domingo, 9 de julho de 2006

Entre o Eco do Espelho

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Pois é, este estudo já tem mais de vinte anos. Coitado do José M. Rodrigues sempre a correr entre este pátio (da Academia de Arquitectura de Amesterdão) e o Restaurante Espanhol. Coitado?

Espaço em branco?

Escrever a arguição para um doutoramento dá trabalho e nem sempre faz crescer.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

A escolha miniscente no próximo domingo

Blogues e Meteoros - 1

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"Escrevi há uma década o meu primeiro livro acerca dos temas da instantaneidade e da teoria da cultura. O título desse livro, Anjos e Meteoros, torna-se hoje no subtexto com que passo a baptizar estas crónicas. Não há adaptações inocentes. Nem de um filme que adapta um romance (já vivi a experiência), nem de um nome que adapta uma tradição (por mais íntima que seja). Quando se adapta, repete-se uma respiração, um sabor, um aceno que nos povoa. Se nesse livro já distante, os anjos eram mediadores entre a ordem terrena e uma outra omnipresente e perfeita, já os blogues de hoje contracenam com a metáfora da velocidade – os meteoros – enquanto novos enunciados que estão a contribuir para alargar o espaço público contemporâneo na omnipresença da rede (e não só).
Quando um novo medium surge, é normal que haja um período inicial de adequação das linguagens à nova moldura comunicacional. Essa procura de sentido aconteceu, por exemplo, com a fotografia, com o cinema, com a rádio ou com a televisão.
Na fotografia, Disdéri codificou a pose, Nadar patenteou a fotografia aérea, os retratos fizeram furor nas classes médias, Ruskin sentiu-se esteticamente incomodado, Muybridge ensaiou o movimento e Salomon criou o fotojornalismo. No cinema, Méliès viveu a mais feérica das prestidigitações, enquanto os Lumière nem chegaram a acreditar no destino ficcional da imagem móvel. Guazzoni fez ressoar a tradição operática, Griffith celebrou a montagem, as séries de episódios fizeram brado e as muitas vanguardas entraram em cena após a Primeira Grande Guerra Mundial. A rádio demorou algum tempo para saber o que fazer a uma voz que estava e não estava, ao mesmo tempo, nos locais onde era escutada. A televisão inventou-se a falar devagar com locutoras fotogénicas que anunciavam uma faixa de programas para todo o serão. Um dia veio a cor, o vídeo e o digital. A televisão, às vezes, já não sabe se é televisão, mas continua a processar-se como se fosse, ela mesma, uma permanente metamorfose de tons.
Ainda que grande parte dos bloggers (passarei a utilizar a palavra “blogueador”) e dos críticos da blogosfera não tenham plena consciência do fenómeno, a verdade é que a blogosfera está a atravessar, neste preciso momento, o seu período histórico de procura, ou de adequação do uso das linguagens às características inovadoras do novo medium. Esta travessia pioneira é riquíssima e está excessivamente próxima da experiência para que possa ser ajuizada e examinada de um modo taxativo. Contudo, sinalizá-la, proceder a anatomias cruzadas, identificar tendências e entender os modos como está a criar impactos diversos na rede e no mundo off-line é uma tarefa, não apenas possível, quanto urgente.
É esse o desígnio e o desafio desta espécie de observatório da blogosfera."
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Publicado desde ontem na nova secção de opinião do Expresso on-line.

quinta-feira, 6 de julho de 2006

Outros lados da massificação (act.)

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Quando conhecer deixa de ser uma virtude, é natural que o vituosismo tenda a generalizar-se como pura matéria reivindicativa.
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quarta-feira, 5 de julho de 2006

