ver A Grande Vaidade, do Stoskopf. Não a conhece? Não perca. Lá está a ampulheta, a caveira, o mundo enquanto teatro – uma gravura na parede representa não me lembro já que arlequinada. Vale a pena a viagem, e olhe que quem lhe fala deu muita volta aos melhores museus mundiais. Infelizmente não fui na minha vida anterior à América porque, quando pretendi ir, veio a guerra. Como adivinhei que aprecia obras destas? Então não acha extraordinário que eu não o interrompesse enquanto lia esse tal Herbert?»
Só um espírito saberia o que eu fizera antes de adormecer! Lia, com efeito, algumas páginas de Zbigniev Herbert sobre Simon van de Beeck, que se autocaracterizou assinando Torrentius e foi admirado no seu tempo como mestre da mais perfeita imitação da vida visível, esquecido depois durante três séculos e recentemente redescoberto. Pintor enigmático e semiclandestino que me faria companhia nesta mansão onde vou expor As Lágrimas de Eros, que não imaginei em ambiente tão solene. Quando me convidaram a apresentar toda a série e acentuaram a palavra toda, aceitei sem hesitar porque me apetecia vir a Paris e passar dias inteiros no Louvre. A pintura obceca-me tanto que a qualidade das cidades depende dos seus museus de belas-artes. Há anos que Paris para mim principiava diante de certas telas do Louvre e terminava minutos antes do encerramento do museu, quando zelosos funcionários corriam comigo de uma dessas salas onde sempre me faltava rever algo. Salas que me faziam levitar, justificando só por si toda a viagem, e que ainda mais atraentes se tornaram desde que de algumas delas se descobre, da janela, o jogo entre a ligeireza das pirâmides de vidro, os efeitos do vento na água dos tanques triangulares e a compacta exuberância das fachadas do pátio outrora real. Agora movia-me também o desafio do contraste entre os meus desenhos escandalosos, nunca expostos, e a sóbria seriedade do vestíbulo do pequeno olimpo da avenue d´Iéna, cujas normas e pormenores a governanta me explicara à chegada, à medida que o envidraçado elevador Art Déco, de madeira, ferro forjado e banco almofadado, nos conduzia pouco apressado ao segundo andar.
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Próximo episódio: “Tínhamos em comum esse respeito pelo concreto. Os estudos de mineralogia, de geologia, de ornitologia, sobretudo das aves marinhas, a sua prática de navegar, aliados aos seus talentos, fizeram dele um cantor do cosmos, do mundo imemorial, dos mitos, do ar, do mar, dos elementos olhados como se acabassem de nascer.”

Escavações Contemporâneas - 2


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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: Viriato Soromenho Marques)
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"1.NAÇÕES IMAGINÁRIAS (21/01/1999)
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O mundo, e em particular a Europa, vivem hoje sob a sombra do que parece ser um dos mais difíceis paradoxos do nosso tempo. Os sinais, entre outros, são os seguintes:
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No Kosovo, albaneses e sérvios prosseguem num massacre intempestivo e cruel, que partindo dos confins da história, ameaça tornar-se num conflito regional de proporções incertas.
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A União Europeia avança para a moeda única, mas as divisões nacionais, e a transformação da Alemanha num país 'normal' (que defende o seu egoísmo nacional com a firmeza de todos os outros) tornam quase impossível uma Agenda 2000 favorável à coesão económico-social, e estiveram à beira de deixar a União sem a sua Comissão, o mais imparcial e menos 'nacional' dos seus órgãos.
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No Brasil, o velho Ítamar Franco, candidato presidencial falhado, ao não pagar as dívidas do Estado de Minas Gerais aos cofres federais coloca o Brasil à beira da ruptura e lança as bolsas do mundo inteiro numa vertigem depressiva.
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Em Angola, a hora da paz, conseguida com tantos esforços e tantas vítimas, deu outra vez lugar à guerra aberta, com exércitos que falam português combatendo em ambos os lados da barricada.
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Qual é o verdadeiro paradoxo jazendo sob estes fenómenos, dispersos pelos quatro cantos do mundo?
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Por um lado, quando se perspectivam os grandes problemas e interrogações do futuro conjugamos, cada vez mais inevitavelmente, o difícil verbo GLOBALIZAR.
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Por outro lado, quando se procuram as forças e os sujeitos capazes de se tornarem nos protagonistas do futuro, vislumbramos os Estados, os Povos, os Indivíduos continuarem prisioneiros de velhos dilemas, angústias e ódios associados ao problema da identidade nacional.
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Quando pensamos nos grandes problemas da economia, do comércio, do ambiente, da guerra e da paz, voltamo-nos, sem outro recurso, para o horizonte do diálogo, dos compromissos e das instituições internacionais e supranacionais...
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No entanto, quando confrontados com a urgência desses desafios, próprios de um planeta em acelerada transição, refugiamo-nos, talvez defensivamente, na aparente segurança dos valores nacionais.
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Esquecemo-nos, porventura, que a própria formação da Nação e da consciência nacional não constituiu uma dádiva da Natureza, tendo sido antes o fruto de um trabalho altamente complexo de construção e sedimentação históricas.
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Os Estados-Nação, consolidados sobretudo no século XIX, correspondiam, também eles, à necessidade de responder a tarefas que já não poderiam ser enfrentadas a uma escala espacial e organicamente inferior.
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O que significa ser-se hoje, nesta viragem de milénio, um nacionalista? Até que ponto e em que medida é compatível a preservação da identidade nacional com a urgência das novas tarefas globais? É possível uma posição nacionalista que não se afirme à custa da lógica da exclusão e do desrespeito pelos direitos humanos universais? O que é que existe de estrutural e de simplesmente conjuntural na presente vaga de nacionalismos?
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Estas são algumas das perguntas que entrarão, inevitavelmente, na agenda política do século XXI. Um século em que teremos de aprender a estender o nosso patriotismo às fronteiras do mundo inteiro. Um século em que, quase inevitavelmente, teremos de escolher entre sermos cosmopolitas, cidadãos o mundo, ou abrirmos as portas ao caos e à catástrofe do sistema internacional."

