segunda-feira, 30 de abril de 2007

Portugal, país filosófico

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Há metáforas que certos espíritos consideram de imediato do foro diabólico. Uma delas, bastante recente, dá pelo nome de “flexisegurança”. No fundo, trata-se de sugerir que se mantêm vivas algumas perspectivas num mundo onde a ausência de perspectivas passou a constituir o nosso dia a dia mais natural. Para além desta metáfora recente, existem muitas outras metáforas de teor igualmente flexível que não se chegam a soletrar, mas que abundam no nosso quotidiano como coisas adquiridas, dadas, óbvias e, portanto, também naturais. Uma delas é este “flexidescanso” entre feriados, ou seja, este sentido da vida muito português que se designa por “ponte”.Um carinho de metáfora. Basta ver o modo como Lisboa hoje parece viver num ambiente de salutar Domingo. O cenário é de facto cristalino: um vazio de ruas, de salas de aula, de trânsito, de tudo. Há quem não goste muito da “flexisegurança”, mas todos adoram o “flexidescanso”. Portugal, país hedonista. Como é afinal filosófico ter nascido nesta terra!

Escavações Contemporâneas - 1


LCA
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O sorriso do arquivo no tempo da rede
(hoje: João Pereira Coutinho*)
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"Leio na imprensa da manhã que as gravatas estão em declínio. Em 1996, e só em Inglaterra, 70% dos trabalhadores usavam gravata nas horas de ofício. Dez anos depois, a coisa desceu para 56% e, nas «profissões liberais», foi a deserção total. Os vendedores fazem contas à vida e perguntam se vale a pena. Os especialistas da sociologia e da história dizem que não vale a pena. As gravatas foram perdendo relevância pela sua evidente inutilidade.
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Curioso raciocínio. Eu julgava que a evidente inutilidade das gravatas era o principal motivo para as usarmos. Até Luis XIV, que praticamente iniciou o fenómeno, percebeu o facto: ao contemplar os lenços que os mercenários croatas transportavam ao pescoço depois da vitória sobre os turcos, o monarca agradeceu a ideia e resolveu adaptar um adereço bélico, capaz de proporcionar protecção e conforto nas noites de campanha, aos salões de Versalhes. Utilidade? Nenhuma. Inutilidade? Toda. A inutilidade própria de quem entende a estética como prolongamento natural da nossa mortalidade.
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Concordo com o velho Luis. Concordo e por mim falo: no dia em que percebi que não precisava de usar gravata, comprei a primeira. Foi amor à primeira vista: castanha, de lã, numa loja do centro. O passo inaugural de uma colecção que já ascende às duzentas. Alguns dirão que é traço de família. O meu avô, o homem mais elegante que conheci em toda a minha vida, juntou umas mil e tal até ao fim. Lã. Seda. Malha. De todas as cores e feitios. Compradas aqui e acolá. Por respeitabilidade social? Talvez. Mas, no seu caso, desconfio que as usava por respeitabilidade pessoal. Ele podia não precisar de usar, porque a certa altura passou simplesmente a trabalhar no escritório, em casa. Mas não usar gravata era como não usar cuecas por baixo das calças. Possível, em teoria. Desconfortável, na prática.
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Comigo, não. Uso-as pela evidente inutilidade que as define. Porque as gravatas são uma celebração da inutilidade. São uma forma de dizermos: sim, eu sei que isto não passa de um trapo colorido sem nenhum valor utilitário. Mas o mundo que habitamos, quando despido de qualquer coloração humana, também não passa de uma evidência física incapaz de transportar qualquer sentido, ou beleza, ou eternidade. Os quadros que amamos são uma mistela de tintas sobre linho: um amontoado de átomos sem nenhuma expressão humana particular. Mas quando os vemos com um olhar grato e deslumbrado, a evidência da tinta desaparece por trás de deuses ou heróis que tomam literalmente conta do quadro. Um traço de tinta é agora um braço; a folhagem perdida de uma vista; o nevoeiro que vem e tudo cobre. E o que ficam são histórias e mais histórias: de como Vénus nasceu das águas. De como Deus tocou no dedo dos Homens e lhes deu vida e imortalidade. De como a névoa chegou a Veneza e tudo cobriu de tristeza e melancolia. Sim, Veneza: aquele amontoado de casas. De pedras, cimento, tijolo. De becos, canais e ruelas, para usarmos a descrição científica, e cientificamente rigorosa, que horrorizava Proust com a força de uma blasfémia. Mas Veneza é também lugar, e memória. E o que anteriormente eram pedras e ruelas, são agora locais de passagem e de regresso.
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Mesmo o rosto da pessoa que amamos será uma colecção de tecidos animados por um batimento cardíaco que começa e acaba sem ninguém saber como, ou porquê. Mas o rosto da pessoa que amamos é tudo menos isso: é a promessa de que a nossa solidão é testemunhada e embalada pela simples presença daquele rosto. Os livros de anatomia estão certos. Os livros de anatomia estão completamente errados.
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As gravatas são pedaços de tecido. Mas são mais do que tecido: são uma extensão inútil da nossa preciosa singularidade. Uma forma de sermos vaidosos, pirosos. Modernos, antiquados. Excessivos, reservados. E, no final do dia, quando desfazemos o nó das nossas vidas, sabermos sempre que, também por isso, somos simplesmente humanos."
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Crónica publicada na Revista Atlântico

