quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Meritologia

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"O organismo (OCDE) aconselha também que professores e trabalhadores não-docentes das escolas percam o vínculo ao Estado e deixem de ser funcionários públicos."(...)"O objectivo é que as instituições tenham lideranças mais fortes, mais iniciativa e inovem." (Público de hoje)
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Ora aí está um raro rasgo de lucidez por parte de uma organização como a OCDE. Não poderia estar mais de acordo. O objectivo mais utópico e desejado de qualquer português bem formado é o vínculo sem fim ao estado (trata-se do último Eldorado lusitano depois da Ilha dos Amores). Mas quando está em causa o ensino superior, a determinação é ainda maior. Quase exdrúxula. Tese após tese até à vitória final: um areal sem fim cheio de concursos viciados e recheado de prostração palavrosa. Com as excepções conhecidas, claro. Parabéns, OCDE.

Mini-entrevistas/Série II – 79


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Luís Mourão, Professor do ensino superior politécnico, 46 anos (http://blogmanchas.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Do lado das possibilidades, duas. Primeiro, uma possibilidade de escrever e de ler-ver-ouvir para além dos circuitos até agora estabelecidos para isso. Mesmo aqueles que se pronunciam noutros meios, encontram aqui espaço para dizer outras coisas e dizê-lo de modos diferentes. Segundo, uma possibilidade de diálogo mais efectiva e rápida que o proporcionado por outros meios de discussão: nesse sentido, a blogosfera é a melhor notícia dos últimos tempos para o reforço do espaço público.
Do lado das precauções, duas também. O meio tende à rapidez, e a rapidez não se dá bem com os matizes nem com a suspensão do juízo ou a sua distensão até melhores provas: é preciso introduzir alguma lentidão e, sobretudo, não confundir o ritmo do post com o único ritmo possível para o pensamento. O meio, mais do que qualquer outro, permite a mediocridade e coisas correlatas de extensão ética, mas convém não deitar fora o bebé com a água do banho.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Apenas através de blogues, nenhum. Ressalva: algumas vezes só sei dos resultados do Porto através do blog do Francisco e do seu cantinho do hooligan. Mas isso é porque sou mesmo um adepto desnaturado. No resto, a dimensão do blog não é tanto a notícia mas o comentário, e é isso que me interessa no blog (relativamente a acontecimentos, claro).
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Houve algum impacto, sim. Mas ainda não é altura de falar nisso. O que posso dizer são trivialidades: repartição do tempo (com perdas e ganhos), pequeno espaço lateral para reforço da sanidade mental (em conjugação com outras coisas, claro), contactos e diálogos que de outra forma não teriam acontecido.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Editorialmente, é. Ninguém impede ninguém de escrever o que muito bem lhe aprouver no seu próprio blog. Depois, há o lado da sociabilidade, em sentido lato. Um blog assinado coloca sempre o seu autor naquela complexa teia de gerir a sua imagem (às vezes o seu emprego, as suas relações de amizade, etc). Mas isso já é a vida, não a edição.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati) e Rogério Santos. Agenda desta semana (de segunda-feira, dia 11/12, ao sábado, dia 16/12): Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima e Pedro Fonseca.

