quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Mini-entrevistas - 68


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Carlos Albino (http://notasverbais.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”
É o firmamento, na versão mais recente – por ora, firmamento corrigido e aumentado, como outrora o Dicionário do Torrinha corrigido e aumentado, aumentando-se os erros, supria biblicamente a falta de dicionários. Mas é um esplendoroso firmamento, com os seus buracos negros – é certo; com as suas gigantescas nebulosas – anónimas como todas; os seus asteróides desgovernados – que são avisos de quanto é efémera uma suposta ordem de opinião; enfim, e é o que mais interessa, com planetas em equilíbrio que não discutem a sua grandeza e aceitam como livre o seu caminho também efemeramente pré-determinado. Essa palavra da blogosfera diz-me precisamente este firmamento onde, em qualquer oportunidade, até Deus pode criar o seu blogue, fazendo-se homem. Já não direi o mesmo dos homens que se julgam deuses.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Os blogues são tão só um meio a despontar e a descobrir a sua própria pauta, ou um instrumento de comunicação entre outros que o tempo há muito especializou, são a abertura do mundo para o comentário dos acontecimentos e dos factos - mesmo que apresentem um acontecimento ou, com autonomia, revelem um facto, apenas por erro de paralaxe, poder-se-á ver nisso concorrência ou substituição, muito menos excepção sediciosa contra outros meios. Penso, pois, ser impossível seguir um acontecimento “apenas” através de blogues. Mas seguir os acontecimentos ”também” através do directório de opiniões que já transformou a blogosfera em terra firme e até selecta em algumas áreas, é já um hábito adquirido, tanto quanto posso, quanto a acontecimentos dominantes ou que vão sendo dominantes. Sobretudo em áreas especializadas, os blogues ensinam-nos quanta verdade encerra aquele preceito de François Villon “conheço tudo, excepto a mim próprio”.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
A descoberta e prova de que, por exemplo em Portugal, para além de um escol em formatura de pensamento e análise, há uma elite circunstancialmente gregária de análise e de pensamento – os termos por esta ordem, porque é por esta ordem efémera que se gera a Crítica, o Escrutínio. Além disso, a actualização da forma de escrever do velho escriba de rolos – enrolando, lá para o fundo, cada vez mais para o fundo, o que vai escrevendo longe da preocupação de, panorâmicamente numa página ou, para maior auto-satisfação, em duas páginas lado a lado, mostrar toda a sua verdade ou o mais possível da sua verdade. Neste caso, não é a escrita que impõe a verdade acabada (mesmo com as ressalvas académicas de pé de página, impossíveis nos rolos), é a forma de escrever que, já de si, ensina que nada é definitivo e que aquilo que ainda é visível, para ter visibilidade, não pode condescender com a falta de verdade, a ausência de paixão e, por tudo, com a desatenção pela modéstia. Um escriba sério jamais quererá ser o maior, mas apenas contribuir para que um rolo, o seu e o dos outros sérios, seja o mais comprido possível. Um blogue é uma máquina de ocultar o que se escreveu, sem esconder o que foi escrito. Outros meios não podem fazer isso, por natureza.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
Pois quem estaria no primeiro firmamento da história humana em que dá para acreditar, se se sentisse censurado, pré-examinado ou interditado, sendo a interdição editorial a mais recente e capciosa fórmula de punir os outros por delito de opinião ou pelo delito de não seguir dicionários do Torrinha?
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira e Leandro Gejfinbein. Agenda desta semana (27/11/06 a 2/12/06): Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca e Tiago Mendes.