Folhetim - 5

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA

por Almeida Faria

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(a ler, também, no novíssimo blogue: Folhetins e Novelas)
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«Fui mais afortunado com esta morada, que me serviu de pinacoteca privada e de residência oficial. A minha mulher e meus filhos Nubar e Rita é que habitavam de facto aqui. Eu vinha por causa da família, dos contactos comerciais e sociais, para controlar o essencial, fiscalizar as finanças, disciplinar o pessoal, suportar os aspectos mais chatos de ser milionário. Estava no centro financeiro da cidade, ao pé dos Bancos com que trabalhava, e passei a gostar dela a partir do momento em que juntei sob os seus tectos alguns dos móveis que por aí vê e as colecções que foram para Lisboa e me fizeram passar dias inteiros nesta galeria, na biblioteca ou no meu gabinete de trabalho, estudando investimentos ou contemplando as minhas preciosidades. Gente maldosa e invejosa, gente inclusive muito próxima, chamou-me avarento insinuando que eu dava volta aos cestos dos papéis para ver se as secretárias gastavam papel de carta a mais. Mentiras e mesquinhices, claro, pessoas que não percebiam que eu preferisse os meus quadros ao convívio com elas. Depois do jantar ia dormir à place Vendôme na minha suite do Ritz, sozinho ou com quem me apetecia. Não por ser libertino, nem apenas pelas razões de segurança que aleguei à família. Na verdade detestava confundir no mesmo ambiente as noites e os dias, e se agora volto à noite aqui é porque já cá não vivo. Não, as minhas noites no Ritz pouco tinham das cenas galantes do Lafrensen, pintor sueco, secreto e sensual de quem comprei alguns quadros. Nem sequer eram noites de aventuras. A partir de dada altura a minha aventura foi a luta pela conquista e pela posse de certas obras, umas a preços de loucura, outras à custa de paciência, persistência e alguma astúcia, outras impossíveis de conseguir. Nunca notou que na minha colecção há poucas naturezas-mortas? Uma delas, a maior e mais vistosa, do Jan Baptist Weenix, fazia um figurão por cima da lareira do Salon Rond, com o seu pavão de longa cauda e os seus troféus de caça, incluindo um cisne morto de gosto duvidoso. Outra, discreta e pequena, do Monet, nunca a apreciei por aí além. A minha predilecta, não por acaso, era do Fantin, a de Lisboa, pois, aquela da jarra redonda com hortênsias creme e rosa velho, em cima de uma toalha com vincos pintados por mão de mestre – sabe qual é? Tem um prato fundo cheio de fruta e um prato de sobremesa com morangos, ao lado de um ramo de groselhas e duas cerejas, um pêssego partido e outro meio reflectido na lâmina brilhante da faca, posta de propósito bem à beira do tampo da mesa de modo a mostrar que o pintor é capaz de fazê-la saltar em relevo do quadro. E o minúsculo reflexo da janela no bojo da jarra, não o acha sublime? Para verificar se me enganei ou não, desafio-o a ir ao meu museu quando regressar à sua cidade.
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(continua)
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Próximo episódio: “Em contrapartida, Fantin apresentou-o a Courbet, que havia de retratar a modelo irlandesa de Whistler em La Belle Irlandaise. Lembra-se? Era uma beleza, efectivamente!»”

