segunda-feira, 9 de abril de 2007

Projecto de ficção para hoje

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Suponhamos que, por encomenda de uma revista, me via hoje subitamente a escrever um conto. E, de repente, as ideias avolumar-se-iam: um recém-doutorado em Badajoz - já agora em comunicação (diferidamente na moda, por isso um tanto paródico) - é chamado a reitor de uma instituição pomposa, embora em claro estado apocalíptico. O personagem é naturalmente funcionário do estado, ou território adjacente (estamos em Portugal), para além de deputado municipal de uma inesperadíssima força política (BE ou um qualquer PRD a inventar). Além disso, detém um ar seráfico acima de qualquer suspeita e é aprendiz daquele sorrisso que os bispos ostentam sempre que se fala - entre outras coisas - na programação da RFM ou nos orçamentos de Fátima. E tudo se passa na hora que precede o anúncio, por parte do Ministro do Ensino Superior, da viabilização, ou não, da tal instituição pomposa. O cenário deste tudo ou nada é um quarto desarrumado, onde o protagonista divide a sua atenção entre o ecrã da televisão e a espera de alguém que nunca mais vem. São quase seis da tarde. Sobre a cama, o fato está dobradinho e pronto. Em caso de luz verde, o professor doutor (por extenso) seguirá em direcção a Lisboa oriental para se fazer ver sob holofotes de ouro. Entretanto, fica a pergunta lá muito ao fundo da narração: por quem esperaria o nosso herói? Aceitam-se hipóteses.

domingo, 8 de abril de 2007

A Academia do Medo

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É uma imensa falácia falar das "Privadas" ou das "Públicas", colocando tudo num mesmo saco. Porque há, de facto, de tudo: "Privadas" de excelência (que, através da avaliação externa, vêem reconhecidos os seus cursos como sendo dos melhores do país) e "Privadas" de inqualificável má qualidade (de que a Independente é a simples ponta do iceberg); "Públicas" de referência internacional e "Públicas" sem alunos, sem investigação e com um corpo docente (dominantemente) localista e sem qualidade. E depois, no meio deste cacho de generalidades, há óptimos professores e grandes investigadores como há também carreiristas sem obra, burocratas, idiotas, cunhas e máquinas de fazer favores em troca de exposição pública. Toda a gente (do meio) sabe o que é a universidade portuguesa. Mas ninguém, ou quase nínguém fala. Por uma simples razão: medo. Medo de perder o emprego, medo de dar a ver a cauda de fora das plumas arrumadas, medo da delação inquisitorial, medo do medo. Medo.
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P.S. - Eduardo: os cursos de Ciências da Comunicação - trabalhei anos e anos na área - constituem um caso muito específico nesta jangada de disputas. Dava para um romance. Abordarei o tema um dia destes. Refiro-me sobretudo à variante genericamente designada por "jornalismo" (já que existem muitas outras).
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P.S. - Caro José Adelino Maltês: o diagnóstico está bem feito, não haja dúvida. Mas o "conúbio" transcende o universo das "Privadas", universo esse - repito - que não deverá nunca ser visto como um todo homogéneo. Muitos Politécnicos, grande parte das Universidades de região e até algumas fronteiriças servem os mesmos fins e proporcionam amiúde moeda de troca para elites (recentes) a nível local, regional e mesmo nacional. Se os jornalistas quiserem, chegam lá. Sobretudo quando deixarem de andar à boleia (seja das modas de circunstância, caso da Independente, seja dos percursos blogosféricos).

sábado, 7 de abril de 2007

Caimão

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Jacinto Lucas Pires elogiou há dias no DN "O Caimão" de Nanni Moretti "contra" a maioria dos críticos ("pior para os críticos", dizia o colunista). Ontem estive duas horas sentado numa das salas do Monumental e, Ó Jacinto!, como é possível tais encómios a um filme que desaproveita o topic que assume, que não desenvolve qualquer linha narrativa (o divórcio, a trama da jovem realizadora, os dramas do produtor, nada!), que esquece o humor e a paródia em benefício dos gags de ocasião, e que não consegue (minimamente) agarrar ao ecrã um mortal que entrega a sua alma às metamorfoses da projecção?

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Paixão segundo JP (act.)

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Hoje vou ver e ouvir um amigo. JP Simões, Cabaret Maxime, 24h.
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E fui mesmo ver. E gostei muito. Hoje, dia 9 de Abril, escreve José Bonifácio no Público 2: "O reportório passou por 1970 (quase todo), foi ao Quinteto Tati e ainda repescou temas escritos para teatro e para a Ópera do Falhado - mostrando que hoje JP já tem obra feita que lhe permita passar uma hora e meia em palco sem a mínima oscilação de qualidade entre as canções". O J merece inteiramente a crítica.

Tonalidade vs Crítica

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Uma formação de base linguística faz com que um deserto pareça uma soma de muitas linhas (sabia disso há muito). E jamais um agregado de manchas, ou de tonalidades plásticas que excedam a soma daquilo que as faz respirar. Não vem mal ao mundo por assim ser. Agora, quando a formação linguística se junta à crítica literária, nem sempre o resultado é o melhor. Repito: nem sempre. Por vezes, a prudência pode confundir-se com a extremidade da nuvem. Mas desta vez, Fernando, parece-me que o teu olhar foi um tanto monocular (refiro-me à generosa crítica publicada no Expresso de hoje).
Olha um escritor a reagir a uma crítica! Será proibido?
Não, claro que não. Sosseguem-se as hostes. O que conta é mesmo o posicionamento. Quanto à marca, já se sabe, é puro solavanco (i.e.: um pedaço de nuvem sem extremidades).

