sexta-feira, 13 de abril de 2007

Pré-publicações - 25

Júlia Maria Pinto de Leão, Lévinas e a fenomonologia - O Rosto como facticidade de outrem, Campo das Letras, Abril, Porto, 2007.
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Pré-publicação:
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"Introdução
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Aprender a ler a obra de Lévinas e penetrar no seu horizonte enigmático e sensível obriga-nos a iniciar um processo de reflexão infinitamente complexo. São vários os estudos consagrados a esse filósofo, sempre na tentativa de viver as ilusões e a fantasia ilustradas em cada página dos seus escritos. À semelhança de tantos outros filósofos, também Lévinas tem um estilo próprio ao qual é difícil ficar indiferente; uma terminologia complexa que incentiva todos os seus leitores a procurar o verdadeiro peso das suas palavras (palavras que expressam o desencantamento da época em que Lévinas viveu!). Todavia, sob a poeira dos ventos do pós-guerra e sob a urgente necessitude de repensar a própria vida, permaneceu intacta a necessitude de pensar de um modo diferente a existência humana (...)."
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"(...) O nosso estudo pretende mostrar que Lévinas usa como suporte do seu pensamento a influência de Husserl, sendo a sua filosofia uma radicalização do projecto husserliano da fenomenologia."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

O impensável, o riso e a crença

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Odete Santos saiu do parlamento e o facto tornou-se notícia. E ainda bem. É que a ex-deputada é uma comunista singular por saber que aquele sonho é uma coisa do outro mundo. E trata, por isso mesmo, este nosso mundo por tu, ou seja, sem a angústia austera que povoa a generalidade dos militantes de seita. A espontaneidade de Odete Santos tem - e teve sempre - muito da voz de Zaratustra (III, p.23): "E que seja tida por nós como falsa toda a verdade que não acolheu nenhuma gargalhada". Vai fazer bastante falta àquele hemiciclo cada vez mais seco e descarnado.

quinta-feira, 12 de abril de 2007

Levantada do chão

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Às vezes, parece que os deuses se colocam dentro da baliza. E contrariam tudo: a força da gravidade, o movimento inevitável e o destino dos justos. E é assim que o Benfica sai da UEFA. Tragicamente. O Francisco, em Cruzeiro do Sul, percebeu logo - via TV Record - que as massas, por lá, são todas benfiquistas (fomos falando pelas frestas do tempo). Além do mais, ainda conseguiu recuperar (a tempo) a celerada alma de hooligan e, pronto, deu tudo a perder. Mas se há "cabeça levantada", ela é hoje a cabeça da águia. Do Ártico ao Antártico. Do fundo dos oceanos ao ar mais rarefeito.
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P.S. - "Benfica foi a equipa que mais pontos deu a Portugal" (aqui)

Mais um filme sem heróis

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Não tive tempo para acompanhar a entrevista do PM. Mas, para quem viveu na Holanda uma década, seria impensável ver a NOS (televisão pública) alterar a programação do horário nobre para um directo especial (em formato de entrevista) com o PM sobre a dilucidação de um tema específico.
O mais curioso é que o comentador político que ontem ouvi na TSF (Mário Bettencourt Resendes) insistia no cabal "esclarecimento do país" e no facto de o PM "dominar muito bem o meio da televisão". O essencial, no entanto, ficava de lado. Por outras palavras: numa democracia com tradições consistentes - e não tão susceptível ao caudal ilusório das mediações públicas - o tema da formação académica do PM ter-se-ia inevitavelmente discutido no local adequado. O parlamento. Era aí que o PM, por sua iniciativa, devia ter comparecido há já algum tempo. Era aí que as oposições deveriam ter exigido todos os esclarecimentos.
Pelo caminho terão ficado inúmeros aspectos por clarificar, muitas dúvidas, mas também o já habitual aproveitamento político barato e algum espírito leviano de pura denúncia que tem raízes consolidadas no país. Toda esta novela acabou por se converter afinal em mais um filme à portuguesa sem heróis. Carregado de negatividade. Uma "curta metragem" triste com alguns contornos que evocam a expiação ainda em cena na longuíssima metragem da "Casa Pia".
Hoje, os jornais sublinham a "fragilização" - ou não - do PM no termo deste processo (ver primeira página do Público, por exemplo); mas é a "fragilidade" da nossa democracia que mais se terá evidenciado, sem dúvida nenhuma, nas últimas semanas.

