sexta-feira, 6 de abril de 2007

Tonalidade vs Crítica

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Uma formação de base linguística faz com que um deserto pareça uma soma de muitas linhas (sabia disso há muito). E jamais um agregado de manchas, ou de tonalidades plásticas que excedam a soma daquilo que as faz respirar. Não vem mal ao mundo por assim ser. Agora, quando a formação linguística se junta à crítica literária, nem sempre o resultado é o melhor. Repito: nem sempre. Por vezes, a prudência pode confundir-se com a extremidade da nuvem. Mas desta vez, Fernando, parece-me que o teu olhar foi um tanto monocular (refiro-me à generosa crítica publicada no Expresso de hoje).
Olha um escritor a reagir a uma crítica! Será proibido?
Não, claro que não. Sosseguem-se as hostes. O que conta é mesmo o posicionamento. Quanto à marca, já se sabe, é puro solavanco (i.e.: um pedaço de nuvem sem extremidades).

Encarnação

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Para mim, os feriados são rigorosamente arbitrários. Sei que um primeiro de Dezembro e um quinze de Agosto são diferentes, é verdade. Mas vão dar ao mesmo: não venero deuses, nem fardos ou tutelas de tipo prosaico. Creio que aprendi a não viver dessa infância do reconhecimento. Há sempre a excepção do dia de anos, é claro. Mas no meu aniversário, não se verifica jamais esta pasmaceira doentia: passeios vazios, cafés entediados, mancebias turísticas, enfim, uma espécie de pós-vida sem ruínas.

quinta-feira, 5 de abril de 2007

Respostas ao Abrupto (act.)

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Questiona o Abrupto, hoje:
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"Duas perguntas obrigatórias: por que razão a questão dos títulos académicos do primeiro-ministro demorou tanto tempo até chegar à imprensa e por que razão uma vez chegada através do Público, o jornal ficou isolado na sua notícia durante alguns dias, em particular pelo silêncio da televisão?"
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Responde o Miniscente, também hoje:
Porque os blogues são vistos pelos media tradicionais escritos como conversos que não partilham a verdadeira revelação e porque os media tradicionais escritos são vistos pela televisão como quase conversos que não partilham a única revelação possível.
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P.S: - A arquitecta Maria João Rodrigues, a propósito destas respostas, acrescenta uma reflexão sobre o pensamento de dois autores que admira (e que incluiu num livro intitulado “O Preconceito nas Formas da Cultura”, 1998-2007):
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1ª - “(…) da aceitação implícita de novos poderes simbólicos no conteúdo da cidade, resultam também novas territorialidades que remetem para formas crescentes de autonomia dos cidadãos contra o Estado e implicam um maior distanciamento do que Jacinto Rodrigues designa por a insolente permanência do ídolo Cidade” (1) –
Nota: Para o caso em apreço, substituiria Estado por Media tradicional e ídolo Cidade por ídolo Media.
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2ª - “Com a convicção da existência desta diversidade de territorialidades a explorar, proporcionada pelos novos domínios do espaço virtual, onde a liberdade parece mais viável do que no mundo real, alude-se ao pensamento de Castoriadis para quem: resta-nos a barbárie, que só será uma alternativa, desgraçada, se não escolhermos a democracia e a autonomia contra o Estado”(2)
Nota: Nesta frase nada necessita de ser substituído de modo a ser utilizado em prol da significação dos “conversos”.
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(1) Rodrigues, Jacinto - Urbanismo e Revolução, Afrontamento, 1975, p 9
(2) Castoriadis, Cornélius - A imaginação radical e as encruzilhadas da civilização contemporânea Festival do Imaginário, Abrantes, Novembro 1996