Pré-publicações - 8

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Jacques Rancière, O Ódio à Democracia, Mareantes Editora, Lisboa, Dezembro de 2006, pp. 164, P.V.P.: 14,80 €. Apresentação de Diogo Pires Aurélio.
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Pré-publicação:
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"Ponhamos as coisas na ordem. Que queremos di­zer precisamente quando dizemos viver em de­mo­cra­cia? Entendida de forma estrita, a democracia não é uma forma de estado. Está aquém e além des­­­sas for­mas. Aquém, como o fundamento igua­li­tário ne­ces­­­sário e necessariamente esquecido do Estado oli­­gár­­quico. Além, como a actividade públi­­­ca que contraria a tendência de qual­quer Estado a açam­­­barcar a esfera comum e a des­po­litizar. Todo o Estado é oligárquico. O teórico da oposição entre de­mo­cracia e totalitarismo admi­te de boa vontade: «Não se pode conceber um regime que, em algum sentido, não seja oligár­quico.»[1] Mas a oligarquia dá mais ou menos lugar à democracia, ela é mais ou menos cor­roída pela sua actividade. Neste sentido, as formas cons­­ti­tu­cionais e as práticas dos governos oligárqui­cos po­dem dizer-se mais ou menos democráticos. A exis­tência de um sistema representativo é tomada habi­­tualmente como critério pertinente de demo­cra­cia. Mas este sistema é ele próprio um com­pro­misso instável, uma resultante de forças contrárias. Tende para a democracia na medida em que se aproxima do poder de não importa quem. Deste ponto de vista, podem-se enumerar as regras definindo o míni­mo que permite a um sistema representativo decla­rar-se democrático: mandatos eleitorais cur­tos, não acu­muláveis, não renováveis; monopó­lio dos repre­sen­tantes sobre a elaboração das leis; in­ter­­dição dos funcionários do Estado serem representantes do po­vo; redução ao mínimo das cam­pa­­­­nhas e das despe­­­sas de campanha e controlo da ingerência das potên­cias económicas nos pro­ces­­sos eleitorais. Tais regras não têm nada de ex­travagante e no passado, muitos pensadores ou legisladores, pouco dados ao amor im­prudente pelo povo, examinaram-nos com atenção como meios de assegurar o equilíbrio dos poderes, de dissociar a representação da vontade geral da dos interesses particulares e evitar o que eles considera­vam como o pior dos governos: o governo dos que amam o po­der e são hábeis em apossar-se dele. Hoje, todavia, basta enumerá-los para suscitar a hilarie­da­de. Justamente: o que designamos por dem­o­cracia é um funcionamento estatal e gover­namental exac­tamente inverso: eternos eleitos, acumulando ou alternando funções municipais, re­gionais, legisla­ti­vas ou ministeriais e agarrados à população pelo elo essencial da representação dos interesses locais; go­ver­nos que fazem eles próprios as leis, representan­tes do povo saídos massiva­mente de uma escola de administração; ministros ou colaboradores de minis­tros recolocados em em­presas públicas ou semi-pú­blicas; partidos finan­ciados pela fraude dos merca­dos públicos; homens de negócios que investem so­mas colossais em busca dum mandato eleitoral; pa­trões de impérios mediáticos privados apossando-se, através das suas funções públicas, do império dos me­dias públicos. Em resumo: a apropriação da coi­sa públicafunçrvrallossais na busca s mercados ppr e evitar o que eles consideravam como o pior dos governos: o governo dos qupor uma por uma sólida aliança da oligarquia esta­tal com a oligarquia económica. Compreende-se que os de­pre­ciadores do «individualismo democrá­ti­co» não tenham nada a censurar a este sistema de predação da coisa e do bem públicos. De facto, estas formas de sobreconsumo dos empregos públicos não relevam a democracia. Os males de que sofrem as nossas «democracias» são principal­mente os males ligados ao insaciável apetite dos oligarcas."
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[1] Raymond Aron, Démocracie et totalitarisme, Gallimard «Idées», 1965, p. 134.
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Guerra e Paz, Magna Editora, Mareantes, Publicações Europa-América, Quasi, Presença e Vercial.

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Novo romance

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As novidades já estão na minha página pessoal. Basta abrir, ver e ler.

