segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

E Deus Pegou-me Pela Cintura

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É verdade: o meu décimo romance aparecerá dentro de dez dias nas livrarias. É verdade: a Rute Monteiro tem uma vida (entre outras sete) que se desenha nas páginas desse romance (E Deus Pegou-me Pela Cintura). É verdade: quis levar a cabo - com o meu editor - uma antecipação ficcional, partindo do princípio que, nos dias de hoje, o livro já não é um objecto que possa prender a ficção no seu seio: entre capa e contracapa. No nosso mundo, a ficção e a realidade interpenetram-se cada vez mais (a efabulação dos media globais assemelha-se à dos antigos mitos), do mesmo modo que a verdade e o sentido se confrontam num tipo de ambiguidade que, dia a dia, todos experimentamos. Do cinematógrafo a Duchamp vai a distância entre a ilusão desejada e a ilusão conformada com a realidade. Pergunto: por que razão não poderá o objecto livro instalar a sua ficcionalidade fora do espaço físico que é o seu? Por que se terão escandalizado tantos espíritos "éticos" e carregados de fobia pelo diabolismo do "marketing" com esta antecipação ficcional?
De facto, se a intenção não tivesse sido misturar sadiamente realidade e ficção, não teria ficado à mostra - intencionalmente - uma série de elementos (como a palavra "romance" no blogue árabe referido no final de E Deus Pegou-me Pela Cintura). A intenção foi sempre a de criar aquele tipo de ambiguidade apelativa que era própria dos monstros medievais: chamar a atenção, efabular, praguejar e, ao mesmo tempo, discorrer sobre o real que tal apelo suscita. Deve dizer-se que houve três fases nesta escalada (e há uma quarta em secreta gestação): primeiro, a ingénua disputa da verdade vs. não verdade dos factos; depois, a tensão entre real e ficcionalidade; por fim: o próprio romance. O processo podia ter ido muito mais longe, no fim de Janeiro, quando os media de referência portugueses contactaram o jornalista Olavo Aragão para confirmar o rapto da Rute Monteiro e lhes foi contada toda a verdade (sob reserva, é claro). A decisão, nesse momento, travou o que poderia ter sido, aí sim, uma bela operação de marketing (mas há limites que quisemos respeitar). Neste momento, há ainda - repito - uma "gestação" em aberto: tal como se provou com A Falha (1998), é verdade que um romance não é apenas um livro. É sobretudo um percurso imaginado que pode ser moldado através da liberdade que ele mesmo, no seu modelo abstracto, já prefigura e muitas vezes indicia.
Queria agradecer a todos: aos muitos blogues cúmplices (entre muitos outros, este, este, este, este, este, este, este, este e também este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este e ainda este) aos blogues contendores, aos blogues testemunhadores, aos blogues observadores e, claro, aos blogues escandalizados. A todos o meu sincero Obrigado.
Em breve, muito em breve, darei aqui nota dos lançamentos que já se preparam.