Memórias de Sua Majestade e da França

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Há quarenta anos, tinha quase 12 anos. A televisão - julgo que era National - dominava a sala-de-estar e tinha um aspecto dócil. Era um cubo bastante razoável com ecrã orgânico saliente, botões avultados e pares na parte inferior e um óptimo som. O preto e branco contracenava com a voz sempre distante do locutor e com as avarias que, de vez em quando, interrompiam a emissão. Durante os anos sessenta - e final de cinquenta -, a placa que surgia nesses casos era sempre a mesma: "Pedimos desculpa por esta interrupção, o programa segue dentro de momentos". A música de fundo pontuava então com a imobilidade das letras e era raríssimo imaginar sequer uma voz off que desse conta fosse do que fosse ao auditório. O tempo televisivo era um tempo teleológico, meio mágico, onde a espera superava qualquer cálculo de impaciência. O mundo encenava-se, de um certo ponto de vista, como um nicho mais aprazível.
Wembley era, nesse tempo, e desde 1923, o mais emblemático dos estádios do globo. No dia que hoje evoco, Portugal entrava em campo lado a lado com a Inglaterra. Estávamos, como nesta quarta-feira dia 5 de Julho (dia em que o meu irmão faz anos - parabéns Zé!), nas meias-finais do Campeonato do mundo.
Lembro-me que a sensação (para mim que era ainda uma criança) tinha o seu quê de cristalino: Portugal não poderia vencer e isso era inevitável. Já face à Coreia, tudo aquilo tinha sido natural pois eles eram uns espectros que não eram bem deste mundo; quanto ao Brasil, tudo aquilo havia sido o corolário de uma geração de benfiquistas que já havia mostrado ao mundo o que valia; quanto ao futuro jogo contra a URSS (apuramento do terceiro e quarto lugares) a coisa também era certa, porque essa canalha - já se sabia - não podia de qualquer maneira subir ao podium. Agora a Inglaterra, não. Era bonito vermos Portugal a poder entrar naquele relvado, mas era excessivo imaginar a derrota do Império Britânico, para mais diante da rainha e de todo aquele séquito que era, afinal, o fiel herdeiro da nossa ideia de civilização (para nós, naquela casa, Portugal era realmente um país muito pouco civilizado).
Estou a tentar traduzir, com a máxima autenticidade, o que sentia e o modo como vi o desafio de há quarenta anos. Lembro-me como se fosse hoje. E, ao fim e ao cabo, aconteceu tudo precisamente de acordo com as minhas sempre silenciosas (mas partilhadas) expectativas. Perdemos - Portugal perdeu - com a cabeça levantada e as lágrimas de Eusébio mais não fizeram do que dar corpo à famosa perdição marítima do poema de Fernando Pessoa.
Hoje o país é outro e é outro o sofá, a televisão, o adversário e o mundo. A França, nesse tempo, era uma coisa meio poética, meio chique (chic), meio revoltosa (inquiétante) e sobretudo meio paradise de beauté. Se o jogo, nesse ano de 1966, fosse um França-Portugal jogado no Parque dos Príncipes, creio que não teria sentido nada do que senti ao ver o tal Inglaterra- Portugal de Wembley. A França era, na altura, mais terra de baladas, de Channel, de barbas poéticas, de vozes melancólicas e existenciais. Mas não tinha o legado da Inglaterra (fosse o que fosse que o "legado" quisesse dizer a uma criança de onze anos). A verdade é que eu já tinha começado a estudar Francês (no primeiro e no segundo anos do liceu), mas sentia que a grande tentação era realmente começar a estudar Inglês (o que só aconteceu uns meses após o mundial, i.e., no início do ano lectivo de 1966/67). O desprendimento face à França já era nesse tempo aquilo que é hoje. Ou seja, em bom futebolês, uma presa desejável e fácil - se possível - a abater. Esperemos que o wishful thinking (ou o mais puro e intuitivo wishful feeling) hoje se concretize. Nem seria despropositado, pois não?
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p.s. - Parabéns, Paulo Gorjão, pelo terceiro aniversáro do Bloguítica. Começámos - nesta vida - com onze dias de diferença!

