segunda-feira, 24 de julho de 2006

Retórica com cauda de fora

para aprofundar a tese há sempre soluções
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É já fim de manhã quando, de repente, descubro os braços da ameixoeira a instigar a brancura do muro. Pura desproporção.
Há dois anos, a propósito do genocídio de Darfur, onde estava a acutilância feérica dos que hoje quase silenciam o Hezbollah e diabolizam o que designam por "desproporção"?
Há olhares que se moldam ao seu objecto. A minha ameixoeira sabe-o bem. A má-fé e a hipocrisia de muitos outros também.

domingo, 23 de julho de 2006

Melancolias recentes (act.)

Man Ray
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a) Os males de uma geração resumem-se, mais tarde ou mais cedo, a tudo. E porquê? Porque a própria ideia de geração é frágil e corresponde a um êxtase que havia de cortar inelutavelmente o tempo (e o vivido) em dois: um antes e um depois. Tal nunca acontece, daí a hemorragia, a dor e a estranha inquietação do olhar ao espelho. Pas grave.
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b) Uma pessoa detecta factos, ausculta tendências e coloca algumas dúvidas. Há realidades anteriores à experiência que têm o peso da sobrevivência, eu sei. Há matérias que são tabu, eu sei. Mas a violência reactiva e jocosa pode entrar na arena e comer essa pessoa. Sem mais. Na guerra deixa de haver interpretação, eu sei. Quem o disse sabia bastante de fotografia, eu sei. Durante a guerra, saímos da interpretação e entramos na interpretose. Só depois da guerra é que os nomes voltam a ocupar o vazio deixado por essa pessoa. E quem a deglutiu, por suave necrofagia, tomar-lhe-á o espírito e compreenderá algumas das dúvidas. Uma pessoa nasce e morre muitas vezes durante a vida.
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c) O que se diz, quando se diz “desproporcionado”? Diz-se que não se há-de dizer. Eu, por exemplo, creio que a palavra teria preenchido melhor alguns olhares que ficam exaustos sempre que se fala do 09/11.

sábado, 22 de julho de 2006

Cadernos da guerra (act.)

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("The biggest mystery of this conflict so far is the reaction of the Arab street ... the Arab leaders. The silence resounding around the Middle East is deafening. For the first time, there is no phalanx of Arab leaders lined up to condemn Israel" - Anderson Cooper Blog)
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Ontem. O telejornal abre com a voz ofegante do jornalista que avança pelo terreno entre escombros. A câmara é móvel, a imagem flutuante e a voz cheia de perigos. Quando a notícia é a notícia do jornalista que acabou de chegar e o telejornal reata o que a Sky e a CNN repetiram a tarde toda. Quando. "Isso ontem único", como escreveu António Maria Lisboa.
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Não deve haver ninguém que deseje a guerra pela guerra, mas isso não pode impedir a análise fria dos factos. A guerra pode ser sempre mais cirúrgica e protética, é verdade (esse foi um dos temas da guerra do Iraque, há três anos: mas existirão mesmo 'guerras à Suíça'?). Uma guerra limpa seria sempre tão utópica quanto uma 'não-guerra' (não confundir com ”guerra santa”), embora não deixe de ser curioso que, a par da guerra tecnológica sempre tão visada e denunciada, quase ninguém refira a miserável 'guerra de escudos' que usa habitações e hospitais como locais de arremesso (há sempre, nesses casos, uma ”compreensão” muito europeia, ou mesmo de cariz ”anti-animalesco”, para utilizar a expressão de
Ana Gomes).
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Ao lado de correntes acríticas (espalhadas pelo espectro político, se é que esse arco-íris ainda tem sentido), a larga maior parte da esquerda doméstica (PC, BE, PS da Causa Nossa, etc.) parece influenciada por um mal disfarçado anti-semitismo que sempre foi apanágio das direitas radicais. Uma fatia substancial dos analistas prefere, por sua vez, um conjunto partilhado e estável de denominadores comuns (os chamados 'horrores pré-estabelecidos') que diaboliza, à partida, uma das partes do conflito. Estamos diante de uma unilateralidade que se vai tornando congénita, repetitiva e que constrói consensos fáceis. O terrorismo não tem que temer tudo e todos por igual, já se sabe. A Europa acaba por fazer eco - e de que maneira - desta cadeia de indiferenças e de facilitismos: sem qualquer influência no teatro da guerra, envia como representante o senhor Solana que monologa a sós entre paredes e sem destinatários. É uma diplomacia tão risível e triste quanto o são os consensos imediatos do primeiro grau que vão fazendo a vaga do actual maintsream. Ambos falam de si e para si. Ambos se acomodaram discursivamente à retaguarda do mundo. Onde dantes havia metafísica – bastidores versus palco –, há agora hipocrisia e correcção: realidade versus acomodação.
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Às vezes, muitas vezes, o 11 de Setembro continua a ser rotundamente esquecido.
A verdade é que o panorama mudou, a armadura dos factos transformou-se e os centros de irradiação de conflitos problematizaram-se. Nada é já como dantes: a dispersão de conflitos (Afeganistão e Iraque) veio alterar o carácter pró-activo dos aliados tradicionais de Israel; as práticas suicidárias tornaram-se normais nos últimos cinco anos entre os radicais palestinos (e massificaram-se); e a emergência do arco Irão-Síria-Hezbollah-Hamas veio intencionalmente desestruturar os panos de paz da região, preenchendo vazios, isolando moderados e transpondo para o devir eleitoral do Hamas o não reconhecimento de Israel (e até o espectro do seu aniquilamento).
Neste contexto complexo, o último Sharon chegou a quebrar o formato do quadro político israelita de décadas e iniciou em Gaza (há quase um ano) um processo que visava a paz. São factos que, quer se queira quer não, acabam por provar alguma boa-fé de Israel (sem contrapartida na súbita ausência dos seus interlocutores locais). A provocação calculada que acabou por gerar a presente guerra – não sejamos, portanto, inocentes - surge nesta esquadria de dispersão externa, de radicalização interna e de afirmação (quase trans-regional) do arco estratégico iraniano.
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sexta-feira, 21 de julho de 2006