Criatividade

REC
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Primeiras páginas criativas? Nem mais. O jogo de hoje poderia lembrar tudo menos o olhar cálido e expectante de um borrego. Nas meias-finais, sugeria à direcção do jornal a opção pelo bâmbi.
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P.S. - Embora também goste de dança, Francisco, não seria tão optimista!

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Espectacularizações avulsas

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Há hoje quem refira, com a autoridade que a fria objectividade confere, que "o universo de alunos" da Universidade Independente "representa oito milhões de euros (8 M€) por ano". Não me assusta o mercado, é evidente. Antes pelo contrário. O que, por vezes, ainda me abisma é a exclusão de qualquer juízo que há umas décadas se designaria por "moral". Afinal, o cariz feérico dos objectos culturais, a individualidade (da natureza humana) e o fluxo de mercadorias tornaram-se num único "produto" a trabalhar diariamente nas redacções.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Blogues e Meteoros - 25

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Ler aqui a crónica do Expresso online da passada semana: "Presságios e maresias não vão à mesa do rei".

Para além da cultura? - 2

(publicado no Expresso online)
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Paulo Gorjão escreveu, no passado dia 5 de Abril, um post acerca do sentido do seu blogue ("UM BLOGUE À PROCURA DE UM PROJECTO"). Terminava assim:
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"(...) a verdade é que há cerca de um ano e meio que o BLOGUÍTICA anda um pouco à deriva. Falta-lhe uma finalidade. Um propósito (...). Uma encruzilhada sobre a qual não quero, por agora, revelar pormenores."
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A questão é interessante e ultrapassa o cariz retrospectivo da história pessoal do blogger e do seu excelente Bloguítica. Paulo Gorjão começa por constatar - ao longo de mais de oito mil posts - "a existência de diversos blogues dentro de um (mesmo) blogue". Com efeito, a blogosfera - e outras escritas em rede - reatam o tipo de miscelânea de certos textos populares medievais que misturavam catecismo com heranças, prescrições morais, lendas fantásticas, alegorias e imagens exaltantes. Falta, de facto, a estes mistos expressivos aquela unidade temática que reflectiria um sentido próprio dos espistemas modernos (que religam um método a um objecto) ou das narrativas tuteladas por códigos de tipo axial. O carácter híbrido destas escritas tem a sua origem num passeio aparentemente espontâneo através das fronteiras dos géneros.
A superação da ideia estanque de género na blogosfera, tal como a codificamos ainda hoje, é o reverso de um outro aspecto que Paulo Gorjão diagnostica: a ausência de objectivos claros para aquilo que um blogue pretende - pelo menos de início - expressar ("Ao iniciar o BLOGUÍTICA não tinha nenhum objectivo definido"). É evidente que um blogue temático converge no topic que se propõe tratar, mas isso não impede (e até estimula) um tipo de transversalidade que é inevitável no meio onde a nova escrita se desenrola. Na rede, o acto de processar excede quase sempre o desígnio unívoco do método. Pode dizer-se que entre o diferido (o arquivo) e o actual (a ilusão instantanista), a escrita em rede se desdobra como um animal flexível, cujos membros não têm fim, para além de praticamente ocultarem a natureza do corpo a que pertencem. O corpo, nesta acepção, é um enunciado jamais acabado: sem princípio, meio ou fim (finalidade).
A angústia do blogger que vê o seu blogue como um misto (de episódios) pouco "focado", pouco "disciplinado" e demasiado "espontâneo" é natural. É uma angústia que faz parte de um modo mais geral - e sobretudo tradicional - de dar sentido à vida. Mas a multimodalidade da rede tenderá inevitavelmente a inscrever a sua forma e os seus moldes específicos nas escritas que processamos na rede. Porque uma coisa é pensar-se que a rede é apenas um meio (um utensílio prático e instrumental), mas outra coisa é termos a certeza de que nos exprimimos reflectindo esse meio. Aliado à Obra milenar do homem, esse "reflexo" é uma coisa que, a meados do século XVIII, diversos autores baptizaram com o nome de "cultura".
Já estaremos para além da cultura, Paulo?
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Se existisse uma epígrafe ideal para este post, ela teria sido escrito pela Carla Quevedo: "O bomba inteligente é meu, mas se o tivesse de deixar a alguém, seria àqueles que gostam de o seguir."