terça-feira, 4 de julho de 2006

Na gaveta do "tom" dos blogues - 2

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Nem de propósito, mas a verdade é que quase na mesma altura em que os Otomanos entravam em Constantinopla se realizava um Concílio para discutir o sexo dos anjos. A conclusão foi leibniziana para essas criaturas celestes, muito antes ainda de se imaginar que Leibniz viria, ou poderia vir a existir: os anjos foram então vistos como perfeitos, etéreos, invisíveis, incorpóreos (sem concessões aos bens inferiores) e sobretudo capazes de comunicar por impulsão telepática. No fundo, formavam uma comunidade ou uma intersubjectividade já em rede, mas sem desacertos, sem falhas, sem possibilidades de desconexão e sem discursos inúteis. Para eles, o debate em torno da expressão dos blogues não passaria de uma bricolage terráquea. Mas que ninguém se iluda: eles ainda aí andam a arrastar a asa pela blogosfera. Muitos perderam o contacto com os deuses e tornaram-se, por isso mesmo, em fósseis ressentidos e carentes que apenas vêem no outro a sua própria inaptidão e frustração. E tudo o que dizem ou escrevem fica reduzido a essa margem estreita e miseravelmente estrita. Mas uma coisa é certa: não terão jamais a minha atenção.

segunda-feira, 3 de julho de 2006

Na gaveta do "tom" dos blogues - 1

"É raro encontrar um post desta natureza"
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No passado dia 11 de Junho, o Portugal dos Pequeninos cumpria três anos de vida. Os meus parabéns, embora razoavelmente atrasados.
Li o post que celebrava o facto, “Sem tecto, entre ruínas”, e percebi de imediato que aquilo não era apenas um testemunho. Pensá-lo seria transformar o blogue em algo de meramente instrumental, quando ele aparecia ali como uma imersão partilhada num espaço confessional bem mais sentido e profundo.
No texto, existe uma relação constante entre acontecimentos muito intensos que marcam três anos de vida e uma presença tutelar, claramente autorial. Mas não se pense, no entanto, que essa relação não é tão importante quanto os acontecimentos relatados ou a presença enunciada. Como João de S. Tomás (e mais tarde Locke) deixou claro, a consciência de que existe uma relação independente do agenciamento e dos processos que conduzem à significação é um dado óbvio e tácito. E no caso deste singular post de balanço (“todo um programa”, segunda Eduardo Pitta), a relação acaba por confundir-se com o blogue, quer na sua autonomia enquanto painel expressivo (e falante), quer na articulação que tece com a presença que se atreve “a falar exclusivamente na primeira pessoa” e com a “circularidade” dos factos. Esta consideração do blogue como parte de uma voz que ‘diz’ é muito interessante na perspectiva do “tom” (que tenho caracterizado – insisto - como a procura de uma nova correspondência entre os dispositivos comunicacionais tradicionais e a arquitectura emergente da rede).
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Esta ‘voz que diz’ reparte-se sempre, ao longo de todo o post, entre a evocação de factos, a omnipresença de um “eu” quase empírico e a tal relação que se confessa nos vários planos de que é afinal feito o blogue. Trata-se de uma voz que agrega estes vários segredares de um mesmo pathos e que, logo no início, se ocupa da experiência da morte do pai (do blogger). Esta vivência do sofrimento surge directamente associada com os primeiros dias do blogue: “Ajudou-me a relativizar tudo o resto e a perceber, por fim, para onde é que todos caminhamos”. O relato relevará depois a meteórica passagem do blogger (João Gonçalves) pela direcção do Teatro Nacional de São Carlos. A prematura saída do cargo assume no relato a força de uma avalanche que se projecta com violência nos hábitos de infância, acentuando o ambiente de disforia: “Por isso, na fase inicial destes 'pequeninos', dei tanta atenção à chamada "cultura.”
Numa segunda fase, os Pequeninos começaram a interessar-se mais pela chamada política "geral" da nação e, intermitentemente, pela "global”. A saga das presidenciais domina esse período mas não o esgota, na medida em que o blogger avisa no parágrafo seguinte: “Um propósito destes 'pequeninos' foi sempre o de Gore Vidal, "I am not my own subject"”. A individualização não é, pois, apenas uma questão de ‘topic’; é-o sobretudo de escolha e de objectivação. Contudo, a perspectiva do que aparece disposto para além desse “subject” é realisticamente aterradora e tem ‘o país de fátima Felgueiras’ como leitmotiv. Leia-se: “Se tivesse de escrever a "história" destes três anos, ela pouco mais 'falaria' do que de um imenso fracasso. Até os "pequeninos" se ressentiram disso. Silêncios comprometidos, cumplicidades e solidariedades inesperadas, amizades desconfiadas, outras desfeitas, incompreensões, eis o preço pago pelos 'pequeninos' pela sua liberdade intransigente”.