Uma questão de tomates

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As imagens suscitam o acontecimento. A intrusão faz parte do mundo que faz a imagem. Tudo nela entra até àquele momento. Há um instante em que a adequação se desfaz e em que a expectativa como que é defraudada (a metáfora do ”murro no estômago” sempre traduziu esse facto). Não fosse a calculada provocação do Hezbollah-Irão junto às fronteiras de Israel e este acontecimento estaria ainda a dominar a história do verão. O terrorismo passou a viver da televisão, da propagação, da contaminação, ou seja, da mais profunda inversão. Já lá vai o tempo da guerra de 1967 que vinha no Século do dia seguinte (que chegava a casa à hora do almoço) e onde eram visíveis os campos que se digladiavam: estados, caras, blocos, causas. Zidane não existia ainda nessa altura e tudo estava por acontecer. Ficou agora perante tudo e todos como o mau da fita, mas o rosário está ainda por provar. O ser humano traz consigo uma nuvem de sobrevivência. Nem sempre é bonita, nem sempre a apreciamos em nós. E somo-la secretamente com o mesmo afinco com que a detestamos. É por isso que, nas imagens, uma bomba ou uma cabeçada é sempre uma coisa do diabo, do outro. Que interessa que o dito se defenda, ou que o mal lhe ”esteja já no sangue” (os ditames populares tradicionais são amiúde tão cruéis quanto realmente ilusórios). Olhamos as imagens e o que soa a falso é sempre maior do que nós: o abismo perfilha o coração que move a imagem. O ”mainstream” acaba por resolver o assunto, coordenando uma resposta, serenando a turbulência e repondo a tanquilidade (há muitas pombinhas subitamente impressionadas com aquilo que sempre foi o cenário da guerra). Quem não o aceita deixa a correcção a navegar entre imagens e tenta acomodar o incómodo no espaço da dúvida. Estrada sem fim. Estrada sem explicações arrumadas. Uma questão de tom. E de tomates.

Uma memória de Haifa (act.)

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Estive em Haifa há duas décadas e lembro-me que a cidade foi construída para ser observada de cima. Melhor: para que a vista se alcandorasse diante do mar mitológico e azul que a envolve. Dormi em casa de amigos que não temiam a guerra permanente que se iniciara no dia da fundação do novo país, há quase sessenta anos. Lembro-me de uma rua inclinada onde havia galinhas brancas, lembro-me de um pão circular e entrançado, lembro-me de uma águia esculpida num jardim suspenso, lembro-me do ascensor avermelhado, lembro-me afinal de sonhar e visitar o monte que me dá o nome e que significa ”Videiras de Deus” (Carmelo).
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p.s. - "On the way down we heard a large boom, my neighbor phoned his daughter across town as soon as the radio announced that Haifa was hit. Up until now he seemed to me the calmest person down there, but his expression changed. "It hit near you? The windows exploded?" His arm unknowingly touches the wall to support himself, "don't cry, don't cry.. Are you ok?". He hangs up and with resolve says that he's going down there, no tears but he's already changed. With shaking fingers he calls somebody else about the car." (do blogue Live from an Israeli Bunker)
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p.s. - Vale a pena ler e ver este hino ao "(...) range of fire of the fighters and lion cubs of Hizbullah" em empolgado discurso de Gholam-Ali Haddad 'Adel no parlamento iraniano.
Haverá ainda ilusões de que o objectivo do terrorismo é claramente aniquilar (neste caso Israel) e impedir qualquer solução pacífica para a região (a Liga Árabe sabe muito bem o que significa a influência directa do Irão nos Hezbollahs que iniciaram planificadamente esta guerra)?
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p.s. - Ler este excelente post no Kontratempos.

Custa muito alimentar o bom senso? (act.)