terça-feira, 1 de maio de 2007

Folhetim - 6

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria
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«Nunca me conformei com não ter nenhum Whistler, o amigo americano do Fantin. Partilhavam de um fraquinho quase feminino por flores, e refinaram na feitura daquele tipo de retratos que, sem se limitarem aos corpos, às caras, conseguiam meter no quadro a casa ou o ambiente de trabalho dos retratados. Sim, amigos de longos anos, por isso os juntaram agora no Museu d´Orsay. Como decerto reparou, na Homenagem a Delacroix Fantin colocou Whistler mesmo ao centro, a seu lado, ambos fazendo pendant com Manet e Baudelaire. Sim, é verdade, ainda ontem o senhor esteve diante desse quadro, mas talvez não recorde que se conheceram no Louvre, quando o jovem Fantin copiava pormenores das gigantescas Bodas de Canaã. Fantin era apagado, tímido e baixinho, sobrevivendo à custa de cópias de quadros famosos. Durante o inverno metia-se na cama a desenhar por não haver aquecimento em casa. Whistler gozava de rendimentos suficientes para lhe pagar uns consommés no Café Molière e para o convidar a ir a Londres, onde o instalou em casa de um cunhado. Em contrapartida, Fantin apresentou-o a Courbet, que havia de retratar a modelo irlandesa de Whistler em La Belle Irlandaise. Lembra-se? Era uma beleza, efectivamente!»
Houve um silêncio sonhador antes de ele retomar o fio ao que dizia: «Whistler, por seu turno, apresentara a Fantin o então parisiense Swinburne, de comprida e ruiva cabeleira romântica, que fui ver pintado por Dante Gabriel Rossetti no Fitzwilliam Museum, em Cambridge. E Swinburne, nesta dança de roda, introduziu-os no cenáculo do dito Rossetti que lhes arranjou clientes endinheirados e boémios. Fantin admirou o bem-estar e a abundância da burguesia britânica com o mesmo respeito que dedicava aos pintores do passado. Mas voltando a Whistler, que viveu parte da adolescência como um príncipe, em S. Petersburgo, onde o pai dirigia a construção da via férrea para Moscovo na dependência directa do czar, tentei informar-me se haveria por lá algum dos seus primeiros quadros. Em vão, nada à venda. Procurei até em Estocolmo, onde vou bastantes vezes para ver e voltar a ver as caveiras com coroa de louros de Christian Thum; a sumptuosa simplicidade das cerejas do Osias Beert; ou o Jan Davidsz de Heem com copos de vinho, frutos diversos, ostras abertas e até um caracol avançando de cornos ao sol na toalha vermelha; ou as tulipas com rã e borboletas do Johannes Bosschaert. Do Whistler, nada. A S. Petersburgo não fui na outra vida, ainda que negociasse com o departamento soviético de antiguidades que me vendeu obras do Ermitage. Paguei a marchands meus conhecidos, peritos em transacções por essas bandas, sempre em vão. Foi uma das minhas frustrações, tal como a de nunca ter conseguido nem uma daquelas misteriosas naturezas-mortas designadas por vanitas, que traduzem em imagens o memento, homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris.
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(continua)
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Próximo episódio: “Não a conhece? Não perca. Lá está a ampulheta, a caveira, o mundo enquanto teatro – uma gravura na parede representa não me lembro já que arlequinada. Vale a pena a viagem, e olhe que quem lhe fala deu muita volta aos melhores museus mundiais.”