Pré-publicações - 6

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Imperium, Robert Harris, Presença
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Chamo-me Tirão. Durante 36 anos fui secretário pessoal do estadista romano Cícero. Uma tarefa que começou por ser excitante, para depois se ir tornando espantosa, árdua e, por fim, extremamente perigosa. No decorrer desses anos, acredito que ele passou mais tempo comigo do que com qualquer outra pessoa, incluídos os próprios familiares. Assisti às suas reuniões privadas e fui correio das suas mensagens secretas. Registei por escrito os seus discursos, cartas e trabalhos literários, até a poesia; um tal dilúvio de palavras obrigou‑me a inventar uma escrita abreviada, a chamada estenografia, um sistema que continua a ser usado para registar as deliberações do Senado e pelo qual me foi atribuída, há pouco tempo, uma modesta pensão. Esta, juntamente com alguns legados e a generosidade dos amigos, é suficiente para me manter durante a reforma. Não sou muito exigente. Os velhos vivem do ar e eu sou muito velho: terei perto de uma centena de anos, segundo me dizem.
Nas décadas que se seguiram à morte de Cícero perguntaram-me muitas vezes, quase sempre em sussurros, como é que o senador era na realidade, mas guardei silêncio. Como poderia saber se estava a falar com algum espião enviado pelo Governo? Esperava ser saneado a qualquer momento. Porém, como a minha vida está a chegar ao fim, e como já não alimento quaisquer medos — nem sequer da tortura, pois não resistiria mais que um instante às mãos do torcionário ou dos seus auxiliares — resolvi que este livro será a minha resposta. Vou utilizar a memória e os documentos entregues à minha guarda. Como a vida que me resta será inevitavelmente breve, proponho-me escrevê‑lo depressa, recorrendo ao sistema de estenografia, numas dezenas de pequenos rolos do papiro mais fino — Hieratica, nem mais nem menos — que guardo desde há muito com este propósito. Desde já peço desculpa pelos meus erros e pelo estilo menos adequado. Também imploro aos deuses que me deixem terminar antes de a morte me vencer. As últimas palavras de Cícero foram um pedido para que eu contasse a verdade acerca dele, um pedido que estou disposto a satisfazer. Se ele nem sempre emergir como um paradigma de virtudes, paciência. O poder confere a um homem muitos luxos, mas um par de mãos limpas raramente se encontra entre eles.
O meu propósito é tratar do poder e do homem. Ao falar em poder, estou a referir-me ao poder oficial, ao poder político, a que em latim chamamos imperium, o poder de vida ou de morte, que o Estado concede a um determinado indivíduo. Um poder que foi pretendido por muitas centenas de homens, mas, em toda a história da República, Cícero foi o único que o procurou sem recursos que o pudessem ajudar, para além do seu próprio talento. Não provinha, como Metelo ou Hortênsio, de uma das grandes famílias aristocráticas, possuidoras de gerações de favores políticos que poderiam sacar em tempo de eleições. Não dispunha de um exército poderoso para lhe apoiar a candidatura, como acontecia com Pompeu ou com César. Não possuía, como Crasso, uma vasta fortuna que lhe aplanasse o caminho. Só dispunha da sua própria voz, que, graças a um extraordinário esforço de vontade, se tornara a mais famosa voz de todo o mundo.
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Tinha 24 anos quando entrei ao seu serviço. Ele tinha 27. Eu era um servo doméstico, nascido na propriedade da família, situada nos montes que rodeiam Arpino, e nunca tinha visto Roma. Ele era um jovem advogado, que sofria esgotamentos nervosos e lutava para vencer consideráveis deficiências naturais. Poucos apostariam nas hipóteses de qualquer de nós.
Na altura, a voz de Cícero ainda não era o temível instrumento que iria ser mais tarde; era rouca e ocasionalmente podia resvalar para a gaguez. Quero crer que o problema era ele ter a cabeça ocupada por demasiadas palavras, que em momentos de maior pressão se lhe apertavam na garganta, como acontece quando duas ovelhas, pressionadas pelo rebanho que as segue, tentam passar ao mesmo tempo por um espaço estreito. De qualquer maneira, era frequente que tais palavras fossem demasiado eruditas para poderem ser compreendidas pela assistência. O «Erudito», como lhe chamavam os ouvintes impacientes, ou o «Grego», sendo certo que nenhum dos termos poderia ser visto como um elogio. Conquanto ninguém pusesse em dúvida o talento de Cícero para a oratória, a sua constituição física era demasiado frágil para lhe suportar toda a ambição; por isso, o esforço suportado pelas suas cordas vocais durante várias horas de argumentação, muitas vezes ao ar livre e em qualquer estação do ano, podia deixá-lo rouco ou afónico durante dias. A estes desastres juntavam-se a insónia persistente e as digestões difíceis. Dito em palavras simples: se queria ascender na política, como desejava ardentemente, Cícero precisava de ajuda profissional. Portanto, decidiu ausentar-se de Roma por algum tempo, com o duplo objectivo de refrescar as ideias e de consultar os mais famosos professores de Retórica, que, na sua maioria, viviam na Grécia e na Ásia Menor.
Por eu ser responsável pela pequena biblioteca do pai dele, e por possuir conhecimentos razoáveis de grego, Cícero pediu-me emprestado, como quem leva para casa um livro da biblioteca, e levou-me com ele para o Oriente. A minha função era dirigir os preparativos, arranjar transportes, pagar aos professores e tudo o que fosse necessário; ao fim de um ano seria devolvido ao meu antigo senhor. No final, como acontece com tantos livros úteis, acabei por nunca ser devolvido.
Encontrámo-nos no porto de Brindisium no dia em que devíamos seguir viagem. Estávamos no Consulado de Servílio Vátia e Cláudio Pulcro, no 675.º ano da fundação de Roma. Cícero ainda não era a figura imponente que se viria a tornar, nem as suas feições eram de tal forma populares que não lhe permitissem percorrer a mais calma das ruas sem ser reconhecido. (Bem gostaria de saber o que terá acontecido a todos aqueles milhares de bustos e retratos que chegaram a adornar casas particulares e edifícios públicos. Teriam, na verdade, sido todos partidos e queimados?) Naquele dia de Primavera, o jovem que estava no cais era magro e tinha ombros arredondados, pescoço excessivamente alto em que uma volumosa maçã-de-adão, grande com um punho de bebé, subia e descia sempre que ele engolia. Os olhos eram protuberantes, a pele amarelenta, as faces encovadas; era, em resumo, a imagem da falta de saúde. «Pois bem, Tirão», recordo-me de ter pensado, «aproveita a viagem, que não durará muito.»
Começámos por ir a Atenas, onde Cícero se prometera o prazer de frequentar a Academia para estudar Filosofia. Levei-lhe o saco para o auditório e, quando estava para o deixar ali, quis saber para onde é que eu ia.
— Vou sentar-me à sombra, juntamente com os outros escravos — respondi —, a menos que tenhas qualquer outro serviço para mim."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Mareantes, Presença e Vercial.

