domingo, 18 de março de 2007

Rebranding

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No fundo, o sentido é sempre uma espécie de rebranding. Só que a dimensão do homem não é transhistórica e, portanto, não a acompanha. A excepção vem justamente da publicidade e, como se sabe, é muito recente.
Agora, a ideia de recolocar o "Algarve" face à sua eventual obsolescência (e é isso, afinal, que é o rebranding), substituindo-o por "Allgarve", é uma ideia forçada, parola e tecnicamente híbrida, na medida em que mistura a imagem, o título (headline), o texto explicativo (bodycopy), a tentação da marca e até o recorte de um puro slogan. Para mais, é institucional, tutelada e paga por todos nós. Já viram o que seria o "Allentejo"?

sábado, 17 de março de 2007

A estranha obsessão da Ota (act.)

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A Ota é uma "questão política", diz Mário Lino. Mas o governo é incapaz de inventariar os motivos políticos da escolha. Por outro lado, todos os testemunhos técnicos autorizados (engenharia, orografia, acessibilidades, tráfego aéreo, pilotagem, tempo de construção, custos, etc.) apontam no mesmo sentido: a margem Sul. E eu pergunto: o que fará da Ota uma tal obsessão?
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Creio que há aqui terreno fértil para um forte movimento de opinião na blogosfera.
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Sobre este tema, recebi a seguinte mensagem de MJE:
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Sobre “A estranha obsessão da Ota” ocorre-me dizer o que, em 1999, referiam alguns dos especialistas (entre outras, das áreas de demografia, sociologia urbana, logística e transportes) que estudavam as propostas da Ota v. Rio Frio.
Falavam de algo que traduzirei livremente como sendo um dilema político-demográfico, mais do que logístico-técnico.
Ou seja, em termos de demografia urbana e de simbologia das escolhas turísticas - veja-se Carmelo, “Órbitas da Modernidade”, 1.6.2 e) - 'Fluxo de viajar', p116 e 1.6.3 c) – “O sujeito global entre fluxo e refluxo”, p127 – poder-se-á considerar que a implantação do aeroporto na margem norte do Tejo virá acrescentar população temporária à área norte da NUT Lisboa e Vale do Tejo e, consequentemente, à cidade de Lisboa que carece de movimento cosmopolita para contrabalançar o peso (europeu e turístico) de Madrid e poder vir a ser considerada uma metrópole europeia.
Efectivamente, na actualidade, com os apenas cerca de 600.000 habitantes residentes/nocturnos (800.000 a 1.000.000 diurnos), Lisboa tem reduzido poder de atracção, apesar do folclore urbano que lhe poderá vir a ser incutido com eventuais alterações lexicais tipo Allgarve (Llisboa, L.lisboa, e.Lisboa, Lis.Boa?)
Ao contrário, a implantação na margem sul dará origem, nesse território, a um desenvolvimento exponencial da especulação imobiliária e dos valores demográficos e diminuirá o peso institucional dos 'lugares' oficiais e simbólicos da cidade de Lisboa, que se encontram (quase) arruinados.
Quanto à localização racional para o aeroporto em termos logísticos (onde transdisciplinarmente não se poderia negar a pertinência da demografia) e técnicos, dever-se-ia optar pela margem sul num novo terreno (do Estado) que agora parece surgir em Alcochete...
MJE

sexta-feira, 16 de março de 2007

A caminho do Saldanha

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Era uma Lisboa de autocarros podengos com dois andares esverdeados e uma ingénua combustão de transatlântico. Era, era. Hoje é uma cidade de Shoppings e melancolias quase liofilizadas. Seja como for, estarei mais logo na Feira do Livro do Atrium Saldanha. A partir das 18.30h. Até logo.