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O caso da reduplicação do Abrupto tem merecido reacções e até polémicas desnecessárias e inesperadas. É verdade e razoável o que o Contrafactos & Argumentos refere, embora o fundo da questão seja, em meu entender, o que leva pessoas a apropriarem-se indevidamente daquilo que não é delas. Puro divertimento, ou algo mais? Eu creio, seguramente, que é algo mais. Bastante, ou mesmo muitíssimo mais. Não entendo, com sinceridade, tanta indignação face ao legítimo alarme de José Pacheco Pereira, independentemente das incorrecções (sobretudo de cariz tecnológico) de quem é atingido e também de quem comenta ou noticia (nos próprios média tradicionais). Argumentar com uma índole especificamente técnica (espelhando, aliás, um saber legítimo que se saúda) e quase silenciar, ao mesmo tempo, o significado real do que está aqui em causa – voluntária ou involuntariamente, uma forma de terrorismo – não é lá de muito bom senso. Será o Abrupto um alvo tão desejado apenas por ser um dos blogues mais visitados da blogosfera? Não sou advogado de ninguém, podem crer; mas há momentos em que a mais essencial das objectividades requer que ponhamos os pés em terra. Custará assim tanto?
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p.s. - Eis aqui mais um (suave?) enigma a somar a este caso.

Bloguear de modo clássico

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Nas últimas páginas do London Review of Books que me chegou ontem pelo correio (de 20/07/06), surge o diário de John Lanchester. No dia 1 deste mês, escrevia o autor, decerto imbuído pela literariedade estival do universo: ”I don´t thing I´ve ever seen a keeper move the right way on five consecutive penalties”.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Quotidianos - 20

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Canta agora no meu pátio um daqueles ralos que dominam Atenas. À volta do arquipélago de folhagens, sobrará o silêncio. Nada mais. É tempo para beber uma cerveja preta e olhar a penumbra, essa mancha de jarros, heras, troncos imersos na relva e ainda o focinho do meu cão Ulisses a deambular em fantasias (teve hoje um osso para compensar a perda de cálcio).

Estranhamente (act.)

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É verdade: durante toda a intervenção de koffi Annan, secretário-geral da ONU, realizada há minutos no Conselho de Segurança, não foram pronunciadas uma única vez as palavras: "terror" (ou terrorismo), "Síria" e "Irão".
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p.s. - "In a stunning development, the 22-member Arab League criticized Hezbollah for provoking the current crisis. It is unprecedented for the Arab League to criticize any Arab party while it is actively engaged in hostilities with Israel. But the Arab states know that Hezbollah, a Shiite militia in the service of Persian Iran, is a threat not just to Lebanon but to them as well. Egypt, Saudi Arabia and Jordan have openly criticized Hezbollah for starting a war on what is essentially Iran's timetable (to distract attention from Iran's pending referral to the Security Council for sanctions over its nuclear program). They are far more worried about Iran and its proxies than about Israel. They are therefore eager to see Hezbollah disarmed and defanged." (Charles krauthammer)
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p.s. - "Face à premência da situação Israelo-Libanesa não seria suposto a RTP fornecer algum tipo de reflexão mais aturada, um debate, um documentário de enquadramento histórico? No fundo qualquer coisa que acrescentasse àquelas reportagens patetas de contagem diária de rockets, feridos e mortos." (Avatares de um Desejo)
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p.s. - "(...) ontem vi no telejornal uma reportagem cnn absolutamente inenarrável, o jornalista com um hezbollah que se queixava da cobardia israelita (queria lutar cara a cara, como na porrada de liceu) e que desatava a correr porque vinham aí os aviões (e o jornalista corria, não sem antes dizer para a camera que vinham aí os aviões) - mas esta gente já alguma vez viu um ataque de caça? anda tudo maluco?" (José Pimentel Teixeira em comentário a "Modos de vida -4")

Reminiscência do "tom" dos blogues (act.)

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Durante 4 minutos, entre as 14.23 e as 14.27, a CNN deu conta da importância que os blogues e livejournals estão a ter neste momento no Médio Oriente (há quem diga que estamos já perante "the most blogged war"). O uso de vídeo quase em tempo real a partir dos locais de edição (algo sublinhado pelo especialista da CNN como "novo"), o simples registo de ocorrências, os relatos factuais da guerra e a discussão entre civis sobre o que fazer foram alguns dos pontos ilustrados e bastante bem documentados no curto (mas significativo) espaço de emissão. Independentemente dos juízos (pelo meu lado, é óbvio que a estratégia agressiva do Irão planificou cuidadosa e provocatoriamente a deriva terrorista junto à fronteira de Israel), estamos seguramente face a uma nova dimensão dos papéis expressivos (do ”tom”) da blogosfera. Tive dificuldade em registar alguns dos links referidos, já que me foi totalmente impossível anotar o que vi e ouvi. Apesar de tudo, deixo aqui dois links (este e este) que creio ter conseguido memorizar.
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p.s. - Interacções entre bloggers dos dois lados da fronteira (ler mais aqui):
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"(...) Hey.I'm an IDF soldier stationed at the Lebanon is border, but got back home for a funeral of someone I knew."
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"(...) Hi, I think I must first mention that i am lebanese, and second that I really appreciate the fact that there are reasonable people on both sides of the border (...)"