Pré-publicações - 5

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A Obra Prima Desaparecida, Jonathan Harr, Presença.
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Num final de tarde de fevereiro, o Sol escondia-se por trás dos telhados de Roma. Corria o ano de 1989. Francesca Cappelletti saiu pela porta da Bibliotheca Hertziana, situada na Via Gregoriana, transportando numa mão um saco de lona repleto de livros, pastas de arquivo e blocos de notas e, na outra, uma enorme bolsa. Licenciara-se pela Universidade de Roma, tinha vinte e quatro anos de idade, um metro e sessenta e sete de altura, olhos castanho-escuros e as maçãs do rosto altas e proeminentes. O cabelo, espesso e negro, caía-lhe sobre os ombros e tinha uma tonalidade estranha, resultado de uma recente ida a um salão de beleza próximo da Piazza Navona, onde a cabeleireira a convencera de que nuances vermelhas lhe dariam um aspecto mais vivo. Na realidade, as nuances davam-lhe um aspecto metálico, a fazer lembrar o latão. Não usava maquilhagem, nem brincos, apenas um anel de pérola na mão esquerda. Fazia uma covinha no queixo, que sobressaía sobretudo em repouso, embora naquele momento não estivesse nada repousada.
Estava atrasada para um encontro. Tinha um longo e deplorável passado repleto de atrasos. Consequentemente, aperfeiçoara a arte da justificação teatral. O trânsito de Roma era a desculpa mais habitual, mas já inventara elevadores avariados, chaves desaparecidas, tacões dos sapatos partidos, crises emocionais e doenças de familiares. As desculpas que apresentava revestiam‑se de uma sinceridade ofegante e pesarosa, com os olhos muito abertos e ar implorante, pelo que haviam sido aceites vezes sem conta por amigos e namorados.
Desta vez, ia encontrar-se com um homem chamado Giampaolo Correale. Este contratara Francesca e vários outros alunos de História da Arte, amigos dela, para realizarem uma investigação sobre algumas pinturas da Galeria Capitolina. Regularmente, marcava uma reunião no seu apartamento para debaterem os progressos. Francesca nem sempre chegava atrasada a estas reuniões e, das vezes em que tal acontecera, Correale perdoara-lhe com um simples aceno de mão. Ela já provara ser um dos elementos mais produtivos da equipa. No entanto, ele tinha um temperamento que a perturbava, capaz de um bom humor expansivo em determinado momento, interrompido por repentinos ataques de cólera logo a seguir.
Deslocava-se numa scooter, uma Piaggio azul matizada de ferrugem, e passou diante da igreja Trinità dei Monte e da Villa Medici, descendo a serpenteante rua que levava à Piazza del Popolo. Era uma condutora cuidadosa, mas parca em perícia, apesar de oito anos de experiência. O seu destino, o apartamento de Correale, situava-se na Via Fracassini, uma zona residencial com edifícios do século XIX, pequenas lojas e restaurantes, a cerca de quilómetro e meio do centro da cidade. Achava que iria chegar cerca de quinze minutos atrasada e começou a congeminar possíveis desculpas. A verdade — que pura e simplesmente perdera a noção do tempo enquanto lia um ensaio sobre iconografia — parecia‑lhe de alguma forma insuficiente.
Quando chegou ao apartamento de Correale, situado no último piso, ofegante e com o cabelo em desalinho, parecia alguém adequadamente perturbado.
Correale abriu a porta. Tinha cerca de quarenta e cinco anos, embora parecesse mais velho, algum peso em excesso, praticamente calvo, com a barba bem aparada a fugir para o grisalho. Trazia a ponta de um charuto grosso e negro entre os dedos. Observou Francesca por cima dos óculos de leitura. Tinha os olhos algo salientes, como os dos peixes.
— Ah, afinal a Francesca decidiu juntar-se a nós! — exclamou, dirigindo-se aos outros presentes na sala. Assumira um tom irónico, mas mantinha um sorriso nos lábios.
Não era preciso inventar justificações. Francesca entrou, limitando-se a murmurar um pedido de desculpas."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Mareantes, Presença e Vercial.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