Mini-entrevistas/Série II – 140


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é "Saboteur", Economista, 30 anos.
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
"Blogosfera" é o um espaço gigantesco, rico, diversificado e democrático de comunicação e debate, composto por todos os blogs + todos os comentários que são deixados.
Por ser tão amplo, por vezes torna-se num espaço um pouco confuso. Cabe a cada um ir conhecendo/aprendendo os seus caminhos, espero que com espírito crítico mas, ao mesmo tempo, com abertura de espírito.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Acompanhar exclusivamente pelos Blogs? Só as vidas de amigos que foram ou estão no estrangeiro. As suas impressões, experiências… Os "acontecimentos" a que a pergunta provavelmente se refere, sigo-os através de blogs, mas também através de outro género de sites (muitas vezes a eles ligados), nomeadamente através dos próprios jornais e revistas on-line.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Mais tempo em frente a um computador, a escrever, mas sobretudo a ler. Em troca, menos tempo a ver televisão, a dormir, a trabalhar… Sem dúvida que me enriqueci mais na troca.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Sim, do mais livre que conheço, nomeadamente – acrescento – se for possível participar nela (com comentários ou posts) de forma anónima. Vim agora do Brasil onde se discute legislação para impossibilitar escrever em blogs ou até abrir uma conta de mail, sem ser totalmente identificado. Acho isso castrador: Eu não escreveria muitas das coisas que escrevo se não fosse protegido pelo anonimato. Trabalhei durante 5 anos, em posição de relativa importância, num grande grupo financeiro nacional, extremamente conservador. Naturalmente não me ía expor da mesma forma, ainda para mais sabendo que o "meu público regular" são poucas dezenas de pessoas… Aliás, utilizei algumas vezes informação reservada da empresa para fazer posts meus.
Para além disso (no processo da ocupação de uma casa em Lisboa), um post meu já foi citado em tribunal por supostamente atacar o direito à propriedade privada. E também já houve ameaças graves de malta de extrema-direita… São chatices que eu pessoalmente dispenso.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete, Maria João Eloy, André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira, João Espinho, Henrique Raposo, Jorge Vaz Nande, João Melo, Diogo Vaz Pinto, Alice Morgado e Sérgio dos Santos, Adolfo Mesquita Nunes, João Paulo Sousa, Pedro Ludgero, João Tunes, Miguel Cardina, Paula Cordeiro, Edgar, André Azevedo Alves e Inês Amaral, David Luz. Hoje: Saboteur.

quinta-feira, 15 de março de 2007

A cerveja do dia 15

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Estive à flor do relvado. À flor da pele. E, agora, estou à flor da espuma.

Ficção, realidade e a cintura de Deus

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"O jornalista italiano Daniele Mastrogiacomo e os seus dois guias afegãos desapareceram a 4 de Março no Sul do Afeganistão, havendo suspeitas de que possam ter sido sequestrados por militantes talibãs."
"Entretanto, em Roma, o director do La Repubblica disse hoje que o jornal perdeu o contacto com o seu enviado ao Afeganistão, o jornalista Daniele Mastrogiacomo, com quem não consegue falar desde domingo."
"«Trata-se de uma questão muito difícil», o jornalista «foi capturado num contexto de guerra», referiu Massimo D´Alema, salientando que o assunto «exige grande discrição»."
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Mas... onde é que já se viu e leu isto?

Pré-publicações - 19

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Teresa Ruão, Marcas e Identidades - Guia da concepção e gestão das marcas comerciais, Campo das Letras, Porto, 2007.
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Pré-publicação:
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"(...) As marcas não são uma descoberta do século XX, ao contrário do que possa pa­recer a leitores mais desatentos. Conta-se que as primeiras formas surgiram na Lídia, no ano 700 a.C., onde se instalaram muitos mercadores de forma perma­nente, colocando à porta dos seus estabelecimentos uma pessoa encarregue de atrair algum possível comprador, através da evocação sonora das características e vantagens do comerciante. Como refere Bassat (1999), seriam talvez os ante­passados dos anúncios publicitários de hoje. E há mais exemplos longínquos. Na Grécia Antiga, arautos anunciavam à viva voz a chegada de navios com uma carga de interesse especial. E para os romanos, o uso de pinturas revelou-se muito eficaz na identificação de comerciantes e mercadorias, sobretudo perante populações largamente analfabetas. Os talhos romanos exibiam, por exemplo, a figura de uma pata traseira de boi, os comerciantes de vinho colocavam na fachada dos seus estabelecimentos o desenho de uma ânfora, enquanto a figura de uma vaca indicava a existência de um vendedor de lacticínios (Pinho, 1996).
A partir daqui, inúmeros são os vestígios revelados pela investigação histó­rica, sugerindo formas de denominação e representação comercial que atravessam a Idade Média, a época renascentista e as revoluções liberais. No entanto, parece que as marcas só se tornaram realmente num assunto crítico, para os negócios e para a academia em geral, no século XX, mais concre­tamente em meados da década de 1980. Tal evolução deveu-se, em grande medida, ao reconhecimento do seu valor económico pelo sector financeiro, isto é, à aceitação formal de que as marcas produzem fluxos financeiros reais para os seus proprietários.
Actualmente, apesar do forte protagonismo assumido pelas marcas, conside­ramos que há ainda um longo caminho a percorrer no desvendar do seu modo de funcionar e potencialidades. Se pesquisarmos na literatura do marketing, encontramos as primeiras referências sistematizadas à gestão de marcas data­das de 1930 e atribuídas à Procter & Gamble. Os debates iniciais abordavam sobretudo a questão operacional da sua gestão, ou seja, apresentavam as pers­pectivas tácticas e não as análises estratégicas. E só em finais do século é que as marcas ganharam realmente visibilidade científica. Deve-se a David Aaker a publicação do primeiro texto sobre a visão moderna das marcas, em 1990, ao qual se atribuiu, finalmente, força e reconhecimento científico. Antes dele, outros autores tinham tentado o mesmo, como é o caso de Peter Farquhar, que chamou a atenção para o fenómeno em finais dos anos 1980, e Kevin Keller que só viu o seu artigo publicado no Journal of Marketing em 1993, após vários anos de espera."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