Mini-entrevistas/Série II – 123


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Henrique Raposo (http://revista-atlantico.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Ausência de hierarquia. Liberdade total. Gente notável a escrever que merecia espaço na imprensa tradicional. Perco mais tempo a ler a opinião em blogues do que a opinião nos jornais. Hoje em dia, a opinião, em Portugal, passa muito pela blogosfera porque a opinião em jornal está chata, velha, sem golpe de asa. Mas, atenção, jornal é jornal. Mas também existe uma coisa que me enerva: o anonimato. Perdão: a cobardia do anonimato, quer na autoria de blogues, quer nos comentários. Pior ainda é quando alguém que nos conhece usa os comentários anónimos para nos atacar, para dizer aquilo que não tem coragem de dizer na cara. Patético. Por causa deste anonimato, deixei de permitir comentários. Não gosto de ser poste para mijinha de ódio, como diria o Pedro Mexia.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que maisintensamente seguiu apenas através de blogues?
Não sigo acontecimentos na blogosfera. A blogosfera não é uma fonte de informação. É um espaço de debate, depois da recolha da informação. Existe hoje uma atitude de "novo rico" na blogosfera. Alguma pessoas acham que a blogosfera pode ser uma plataforma concorrencial da velha imprensa. Erro. A Blogosfera não é uma central de informação. É arena de opiniões. Seguir um acontecimento pela blogosfera é o mesmo que seguir um acontecimento lendo apenas colunas de opinião.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Provavelmente, sem a aparição na blogosfera não teria recebido uma ou outra proposta de trabalho. Fiz amigos. Chega?
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?O que é isso?
Não faz sentido falar-se em "editorialmente" quando o assunto é a blogosfera. Blog é livre. Ponto. Sem necessidade do "editoralmente". Por exemplo, um blogue com estatuto editorial não faz sentido. A palavra "editoral" é coisa institucional. Coisa de jornal. O blogue tem de ser a selva privada de cada um. E o resto é conversa. A blogosfera é um espaço notável. Faz parte do meu dia a dia. Mas nunca será como a imprensa escrita. Jornais são jornais, deixemo-nos de tretas. Os blogs podem contribuir para a inovação e melhoria dos jornais, mas nunca substituirão a imprensa escrita. Jornal é mesmo espaço público. Blog é coisa semi-privada.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete, Maria João Eloy, André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira e João Espinho. Agenda para esta semana (de 12/2 a 17/2): Henrique Raposo, Jorge Vaz Nande, João Melo, Diogo Vaz Pinto, Alice Morgado e Sérgio dos Santos.

sábado, 10 de fevereiro de 2007

Blogar pouco

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É a escrita, é a escrita: uma sebe comprida e quase selvagem que cobre buganvílias, jardineiras e os ramos solitários da ameixoeira. Uma frase sem fim que recobre lagos de água parada, chuva de vez em quando e o brilho dos telhados que me acena, quando o gato olha através das vidraças do escritório e pensa "o gajo é maluco, não sai dali há dez dias". Pois é, um felino tem sempre razão.

Mini-entrevistas/Série II – 122


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é João Espinho, tradutor-correspondente, 48 anos (http://pracadarepublica.weblog.com.pt/).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Diz uma quantidade de coisas, pois a "blogosfera" será a soma de todos os blogues mais os seus editores e a que vamos adicionando os adictos leitores.
É muita gente, a falar de tudo e de nada, sendo que a grande parte fala (quase) sempre do mesmo.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum em particular. Os blogues têm a característica - que para uns é vantagem, para outros precisamente o contrário - de touch and go. O aprofundamento fica suspenso e raramente chegamos ao cerne. Mas sento-me (e sinto-me) confortavelmente a ler blogues, como complemento para o enriquecimento da (in)formação.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Não falo dos outros. E falando do meu, diria que os impactos têm sido muitos. Bons e menos bons. O meu blogue deu-me a conhecer à mulher com quem estou hoje. O blogue foi também uma forma de deixar de ser espactador silencioso e resignado, para passar a ser um "ruidoso" observador, às vezes um actor/figurante que raramente olha para o "ponto". A exposição trouxe-me inimigos, onde antes estavam adversários. E já não falo dos vários e sucessivos arranhões na viatura que, coitada, não deveria ter culpa nenhuma daquilo que escrevo e sou.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Não. A auto-censura ( e cada um terá as suas motivações ) corta-nos a liberdade.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete e Maria João Eloy. Agenda para esta semana: André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira e João Espinho.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Mini-entrevistas/Série II – 121


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é José Bandeira (http://bandeiraaovento.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Uma praça pública onde os desconhecidos são descobertos e os conhecidos são expostos. Um maquinismo globalizante produtor de desperdício e de ocasionais preciosidades, como uma esferográfica. O sistema de comentários do Grande Blogue Cósmico. Um local onde homens e mulheres socializam vestidos de forma imprópria. Uma fantástica revolução editorial, comunicacional e civilizacional quando nos persuadimos de que o universo está interessado no que escrevemos. Um meio artificial e execrável habitado por ignorantes, invejosos e analfabetos se descobrimos que não está.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
O peso acrescido dos portáteis na mochila.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Não sei se posso dizer isso.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete e Maria João Eloy. Agenda para esta semana: André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira e João Espinho.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Resposta ao PedroF