A paródia é um mar

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Caro João Sousa André: as entrevistas do Miniscente não são sociológicas, nem analógicas, nem meteorológicas. São apenas isto: um eflúvio livre sem grande critério, sem cálculo preciso quanto à natureza dos convidados e sem um horizonte fixo ou ancorado em fantasias. Nem sei bem como apareceram, era fim de Agosto e eu estava a escrever outra coisa de fôlego que não vem ao caso, e pareceu-me bem dar a voz em vez do leme da habitual polifonia. Nesse sentido, a intervenção do João Villalobos - lembro logo as Bachianas - é parte genuína desta aurora boreal criada no Miniscente. Aliás, com a devida licença e por apreço óbvio, tenciono publicá-la aqui no eflúvio. Mais tarde, há sempre um pós-isto tudo, estas entrevistas hão-de servir para qualquer coisa. Provavelmente para lembrar a cor do mar.

Mini-entrevistas - 67


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Jorge Melícias, poeta, 35 anos (http://daliteratura.blogspot.com/).
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-O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
Numa visão optimista, uma multiplicidade babélica. No pior dos cenários, uma garrulice pegada.
-Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Nenhum. Continuo a privilegiar os meios de informação mais tradicionais.
-Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Um impacto quase delével, acresce dizer. Ainda assim o facto de ter iniciado colaboração com o Da Literatura concorreu para que, numa primeira fase, me obrigasse a uma disciplina de escrita a que não estava muito habituado. Mas, mesmo nessa altura, a minha participação na blogosfera (até como visitante) sempre foi esporádica. E muito direccionada. Hoje resta pouco mais que um crescente desinteresse.
-Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogosfera não é um sub-produto da realidade. Nessa perspectiva ela reflecte os jogos de poder e de interesses subjacentes a essa mesma realidade. Esta transversalidade é bastante mais visível em blogues que, conotados com uma ou outra ideologia político-social, procuram, deliberadamente, condicionar a opinião pública.
Já no que diz respeito aos blogues que, pontualmente, ainda vou frequentando (e eles são, na quase totalidade, de índole marcadamente cultural), penso que sim, que são uma forma de expressão tendencialmente livre. Vindicativos em relação às suas empatias ou preferências, mas livres.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira e Leandro Gejfinbein. Agenda desta semana (27/11/06 a 2/12/06): Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca e Tiago Mendes.