Para além da cultura?

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Em Portugal, o mecenato dito cultural vive essencialmente entre a aquisição (de obras) e a subvenção (patrocínio, apoio, bolsa, subsídio, etc.). Outras formas mais eclécticas de usufruto são relativamente escassas. Como também o é a edificação (os bancos, em Espanha, constroem anfiteatros e outros equipamentos culturais nas pequenas terras).
O Âmbito Cultural do El Corte Inglês é um exemplo de organização que proporciona inciativas que eu traduziria por “eclécticas” (criação de públicos, debates, cursos, etc.). Em Portugal, para além da criação do Prémio Stuart, entre outros, o Âmbito Cultural tem promovido “cursos” centrados em áreas temáticas bastante variadas.
A partir de amanhã e durante dez semanas - dez sessões -, darei um desses cursos (“Para além da cultura?”) que resulta de reflexões que atravessam alguns dos meus ensaios da última década. Deixo em baixo o texto de apresentação e o respectivo temário.
Para além das fundações, associações, clubes e da oferta municipal, era bom que as nossas empresas contribuíssem – de modo original – para alargar e estimular o espaço público (é sintomático, por exemplo, como a CGD prefere o centralismo vertical das “Culturgests” à ideia mais contemporânea de uma rede de intervenções em micro-centros disseminados pelo território).
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Para além da Cultura
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Vivemos num estádio que poderia designar-se “Beyond the world”. As referências estáveis anteriores ao mundo moderno, assim como as diversas arrumações que as sucederam, não passam hoje de um mar encapelado, volumoso e paródico. Estamos, pois, a viver numa ponte entre uma margem nítida e determinável e uma outra imprecisa, sinuosa e quase indistinta.
É sem dúvida uma travessia fascinante e, ao mesmo tempo, abismada. É sem dúvida um tempo riquíssimo e, apesar de tudo, reflectido apenas na iminência da sua actualidade. É sem dúvida um presente que já não se vê ao espelho como antes, durante décadas, se havia habituado a fazer: diante da sua imagem mais ou menos nítida, centrada e aplaudida: a cultura.
Hoje o tempo tornou-se no vórtice de todas as aparências: o leme de um mundo simultaneamente montado e desmontado pela hipnose da velocidade e das imagens. É neste súbito relance que nos encontramos. Para além da cultura? Pois bem, seja esse o guião deste percurso guiado e, porventura, quem sabe, sempre à procura de guias.
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Unidades temáticas por sessão: Sessão 1 - O “segno”, o dever e a actualidade. Sessão 2 - A criação pré-moderna e o emergir moderno da criação. Sessão 3 - A caracterização da ideia de cultura e o papel actual da mitologia. Sessão 4 - Imagem móvel, criação e a arquitectura da consciência em Damásio. Sessão 5 - Criação, rede e blogues: a aventura da linguagem à procura de si própria. Sessão 6 - Criação, espaço, performance e as tendências artísticas contemporâneas. Sessão 7 - Criação e novíssima poesia portuguesa: panorama e ilações culturais. Sessão 8 - Alteridades culturais: Islão e o mundo cristão. Sessão 9 - Problemas da instantaneidade: do passado escatológico ao presente. Sessão 10 - Do acto criativo de Duchamp ao desafio da hiper-realidade.

segunda-feira, 9 de abril de 2007

Foi há um mês

Na passada semana, o Américo de Sousa permitiu-me rever um instante do lançamento do meu último romance no Porto (Gaia). Na altura, pedi que me enviassem fotos relativas ao lançamento de Lisboa. O meu amigo Alberto Magalhães do Espelho Mau não se eximiu à tarefa e acabou de me enviar algumas imagens. Aqui ficam elas (na primeira fotografia, da esquerda para a direita: o Manuel Fonseca da editora Guerra & Paz, o Francisco José Viegas, eu e a Susana Santos do El Corte Inglés). Os meus agradecimentos!
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A propósito: a Rute Monteiro está ao canto, lá muito ao fundo, do lado direito.