Mini-entrevistas/Série II – 78


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Isabela, 43 anos, animadora sociocultural (http://omundoperfeito.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
A palavra esfera agrada-me pelas conotações mágicas associadas ao poder, mas, também, à união; aglutinada com blog, portanto, blogosfera, leva-me imaginar um aglomerado de estrelas em formação, que emitem luz, mas também a recebem, e, visto assim, a coisa até parece séria, bastante poderosa. Mas isto sou eu a delirar!
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Seria remeter os blogues para um espaço meramente informativo-opinativo. Seguir acontecimentes importantes apenas através de blogues é difícil. Os meios são complementares.
O espaço de escrita blogosférico é muito de opinião e reflexão, mas precisamos dos jornais, pelo menos. Há uma grande interacção, a meu ver, bastante saudável, entre blogues e Imprensa. Pessoalmente, procuro os jornais para uma leitura factual, mas não só. São-me essenciais. Preciso da notícia crua para depois pensar, criar sobre ela. Aliás, os bloguistas são minuciosos leitores diários. Há blogues que vivem de ideias e situações intemporais, e, portanto, isto não se lhes aplica. A blogosfera mantém o seu feudo diarístico muito importante. Pessoalmente, o que me interessa seguir através dos blogues é a vida na sua inteireza, sem filtros de redacção, bem como as pessoas que a vivem, que a fazem, e a escrevem, muitas vezes, muito bem.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Os meus blogues obrigam-me a escrever. Não é um verbo usado levianamente. Obrigam-me, de facto, e escrevo que me desunho. E quanto mais se escreve, mais se quer escrever. Sei que os leitores esperam texto, e quero dar-lho. Quero que se divirtam, e que pensem, se maravilhem, riam comigo, e até de mim. Por esse motivo, desenvolvi uma pulsão para a escrita sobre situações do mundo, e, posteriormente, sobre conceitos, ideologias, e respectivo questionamento, como nunca tive antes, embora sempre tenha escrito.
O meu olhar selecciona o que é elegível de atenção muito em função da utilidade que isso terá em termos de escrita, ou de escrita de blogue. Como produzo muito texto, e o texto me dá trabalho, porque depois não suporto construções que travem a fluidez da minha própria leitura, dou comigo muitas horas frente ao computador; logo, tenho menos tempo para outras actividades que, muitas vezes, descuro. Vejo menos televisão, leio menos, vou menos ao cinema. Os olhos estão uma desgraça, e permanecersentada muito tempo não é saudável, no meu caso. Os visitantes dos meus blogues, e as minhas visitas a blogues alheios, levaram-me a conhecer muita gente, alargando a minha teia de relações de uma forma que não acontecia desde a existência do DN Jovem. Encontro-me com essas pessoas, comunico com elas por mail, chat ou telefone. Foi possível criar, pois, uma outra rede, humana, social, fora da web. Isso tornou-me uma pessoa mais sociável. Acho eu. Se calhar, apenas mais "relacionável".
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Enquanto editora dos meus blogues considero que sou absolutamente livre para bordar os assuntos que me interessam ou que considero oportunos. Sinto-me vigiada pelos leitores, mas isso é outra coisa. Sei exactamente quando um texto vai gerar desagrados, porque vai contra a corrente, ou porque é radical demais, ou superficial, mas também aprendi a defender-me das críticas. E, muitas vezes, concordo com elas. Tenho alguns princípios de que não abdico, como qualquer pessoa, mas dou comigo a dar a mão àpalmatória bastas vezes. Quanto aos meus leitores, muito sinceramente, não posso dizer que sejam totalmente livres, sobretudo os que consideram que a liberdade é abastardamento. No início, era muito ingénua relativamente ao que deixavam nas caixas de comentários, e autorizava tudo. Hoje em dia, ajo como o director de qualquer jornal: malucos e reaccionários, que exerçam as respectivas liberdades de expressão nos seus próprios blogues; quem visita as minhas casas não larga nelas o seu lixo. Igualmente, quando me parece que as usam como via para a divulgação de campanhas ou opiniões nada condizentes com a minha ética, corto-lhes o pio. Sem dó nem piedade.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati) e Rogério Santos. Agenda desta semana (de segunda-feira, dia 11/12, ao sábado, dia 16/12): Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima e Pedro Fonseca.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Blogoprémios

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A votação de 127 bloggers – publicada e organizada pelo Geração Rasca – acabou por estipular: um 8º lugar para o Miniscente na rubrica “melhor blogue 2006”, um 9º lugar para o Miniscente como “melhor blogue individual masculino 2006” e um 10º lugar para o autor do Miniscente – imagine-se – na rubrica “melhor blogger 2006”. O importante é mas é dar os parabéns aos vencedores: ao Francisco, ao Pedro, à Isabel, ao Blasfémias (por duas vezes!) e ao Foram-se os Anéis
. Para o ano haverá mais, creio eu.