Pré-publicações - 4

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Nikias Skapinakis, Bernardo Pinto de Almeida, Campo das Letras.
Saída a público: 29/11/06
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"1.Nikias, 55 anos depois
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O que desenha uma obra?
Quero dizer: a partir de que circunstâncias um trabalho – seja ele o de um qualquer criador e sob qualquer regime de expressão – deixa de ser um conjunto eventualmente coerente de experiências expressivas mais ou menos interessantes, para se figurar sob o nome de uma obra: aquele mesmo que, depois, torna indistinto o nome do autor daquilo de que este fez sua autoria?
O que faz, primeiramente, uma obra, por aproximação de resposta, é a presença simultânea de um conjunto de invariantes que, atravessando uma prática de criação mais ou menos longa, erige um conjunto de signos, de temáticas, ou de ambos, através dos quais se torna reconhecível um espaço singular que, desse modo, se dá a ver aos demais como um território autoral.
Não são, porém, estes signos meros tiques que se repetem, ou esses temas meras referências a outros, de sentido mais universal: nenhuma obra digna desse nome poderia dispensar-se de tocar, ao menos de aflorar, o que mais universalmente toca a todos, mesmo se isso não é, ainda, o que a distingue como tal. Trata-se, isso sim, de ser possível perscrutar nela a ocorrência de repetições que agem como formas de uma resistência, ou de uma insistência, dando-lhe uma espessura e uma materialidade que permite o seu reconhecimento. E de, concomitantemente, ser detectável nela, também como invariante, uma certa forma diferenciada de abordar as temáticas que toca, no âmbito do que, simplificando, se poderia designar como a medida de um olhar.
Para dar um exemplo simples: se é verdade que tanto Bacon quanto Lucian Freud abordaram a questão da angústia face à miséria da condição humana no processo da sua degradação física – tema que muitos antes (Kokoshka, por exemplo, mas também Egon Schiele), e muitos outros depois (Paula Rego, Robert Gober, Cindy Sherman, entre tantos) igualmente abordaram –, o facto é que cada um destes o aproxima a partir de um olhar diferenciado, que não só muda a interpretação desses sinais como os acolhe no plano do que se poderia designar por uma especificidade ontológica. E que autoriza, desse modo, aproximações diversas às temáticas similares de que partiu. Nessa diferença, por vezes muitíssimo subtil, já que uma autoria é sempre um diferimento quase imperceptível, se esboçam os signos distintivos desse renovado olhar sobre o que parece ter a idade do mundo, sejam a morte, o amor, o sofrimento, a solidão, a violência, ou os respectivos pares de opostos. Por essa razão também será possível agora adiantar que o que aproxima duas obras determinantes, dentro de um determinado modo de expressão, é mais a similitude no modo de aflorar os seus temas do que a aproximação entre as formas expressivas ditadas pelo tempo. Assim, e por isso mesmo, Lucian Freud está mais próximo de Rembrandt, chegado uns séculos antes dele, do que de muitos outros seus contemporâneos. Como Picasso evoca, na sua capacidade de exprimir a violência constitutiva do mundo, mais a Goya do que a outros seus próximos. Ou Mondrian vem de certo classicismo rafaelesco. Ou Malévich se entende melhor quando se percebe que ele erigiu a mais radical abstracção sobre a evidência presente na tradição do ícone ortodoxo russo.
E assim, também as famílias que habitam essa longa saga a que chamamos História da Arte se constituem por aproximações inesperadas que transcendem, quando são decisivas e o seu pressuposto é radical, as
diferenças históricas que as separam. Não foi Picasso quem afirmou, mostrando disto mesmo a compreensão mais absoluta, que a arte mais
moderna que conhecia era essa que acabara então de se descobrir, préhistórica, em Lascaux e Altamira?
Então, o que desenha uma obra não são pois apenas esses signos que já para trás referi, mas é, também, o modo como esta se inscreve, mesmo se subtilmente, numa determinada família – família expressiva, perceptiva, espiritual, ontológica – que, de certo modo, desde logo a coloca num plano que, sendo histórico, é ao mesmo tempo transhistórico. E na medida em que cada obra singular institui a sua própria antecedência como se, de alguma maneira, a elegesse. Por isso Harold Bloom, a propósito da literatura, pôde dizer que se deveriam fazer leituras shakespearianas de Freud antes de se procurar fazer leituras freudianas de Shakespeare.
De facto, toda a obra que, enquanto tal, se afirma toma ao mesmo tempo
a inevitável forma de um vínculo fortíssimo a uma dada tradição, que prolonga e que profundamente transforma, reinventando-a, ao mesmo tempo que pressupõe, para si mesma, uma espécie de linha de invenção que se define como um processo de resistência, ou de insistência, de um determinado corpo de questões. As que nela regressam como se fosse esse incessante regressar através de manifestações diversas o que permitiria enfim entendê-la na singularidade do seu próprio território.
Assim com a obra de Nikias Skapinakis, cujos já cumpridos 55 anos de trabalho permitem retraçar, sobre um vastíssimo corpo de experimentações e de diferenças, uma nítida linha concordante. Nela, então, em cujo percurso ao longo da segunda metade do século XX da arte portuguesa não é apenas possível encontrar essa referida dimensão de resistência/insistência temática - em que desde logo se podem destacar os elementos concernentes à impossibilidade (ou à suspeita de equívoco) com que encara a abstracção, a referência histórica alargada quer ao tempo presente quer às recontextualizações do passado (da arte e da própria história), o subtil apelo a uma sensualidade do mundo, a súbita hesitação metafísica, a distância irónica que institui entre o que seria do real e o que seria da representação) –, como igualmente se fazem evidentes certos núcleos conceptuais a que incessantemente regressa."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Ariadne, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Mareantes, Presença e Vercial.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Mini-entrevistas/Série II - 66