domingo, 29 de abril de 2007

Geração de 60

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Aí está mas um blogue estimulante. Para além do meu editor e amigo Manuel Fonseca, pontuam no Geração de 60: Alexandre Brandão da Veiga (jurista), Diogo Vaz Guedes (empresário), Gonçalo Magalhães Collaço (empresário), Inez Dentinho (jornalista), João Luís Ferreira (arquitecto), Jorge Buescu (matemático), Manuel Cunha e Sá (médico), Miguel Maduro (jurista), Nuno Lobo Antunes (médico), Nuno Ribeiro da Silva (engenheiro e economista), Paulo Pereira da Silva (empresário), Paulo Rangel (advogado), Pedro Lains (economista e historiador), Pedro Norton (gestor) e Sofia Galvão (jurista). A seguir com atenção.

A expressão tranquila

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"(...) Como cereja sobre este bolo de ressonâncias já antigas, surge agora Intriga em Família de Eduardo Pitta (Quasi, 2007) que reúne perto de trezentos posts desassombrados e heterodoxos do blogue “Da Literatura”. Se ainda fosse preciso provar que na blogosfera se escreve particularmente bem, esta obra de Pitta reluziria. Além disso, neste guia “sage” e de bom manuseio, o recorte temático é, por natureza, abundante e variado. É a nouvelle cuisine servida a todos. Sem qualquer excepção. E graciosamente. Ponto.com."
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Texto completo nos Blogues e Meteoros (Expresso Online, próxima Quinta-Feira)

Escavações Contemporâneas

O sorriso do arquivo no tempo da rede:
João Pereira Coutinho - Paulo Tunhas -Viriato Soromenho Marques. E muito mais.
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Amanhã à tarde começa esta nova rubrica. A ideia é repor à luz do dia textos (sobretudo ensaio e crónica) que já tenham saído do chamado circuito editorial, mas que continuem a falar-nos com actualidade do deslumbre do nosso tempo. Há que pôr algum travão na apressada reciclagem do quotidiano. A "retoma", no caso das ideias, tem o nome do brilho imprevisto. À segunda vez, sabe sempre melhor. Trata-se, por outras palavras, da redescoberta do fio da leitura.

Boavista

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Panorama interessante da Avenida da Boavista. Um passeio calmo para os olhos nesta manhã de Domingo tão pouco entediada. E... porquê falar hoje de "raiva"?