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Esta alusão directa a um dado “preço a pagar” atesta o facto de a mediação entre o ónus dos factos e a insistência da presença revisitada não ser pacífica. O “eu” empírico torna-se aqui personagem, no modo como se pressente em luta feérica com obstáculos que se agigantam: físicos, afectivos, expressivos, profissionais, emocionais, etc.. Mas esse espectro de trincheira é contraposto, algumas linhas a seguir, através da mobilização de um dos factos mais comuns da blogosfera, o lúdico: “Os 'pequeninos' existem porque me dão gozo e porque há por aí centenas de leitores anónimos que têm sido a minha mais fiel companhia silenciosa, sejam eles detractores ou 'apoiantes'.”
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O texto termina com uma auto-imagem proclamadora, mas sempre íntima e empaticamente associada ao blogue: “Como Vattimo, no entanto, sou um 'mezzo credenti' que, contra toda a esperança, confia no amor de Deus, na Sua 'caritas'. Não confio absolutamente em mais nada e em ninguém. O 'Portugal dos Pequeninos' entra, assim, no seu quarto ano de existência. Na belíssima expressão de Raul Brandão, sem tecto, entre ruínas”. É raro encontrar um post desta natureza onde o blogue não deixa, em nenhum momento, de ser parte do fôlego com que a pele expressiva respira e se dá a conhecer ao “outro”, mesmo quando nele não crê.
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O que há de novo para a questão do “tom” neste post é a adequação da linguagem a um processo (passado) onde o meio colocado à disposição do blogger é, ele mesmo, um fio que acaba por compor essa linguagem. A ideia de uma mediação fria e aparentemente ilimitada - a arquitectura telemática – torna-se aqui numa espécie de carne na carne telepática (para reutilizar a expressão de Sloterdijk). É assim que aflora o que se diz, o que se pronuncia e o que vai sendo revelado. O segredo desta correspondência assentará numa crença involuntária: a de que o blogue é, de facto, uma película quase vocal ou um instrumento suplementar que pertence ao corpo protético do blogger (aquele corpo cuja propriocepção se alarga aos limites das imagens de imagens que compõem a rede). A autenticidade da voz criada por João Gonçalves neste post dá corpo a esta ciberficcionalidade e vale por isso mesmo. Aqui não é preciso explicar o que é real e o que é virtual, na medida em que ambos os feixes deslizam na mesma camada de neve, ao sabor (às vezes melancólico) dos hiatos e factos que são o escorço da narrativa.
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P. S. - 1 - Obrigado à Rita Ferro Rodrigues por ter escrito na Única desta semana (p.104): "O melhor ponto de partida para iniciar uma abordagem do panorama da blogosfera é dar uma vista de olhos pelo miniscente...". Etc.
P. S. - 2 - Muito se gritou e festejou na tarde de sábado. Agora imagine-se que era com o meu Benfica! (de certeza que teria mais febre do que tenho - a sério - hoje).
P.S. - 3 - O que terão pensado de Ricardo os apólogos de Baía e todos os fanáticos torcedores da derrota de Portugal que bebem brandy Pinto da Costa?
P.S. - 4 - O desafio liberal é hoje saber responder à seguinte pergunta: o que fazer quando a Marselhesa ressuscita deste modo tão decidido (qual remodelação governamental, qual quê!)?

sábado, 1 de julho de 2006

Maquiavel sem máscara

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Com a sua psicanalítica fraqueza pelo Futebol, José Pacheco Pereira dá às vezes mostra de alguma suave inocência. Não entenderá o autor do Abrupto que o timing político de Sócrates visou precisamente o que se espelha hoje nas primeiras páginas dos matutinos? Diga-se, por isso mesmo e com todo o desportivismo, que foi uma aposta bem ganha. Chapeau.

Sabbath

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De novo entre as trepadeiras e sem qualquer compulsão. Simples palavra suspensa como se fosse água da fonte. E ainda há quem pense que não há silêncio no mundo dos blogues. A ignorância é como a água benta: dá-se a ver sem ser vista por quem a prova.
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Que ganhe o melhor!