Pré-publicações - 18

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Padre Manuel Antunes (1918-1985) - Interfaces da Cultura Portuguesa e Europeia. Coordenação: José Eduardo Franco e Hermínio Rico. Prefácio: Eduardo Lourenço. Campo das Letras, Porto, 2007.
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Pré-Publicação (do Prefácio de Eduardo Lourenço)
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"A sua circunstância
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Quando acordamos para a vida como o narrador da Recherche, damo-nos conta de que temos à nossa volta todas as constelações. As mais longínquas e abstractas, as do sol e das estrelas, e as mais próximas e mais íntimas que nós mesmos, as vozes familiares. Tudo pura contingência e nem uma vida basta para a converter em destino.
A circunstância do futuro jesuíta, pensador, ensaísta, filósofo da cultura, analista político e literário Manuel Antunes foi a de um meio provincial do nosso Portugal ainda profundo, porque isolado do mundo, arcaico e sublime ao mesmo tempo e, tanto quanto me é possível adivinhá-lo, uma dessas famílias cristãs, com uma mãe devota que maior glória não desejaria para si e os seus que ter um filho ao serviço de Deus. Ele o seria plenamente depois de uma adolescência estudiosa e uma decisão, a decisão absoluta da sua vida, de entrar e ser aceite na mais exigente, e discutida pelo mundo, das nossas ordens religiosas.
O Portugal da sua formação intelectual era, pelo menos na aparência, um país política e ideologicamente conservador, hostil ao sistema de partidos do primeiro quarto do século, modernista no seu desejo de acelerar e dinamizar a nossa atrasada vida económica, dizendo-se inspirado pela doutrina social da Igreja e tendo nessa mesma Igreja a sua referência e a sua caução simbólica e cultural. Nós somos filhos e herdeiros de muitas guerras, de tradição nossa ou influência alheia, e inscrevíamo-nos então numa vasta querela europeia, ou antes, numa crise geral do sistema democrático ocidental, contestado ao mesmo tempo e com uma virulência sem exemplo pelo autoritarismo fascista e pelos totalitarismos em marcha, do nazismo e sua ideologia cultural racista ou racialista, e soviético, de referência colectivista-socialista. Nada disto o Portugal onde Manuel Antunes se formou e viria a exercer o seu magistério cultural, viveu como na outra Europa se vivia – excepto na vizinha Espanha – mas de tudo isso recebeu ecos e a tudo esteve aberto, mas “à portuguesa”, ao “ralenti”e suavemente vigiado. Pelo menos até à Guerra de Espanha que inscreveu o país vizinho e, por consequência, o nosso, numa atmosfera de cruzada, antes de nos instalar por longos anos, os anos da Guerra Fria, no paradoxal campo do “mundo livre”."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Magnólia, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

Mircea Eliade

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Nasceu há cem anos. Foi anteontem, no singular dia 13 (estava eu embebido pela belíssima luz do Douro). No Instituto Cultural Romeno está a decorrer um colóquio sobre o autor. Ver mais nos Cadernos.

quarta-feira, 14 de março de 2007