Prosema aos meus vizinhos

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por Onésimo Teotónio Almeida
(acabado de chegar do outro lado do Atlântico)
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Essa música de ser a Internet o exílio moderno ou pós-moderno pois soa mais chique ouço-a volta e volta sempre já monótona de repetida que antigamente é que era bom o adro das igrejas na ilha o Canto da Fonte no meu Pico da Pedra a piazza italiana os cafés da pátria isso sim eram a continuação das ágoras gregas e da família alargada dos vizinhos e amigos de paleio diário como a natureza humana requeria e ainda requer
Agora a Internet veio destruir o convívio a familiaridade desenvolvida nos encontros diários a palração fiada no cortar da casaca do próximo mas distante naquele preciso momento mais pancada no governo e as grandes soluções para os problemas políticos do país e do universo na idade de ouro AC isto é Antes do Computador e desse inferno da emailação internetional cada um metido no buraco negro do maldito caixote isolado do resto da casa da família e dos mais na solitude de um ecrã cenário pré-anunciado naquele cartoon a mostrar um corte longitudinal de arranha-céus em Nova Iorque revelando apartamentos individuais cada qual com um inquilino solitário apenas no seu canto enganando-se na cura da sua solidão a masturbar-se
Na mente dos seus detractores a Internet virou metamorfose do pecado de onanismo e a verdade é que se eu fosse dado a antigos remorsos andaria dia sim dia sim a confessar-me pecador sem direito a absolvição por impenitência incurável que não me molesta apenas a mim pois tenho um novo vizinho que há meses neste longo Inverno vejo da janela ao lado do meu computador sentado naturalmente a comunicar com amigos sei lá se na Califórnia na Bolívia ou na Austrália ou mesmo se calhar com a mulher na cozinha mesmo ali no andar de baixo A verdade é que nada sei dele nem tenho interesse em saber muito embora me assalte de vez em quando a curiosidade de descobrir para onde comunica pois as coincidências acontecem sempre como uma vez eu no ar a doze mil metros algures sobre a Terra a meter conversa com o passageiro do assento ao lado De onde é? e ele De Boston melhor dos arredores e eu De onde? ele De Providence e eu a insistir De que bairro? ele Ah! Conhece Providence? Do East Side eu De que rua? ele Rochambeau eu Que número? e era daqui mesmo ao pé quatro casas mais além sem nunca nos termos cruzado cá em baixo Mas a ironia cavou mais fundo porque ele acabou dando-me o seu cartão de visita e topei logo Goulart nome das minhas ilhas e ele a confirmar S. Jorge terra do avô antecedido de um Brian escolha da mãe irlandesa Deu convite a passar no Amsterdam o bar dele na baixa o downtown daqui e dois copos de Chardonay à borla cada vez que eu lá entrava mais a Leonor e a verdade é que sendo vizinhos sem convivermos nem nos conhecermos sequer íamos ali à South Main Street fazer-lhe vizinhança até um dia ele desaparecer não sei para onde
Obviamente tenho vizinhos de cruzamento de vez em quando como o Enric catalão que sei quando não está em Providence pois deixa a luz acesa toda a noite e o Brian que manda postal de Boas Festas cada Natal e um dia me disse ser meio-irlandês e meio-português do lado da mãe oriunda de um sítio algures em Portugal diz ele que em inglês é qualquer coisa como Beyond-the-Mountains e há ainda uma vizinha defronte loura e solitária que segundo a Leonor me faz distrair do computador para olhar quando ela assoma ao jardim
Nas casas americanas quase não há vedações nada que se pareça com os muros de Berlim das casas em Portugal muito embora Robert Frost tenha imortalizado o aviso em verso Good fences make good neighbors outro poeta o Michael Harper mesmo aqui da Brown prefere America is always about neighborhood Por sinal aqui em casa há cercas herdadas dos anteriores donos mas são de verde que desaparece no Inverno deixando a nu por entre troncos e caules a vida dos vizinhos novos para cá mudados há meses e tal como nós sem cortinas nas janelas pois não se devem importar de a sua casa parecer um ecrã de TV contemplado defronte porque vivem distantes e não nos conhecemos