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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje o convidado é Lutz Bruckelmann (http://quaseemportugues.blogspot.com/).
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- O que é que lhe diz a palavra "blogosfera"?
Um universo de oportunidades e ideias que no início julguei imenso, mas que encolheu com o tempo. O Café Central dos nossos dias.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues?
Seguramente a polémica das velas em memória do massacre dos Judeus no 19 de Abril de 1506. Sem os blogues não teria dado pelo acontecimento, que aliás desconhecia, nem pelas tensões ainda existentes sobre a questão, que esta polémica pôs a nu.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Como imigrante em Portugal, falta-me a rede de conhecidos, de velhos amigos e compagnons de route, que quem aqui cresceu adquiriu de forma natural ao longo dos anos. Assim, a entrada na blogosfera tem sido muito enriquecedora para mim. Tem-me permitido trocar ideias, travar conhecimento e até amizade com uma série de pessoas interessantes que de outra forma não teria chegado a conhecer. Quase sinto a minha presença aqui como uma segunda vida social. Por outro lado, rouba infelizmente muito tempo à restante vida.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
O Eduardo Pitta respondeu no outro dia bem a essa questão: Depende de respectiva condição profissional de cada um. Quanto a mim, considero me muito livre, o que decorre do facto de que sou 100% amador nisto, e que não existe nenhum elo entre o meu blogue e a minha vida profissional, nem no que respeita a dependências, nem a ambições.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira e Leandro Gejfinbein. Agenda desta semana (27/11/06 a 2/12/06): Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca e Tiago Mendes.

Pré-publicações - 3


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Tiago Rebelo, O Tempo dos Amores Perfeitos, Editorial Presença, Lisboa, Dezembro, 2006, 420 pp.
Saída a público: 05/12/2006.
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Pré-Publicação:
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A corveta de três mastros adornou assustadoramente para bombordo com a força do vento a enfunar as velas. Em seguida mergulhou a pique, como que deslizando por uma rampa com a proa apontada à vaga que crescia à sua frente, e atravessou a parede de água, quebrando-a num choque violento e tornando a erguer-se enquanto uma enorme massa de água galgava a proa, correndo pelo convés com uma força imparável e voltando a escoar-se para o mar pelos embornais. Era um navio sólido, a corveta mista Afonso de Albuquerque, de sessenta e dois metros, e chegava a fazer 13,3 nós, velocidade que estava longe de conseguir atingir naquela tarde de mar encapelado e ventos furiosos. Tinha largado do porto de Lisboa havia quatro dias, sempre com mau tempo. O seu destino era Luanda, onde, por ordem do Comando da Divisão Naval, iria reforçar a frota nacional naquele território africano.

Ao quarto dia a tempestade ganhou maior ímpeto. O duelo desigual da Afonso de Albuquerque com as forças da natureza prolongou‑se desde as primeiras horas da madrugada até ao entardecer. O baloiçar impiedoso do navio já fizera os seus estragos entre os passageiros menos habituados ao alvoroço dos estômagos massacrados. Contudo, ao cair da noite, a ondulação foi misericordiosamente acalmando, o vento amainou e o tecto de nuvens baixas e negras rompeu-se para dar lugar a uma lua cheia deslumbrante que espelhou o seu brilho prateado na superfície do oceano Atlântico. Parecia milagre, eram os meados de Março, os derradeiros dias do Inverno no hemisfério norte, e o clima tempestuoso ainda não poupara o navio, particularmente nestas últimas horas.
Debruçado sobre o mar, com os cotovelos apoiados na amurada, o tenente Carlos Montanha aproveitou aquela trégua improvável dos elementos para gozar um pouco o ar puro da noite e fumar, enquanto se espantava com a beleza da paisagem: uma imensidão de água surpreendentemente apaziguada e de aspecto inofensivo que havia apenas umas escassas horas se enfurecia, agigantando-se em vagas sucessivas, de vários metros, que pareciam querer engolir a corveta. Agora o mesmo oceano, há pouco indomável, transformara-se num mar chão iluminado por um luar de cortar a respiração. Por um instante, Carlos Montanha sentiu-se desconcertado com os caprichos meteorológicos. Levantou a cabeça e deitou para o ar húmido da noite o fumo do cigarro, esvaziando os pulmões com um suspiro. Mas a sua mente estava ocupada com outros pensamentos mais longínquos. A corveta navegava ao largo da costa ocidental de África, tendo passado as Canárias, e o tenente do exército português tentava imaginar como seria o seu futuro próximo, consciente de que ia a caminho da maior aventura da sua vida.