Folhetim - 4

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria
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(a ler, também, no novíssimo blogue: Folhetins e Novelas)
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«Fui depositando em diversos e dispersos lugares, primeiro no British Museum e na National Gallery, em Londres, depois na National Gallery of Art na capital norte-americana, os quadros do Fantin e dos outros, e assim estive privado deles até que reconstruí e restaurei parte deste hotel particular, cujas caves, cobertas de azulejo branco – como o corredor do quarto onde o senhor está instalado – têm portas de cofre-forte, para as guardar em caso de necessidade. Dei às minhas obras de arte espaço para respirarem e a mesma atenção que dediquei em Londres à igreja de São Sarkis, a qual mandei erigir para meu mausoléu e cenotáfio dos meus pais e em memória dos mártires arménios. O senhor sabe que, num dia só, foram massacrados muitos milhares de arménios, tentaram decapitar de vez a nossa espécie? Completei meio século nesse ano, e chorei como uma criança. Mas dos horrores que sofremos não costumo falar, nem alimento ressentimentos. Fui cidadão do mundo, sem me sentir mais ligado a Scutari, Istambul, onde nasci, ou à Arménia que só visitei depois de abandonar a vossa existência, ou mesmo a Londres onde me naturalizei britânico em mil novecentos e dois, ou a Paris e Lisboa onde nunca me cansei de viver. Nada dado a fervores religiosos, venerei dois únicos deuses: a arte e a natureza. A natureza tem uma face repelente, a bestialidade, a morte, o mau cheiro, que a arte supera mesmo quanto trata do terror ou retrata a fealdade. A arte pode ser inquietante e terrífica – como se diz que os anjos são terríficos – mas também consola e pacifica. Ignoro aliás se os anjos são terríficos, suponho que voam invisíveis, intocáveis, entre os mortos e os mortais. Uma vez que não reencarno mais e que interrompi o ciclo dos aperfeiçoamentos sucessivos, não conto aceder aos círculos deles, o que lamento sem me arrepender. Os anjos devem ter algo de assustadoramente imaterial. A natureza é mais palpável. Não que eu fosse fanático da natureza. Quando arranjei uma propriedade na Normandia nem sequer foi para lá morar, foi para mandar traçar e tratar do jardim inglês e do projecto de parque. Comecei a ocupar-me deles dois anos antes da última guerra. Instalava-me aos fins-de-semana no Normandie, então o melhor hotel de Deauville, e ia durante o dia dirigir e corrigir as soluções do meu arquitecto paisagista. Noutros fins-de-semana passeava de propósito pelo Bois de Bologne para aprender botânica e anotar nomes de arbustos e árvores que pretendia plantar, formando mentalmente o parque que sonhei ter. O que me atraía era ser eu a moldá-lo à minha maneira.
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(continua)
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Próximo episódio: “Depois do jantar ia dormir à place Vendôme na minha suite do Ritz, sozinho ou com quem me apetecia. Não por ser libertino, nem apenas pelas razões de segurança que aleguei à família.”

sábado, 28 de abril de 2007

Folhetim - 3

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA

por Almeida Faria
(a ler, também, no novíssimo blogue: Folhetins e Novelas)
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Sem esperar pela resposta, prosseguiu: "A leitora é a noiva, Victoria; a loura e futura cunhada é Charlotte. Eu teria escolhido a preterida; Fantin, pelo contrário, casou com a outra, pintora amadora, frequentadora do Louvre, amiga de artistas e recém-retratada por Degas, apesar de, quanto a mim, ele adorar Charlotte, como o prova a quantidade de vezes que a retratou. Talvez o sentimento fosse recíproco, embora seja dificil decidir pela altivez e o olhar da bela solitária. Procurei outros retratos dela: a sanguínea estilo setecentista no museu de Lille; o pastel – técnica que Degas retomara do período rococó – no Rijksmuseum de Otterlo; e aquele que veio do Jeu de Paume para o Museu d´Orsay e que o senhor viu ontem. Como sei? Também lá estive, o Fantin leva-me a frequentar esse novo museu. De caminho visito o apartamento que foi meu, no número vinte e sete do quai d´Orsay, e que mantive mesmo depois de inaugurada esta casa. Fosse qual fosse a relação de Charlotte com o cunhado, a verdade é que Fantin me transmitiu o seu entusiasmo. As cenas de interior em que ela aparece são, juntamente com as naturezas-mortas, o melhor da sua obra. Não sei se reparou que A Leitura de Lisboa, com a sua jarra de flores, alia ambos os géneros na mesma tela: a natureza-morta e o intimismo do retrato em família. Não gosto de chamar natureza-morta às representações de flores ou vitualhas, talheres, livros, papéis, objectos domésticos ou musicais. Seria mais correcto chamar-lhes still-life ou Stilleben, mas a língua francesa a isso me obriga. Um amigo meu dizia, por malícia, que eu era mais pelas naturezas vivas. Acontece que, para mim, as naturezas-mortas são naturezas vivas. As do Fantin mais que nenhumas, e dele tive várias. Doei ao Museu das Janelas Verdes umas Rosas da fase final, e fiz a asneira de oferecer outra – um cesto com maçãs e peras, uma jarra, uma faca – ao senhor Cayrol, director de uma companhia de petróleos com quem arquitectei bons negócios. Por sorte, a que ofereci ao senhor Cayrol foi parar ao Metropolitan Museum de New York. Conhece? Pois, a gente jovem viaja tanto que não sei como ocupará o tempo quando passar ao meu estado. Aliás, isto de morte e vida é muito relativo. A vida é um vento breve, mas a morte não o é menos para quem quiser continuar a cadeia de morrer e nascer. Eu não quero, nevermore. Vivi bem, e as alegrias da arte tornam a minha situação mais que suportável.»
Calou-se por momentos, como se receasse ter falado de mais. O mutismo da minha parte tê-lo-á irritado. Para rompê-lo perguntou-me se, no museu de Lyon, vira a natureza-morta do Fantin a que Claudel chamou carré de silence. Não, faltava-me a de Lyon e muitas outras. A minha ignorância acalmou-o e, animado, recomeçou:
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(continua)
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Próximo episódio: “O senhor sabe que, num dia só, foram massacrados muitos milhares de arménios, tentaram decapitar de vez a nossa espécie?”