Mini-entrevistas/Série II – 147


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Alberto Lyra (aly).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Um mundo reduzido de produtores escriturais e imagéticos: alguns bons, outros péssimos.
- Seguiu algum acontecimento nacional ou internacional através de blogues?
Não.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Um estremecimento de frio ártico, outro antártico, entremeado de um aquecimento temperado e outro tropical.
-Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Creio que poderia ser, mas, por ora, vejo - ouço? - apenas uma manifestação grupal: um grito primal na escuridão.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete, Maria João Eloy, André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira, João Espinho, Henrique Raposo, Jorge Vaz Nande, João Melo, Diogo Vaz Pinto, Alice Morgado e Sérgio dos Santos, Adolfo Mesquita Nunes, João Paulo Sousa, Pedro Ludgero, João Tunes, Miguel Cardina, Paula Cordeiro, Edgar, André Azevedo Alves e Inês Amaral, David Luz, Saboteur, João Miguel Almeida, O Impensado, Hugo Neves da Silva, Paula Capaz, João Pinto e Castro, Sandra Ferrás e Alberto Lyra.

quarta-feira, 4 de abril de 2007

E Deus a tentar-nos pela Cintura!

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Só três semanas depois é que reparei que o Américo de Sousa captou um dos momentos do lançamento do meu último romance no Porto (aliás, em Gaia). E o texto que deixou por baixo da foto tem a elegância que alguns rios ostentam sob o design das suas pontes (siga-se a praxe: da esquerda para a direita - representante do El Corte Inglés, o João Pereira Coutinho, eu mesmo e o Manuel Fonseca da Guerra e Paz). Ainda me falta descobrir quem tenha registado um dos instantes do lançamento de Lisboa. Haverá voluntários por aí?

I remember JC, Marta e André

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Tempo para relembrar A Paixão (1965) de Almeida Faria:
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“ (...) Será na primavera; no princípio de tudo" (...) "...enterram-se raízes uma a uma, em seguida regaram, regá-las-ão até aos dias sem data” (...) “...festejaremos a preparação da Páscoa e após termos comido lavaremos as mãos na água da ribeira e juntos partiremos pela planície” (...) "Eis que caminha pela manhã da névoa, quando ainda a charneca está cheia dessas aves que cantam como sendo pingos lentos que caem, e, a caminho da missa diária, assalta-o o nevoeiro (...)”
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Almeida Faria: um grande escritor injustamente esquecido pelo fluxo de publicação (o Crazy Horse da literatura) e pela moda almofadada com que hoje se referenciam valores e algumas manchas de verniz.
É verdade, já me esquecia de dizer: Almeida Faria também é um amigo. Convém referi-lo, para que os críticos mais puros, transparentes e honestos me batam comme il faut. De outro modo também não tinha graça.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Parabéns à maresia

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Escreve Paulo Pinto Mascarenhas no "Editorial" que abre o terceiro ano da revista Atlântico: "O terceiro ano que agora começa é o da consolidação da revista e do pensamento liberal que esteve na base da sua criação, seja ele - conjunturalmente - mais defendido à esquerda ou à direita". O que mais aprecio no diagnóstico é o seu carácter cirúrgico. Ou seja, é a relevância atribuída ao papel da "conjuntura" que acaba por retirar aspirações imperiais ao facilitismo das categorias "direita" e "esquerda", remetendo-as para o que são cada vez mais nos dias de hoje: legados particularmente errantes, cartografados a partir do excesso de ruído acumulado pela memória (histórica) e, sobretudo - no modo como fecham mundos ao serem invocados -, inertes face àquilo que tende a ser (idealmente) a natureza de usufruto pleno dos nossos actos e expressões - a liberdade. Aproveito para saudar o Paulo e todo o projecto da Atlântico, pelo modo desabrido e sério como se têm proposto pensar o tempo que nos rodeia e enuncia. E, claro, não deixo de realçar que é a primeira vez que ingresso num "Quadro de Honra", ao lado de mais 199 amantes da orla marítima. Feito que no meu antigo (e exigente) Liceu nunca logrei antingir!