Uma sombra silenciosa deslizou no convés e aproximou-se por detrás do tenente, levando-o por reflexo a girar nos calcanhares das botas regulares que usava com o uniforme caqui de campanha. Todavia, antes de conseguir ver alguém, ouviu uma voz de mulher.
— Boa noite, tenente."
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Mareantes, Presença e Vercial.

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Pré-publicações - 2

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William Shakespeare, O Conto de Inverno, Campo das Letras, pp. 180., tradução, notas e prefácio: Filomena Vasconcelos.
Saída a público: 29 de Novembro.
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Pré-publicação:
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"ACTO 1

Cena 1
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Entram Camilo e Arquídamo.

ARQUÍDAMO – Se alguma vez, Camilo, visitardes a Boémia numa ocasião semelhante à que me trouxe aqui, vereis que existe, como já vos disse, uma grande diferença entre a Boémia e a Sicília.

CAMILO – Creio que no próximo Verão o rei da Sicília pretende retribuir ao rei da Boémia a visita que lhe deve.

ARQUÍDAMO – A amizade entre nós irá justificar tudo aquilo em que a nossa hospitalidade nos possa envergonhar; porque, na verdade ...

CAMILO – Por favor ...

ARQUÍDAMO – Digo livremente a verdade por tudo aquilo que sei. Não poderemos ousar tamanha magnificência – tão singular, que não tenho palavras. Dar-vos-emos bebidas narcotizadas, para que os vossos sentidos não se apercebam das nossas falhas; e ainda que não possam elogiar-nos, também não hão-de censurar-nos.

CAMILO – Tendes um apreço excessivo pelo que vos é dado de livre vontade.

ARQUÍDAMO – Acreditai que digo apenas o que o pensamento me dita e a honestidade me impõe.

CAMILO – O rei da Sicília nunca será excessivamente hospitaleiro para com o rei da Boémia. Foram criados juntos na infância, o que enraizou neles uma amizade, que jamais deixará de florescer. Se outras responsabilidades e imposições da realeza os separaram, as suas relações, ainda que não pessoais, têm-se mantido oficialmente através da troca de presentes, cartas e embaixadas amistosas, como se ambos continuassem juntos, embora ausentes, apertassem as mãos sobre a imensa distância ou se enlaçassem num abraço que fosse de um canto ao outro dos ventos. Os céus guardem esta amizade!

ARQUÍDAMO – Penso que nada há neste mundo, nem mal nem razão, que possa alterá-la. Tendes o indiscutível apoio do jovem príncipe Mamílio. Jamais conheci nobre algum mais promissor.

CAMILO – Estou plenamente de acordo convosco na esperança que nele temos. É um rapaz destemido, alguém que anima os súbditos e revigora os velhos corações. Os que já andavam de muletas antes de ele nascer, querem ainda viver até ele ser homem.

ARQUÍDAMO – De contrário, não se importariam de morrer?

CAMILO – Não ... se não tivessem qualquer outro pretexto para querer viver.

ARQUÍDAMO – E se o rei não tivesse um filho, eles iriam viver de muletas até ele o ter.
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Saem"
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Actualização das editoras que integram o projecto de pré-publicações do Miniscente: A Esfera das Letras, Antígona, Bizâncio, Campo das Letras, Colibri, Mareantes, Presença e Vercial.