Às vezes a mulher vai à Internet mas demora-se muito pouco e por isso não acredito que ela seja qualquer das desperate housewives que me chegam anunciadas em e-mails de um serviço não-solicitado de nome Adult-Couples Hookup Lounge dizendo sem pejo Lonely cheating-hot-wives are waiting for you in the privacy of their homes e publicita mesmo o nome da interessada supostamente minha vizinha uma tal Lorna porque o anúncio diz que o meu perfil se ajusta perfeitamente ao seu visto o cruzamento ter sido feito no infalível computador Ora eu nunca me inscrevi em serviço quejando e está-se mesmo a ver que se essa Lorna fosse a minha vizinha e eu me aventurasse a ir lá a casa eu próprio me veria daqui mas não pensemos nisso
Estou neste embalo a delirar palermices porque ao fim e ao cabo nunca soube o que era a solidão e muitas vezes desejei solitude sem conseguir espaço e além disso nunca sinto saudades de Portugal porque vou lá sempre todos os dias a qualquer hora que antes era só na mente e agora é mesmo em viagens virtuais graças à Internet e aos e-mails por isso continuo sem saber o que seja isso de exílio para mais se fui eu próprio quem pagou a passagem para sair Portugal fica logo ali na outra margem do rio Atlântico a Internet mantem os amigos ao pé da gente as cartas de papel demoravam muito e era preciso pôr o selo colar com cuspo e esperar semanas seguidas pela resposta de um Portugal avesso a correspondências já desde o tempo das Índias e Brasis
O mundo virou aldeia o Zelimir envia-me um e-mail a dizer que acaba de ler um interessante livro sobre a Base das Lajes de um tal Luís Qualquer-Coisa Rodrigues e pergunta se o conheço e na volta respondo-lhe que ele vem jantar cá em casa nessa mesma noite e já contei noutro lugar que o Leon Machado de Vila Real nos antigamente perdidos Trás-os-Montes o Beyond-the-Mountains do Brian me emailou a pedir uma informação e eu dei-lha em segundos para segundos depois ele responder Que bom é ter amigos ao pé da gente Para ser franco vou admitir que a minha vontade cá bem no íntimo era juntar os amigos todos no Canto da Fonte do meu Pico da Pedra mas isso iria exigir uma boa pipa de massa e as trocas virtuais saem bem mais em conta
Dir-me-á o leitor que não tivesse eu saído lá da terra e não teria agora este problema mas eu na minha acho que se não tivesse abalado se calhar andaria agora mergulhado no cinzento da monotonia e da mesmidade de conversas e além do mais eu não teria encontrado toda essa gente interessante e se não tivesse a Internet eu tê-la-ia perdido pelo que isso de exílio e vizinhanças tem muito que se lhe diga pois os vizinhos são como a família que não escolhemos enquanto os amigos sim
Tinha este prosema dependurado por não saber como terminá-lo a jeito e eis senão quando vindo da garagem fui subitamente atravessado por uma voz chegada do lado dos novos vizinhos Hi! I am Fred You must be Onésimo o meu nome pronunciado assim certinho Era para se apresentar que trabalha na Brown e é amigo da nossa colega Pat e até fez no computador o arranjo gráfico de um cartaz para colóquio do Departamento e mais ainda foi com a sua Karen passar a lua-de-mel nos Açores e queria dizer que adorou as ilhas e parece ter adivinhado que ao revelar-me aquilo ficava logo ali velho amigo Fui ao computador googlá-lo e passei a conhecer-lhe a vida quase toda que até escreve e publica e entrevista gente como o escritor Robert Coover que às vezes janta connosco em casa do Enric e mais soube ainda que o o meu novo vizinho se interessa muito por letras e humanidades
O mais estranho é que acabei desiludido pois estava a magicar um desfecho sensacional para estas linhas que faria delas uma portentosa tirada sobre a alienação e os vizinhos do lado que se ignoram e não se cruzam e escrevem na Internet para amigos a milhares de quilómetros e nem ligam às gentes de ao pé da porta e eu que já não tinha ilusões de compreender o que vinha a ser isso de exílio e nem sequer mesmo o lusitaníssimo mistério da saudade agora já nem entendo o que sejam distâncias no globo porque a Internet deu cabo do conceito Só me resta dizer que da próxima vez que for à ilha garanto levarei o meu portátil para me sentar no Canto da Fonte do Pico da Pedra e depois de um papo com a rapaziada que restar do meu tempo hei-de conversar com os hoje meus vizinhos espalhados pelos quatro cantos da fonte do mundo