Encarnação

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Para mim, os feriados são rigorosamente arbitrários. Sei que um primeiro de Dezembro e um quinze de Agosto são diferentes, é verdade. Mas vão dar ao mesmo: não venero deuses, nem fardos ou tutelas de tipo prosaico. Creio que aprendi a não viver dessa infância do reconhecimento. Há sempre a excepção do dia de anos, é claro. Mas no meu aniversário, não se verifica jamais esta pasmaceira doentia: passeios vazios, cafés entediados, mancebias turísticas, enfim, uma espécie de pós-vida sem ruínas.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Respostas ao Abrupto (act.)

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Questiona o Abrupto, hoje:
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"Duas perguntas obrigatórias: por que razão a questão dos títulos académicos do primeiro-ministro demorou tanto tempo até chegar à imprensa e por que razão uma vez chegada através do Público, o jornal ficou isolado na sua notícia durante alguns dias, em particular pelo silêncio da televisão?"
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Responde o Miniscente, também hoje:
Porque os blogues são vistos pelos media tradicionais escritos como conversos que não partilham a verdadeira revelação e porque os media tradicionais escritos são vistos pela televisão como quase conversos que não partilham a única revelação possível.
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P.S: - A arquitecta Maria João Rodrigues, a propósito destas respostas, acrescenta uma reflexão sobre o pensamento de dois autores que admira (e que incluiu num livro intitulado “O Preconceito nas Formas da Cultura”, 1998-2007):
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1ª - “(…) da aceitação implícita de novos poderes simbólicos no conteúdo da cidade, resultam também novas territorialidades que remetem para formas crescentes de autonomia dos cidadãos contra o Estado e implicam um maior distanciamento do que Jacinto Rodrigues designa por a insolente permanência do ídolo Cidade” (1) –
Nota: Para o caso em apreço, substituiria Estado por Media tradicional e ídolo Cidade por ídolo Media.
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2ª - “Com a convicção da existência desta diversidade de territorialidades a explorar, proporcionada pelos novos domínios do espaço virtual, onde a liberdade parece mais viável do que no mundo real, alude-se ao pensamento de Castoriadis para quem: resta-nos a barbárie, que só será uma alternativa, desgraçada, se não escolhermos a democracia e a autonomia contra o Estado”(2)
Nota: Nesta frase nada necessita de ser substituído de modo a ser utilizado em prol da significação dos “conversos”.
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(1) Rodrigues, Jacinto - Urbanismo e Revolução, Afrontamento, 1975, p 9
(2) Castoriadis, Cornélius - A imaginação radical e as encruzilhadas da civilização contemporânea Festival do Imaginário, Abrantes, Novembro 1996

Mini-entrevistas/Série II – 147


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Alberto Lyra (aly).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Um mundo reduzido de produtores escriturais e imagéticos: alguns bons, outros péssimos.
- Seguiu algum acontecimento nacional ou internacional através de blogues?
Não.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Um estremecimento de frio ártico, outro antártico, entremeado de um aquecimento temperado e outro tropical.
-Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Creio que poderia ser, mas, por ora, vejo - ouço? - apenas uma manifestação grupal: um grito primal na escuridão.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete, Maria João Eloy, André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira, João Espinho, Henrique Raposo, Jorge Vaz Nande, João Melo, Diogo Vaz Pinto, Alice Morgado e Sérgio dos Santos, Adolfo Mesquita Nunes, João Paulo Sousa, Pedro Ludgero, João Tunes, Miguel Cardina, Paula Cordeiro, Edgar, André Azevedo Alves e Inês Amaral, David Luz, Saboteur, João Miguel Almeida, O Impensado, Hugo Neves da Silva, Paula Capaz, João Pinto e Castro, Sandra Ferrás e Alberto Lyra.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

E Deus a tentar-nos pela Cintura!

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Só três semanas depois é que reparei que o Américo de Sousa captou um dos momentos do lançamento do meu último romance no Porto (aliás, em Gaia). E o texto que deixou por baixo da foto tem a elegância que alguns rios ostentam sob o design das suas pontes (siga-se a praxe: da esquerda para a direita - representante do El Corte Inglés, o João Pereira Coutinho, eu mesmo e o Manuel Fonseca da Guerra e Paz). Ainda me falta descobrir quem tenha registado um dos instantes do lançamento de Lisboa. Haverá voluntários por aí?

I remember JC, Marta e André

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Tempo para relembrar A Paixão (1965) de Almeida Faria:
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“ (...) Será na primavera; no princípio de tudo" (...) "...enterram-se raízes uma a uma, em seguida regaram, regá-las-ão até aos dias sem data” (...) “...festejaremos a preparação da Páscoa e após termos comido lavaremos as mãos na água da ribeira e juntos partiremos pela planície” (...) "Eis que caminha pela manhã da névoa, quando ainda a charneca está cheia dessas aves que cantam como sendo pingos lentos que caem, e, a caminho da missa diária, assalta-o o nevoeiro (...)”
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Almeida Faria: um grande escritor injustamente esquecido pelo fluxo de publicação (o Crazy Horse da literatura) e pela moda almofadada com que hoje se referenciam valores e algumas manchas de verniz.
É verdade, já me esquecia de dizer: Almeida Faria também é um amigo. Convém referi-lo, para que os críticos mais puros, transparentes e honestos me batam comme il faut. De outro modo também não tinha graça.