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Achei muito interessante a intervenção do Provedor de leitores do Público no passado Domingo. É evidente que discordo da legítima posição do PedroF, porque reconheço que existe, sobretudo no segundo caso analisado, uma clara escolha diria "ideológica" (um seguidismo dogmático de um pensamento) por parte da jornalista, em vez de uma interpretação policentrada das estatísticas avançadas. Daí aquela epicização ingénua, sem reservas ou excepções, em torno do “Progresso”. Sobre o Alberto Magalhães: apenas quis oferecer ao debate mais algumas informações, aliás com autorização do próprio. É claro que não me cabe a mim fornecer o seu número fiscal ou de BI (embora saiba, por ser seu amigo, que ele tem inclusivamente um blogue). Quanto ao ContraFactos&Argumentos, é evidente que lhe reconheço uma salutar vocação para a abordagem dos media, facto ilustrado desde logo no Header e na própria designação da rubrica onde (com algum incitamento) PedroF desenvolve a sua opinião. Mas discutir é bom. E, para dizer a verdade, nem achei - apesar da chuva - que o tema encerrasse em si uma "tristeza" à António Nobre. Humores.

Última palavra sobre o referendo

A blogosfera tem sido um interessante cais para o vórtice de factos e argumentos que estarão no dia 11 na cabeça dos eleitores.
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Mais, aqui. Desde hoje no Expresso Online.

Mini-entrevistas/Série II – 120


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Helder Bastos (http://helderbastos.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Diz-me liberdade de expressão, criatividade, arrojo, intercâmbio, subjectividade máxima, inteligência colectiva, crítica, esfera de opinião plural. Só não gosto mesmo é do anonimato.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Apenas através de blogues, nenhum.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Alteraram a minha "dieta" diária de informação e opinião. Hoje, a leitura de sites noticiosos anda a par da leitura de blogues que, nalgumas áreas (media, cinema, livros, música, etc.), fornecem conteúdos que os jornais ou ciberjornais não publicam.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogosfera é, de facto, um espaço editorialmente livre. Em rigor, os únicos limites a esta liberdade advêm da aplicação da lei, por exemplo, nos casos de atentado ao bom nome de alguém. Quem já trabalhou em jornais (como é o meu caso) e hoje escreve em blogues sabe que a liberdade editorial é incomparavelmente superior nestes. Só é pena que nem sempre esta liberdade rime com responsabilidade.
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete e Maria João Eloy. Agenda para esta semana: André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira e João Espinho.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2007