Mini-entrevistas/Série II – 77


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Lauro António que, para além de blogger ("Lauro António Apresenta", “Lauro Corado, Meu Pai”, “LA_Arquivo”, “Vá.Vá.diando”. “Só Nós Dois é que sabemos… a Password”, “Atlântico”, “Cine Eco”, “Famafest”), é também realizador, crítico, escritor, professor universitário e director de festivais.
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A blogosfera, nesta altura, diz-me muito. Foi uma descoberta que considero de enorme importância. Falo a uma nível pessoal, mas também num plano colectivo. Os blogues vêm ocupar um lugar essencial na comunicação contemporânea. Numa altura em que a comunicação de massas tende à abstracção, ao impessoal, ao corte com a notícia pessoal, com o dado individual (que não tenha a ver com vedetas e falsas vedetas), o blogue vem ocupar esse espaço de comunhão de emoções, de convívio diário, de pequena anotação, de edição de textos sem “edição”, de paginação “pessoal”, de responsabilização, de assunção de uma identidade e de partilha. Os blogues re-descobrem alguns géneros literários caídos em desuso, ou mal afamados, e que regressam revitalizados, desde o diário às memórias, do registo de máximas aos “cadáveres exquis”, da literatura de viagens ao romance erótico, do picaresco ao “cordel”.
O pior da blogosfera é o anonimato traiçoeiro, incompetente, mesquinho, merdoso. Compreendo o anonimato de quem procura o diário intimista, de quem tenta criar aqui o divã de psiquiatra que não tem coragem de assumir, ou não quer assumir, no gabinete do médico. Mas quem se serve do anonimato para a calúnia e a maledicência, não tem desculpa. E tão culpado é quem calúnia como quem aceita a prática da calúnia sem a denunciar. Nisso, a blogosfera assemelha-se muito a uma “casa de meninas de mau porte”.
Mas globalmente a blogosfera é uma conquista admirável, que já mexe, mas vai mexer ainda mais, com todo o sistema de comunicação e informação. Os jornais vão sofrer com os blogues, ainda que de uma maneira inesperada. Os blogues não vêm substituir os jornais. Apenas os vêm por em cheque. Obrigá-los a mudar e muito, se querem sobreviver.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum. Para informação rápida e imediata, a TV e a Rádio são imbatíveis. Para informação mais reflectida, os jornais continuam a ter a minha preferência. Os blogues são importantes para se ter uma ideia do pulsar do consciente colectivo, mas sobretudo para se ter um outro tipo de conhecimento, que para mim é essencial. Para saber o que A ou B pensa, para conhecer e sentir o mais profundo e secreto do ser humano que aqui aflora sem grandes controlos do politicamente correcto, do socialmente aceitável, do moralmente conveniente. Aqui pode ser-se “Maria” ou “Manel” e ter-se outras vidas, aquelas que sonhamos e não soubemos construir. Aqui o anonimato não fere, apenas ajuda a despoletar a “verdade” mais íntima.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Julgo que foi mesmo essa possibilidade de falar a escrever e ouvir a ler pessoas que não conhecia e passei a conhecer, algumas apaixonantes, outras detestáveis, todas elas humanas, frágeis na sua aparente força, por vezes enormes na sua simplicidade. Este é obviamente um jogo de escrever bem, mas sobretudo um jogo de escrever “verdade”. Aqui surpreende-se uma verdade que não vem em nenhum jornal, em nenhuma televisão. Uma verdade que ou não tem interesse para a tradicional comunicação social, ou se tem interesse é logo distorcida por interesses comerciais que transformam a “verdade mais íntima” em mercadoria de transaccionar. Logo, subvertem a “verdade”.
Eu adoro escrever. Na blogosfera encontrei um terreno ideal. Sou avesso a todo o tipo de controlo, “o controlo sou eu”. Depois acho muito saudável a colectivização de bens de consumo, esta discreta pirataria que por aqui campeia, eu roubo aquela imagem, tu citas este texto, faço a minha montagem, edito e ponho no ar. Mas detesto, como já disse, a pirataria da ignomínia sem rosto, anónima, cobarde. Essa prática vai acabar com a saudável blogosfera que hoje em dia conhecemos e de que usufruímos.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Acredito que sim, mas isso comporta riscos e perigos. Ou somos responsavelmente livres, ou, mais cedo ou mais tarde, seremos irresponsáveis controlados por um qualquer “big brother”. Neste, como em todos os países, há milhares de idiotas que julgam ter graça, quando afinal Luís Pacheco só há um. O Luís Pacheco tem uma cultura impar e um talento dos diabos que lhe permitem criticar como critica. Os Pachecozinhos sem cultura nem tento na testa deviam abster-se de ser malcriados e de fazer figura de tontos. Versejadores de meia tigela, que todos lêem como um acto de contrição, que se obrigam a engolir a gargalhada para não parecerem ingratos, não se podem dar ao luxo de arrotar postas de pescada, mesmo sob um anonimato, sobretudo sob anonimato. As invejas e os ciúmes dos medíocres não podem exercer-se na vingança da arruaça sem rosto, da denúncia sem provas, da má criação gratuita.
Eu sou um privilegiado, apenas apanhei até agora um desses piratas bloguistas, e dos mais mal cotados na “blo”, sem cotação junto de ninguém, que o atura como palhaço de serviço, mas sei de muitos casos desagradáveis, e já me tentarem envenenar contra segundos de forma ignóbil. A “blogosfera é como na vida” dizem por aí e é verdade. É preciso estar preparado para tudo. Até para a completa liberdade que hoje se respira. Que era muito bom que continuasse, se todos nos soubéssemos respeitar na diferença, sem atropelos. Se não, mais cedo ou mais tarde, aparece uma legislação férrea para pôr na ordem quem prevaricou e quem não o fez.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira, Leandro Gejfinbein, Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca, Tiago Mendes, Nuno Miguel Guedes, Miguel Vale de Almeida, Pedro Magalhães, Eduardo Nogueira Pinto, Teresa Castro (Tati) e Rogério Santos. Agenda desta semana (de segunda-feira, dia 11/12, ao sábado, dia 16/12): Lauro António, Isabela, Luis Mourão, bloggers do Escola de Lavores, Bernardo Pires de Lima e Pedro Fonseca.