Mini-entrevistas/Série II - 65


LC
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O Miniscente tem estado a publicar uma série de entrevistas acerca da blogosfera e dos seus impactos na vida específica dos próprios entrevistados. Hoje a convidada é Maria Isabel Goulão, bibliotecária e investigadora, autora do blog Miss Pearls e colaboradora do Corta-Fitas.
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- O que é que lhe diz a palavra “blogosfera”?
A blogoesfera ocupa o lugar do café dos finais do sec. 19. Frequentado por tipos diferentes, do pouco letrado ao erudito, do sério ao humorado, do especialista ao generalista, do militante ao diletante, do anónimo ao identificado, uns sentam-se sozinhos, outros partilham a mesma mesa e alguns dão dois dedos de conversa aqui e acolá: são os links do século passado.
Apesar do aspecto descontraído, todos querem ver e alguns querem ser vistos. Muitos olham com distanciamento para os outros, em postura blasé, mas levantam o tom de voz para se fazerem ouvir nas mesas vizinhas. De novo, os links.
Além da multidão de desconhecidos, há as mesas vip onde só se senta com convite, com direito a sitemeter acelerado. Uns vestem trajes discretos mas de bom corte, outros optam por um estilo mais arrojado: mostra-me o teu template, dir-te-ei quem és.
Lá no fundo do café, se virem uma mesa discreta em tons de açafrão e vozes animadas, posso ser eu.
- Qual foi o acontecimento (nacional ou internacional) que mais intensamente seguiu apenas através de blogues ?
Creio que segui a ocupação do Iraque praticamente através dos primeiros blogs e principalmente através da Coluna Infame, mas nunca deixei de ler jornais. Há blogs que acompanhei com maior frequência durante as eleições legislativas e presidenciais ou no caso dos cartoons dinamarqueses, no entanto, há alguns temas de carácter local e regional que me interessam e que não são discutidos na blogoesfera.
- Qual foi o maior impacto que os blogues tiveram na sua vida pessoal?
Desconfio que um blog corresponde ao ponto de cruz da minha mãe. São hobbies que mantemos e que muitas vezes nos desviam a atenção do que nos incomoda, do que nos preocupa e que nos distrai. Claro que depende do “registo” que escolhemos, ou melhor dizendo, do “tom dos blogs”, como lhe chamaste.
Assim como o ponto cruz, o tom dos blogs pode ir do tom pastel ao vermelho vivo, de um registo calmo ao quezilento, do ingénuo ao matreiro, do simplório ao eloquente, em matizes várias e texturas distintas. Não há semana que não tenha vontade de liquidar o meu blog, mas assim como no ponto cruz, não há semana que não se pegue na agulha e na linha.
A verdade é que conheci pessoas que dificilmente viria a conhecer se não fosse a blogoesfera. Fiz amigos, conhecidos, recebo palavras simpática e alguns enxovalhos. A blogoesfera pode ser, por vezes, um local agressivo, mas já se sabe, quem anda à chuva, molha-se.
- Acredita que a blogosfera é uma forma de expressão editorialmente livre?
A blogoesfera é um espaço de liberdade, que cobre um conjunto de temas que a vida política e artística não consegue representar. É um universo muito rico e que tem permitido a entrada de muita gente interessante e que não tinha acesso aos media convencionais.
É uma novidade que sai fora do quadro habitual dos cartões VIP. Na blogoesfera, dez valores, são dez valores. Um blog pode aguentar-se artificialmente por uns tempos, mas, se não tiver qualidade ou alguma singularidade, não resiste por muito tempo.
Quanto a isso de ser livre ou não, cada um fale por si.
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Entrevistas anteriores: Série I - Carlos Zorrinho, Jorge Reis-Sá, Nuno Magalhães, José Luís Peixoto, Carlos Pinto Coelho, José Quintela, Reginaldo de Almeida, Filipa Abecassis, Pedro Baganha, Hans van Wetering, Milton Ribeiro, José Alexandre Ramos, Paulo Tunhas, António Nunes Pereira, Fernando Negrão, Emanuel Vitorino, António M. Ferro, Francisco Curate, Ivone Ferreira, Luís Graça, Manuel Pedro Ferreira, Maria Augusta Babo, Luís Carloto Marques, Eduardo Côrte-real, Lúcia Encarnação, Paulo José Miranda, João Nasi Pereira, Susana Silva Leite, Isabel Rodrigues, Carlos Vilarinho, Cris Passinato, Fernanda Barrocas, Helena Roque, Maria Gabriela Rocha, Onésimo Almeida, Patrícia Gomes da Silva, José Carlos Abrantes, Paulo Pandjiarjian, Marcelo Bonvicino, Maria João Baltazar, Jorge Palinhos, Susana Santos, Miguel Martins, Manuel Pinto e Jorge Mangas Peña. Série II – Eduardo Pitta, Paulo Querido, Carlos Leone, Paulo Gorjão, Bruno Alves, José Bragança de Miranda, João Pereira Coutinho, José Pimentel Teixeira, Rititi, Rui Semblano, Altino Torres, José Pedro Pereira, Bruno Sena Martins, Paulo Pinto Mascarenhas, Tiago Barbosa Ribeiro, Ana Cláudia Vicente, Daniel Oliveira e Leandro Gejfinbein. Agenda desta semana (27/11/06 a 2/12/06): Isabel Goulão, Lutz Bruckelmann, Jorge Melícias, Carlos Albino, Rodrigo Adão da Fonseca e Tiago Mendes.