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Folhetim - 2

VANITAS
51, AVENUE D´IÉNA
por Almeida Faria
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(a ler, também, no novíssimo blogue: Folhetins e Novelas)
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Calvo, de rosto redondo que o bigode e as densas sobrancelhas sombreavam, de carnudas orelhas e nariz direito, fixava-me semicerrando os olhos vivos e levantinos. O arquear da sobrancelha esquerda denotava um ar de superioridade e um hábito do mando não isento de ironia. Havia mesmo alguma delicadeza envergonhada no sorriso astuto e fino, nos lábios mais de gozador que de poderoso. Apesar de atarracado, de pescoço curto e tronco quadrado, afundado na cadeira, o seu porte dava-lhe certa imponência. Com um gesto do braço convidou-me a sentar. Balbuciei que um problema de coluna me dificultava o sentar e o levantar, e que por isso ficava de pé. Ele encolheu os ombros e, numa voz gutural, quase me ordenou que estivesse à vontade. Mais à vontade que isto é impossível, menti. Novo encolher de ombros, seguido das perguntas próprias de um anfitrião: se o meu quarto era confortável, se me agradava a montagem da minha exposição, se considerava os meus quadros bem expostos, se aceitava uma bebida fresca. Apesar da boca seca, disse que não tinha sede, que por enquanto não bebia nada. O cavalheiro iniciou então um longo monólogo, como se só com esse propósito me tivesse arrancado ao primeiro sono. Num francês de estrangeiro mas quase sem sotaque, contou que aquele salão fora uma das galerias de pintura do seu hotel particular - assim se referia ao palacete quando não o tratava, mais modestamente, apenas por casa - e que dantes as amplas janelas à minha direita iluminavam os quadros com uma luz ideal, por isso estiveram ali alguns dos seus preferidos.
"Por exemplo? Olhe, A Leitura do Fantin-Latour, uma daquelas telas que conheço de cor. Está agora em Lisboa, há uns anos contudo o senhor vê-la-ia nessa parede aí, entre as colunas e essa porta que dá acesso a um dos meus escritórios. Não me importaria de ter sempre por perto as duas irmãs nele retratadas: na sombra, em segundo plano, a leitora aponta com o indicador a linha onde ia ao reparar que a sua ouvinte, voltada para dentro e ausente em devaneios, não lhe prestava a atenção devida. Deduzo do vestido austero e do véu ou mantilha preta que a distraída sonhadora sofreu um desgosto recente. Mas o xaile vermelho no regaço - sobre que pousa as mãos abandonadas - e, no cabelo, a fita muito azul, deixam-me na dúvida. Uma era noiva do pintor, a outra ficou por casar. Adivinha qual é qual?"
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Próximo episódio: “Fosse qual fosse a relação de Charlotte com o cunhado, a verdade é que Fantin me transmitiu o seu entusiasmo. As cenas de interior em que ela aparece são, juntamente com as naturezas-mortas, o melhor da sua obra.”