domingo, 10 de dezembro de 2006

Monólogo interior do Ulisses

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Sim ele saiu a correr por aqui era uma estrada de pó avermelhado e antes tinha-me contado a história da cadela dos pêlos em chama a tal que sumia pelas janelas da universidade sempre que falavam do tempo ou da linguística TLEBS e parece que foi hoje vi-a eu mesmo outra vez a descer por essa estrada cheia de poeira cheirava a alfazema e a lixo do restaurante chinês e dizia com o faro que se lembrava de tudo incluindo a tentativa de descobrir as chaves mágicas com que a eternidade se escondia por trás do tempo tal como o limoeiro lá de casa se esconde por trás da minha casinha que é de madeira de carvalho e ela a minha cadela amada com pêlos cor de chama dizia que Bernard de Clairveaux propunha um esquema em que a história se subdividia em quatro idades de acordo com os quatro cavalos de Apocalipse 6 que Anselmo de Havelberg propunha uma subdivisão em sete idades que Orígenes Hipólito e Eusébio de Cesareia preconizavam cinco seis e sete idades diferentes para além de Santo Agosinho que se ficava pelas seis tendo como base os dias da criação e eu o que havia de dizer ou de ladrar eu que amava aquela cadela que se fez à vida num dia de inverno pela estrada onde o pó era rei e onde cada ano dos meus valia e vale por sete dos vossos.

Notícias inéditas do MacGuffin




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Pois é, ele não tem escrito muito no já clássico Contra a Corrente. E aqui está, em primeira mão, via Miniscente, o motivo: o bom gosto que soube investir na sua nova loja (A Que Sabe A Lua). Como o próprio MacGuffin aka Carlos do Carmo Carapinha refere, trata-se de "uma loja sem conceito", mas onde há livros, área infanto-juvenil, café, áleas de convívio, produtos de design atraente e sobretudo a profundidade de um espaço arejado, fresco e depurado. Vale a pena passar por lá, seja qual for o caminho a tomar, ou a travessia que se fizer do planeta: fica situada na Rua do Raimundo, 93-A, em Évora (uma das ruas do lado poente da Praça do Giraldo).