Mini-entrevistas/Série II – 119


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é André Moura e Cunha, nascido no Porto há 34 anos, professor universitário (http://amc-ausencia.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Efervescência opinativa de um conjunto, razoável e alvoroçadamente, heterogéneo de pessoas, que encerra a virtude de albergar um subconjunto composto por uma multidão que jamais ousou ou ousará aceder aos meios de comunicação tradicionais, dado o tolerado – leia-se “resignada aceitação” – oligopólio da opinião no panorama comunicacional luso.
Por muito que isso possa custar, é, acima de tudo, libertação e liberdade, são, simultaneamente, matéria-prima e produto de um processo designado por democratização: um espaço irrestrito de partilha de opiniões e de debate de ideias, como uma carta de alforria que a nós próprios concedemos – um dos meios de materialização do nosso direito inalienável à autodeterminação –, porém, regido de forma indelével, e de certa forma subliminar, pelos nossos arquétipos morais e educacionais, sob pena de se tratar de um processo de devassidão auto-infligido, burlesco, de mera pornografia intelectual, através do qual haveremos de perceber, mais cedo ou mais tarde, ter-se tratado de um putativo prazer solitário, narcisista, autista e eminentemente auto-ilusório, bem longe da interactividade exigida pelo acto de escrever quando este é associado à publicação do material escrito. Ou seja, é um espaço que se auto-regula e onde se aplica com elevado grau de pureza as regras elementares da livre competição das ideias.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nomeio dois, entre muitos outros, a que dediquei especial atenção: as últimas eleições presidenciais no nosso país e o célebre caso da publicação das caricaturas de Maomé num periódico dinamarquês e a reacção do mundo islâmico, com especial atenção ao subcapítulo da licenciosidade versus liberdade de expressão.
De resto, dada a escassez de conteúdos editoriais ditos tradicionais que se dediquem em exclusivo à Literatura e mais em concreto à sua privilegiada função instrumental de cultora do ócio como terapia ocupacional – ingrediente indispensável ao eterno encalço da felicidade –, interesso-me por blogues que discorrem sobre livros, sobre os seus autores e sobre os seus valores e importância no mundo literário.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Ainda na fase do estranhamento qualifiquei o tempo despendido como inútil e até destruidor das energias necessárias à actividade produtiva e até aos momentos de ócio. Depois o “bicho” entranhou-se e dei o tempo por bem empregado. Todavia, por vezes sobrevém a trucidante sensação de peso na consciência pelo tempo que lhes é dedicado e que seria necessário aplicar ao prosseguimento de uma determinada tarefa que nos foi imposta ou que, em tempos, nos impusemos a empreender, daí haver suspendido a minha actividade na blogosfera em Setembro último.
Contudo, a minha curta e salutar experiência nessa envolvente ensinou-me que em associação ao conceito de “blogosfera” tem de existir, necessariamente, uma lógica relacional de aceitação do pluralismo conceptual, ideológico e comportamental para a nossa própria sobrevivência sob essa atmosfera, sem que isso queira significar acomodação ou renúncia pelo combate das ideias perante a constatação da diferença.
Ademais – e comigo assim aconteceu –, a definição e o campo de actuação da blogosfera enquadram-se, numa conformidade irrefutável – se se quiser com alguns laivos da vetusta e recalcada teoria freudiana –, no conceito de “válvula de escape”: extravasamento emocional, arrebatamento, inquietação, inconformismo, expiação; dar roda livre às compulsões que de outro modo ficariam cá dentro a causar dano e só quando se consegue compensar de forma generosa – percepção de eventual reciprocidade – o tempo despendido na sua arquitectura, apesar da não susceptibilidade indemnizatória dada a sua intangibilidade, é que declaramos o empreendimento como gratificante ou, como dizem os espanhóis, impactante.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Suponho que sim, na medida em que estou convencido de que essa condição – liberdade editorial – é simultaneamente a energia propulsora e a força de sustentação da própria blogosfera. No entanto, acredito que há um conjunto de blogues ditos de referência em que existe uma agenda predefinida, seja qual for a sua índole, com objectivos bem delineados, exigindo-se uma estrita observância dos requisitos reputados como necessários à sobrevivência do objecto e à sua missão, facto que de todo não me repugna, nem me tira o sono. Depois, o que é ser-se livre?
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Entrevistas anteriores (apenas a Série II): Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati), Rogério Santos, Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima, Pedro Fonseca, Luís Novaes Tito e Carlos Manuel Castro, João Aldeia, João Paulo Meneses, Américo de Sousa, Carlota, João Morgado Fernandes, José Pacheco Pereira, Pedro Sette Câmara, Rui Bebiano, António Balbino Caldeira, Madalena Palma, Carla Quevedo, Pedro Lomba, Luís Miguel Dias, Leonel Vicente, José Manuel Fonseca, Patrícia Gomes da Silva, Carlos do Carmo Carapinha, Ricardo Gross, Maria do Rosário Fardilha, Mostrengo Adamastor, Sérgio Lavos, Batukada, Fernando Venâncio, Luís Aguiar-Conraria, Luís M. Jorge, Pitucha, Gabriel Silva, Masson, João Caetano Dias, Ana Luísa Silva, Ana Silva, Ana Clotilde Correia (aka Margot), Tomás Vasques, Ticcia Patrícia Antoniete e Maria João Eloy. Agenda para esta semana: André Azevedo Alves, Sílvia Chueire, André Moura e Cunha, Helder Bastos, José Bandeira e João Espinho.