segunda-feira, 2 de abril de 2007

A força do Design

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Dou hoje uma entrevista no Reactor sobre o que é o design. Deixo aí registado um leque de reflexões sobre esse novíssimo esteio da nosso quotidiano que excede em muito a ideia corrente de molde da cultura. Ao fim e ao cabo, o design é a ordem da cultura material que passou a corporizar o presente, no momento em que nos vimos forçados a viver num espaço apertado entre a amnésia colectiva e o fim dos prodigiosos cenários de futuro (escatológicos ou ideológicos).
Eis alguns excertos:
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"(...) O design corresponde a um recorte sempre oscilante, a uma postura de reencontro com os gestos e com os objectos que não cabe em si própria."
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"A eficácia é uma das matrizes essenciais do design, mas a pertinência que faz de um objecto um objecto com design é sobretudo uma emoção."
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"Ao reunir os dois termos que se amalgamam na invenção moderna – “Mito” e “Logos” –, o design seria, não apenas a consecução plena de uma profecia metafísica (de origem romântica) e de uma conjectura pragmática (de origem racional), mas também o ponto mais alto da actual esteticização generalizada do mundo."
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"O design é, pois, uma revolução sereníssima que tornou desnecessária a peregrinação apocalíptica do homem até junto ao trono de Deus. A “Visão”, hoje em dia, mais não é do que a reciclagem da euforia acumulada pelo homem ao longo do seu maior projecto de sempre: a crença."
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"O design é, na contemporaneidade, o apogeu de uma história que passou a ser vivida sem clímax nem desenlace. Diria mesmo mais: o design é um paraíso tautológico."
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"O design vive em fluxo, autoreproduzindo-se, esgotando a capacidade de uma individualização que se adequasse a uma solução geral e universal."
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"O ‘dever ser’ é hoje um campo que aparece massificada e globalmente sublimado pela aura do consumo e sobretudo por aquilo que é o receptáculo e, ao mesmo tempo, o maior agente do design: o corpo."
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"O ciberespaço é a abertura a uma segunda humanidade. E o que a dita é sobretudo um novo tipo de mobilidade e de aparecimento subsumido, por sua vez, a um novíssimo registo temporal (a tentação da instantaneidade) e de espaço."
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Aproveito para agradecer a entrevista ao dinamizador do Reactor, o José Manuel Bártolo. Ele vai continuar a saga destas entrevistas durante alguns meses. Estejam, pois, muito atentos!

Subitamente

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O primeiro de Abril trouxe-me o inesperado. Subitamente, após ter escrito o post alusivo ao dia das mentiras, reparei que a força da letra me começou a interrogar o território da vontade. De facto, a escrita fixa não apenas a forma de que é feita. Para além dessa morfogénese, há como que um troar que se abre em flor e que parece correr em todas as direcções: um eco que se propaga noutros ecos e que parece querer preencher o espaço aberto por uma possibilidade que lhe é (milagrosamente) dada. A ambiguidade pactua quase sempre com a decisão e é por isso que somos todos tão susceptíveis ao poder da simulação. Foi o que me aconteceu mais uma vez. Recebi, entretanto, inúmeros sms, chamadas telefónicas, mails e até alguns comentários aqui no blogue. Agradeço a impertinência amiga, mas garanto-vos que o primeiro surpreendido com este 'continua não continua' fui mesmo eu. Passei o dia de ontem - antes e depois da ida ao estádio - e a manhã de hoje - antes e depois das três aulas que dei - neste limbo revolto onde se mediram prazeres, e de onde se contemplou a acqua alta do espírito a sobrevoar a inquietação das zattere. Por fim - vinha pela enésima vez de Lisboa para o Alentejo -, lá me decidi. A coisa vai mesmo continuar. Porque sim. Mas é certo que a Hora existe e existirá sempre.

domingo, 1 de abril de 2007

The End

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Após três anos, oito meses e dezasseis dias, o Miniscente acaba aqui. Foi um prazer. Até sempre!